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Neto. Sim, foi craque

Alexandre Fernandez Vaz

“Deve ser incrível ouvir quarenta mil pessoas gritando o seu nome”, me disse um amigo, há quase trinta anos, quando o Corinthians marchava para ser campeão brasileiro pela primeira vez. Ele se referia a Neto, o camisa 10 e capitão do time, que havia poucos dias marcara os dois gols na vitória do Corinthians, de virada, contra o Atlético Mineiro, pelas quartas de final do principal torneio do país.

Neto chegara ao Corinthians no ano anterior, em uma troca com o Palmeiras, cujo técnico, Emerson Leão, não lhe tinha grande estima. Antes atuara no Guarani, no Bangu e no São Paulo. Revelado em Campinas, em 1986 foi para o Rio de Janeiro a fim de compor o projeto de Castor de Andrade de formar um grande time em Moça Bonita. Os jogadores eram ótimos, entre eles Mauro Galvão, mas o clube do subúrbio, que fora vice-campeão brasileiro no ano anterior, não decolou.

Pela equipe do Morumbi, para onde se transferiu no mesmo ano em que jogou pelos cariocas, Neto destacou-se no Paulistão de 1987, marcando um dos dois gols do primeiro jogo da final contra o Corinthians. No segundo, empate sem abertura de placar, ele saiu do banco com a camisa 15 (10 no São Paulo era Pita) já nos minutos finais da peleja. Lembro-me do comentarista Juarez Soares destacando que o treinador Cilinho chamara Neto para que se sagrasse campeão paulista em campo. Com fama de indisciplinado, o jogador compartilhava o apartamento de concentração com o exemplar Silas, dizia o conservador Estadão em seu caderno de esportes.

Neto marcou outro tento decisivo contra o Corinthians em finais, novamente atuando pelo Guarani, no primeiro jogo da decisão do Paulista de 1988. Gol não, golaço (!), um petardo de bicicleta que venceu o goleiro Ronaldo, ídolo alvinegro, como ele depois se tornaria. O Bugre era melhor, mas o Corinthians tinha o estreante Viola, em temporada de estreia mágica, para o gol do título. Logo depois, o meia-atacante foi exatamente para a equipe da Zona Leste, que tanto ele fizera sofrer. Valeu a pena, Neto foi o grande destaque do time muito bem montado por Nelsinho Batista e que venceu nada menos que o São Paulo de Telê Santana nas duas partidas finais do Brasileiro em 1990. A comoção com o título foi tão grande que no início do ano seguinte, quando a negociação entre o clube e Nelsinho Batista para renovação de contrato estava emperrada, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, pediu publicamente que o treinador do time do povo permanecesse. O grande defensor dos direitos humanos, o erudito e corajoso líder religioso que enfrentou a ditadura, nunca escondeu para qual time torcia.

Neto não teve uma história importante na seleção brasileira, seu melhor momento foi com Falcão, que começava como treinador substituindo Sebastião Lazzaroni, depois da Copa de 1990. O corintiano poderia ter composto o plantel que viajou para a Itália, como defendia João Saldanha, servindo como alternativa interessante por sua visão de jogo e capacidade de finalização. O time brasileiro, coalhado de volantes, não tinha quem armasse os ataques e aproveitasse o potencial dos ótimos jogadores de frente. De qualquer forma, Neto chegou à medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, e ao vice-campeonato da Copa América, de 1991.

Neto merecia mais na seleção? Sim, não tenho dúvidas, mas seu comportamento errático no campo e fora dele não ajudou muito. Fumou durante toda sua carreira profissional, sempre teve problemas com o peso (uma vez contou que dava gorjetas a seguranças para que lhe comprassem x-saladas), disparou uma cusparada no rosto do árbitro José Aparecido de Oliveira, entre tantas bobagens. Depois de encerrar a carreira de jogador de futebol, abandonou o cigarro, enfrentou o segundo problema com uma cirurgia bariátrica, o terceiro com um sincero pedido de desculpas. Finda a trajetória no interior das quatro linhas, Neto foi se tornando comentarista de futebol, como todos sabemos. Melhorou o vocabulário e passou a falar com mais clareza, o que lhe permitiu dar vazão à inteligência e à perspicácia que sempre teve. Hoje é apresentador de televisão, onde criou um personagem algo provocador. Atuou, há algum tempo, em shows de stand up contando casos do futebol.

Neto merecia mais na seleção? Sim, não tenho dúvidas, mas seu comportamento errático no campo e fora dele não ajudou muito. Fumou durante toda sua carreira profissional, sempre teve problemas com o peso (uma vez contou que dava gorjetas a seguranças para que lhe comprassem x-saladas), disparou uma cusparada no rosto do árbitro José Aparecido de Oliveira, entre tantas bobagens. Depois de encerrar a carreira de jogador de futebol, abandonou o cigarro, enfrentou o segundo problema com uma cirurgia bariátrica, o terceiro com um sincero pedido de desculpas. Finda a trajetória no interior das quatro linhas, Neto foi se tornando comentarista de futebol, como todos sabemos. Melhorou o vocabulário e passou a falar com mais clareza, o que lhe permitiu dar vazão à inteligência e à perspicácia que sempre teve. Hoje é apresentador de televisão, onde criou um personagem algo provocador. Atuou, há algum tempo, em shows de stand up contando casos do futebol.

Neto fez muito. Marcou de falta de muito longe, quando o goleiro Gilmar preferiu não armar a barreira, em partida do Corinthians contra o Flamengo; foi genial no Brasileiro de 1990, conquista que colocou o Corinthians na trilha dos muitos títulos nas três décadas seguintes; reinventou-se de maneira muito exitosa como showman. Mas de tudo que vi o craque realizar, o que mais me tocou foi um depoimento em um documentário sobre o Timão. Ele sempre reverenciou grandes jogadores do passado. Costuma destacar Zico, Aílton Lira, Dicá, entre outros, como modelos importantes para que se tornasse o exímio cobrador de faltas que chegou a ser. Mas houve algo maior nessa reverência. No documentário 23 Anos em 7 Segundos – O fim do jejum corinthiano (Di Moretti, 2009), Neto narra um encontro com um senhor no Parque São Jorge. O velho lhe elogia muito, declara-se fã, diz que ele bate na bola muito bem, mas também que não se cuida, facilmente engorda. Neto concorda com ele, fala das próprias dificuldades e lhe responde: “mas bom era o senhor, que fez muito pelo Corinthians, um Gigante”. Era Luizinho, o Pequeno Polegar, grande ídolo do clube nas décadas de cinquenta e sessenta. Tudo o que ele não esperava era ser reconhecido pelo principal jogador daquele momento, alguém que nunca o vira atuar. Grande Neto.

Sul da Ilha de Santa Catarina, maio de 2020