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Neymar no Paris Saint Germain: os caminhos e resultados da maior transferência da história

Marco Antunes de Lima

222 milhões de Euros. Por apenas uma pessoa. Esse foi o valor pago pelo Paris Saint Germain ao Barcelona pelo passe de Neymar Júnior, o mais badalado jogador brasileiro da década. Até aí, não há nada de novo nesta informação. É o assunto mais falado das últimas duas semanas, principalmente na mídia esportiva brasileira, se não mundial.

Na segunda metade do último mês de julho e os primeiros dias de agosto deste 2017 não se falou em outra coisa a não ser na suposta transferência do craque brasileiro ao PSG, deixando o poderosíssimo FC Barcelona.

Nesse texto pretendemos expor algumas hipóteses de como todo esse imbróglio começou, como saíram as partes envolvidas, e como poderia ser o futuro das três partes: Neymar Júnior, Barcelona e Paris Saint Germain.

Neymar estreia com gol pelo Paris Saint-Germain neste domingo, contra o Guingamp. Foto C.Gavelle/PSG

Neymar já em ação pelo Paris Saint-Germain. Foto C.Gavelle/PSG.

Como se chegou a maior contratação da história do futebol?

Em 2005, o governo do Catar, com o intuito de administrar os lucros obtidos com o petróleo e o gás produzido nesse pequeno Estado do Oriente Médio, criou uma holding chamada Qatar Investment Authorithy, que passaria a investir esse lucro de várias maneiras local e internacionalmente. E assim passou a ser feito com variados investimentos em grandes indústrias multinacionais, grandes bancos, em conglomerados de mídia e também no esporte. Para os investimentos na área esportiva, no mesmo ano de 2005 foi criado a Qatar Sports Investment, que logo passou a investir no esporte.

Em 2011, a QSI, comprou cerca de 70% do Paris Saint Germain, principal clube da capital francesa, que, entretanto encontrava-se com dívidas e que só havia vencido em duas ocasiões o campeonato local. Um valor de cerca de 50 milhões de Euros, mais a cobertura das dívidas foi pago pela QSI em 2011; e em 2012, a empresa catari comprou os restantes 30% do clube por mais 30 milhões de Euros. A QSI passava a ser dona de 100% do Paris Saint Germain e seu presidente passava a ser o catarino Nasser Al-Khelaifi, também CEO da QSI, e futuro presidente da beIN Media Group, empresa televisiva de mídia esportiva que opera em vários países da Europa, Ásia e América do Norte.

Mas voltemos poucos anos antes da compra do PSG pela QSI. Retornemos a 2010, quando, por intermédio da QSI, braço esportivo da Qatar Investment Authorithy, o Futbol Club Barcelona, equipe até então que se orgulhava de nunca ter recebido dinheiro para patrocínio em sua camisa, acerta um contrato de aproximadamente 150 milhões de euros com, primeiramente a Qatar Foundation (fundação ligada ao Estado do Catar) por dois anos a partir da temporada 2011-2012 e posteriormente a empresa aérea Qatar Airways (Empresa Estatal de Aviação do Catar).  E quem intermediou essas negociações de patrocínio, como CEO da QSI, foi nada menos do que Nasser Al-Khelaifi, braço direito dos governantes do Catar e que posteriormente se tornaria presidente do PSG.

Em 25 de maio de 2013, o Futbol Club Barcelona, um dos mais ricos e poderosos clubes do planeta anunciou a contratação de Neymar Júnior junto ao Santos Futebol Clube por cerca de 57 milhões de Euros, e que, após investigações de fraudes descobriu-se que o valor chegou a quase 90 milhões de euros. A contratação gera polêmica até hoje, pois o Barcelona assinou um pré contrato com Neymar Júnior, através de seu pai, de cerca de 10 milhões de Euros ainda em 2011, logo antes do próprio Neymar enfrentar, com o seu Santos, o Barcelona pela final do Mundial de Clubes da FIFA. Tal pré contrato feriria as regras da FIFA para transferências de jogadores, haja vista que ele só pode ser feito a partir de 6 meses antes do término do contrato do clube que o jogador se encontra. Mas, deixando de lado todo o imbróglio provocado por esta transferência podemos supor que ela não teria acontecido se o Barcelona não tivesse um forte patrocínio como o que tinha assinado com o governo do Catar. Ou seja, de certa forma o dinheiro advindo do Catar ajudou o Barcelona na compra do próprio Neymar Júnior.

