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Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: (im)pressões sobre o CrossFit

Fidel Machado

Após alguns meses de prática, aquisição de acessórios, uma mão aberta, incorporação de termos e siglas no vocabulário, aprimoramento de técnicas, participação indireta em competições, participação, duplamente, direta em uma competição e muita relutância, resolvi me debruçar um pouco mais sobre esse universo multifacetado do CrossFit e arriscar algumas linhas. Não seria leviano nem tampouco prepotente ao ponto de incorrer em uma narrativa com pretensão universalista. Sou apenas um curioso praticante e entusiasta dessa seara polissêmica. Falo a partir das experiências que tive em ambientes competitivos, em treinos, em momentos pós-treino, em conversas com açaí e em debates cálidos sobre a modalidade e afins.

Por muito tempo a prática foi conhecida e, de certa forma, no senso comum permanece como um momento de se levantar e arrastar pneus. Algumas outras características, insistentemente, ainda são relacionadas à prática e saltam aos olhos, como a alta intensidade, o volume, as lesões, a prevalência de exercícios multiarticulares e, principalmente, a correlação que nem sempre é tão direta e exata que afirma: CrossFit = saúde. Seria possível falarmos que essa equação é diretamente proporcional? Não! A prática pode combater alguns fatores de risco, alterar hábitos e promover alguns indícios que se enquadram na definição vigente do termo saúde? Sim. Faz isso sempre? Não. Fora essas dimensões, saúde não se resume à adequação aos índices nem tampouco à prática de exercícios físicos. A problemática é bem mais ampla e há vários pesquisadores e pesquisadoras muito competentes que questionam essas associações apressadas.

Inspirado pelo olhar antropológico e pelo exercício etnográfico, buscarei pensar, a partir das minhas experiências, a prática sobre outro ângulo e assim versar um pouco sobre alguns dos seus significados e possíveis efeitos. Ainda no que tange ao teor antropológico, paradoxalmente, a partir das experimentações, tentarei de perto e de dentro, mas ao mesmo tempo de longe e de fora abordar essa metodologia de treino que pode ser uma prática esportiva, uma marca, um status, uma grife, uma modalidade esportiva, uma seita, a fonte de todo mal, a salvação para os problemas existenciais, uma fonte de renda para fisioterapeutas e ortopedistas, uma forma rápida de treinar, uma brincadeira divertida para socializar, conhecer pessoas e se desafiar ou, concomitantemente, ser tudo isso e nada disso.

CrossFit. Foto: Adam Cohn/Flickr.

O interior desse universo é amplo e possui uma diversidade singular nas múltiplas possibilidades de se movimentar. Ademais, há um flerte direto com questões caras ao nosso estilo de vida, como o tempo, a velocidade e outras características que coadunam com comportamentos bem presentes na contemporaneidade, a saber: o investimento em si e o desafio constante e diário. Fora esses fatores, temos a variedade de estímulos, a intensidade em diálogo constante com o volume, a complexidade de erguer uma barra sobre a cabeça, a dificuldade de saltar obstáculos, o desejo de subir cordas ou realizar os demais exercícios. Os movimentos são, em parte, importados das mais variadas modalidades esportivas ou padrões básicos (que para alguns não são tão básicos assim) da nossa movimentação. As alterações na compleição corporal são, relativamente, rápidas, os implementos, o espírito de pertencimento, a moda, a venda sedutora da superação diária, o quadro que anuncia os tempos dos demais alunos e a competitividade hiperbolizada regada a conversas, risadas e saídas são elementos candentes no interior de alguns boxes.

O CrossFit, enquanto uma prática rotineira, sistematizada, orientada de exercício físico é, assim como as demais modalidades esportivas, completamente distinta do alto rendimento. São coisas que se distinguem por fatores elementares, como a busca da elevação do rendimento após alguns limites. A hibridização desses dois elementos pode ser prejudicial e lesiva para aqueles que se veem como aspirantes platônicos a atletas. Existe um lado danoso da competição, muitas vezes, induzida e estimulada tácita ou explicitamente, mas também há a dimensão da parceria, de forçar e desafiar a si e ao outro. Há uma precipitada igualdade que afirma que o ser humano que compete e treina já é, inequivocamente, um atleta. Penso que um termo menos distante seria competidor. Ser atleta demanda alguns outros capitais. Essa equação direta e objetiva pode propiciar distorções simbólicas e frustrantes, mas, também, pelos mesmos fatores, pode ser profícua para mobilizar sujeitos desestimulados.

