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Neymar é fruto da Sociedade do Espetáculo

Sergio Quintanilha

Neymar é isso. Neymar é aquilo. Como tudo desde 2013, o Brasil agora está dividido sobre a atuação de Neymar na Copa do Mundo. Herói ou canalha, sem meio-termo. Talvez Neymar seja apenas um produto acabado e refinado daquilo que o francês Guy Debord definiu como “sociedade do espetáculo” em seu livro de 1968. Para Debord, a “sociedade do espetáculo” é uma sociedade mediada por imagens, onde a lógica do intercâmbio mercantil atingiu toda a vida cotidiana.

Embora a crítica de Debord se referisse às forças econômicas que dominaram a Europa no período de vinte e poucos anos após a Segunda Guerra Mundial, numa crítica tanto ao mercado capitalista da Europa Ocidental quanto ao Estado socialista da Europa Oriental, ela pode ser aplicada em muitas ocasiões da vida pós-moderna. Especialmente neste século, quando as redes sociais digitais ganharam importância na rotina das pessoas e até derrubaram governos na chamada Primavera Árabe. Nossas ações no Facebook, no Twitter, no Instagram e no YouTube são reflexos de nossa transformação em produto a ser consumido (pelos amigos, pelos parentes, pelos chefes e até pelos inimigos). Neymar, entretanto, rompe todos os limites.

Naturalmente midiático, por ser um craque diferenciado no futebol, a ele não basta aparecer nas manchetes mundiais com seu arsenal de dribles e gols. Ele precisa dar espetáculo também com seus inúmeros cortes de cabelo. Precisa ser reconhecido como um jogador injustiçado, que leva mais botinadas do que os demais. Inconscientemente, Neymar procura as faltas. Grita e se joga a cada tranco do adversário. Simula pênaltis inexistentes como se quisesse controlar a cena de seu próprio espetáculo. Seu comportamento em campo é diferente de quando, ainda menino franzino, aprendeu a lutar judô, para aprender a cair sem se machucar cada vez que levava um tranco dos pernas-de-pau.

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Neymar no chão após sofrer falta. Foto: André Mourão/Mowa Press.

Para Debord, o espetáculo é a imagem invertida da sociedade em que as relações entre mercadorias superaram as relações entre as pessoas. E o que são os craques da Copa do Mundo que valem e rendem milhões de dinheiros para seus clubes e empresários? Mercadorias. Se o jogador de futebol virou uma commodity, uma mercadoria, Neymar não se contenta em ser diferenciado “só” pelo talento, como Messi, Pelé e Iniesta.  Assim, Neymar não interage com seus adversários. Quer humilhá-los, para melhorar seu valor como mercadoria.

“O espetáculo não é uma coleção de imagens, mas sim uma relação social entre as pessoas, mediada por imagens”, afirma Debord. Para Neymar Júnior e seu staff (Neymar Pai e os “parças”), a imagem é fundamental. É um olho na bola e outro na mídia. A ponto de Neymar Pai costurar um acordo de não agressão com Galvão Bueno – construtor e/ou destruidor de imagens, devido ao seu poder como principal narrador global –, o que nos faz ver que, pelo menos nesse caso, o Jornalismo Esportivo está sendo claramente substituído pelo “Espetáculo Esportivo”. Não cairia mal o nome “Esporte Espetacular” aqui. Finalmente, Debord observa que na “sociedade do espetáculo” a qualidade de vida é empobrecida, que a vida social autêntica é substituída por sua representação. Então, é o caso de se perguntar: o que Neymar de fato representa com seu estilo de jogar futebol?