Os quatro anos em que Neymar Júnior esteve no Barcelona foram ótimos tanto para o clube, quanto para o jogador. Títulos de Liga dos Campeões, Mundial de Clubes e da Liga Espanhola aconteceram e podemos dizer que ambas as partes ganharam em muito uma com a outra.

Entretanto, em 18 de julho de 2017, o repórter Marcelo Bechler, do canal de televisão Esporte Interativo anunciou como certa a transferência de Neymar Júnior do Barcelona ao Paris Saint Germain. O próprio repórter, posteriormente, escreveu para o site Puntero Izquierdo que possuía pelo menos quatro fontes que garantiam como certa a transferência[i]. A partir desse momento as atenções do mundo da bola se voltaram para a conexão Catalunha-Paris e após grandes especulações, acusações e histórias de lado a lado finalmente, em 3 de agosto, a transação foi concluída e Neymar Júnior já era jogador do Paris Saint Germain. Os valores do acordo do brasileiro com o PSG são realmente estratosféricos: o salário no PSG será na base de 40 milhões de Euros por ano; e o contrato de garoto propaganda do Mundial de 2022, no Catar, que Neymar fechou junto com a transferência será de aproximadamente 60 milhões de Euros por ano.

Como podemos supor, como tudo no mundo dos negócios, as coisas não aconteceram de uma ora para outra. Em 18 de julho, sem dúvida, já estava acertado um acordo entre o clube francês, Neymar e seu staff. Mas quando podemos supor que isso tudo teria começado?

Dinheiro não era um problema para a QSI, haja vista que o governo do Catar anda gastando bilhões de Euros para a realização da Copa do Mundo de 2022. Então cerca de 220 milhões não seria nada. Acredito que o interesse do time francês em Neymar tenha surgido depois de 8 de março de 2017, quando, em uma partida histórica o Barcelona venceu o próprio Paris Saint Germain por 6 a 1 e que a grande figura da partida foi Neymar Júnior, que além de marcar duas vezes, deu o decisivo passe para o sexto gol que classificou o Barcelona. A partir de então, o Paris Saint Germain, que sempre foi envolvido em boatos na compra de Lionel Messi, provavelmente voltou seus olhos para Neymar, que podia ser trazido por um valor que os investidores do clube francês podiam pagar. Outro ponto que podemos salientar, que a QSI, dona do Paris Saint Germain estava por terminar seu vínculo como patrocinador principal do Barcelona – que já havia fechado com a empresa japonesa Rakuten por um patrocínio de 55 milhões de Euros por ano. Não havia mais nenhum empecilho “moral” entre a QSI e o Barcelona. Outro ponto importante é que os donos do Paris Saint Germain (leia-se investidores do Catar) e Neymar Júnior sempre estiveram andando nos mesmos círculos em Barcelona, haja vista que os catari eram o principal patrocinador do FC Barcelona e com certeza, como executivos tinham acesso aos jogadores e seus staffs.

Tudo indica que as primeiras conversas e ofertas do Paris Saint Germain e dos investidores do Catar a Neymar teriam começado em junho deste ano, após o término da temporada europeia e durante as férias do jogador. Os jogadores do Barcelona, como Piqué, depois que Neymar já havia deixado o clube, informaram que o brasileiro já lhes haviam informado da possibilidade de saída em 30 de junho, durante o casamento do argentino Lionel Messi, em Rosário. O brasileiro Daniel Alves, após assinar contrato com o próprio Paris Saint Germain, no início de julho, teria dito que fechou com o clube a pedido de seu amigo Neymar. O negócio no final de julho, já estava bem encaminhado, só faltava o pagamento da multa e a assinatura do contrato.