Ainda no que tange ao ímpeto de ser atleta, a dinâmica da intensidade e do volume acentuado em boa parte dos treinos e o cansaço físico como um parceiro constante ao final do WOD (Work Out of the Day ou treino do dia), faz com que boa parte dos praticantes, por questões que Freud nos ajudaria a entender, se sintam atletas. Outro fator predisponente que corrobora a essa sensação e busca são as competições que passaram a ser programação recorrente em finais de semana, muitas vezes, consecutivos. Por esse motivo, muitos passam a ingerir e utilizar produtos e substâncias desnecessárias. Outro procedimento corriqueiro é a tal da reposição hormonal. Alguns especialistas afirmam que esse termo é uma nova roupagem para o que outrora chamávamos do uso de esteroides anabolizantes.

CrossFit. Foto: David Leszcynski/Unsplash.

No bojo dessa seara, uma série de fatores endossam a crescente exponencial dos boxes e dos praticantes. A possibilidade de ser atleta e de ganhar medalha, como já mencionei; os likes, o status, a variabilidade dos treinos, a multiplicidade de combinações de movimentos e a alternância dos estímulos são basilares para tamanha capilaridade. Além disso, a possibilidade de se auto declarar crossfitter passou a ser um elemento de distinção. Percebo claramente nichos muito bem divididos. Há os que treinam em academias de musculação ou outra atividade e há os que fazem CrossFit. Como desdobramento dessa diferença, percebo nos crossfiteiros uma liberdade de alguns corpos com relação à sua própria aceitação. As camisas passaram a ser atributos supérfluos dentro dos boxes para homens e as mulheres permanecem de top. É esperado, por sua vez, que esse mesmo fator possa ser motivo de distanciamento de outros tantos corpos. Outro comportamento recorrente é uma insubordinação no traquejo com os pesos e o silêncio. As barras podem ser soltas e não há aquela vigilância como nas academias. Gritos de esforço e incentivo são recorrentes e incorporam a trilha sonoro desses espaços. Ainda no que tange aos comportamentos e compartilhamento de experiências, noto uma situação semelhante ao final do WOD. É recorrente, logo após o término, a presença de corpos estirados no chão do box. Algumas pessoas verbalizam uma sensação incapacitante de realizar movimentações básicas, como andar ou erguer o braço. Todavia, tal elemento não é motivo de desistência ou abandono. Contraditoriamente, essa circunstância foi ressignificada e passa a ser um estímulo de superação, um sinal de dever cumprido, de persistência e, às vezes, propicia um vigor e um misto de: “nunca mais quero fazer isso” com um “qual é o WOD de amanhã?”. Outra sacada genial da CrossFit foi ter percebido que o ser humano é movido por uma vontade insaciável. Na medida que realizamos algo, outros dez desejos aparecem. Dada a pluralidade de movimentos e as infindáveis combinações de exercícios haverá sempre algo a melhorar, um P.R. (pernonal record) a ser superado, uma vontade a ser, momentaneamente, saciada. Com essa dinâmica o tédio passa a ser, inteligentemente, combatido. O atual tetra campeão do Games Mat Fraser proferiu: “treino tudo para não ser o melhor em nada”. Mesclar todas essas sensações, valência, estímulos, capacidades e vontades é algo bastante complexo. Fatalmente toda essa conjuntura corre o risco de ser romantizada e já foi atravessada por uma lógica mercadológica massiva e muito rentável.

O termo seita é constantemente utilizado de forma pejorativa quando algum ser humano verbaliza ser um praticante da modalidade. Frases, como “CrossFit é uma seita”; “entrou para a religião do CrossFit”; “já disse amém para o seu coach hoje?” entre muitas outras são proferidas a esmo. Por um lado, todas elas, de fato, podem ser utilizadas com um cunho depreciador, pois a endogenia passa a ser um dos desdobramentos. As relações passam a ser estabelecidas a partir da rede crossfiteira. Não é absoluto, mas é um comportamento recorrente. Como consequência disso, termos como P.R., Clean, single ou double under, snatch passam a obter lugar de prestígio, destaque e incidência nos diálogos. Essa rede crossfiteira pode alterar outros hábitos, como sono, alimentação, ingestão de bebidas alcoólicas ou outras drogas que, convencionalmente, denominamos de drogas recreativas. Percebo também uma variedade de corpos, de idades que é difícil se ver em outros âmbitos. Como resultado desses elementos supracitados, há um sentimento de pertencimento muito interessante que produz benefícios diversos, como amizades, socialização, sensação de bem estar, vontade de se movimentar entre outros. Ressalto que outras atividades também podem gerar esses mesmos ganhos, mas para os fins aqui pretendidos, circunscrevo-me ao CrossFit.

CrossFit. Foto: Meghan Holmes/Unsplash.

Penso que o termo seita não é de todo ruim e nem possui, estritamente, um caráter pejorativo. A criação dessas comunidades crossfiteiras gera um sentimento de pertencimento comunitário singular e ausente em uma sociedade que prega a individualidade. O fortalecimento e o sentimento de pertença é tão grande que os convites para amigos próximos conhecerem ou fazerem uma aula experimental são recorrentes. Algumas pessoas, inclusive, são interpeladas e questionadas por outros amigos por só falarem sobre isso. Ademais, há uma exacerbação na necessidade de se apresentar enquanto tal e com isso a roupa de treino vira look básico para diversas ocasiões. A identidade crossfitter fica cada vez mais hipertrofiada.

