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Narração de futebol e mulheres: a mudança em curso

Leonardo Turchi Pacheco

Em 13 de setembro de 2017, nesse mesmo espaço, apontei para a ausência da voz de mulheres na narração do futebol.[1] Nos meses seguintes um processo de transformação entrou em curso na narração dentro do campo do jornalismo esportivo.

Na terça-feira dia sete de novembro de 2017, ouviu-se pelo rádio, na frequência 880 AM, a primeira mulher em Minas Gerais a narrar o jogo e o gol do América contra o ABC pela segunda divisão do Campeonato Brasileiro.

A narração da mineira, de 21 anos, nascida em Itamarandiba foi assim:

“Agora tiro de canto para o América. Gerson Magrão vai cobrar o escanteio dentro da área do América. Quem sabe na bola parada, hein Coelho? Quem sabe na bola parada? Gerson Magrão passou, cobrou curtinho[…] Não mandou pra área; preferiu não mandar para área. América volta agora para o seu meio campo. Tem o Juninho abrindo na direita com o Norberto. Norberto cruza dentro da área do ABC. Sobe o Américaaaaaaaaa. Goooooolllllllll (15 segundos). É gol. É gol do Americaaa (vinheta da rádio ao fundo). Abre o marcador no Independência o América com um cabeceio do Geovane! Letal! Letal, Karina! (Refere-se à comentarista em campo). Para fazer um a zero pro Coelho. Abre o marcador para encostar no Internacional. Empata Inter! Tropeça Internacional que o América tá chegando… tá chegando… tá chegando para levar o título da série B e subir para série A, Karinaaaaaa!”

Devido ao ineditismo, a narração do gol repercutiu em grandes canais de comunicação. Isso rendeu entrevistas para a narradora mineira. Mas ela também foi submetida a elogios e algumas críticas nas redes sociais. Mas essa experiência, até então inédita, não parou por aí. Durante o final do ano, a narradora continuou trabalhando em jogos do América no restante da Série B e narrou partidas do Cruzeiro e Atlético na Série A.

Não se sabe se motivadas pela repercussão e ineditismo da ação, ou se pela constatação de que essa poderia ser uma novidade no mercado, ou se pelo reconhecimento da necessidade de inclusão de mulheres em um espaço de monopólio masculino, o que ocorreu foi que algumas emissoras anunciaram o interesse de contratar narradoras. Assim, alguns canais através de concursos – que se assemelhavam a reality-shows e foram marcados inicialmente por escorregadas machistas no processo de seleção, algo que se repetiu subsequentemente em uma das transmissões (afinal, em um deles pedia-se um portfólio das candidatas com fotos de corpo para a atividade de narração e no outro o comentarista ao final da primeira etapa indicou que a partida estava tão bela quanto a narradora) – transmitidos em suas respectivas grades de programação, selecionaram uma paulistana para narrar as semifinais da Champions League entre Real Madrid e Bayern de Munique e também uma mineira, uma baiana e uma carioca para narrarem os jogos do Brasil e uma série de partidas durante toda a Copa do Mundo da Rússia de 2018.

De fato, todas as selecionadas narraram as partidas do início ao fim. Não havia como negar que um processo de mudança estava em curso. Nem mesmo as manifestações indignadas (em sua maioria apontando para a permanência da desigualdade e indagando os motivos pelos quais as narrações se deram em canais secundários das emissoras de televisão enquanto os narradores ainda ocupavam a transmissão do canal principal e muito menos as críticas desabonadoras, fruto do estranhamento e de pre-noções dos espectadores e espectadoras, sobre o timbre da voz, a falta de ritmo, a intrusão em um espaço masculino, a estigmatização em forma de estereótipos e da pouca audiência dessas ocasiões) podiam esconder que uma transformação estava por vir.

No entanto, nos parece que após o ineditismo das ações, o impulso propulsor das mudanças arrefeceu. Parece que a expectativa de uma longa primavera foi subitamente retalhada por aquela sensação de “déjà-vu” de um longo inverno sem vozes femininas na narração esportiva. A Copa do Mundo e a Champions passaram para o espaço da memória, assim como a emissora Esporte Interativo que foi desativada levando com ela a esperança de um espaço inclusivo para mulheres na narração. As outras emissoras, ao que tudo indica, não foram e nem irão além dessas experiências inéditas. A sensação que fica é a de que depois de experiências pontuais o campo da narração voltou ao que era antes da experiência com a voz feminina. Portanto, é como se tudo tivesse voltado a normalidade: “plus ça change, plus c’ést la même chose”. O recado das emissoras e consequentemente do campo de trabalho das jornalistas é passível da seguinte leitura: “Veja como somos inclusivos e antenados com as demandas de simetria e igualdade de gênero. Abrimos espaços para mulheres narrarem em eventos importantes do universo do futebol. Viram? Ouviram? Agora basta! Voltamos à normalidade de antes e as coisas mudaram mas continuarão as mesmas.”

narradoras

Vanessa Riche, Isabelly Morais e Nadine Bastos durante a Copa do Mundo pela Fox Sports. Foto: Divulgação.

Mas será que ouviremos novamente as vozes de Isabelly, Renata, Eliane, Manuela e Viviane, mulheres pioneiras da narração brasileira no século XXI? Não houve tempo nem dos torcedores se familiarizarem com outros modos de percepção auditiva do futebol e parece que as vozes femininas foram novamente silenciadas. Não houve tempo nem dessas mulheres construírem seus próprios estilos de narração esportiva, e parece que as possibilidades de atuação profissional foram cerceadas.

Me pergunto se o pessimismo dessas linhas, no que se refere às mudanças em um campo eminentemente masculino, não se deve à minha expectativa pelos imediatismos; frutos da vivência contemporânea que não se contenta com processos demorados nas transformações da vida social. Mas, talvez, eu deva ser mais otimista. Pois nunca se sabe. E se essa inserção tímida, fragmentada e cheia de incertezas, marcada pela sensação de lentidão do processo de transformação na narração do futebol, não for de fato o início de uma grande revolução em curso nesse campo profissional?

Mas se no momento não ouvimos a voz dessas mulheres nas emissoras de televisão, isso não quer dizer que elas não estão narrando. Lembro que hoje é quarta-feira (o dia que escrevi esse texto). E quarta-feira é dia de jogo. Com a certeza de ouvir uma voz masculina sintonizo o rádio na 880 AM. Ao invés disso, para minha surpresa, escuto a voz da narradora mineira na partida entre Grêmio e Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro nesse 22 de agosto de 2018. Sim! Acredite! Ao que parece a mudança está em curso. Como diria Aretha Franklin em uma das mais sensíveis interpretações musicais jamais vistas: “I know, I know, a change is gonna come”.


[1] https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/mulheres-e-a-voz-no-futebol/