Neymar estreia com gol pelo Paris Saint-Germain neste domingo, contra o Guingamp. Foto C.Gavelle/PSG

Neymar estreou com gol pelo Paris Saint-Germain contra o Guingamp e comemorou com o amigo Daniel Alves. Foto C.Gavelle/PSG.

Como fica para Neymar Júnior?

O atleta brasileiro sai, sem dúvida nenhuma, ganhando nisso tudo. E não podemos dizer que não seja merecido. Claro que podemos e devemos ponderar que seu discurso seja um pouco fabricado para evitar polêmicas e para não constranger a si mesmo e as partes envolvidas. Mas Neymar está certo, junto com seu staff, pois sabemos que não faz nada sozinho, pois ele sabe corretamente se inserir nesse mundo massacrante dos negócios do futebol. Não há dúvidas que Neymar – junto com sua equipe – do potencial técnico-futebolístico e comercial que tem nesse mundo e ele sabe muito bem aproveitar disso. Em um vídeo (abaixo), postado em suas redes sociais Neymar agradeceu, em um texto produzido por ele e sua equipe, aos momentos que teve no Barcelona e que sairia por querer novos desafios e agradecia também aos seus companheiros. Muito se falou que Neymar não estaria indo pelo novo desafio ao clube francês, mas sim pelo dinheiro, gerando vários comentários sarcásticos nas redes sociais; mas acredito que temos que aceitar que para o atleta brasileiro é sim um novo desafio. Desafio este que representa desejos de um atleta de alto nível, de 25 anos, que acredita que chegou em sua maturidade atlética e pode ainda conquistar muita coisa. Neymar provavelmente decidiu ir ao Paris Saint Germain também pelo dinheiro, mas também, e principalmente, pela possibilidade de ser protagonista em um clube de ponta na Europa – com Messi no Barcelona sabia que não conseguiria isso independente do grande respeito que realmente possui pelo argentino – e pela possibilidade de, se títulos vierem, ele Neymar ser eleito o melhor jogador do mundo da bola, sonho de garoto de Neymar. Outros motivos para a sua saída é o de Paris ser um novo ambiente para a sua família que foi muito (justamente ou injustamente) pressionada pelo fisco e pela justiça espanhola durante todos esses anos. No PSG, Neymar receberá apenas o salário, sem luvas ou direitos de imagens por fora e os contratos de publicidades do atleta são administrados por uma empresa de capital jurídico próprio – de seu pai, claro, mas sem participação societário do atleta. Por mais que tenhamos que afirmar que futebolisticamente para Neymar é ótimo essa transferência temos também que afirmar que, comercialmente e financeiramente é melhor ainda, em uma jogada genial dos responsáveis por administrar a carreira de Neymar Júnior.

 

Como fica para o Paris Saint Germain?

Apesar dos valores de transferência e salários a serem pagos pelo PSG serem altíssimos temos que dizer que o investimento compensa em muito ao clube francês. Muitos questionam de que o gasto do clube não poderia dar retorno ao clube parisiense, mas o vídeo abaixo, produzido pela Deutsche Welle, televisão alemã, mostra como pode e provavelmente haverá retorno à agremiação francesa.

Para o Paris Saint Germain, mesmo se não vierem títulos, o que aposto que virão, já houve um grande retorno. Só a exposição de mídia e o novo mercado brasileiro conquistado, onde Neymar Júnior é a principal figura midiática, já dão um bom retorno ao PSG. Apesar de não concordar com este tipo de visão é inegável que o clube francês ganhou milhares ou milhões de torcedores brasileiros nas últimas semanas, que irão consumir os produtos da equipe parisiense sem dúvida alguma.

Mas quem ganha muito mais que o clube francês e até mesmo Neymar Júnior são os donos do Paris Saint Germain. E provavelmente essa tenha sido a razão de todo esse investimento. Quem ganha com tudo isso e pretende faturar muito mais, e não só economicamente, mas também politicamente é o governo do Catar.