Contudo, há outras questões controversas, como carga em cima de possíveis disfunções ou desequilíbrios de força, o paradoxo fisiológico de manter a qualidade do movimento (técnica) na fadiga. Problemáticas que necessitam ser estudadas, pensadas e adaptadas para a população em geral que, em sua grande maioria, possui alterações e limitações no que tange à mobilidade articular e estabilidade muscular. Corremos o risco de sermos, se já não formos, grandes consumidores passivos de modalidades esportivas no geral ou de metodologias de treino. Essa compra pode gerar consequências e uma alta fatura.

Não podemos negar que há uma individualização das provas, dos treinos e há também um flerte com questões neoliberais que podem ser destacados e problematizados. Fora isso há uma certa manutenção da subserviência e do “vira latismo” aos ditames estadunidenses que merecem atenção. Percebi nessas andanças uma certa ausência de precisão e rigor com relação à qualidade dos movimentos em alguns ambientes competitivos. Há um desrespeito e uma desconsideração em boxes e nas competições com a pirâmide cunhada por um dos idealizadores do CrossFit que preconiza na base a nutrição, seguida de condicionamento físico, controle corporal ou exercícios ginásticos, levantamento de peso olímpico e, por último, o esporte. O despreparo de alguns profissionais e a tara por altas cargas são fatores predisponentes para as lesões. A pressa em conseguir realizar os movimentos e a sede por vitórias põe a pirâmide de ponta cabeça e a sustentação fica seriamente comprometida o que impulsiona a utilização de esteroides e um apelo excessivo à imagem corporal. Tais fatores precisam ser considerados e, sobretudo, questionados.

CrossFit. Foto: Victor Freitas/Unsplash.

Participei, recentemente, de discussões que acusam a modalidade de estar sofrendo uma deturpação em que passa a ser confundida com o levantamento de peso e os PR’s passaram a possuir mais relevo que o condicionamento físico. Outros defendem que o levantamento de peso é a base do treinamento. Enfim, discussões e confrontos que mostram uma dissidência no interior da própria modalidade. É comum observarmos grupos que se confrontam para defender uma certa pureza e essência do CrossFit. Seria a ampliação da capacidade de realizar trabalho por todas as vias energéticas e na grande maioria dos padrões de movimento a Verdade? A própria competição mais simbólica de CrossFit, chamada CrossFit Games que está na sua décima terceira edição e ocorreu entre os dias 1 e 4 de agosto no Alliant Energy Center, em Madison, Wisconsin, Estados Unidos, busca premiar um atleta que receberá a alcunha de pessoa com o melhor condicionamento do mundo. Seria isso possível? Endosso que nesse evento há isonomia na premiação para homens e mulheres, houve uma prova paralela com pessoas com deficiência e contou com a presença de quatro brasucas incluindo uma cearense, a atleta Renata Pimentel. Enfim, há uma seara vasta de discussão e investigação no interior dessa prática que transcende os aspectos bioquímicos, fisiológicos e do treinamento. O interessante é perceber as tensões e os conflitos, as discordâncias e as lutas.

Todo esse imbróglio não é ruim nem tampouco bom. A proposta que quero aqui abordar busca o que Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, nomeia de para além de bem e mal. A possibilidade do CrossFit ser tudo isso gera confusões e dificuldade de entendimento que beiram a cegueira ideológica. A partir de determinados critérios e premissas é possível chegar a todas essas conclusões. As interpretações variadas são amplamente disseminadas e defendidas por grupos distintos e transitam em meios que culminam, muitas vezes, em polos. O polo do mal e o polo do bem. A proposta é tentarmos compreender os efeitos dessas ações e perspectivar alguns fatores que levaram o CrossFit a virar esse fenômeno com milhares de praticantes ao redor do mundo que movimenta cifras com casas decimais que até a matemática se enrola. O intuito é buscar fugir das visões polarizadas e binárias que atravessadas por ideias cristãos insistem em classificar a vida em bem e mal. A crossfitaria é apenas mais uma prática que não é certa ou errada, melhor ou pior do que as outras, mas produz efeitos e dialoga com características diversas da nossa sociedade.

Após essas (im)pressões sobre a crossfitaria, penso que a prática dessa atividade e principalmente os seus usos e consequentes efeitos não devam ir nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A busca por um justo meio e uma reflexão constante sobre as explicações totalizantes podem colaborar para evitarmos a demonização ou a beatificação. Ademais, o convite é desconfiarmos de todas essas máximas que se apresentam como narrativas messiânicas.