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“Natação para bebês” em pauta: questões para reflexão

Wagner Xavier de Camargo

Como parte de um programa de estágio, recentemente tenho atuado em aulas de “natação para bebês”. Grifo com aspas tal termo apenas para chamar a atenção e propor uma reflexão antropológica sobre tal atividade. Os encontros ocorrem em uma piscina coberta de cerca de 12 metros de comprimento, numa academia privada. Em geral, as aulas têm duração de 30 minutos e contam com dois ou mais professores/as para atuarem com os/as bebês. Minha intenção aqui não é iniciar uma análise sistemática sobre tal tema, que estaria alocada dentro das áreas de estudo da antropologia ou sociologia da infância, mas sim destacar a partir de meu olhar de um homem (educador, antropólogo e etnógrafo), elementos instigantes sobre a interação estabelecida entre adultos e crianças pequenas e o mundo que os rodeia.

Ao invés de chamar a atividade de “natação”, prefiro classificá-la como “atividade aquática”. Afinal, sabe-se que “natação” diz respeito a um conjunto de conhecimento sistematizado de informações que possibilitam (ou têm por função possibilitar) um corpo a nadar. O que os bebês fazem na piscina é estabelecer um elo entre seus pequenos corpos e o meio aquoso, interação que os potencializa (supostamente) para uma vida mais saudável, plena e ativa no futuro. O termo “natação”, contudo, é uma estratégia do mercado de academias para vender uma atividade também para esta faixa etária (particularmente dos 0 aos 2 anos).

Bebês podem iniciar uma atividade aquática, em geral, a partir dos 6 meses de idade. Isso, obviamente, dependendo de suas condições de saúde e do poder aquisitivo de seus pais ou responsáveis. Como toda atividade aquática em piscinas de academias privadas, tal serviço não é muito barato – o que, infere-se aí, a partir de meu ponto de vista, um recorte de classe social bastante pronunciado. Isso é constatável em meu estágio, quando observo durante as aulas a grande maioria de pais e mães de cor branca. Ainda neste país quem pode pagar por aulas aquáticas para seus filhos são pessoas brancas!

Em sua participação, por sua vez, o/a bebê não fica sozinho/a. E aqui se destaca uma característica muito interessante de ser notada: pais e mães participam da aula de modo ativo. Diria que suas presenças são fundamentais para o desenvolvimento de um programa de atividades proposto. Primeiro porque é com quem o/a bebê tem maior vínculo (portanto, há aí o aspecto da segurança física oferecida pela presença de um dos progenitores). E, segundo, porque é também com quem o/a bebê “pode contar”, digamos assim, em caso de ficar afobado com a água ou não saber exatamente o que fazer (portanto, neste caso há o destaque para a segurança emocional que pais/mães oferecem). Uma aula que flui deve acontecer em perfeita sintonia e interação entre pais e professores/as, a fim de que os/as bebês se sintam à vontade no sentido de apreender a experiência ali proposta.

 

Mãe e filho em aula de natação. Foto: Wikipedia.

Na maior parte da aula, essa comunicação é intermediada pelos pais, o que potencializa ainda mais seus papeis de “figuras privilegiadas” no contato interativo entre professores/as e bebês. Em realidade, a relação só pode ser estabelecida a partir da tríade “professores-bebês-pais” (“professoras-bebês-mães”), na qual o elemento pivotante é, justamente, a criança pequena.

No que diz respeito ao meio aquático, penso que esta vivência é fundamental para um futuro processo de ensino-aprendizagem relativo aos estilos de nados e mesmo para um bom relacionamento com a água (o não ter medo, por exemplo). Além disso, o aspecto da comunicação (verbal e não verbal) durante as aulas é bastante curioso: em geral, muitas músicas infantis são cantadas e tal comunicação com os/as bebês é feita por meio de mímicas, gestos faciais exagerados, toques no corpo e movimentos na água. As musiquinhas resgatam o imaginário infantil sobre animais associados à água (peixes, caranguejos, baleias) ou não necessariamente (cavalos, aranhas), e mesmo acerca de outros sujeitos (como indígenas, que são chamados de “índios”). Tal imaginário ainda vai além, criando figuras míticas que aparecem nos desenhos infantis, como príncipes, princesas, ou também sereias.

Numa das últimas aulas antes do recesso de fim de ano, presenciei uma situação que merece certa ponderação. Um menino na idade de 2 anos se recusou, categoricamente, a usar boias pequenas em seus braços porque elas eram cor-de-rosa e traziam as princesas da Disney estampadas. Por mais que eu e o pai insistíssemos, ele desatou a chorar e dizia que não queria tais princesas. Ora, nesse sentido, as questões de gênero, ao contrário do que talvez se possa imaginar para este universo infantil, estão presentes e é urgente que sejam repensadas.

Dessa forma, é fundamental problematizar concepções bem marcadas de gênero que pais e mães trazem para as aulas. A começar pelas vestimentas de bebês: maiôs rosas em meninas e sungas azuis em meninos, ou, ainda, óculos de natação também nestas cores designadas. Não exatamente todas as crianças usam acessórios nestas cores, mas isso chega a ser bastante recorrente. Então seria considerável indagar se realmente importa essa marcação de gênero para crianças tão pequenas? Se imaginarmos que sim, então temos um problema aí instaurado, qual seja, o de fixar o gênero em masculino e feminino, únicas possibilidades de identificação de um corpo (mesmo em tenra idade). O “binarismo de gênero”, assim, é o legado desse tipo de postura e sob o qual os pequenos corpos de bebês de hoje deverão, obrigatoriamente, se submeter no futuro.

A marcação de gênero para crianças ocorre desde tenra idade: azul para meninos e rosa para meninas. Foto: Wikipedia.

Com isso, tem-se que identidades de gênero seriam imutáveis a partir desta idade e para resto da vida, o que estabelece prerrogativas sobre o desejo e as práticas sexuais (e de gênero) desses indivíduos em formação. Ora, não preciso salientar o quanto isso afetaria a vida social (e mesmo esportiva) destas pessoas.

Para finalizar, resgato minha participação num seminário nacional, intitulado “Homens na Educação Infantil: debates e proposições científicas em defesa das crianças pequenas”, ocorrido na Universidade de São Paulo, neste mês de dezembro. De todos os pronunciamentos, uma preocupação ficou registrada como principal: pesquisadoras/es e ativistas se engajam num movimento em defesa da presença de homens na educação infantil, haja visto as manobras conservadoras da Câmara dos Deputados via o PL1174/2019, um projeto de lei que “confere exclusividade a profissionais do sexo feminino nos cuidados íntimos com crianças pequenas”. Penso que, de imediato, tal projeto já se coloca como discriminatório porque a) pressupõe que todo homem é potencial violador e b) idealiza e circunscreve apenas às mulheres a função da educação infantil.

Portanto, no momento atual na sociedade brasileira em que vivemos tempos difíceis de formação de mentalidades retrógradas e ultraconservadoras, reveste-se de fundamental importância a postura crítica em relação ao cotidiano e às atividades (supostamente) mais simples. Minha atividade de estágio no meio aquático para bebês diz muito de uma micropolítica localizada no indivíduo, capaz de transformar o entorno. O projeto é político e os resultados conheceremos daqui alguns anos.