O pequeno país do Oriente Médio, como sabemos será a sede da Copa do Mundo de 2022, e após as diversas denúncias de corrupção na eleição da FIFA para a escolha da sede a imagem do Catar não andava tão boa para os olhos do mundo, além de denúncias de trabalho análogos à escravidão nas milionárias obras para Copa.  Para o Catar nada melhor do que associar o seu país e o seu evento a um dos maiores jogadores do futebol mundial – Neymar ganhará 60 milhões de Euros por ano para fazer propaganda para o Catar e a Copa do Mundo. Financeiramente haverá retorno pois, além do turismo esportivo com a Copa do Mundo há também o próprio turismo ao Catar – o país desenvolve uma infraestrutura para ficar como a já movimentada Dubai – além dos lucros obtidos, das mais diversas maneiras, com o Paris Saint Germain, já que os catarinos controlam 100% do clube. Politicamente o Catar ganha muito, pois Neymar, modelo de homem bem sucedido, irá contribuir para a mesma imagem de seu patrocinador.

Neymar estreia com gol pelo Paris Saint-Germain neste domingo, contra o Guingamp. Foto C.Gavelle/PSG

No Paris Saint Germain Neymar voltou a jogar com a camisa 10. Foto C.Gavelle/PSG.

Como fica para o Barcelona?

Todo o processo de transferência de Neymar deu a entender que o Barcelona foi o grande prejudicado da história. O próprio clube, junto com a mídia esportiva catalã quis transparecer que Neymar traiu a instituição Barcelona. Mas será?

Primeiramente temos que entender que o atleta de futebol tem sim o direito de negociar a sua capacidade com quem bem entender e Neymar já está maduro o suficiente para saber disso. É um direito do atleta procurar melhores opções técnicas e financeiras para ele. Neymar é um jogador de auto nível e sabe muito bem do seu potencial econômico. Sabe também, e o Barcelona também sabe que Neymar já se pagou no clube catalão. O investimento de 90 milhões de euros retornou ao Barcelona nesses últimos anos. E, o jogador não saiu de graça: o Barcelona levou a quantia de 222 milhões de Euros na transferência. Quantia essa que irá utilizar para tirar jogadores de outros clubes, assim como fez com Neymar, no Santos, e como tenta fazer com o brasileiro Phillipe Coutinho, do Liverpool. Talvez o que tenha mais ferido os Culés tenha sido o fato que um jogador de alto nível tenha preferido sair do clube para defender outro clube de grande porte, como ocorreu há 15 anos com Luís Figo e que os barcelonistas se ressentem até hoje. O slogan do Barcelona, e ele se apega muito a isso, é Més que um Club, e a transferência de Neymar demonstrou que o clube catalão se torna “um clube a mais” nesse futebol globalizado do século XXI. De certa forma a mudança de Neymar Júnior fere o mito que se vende ao Barcelona, o de time que todos desejam e que não é um simples clube. O dinheiro do Catar e a aceitação de Neymar para jogar no PSG mostram que o Barcelona está sim inserido nesse mundo das transferências do futebol mundial.

Em 2010, o técnico Renê Simões, na época no Atlético Goianiense, referiu-se a Neymar e suas atitudes de jovem jogador que ali se estava criando um monstro, no pior sentido da palavra, de alguém que não tinha limites. Alguns anos depois Renê Simões disse que se equivocou e que Neymar havia realmente mudado a sua postura, amadurecido. Mas fica aqui o questionamento que talvez o monstro não seja Neymar ou qualquer outro jogador em momento de rebeldia; talvez o monstro que foi criado neste século XXI, no mundo do futebol, foi o monstro das transferências sem limites, com valores altíssimos que se contrastam com a pobreza dos diversos povos do mundo. Neymar Júnior é só mais uma peça, bem sucedida, é claro, de um monstro – o capitalismo selvagem mundial, que não vê limites na busca de seus objetivos e que milhões em riqueza se tornam “dinheiro de pinga” para alguns enquanto outros, até no próprio mundo local do futebol sofrem com a escassez.

[i] https://medium.com/puntero-izquierdo/n%C3%A3o-sou-o-di-marzio-mas-sou-o-marcelo-bechler-cd2721a525a7. Acessado em 14 de agosto de 2017.