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Singularidades de uma rapariga loira: ou as aventuras de Neymar e a Seleção Brasileira na Copa da Rússia

José Carlos Marques

Em 1873, o romancista português Eça de Queirós (1845 – 1900), um dos maiores prosadores que a língua portuguesa já conheceu, publicava o conto “Singularidades de uma rapariga loira”, texto que seria posteriormente reunido num volume de contos em 1901. Pouco mais de um século depois, em 2009, tal obra seria magistralmente transposta para as telas do cinema pelo não menos talentoso cineasta português Manoel de Oliveira (1908 – 2015), um dos principais nomes da sétima arte no cenário europeu das últimas décadas.

Em 2018, o mesmo enredo do conto queirosiano vem-nos à mente quando olhamos para a Seleção Brasileira de futebol, reconhecida por utilizar uma camisa tão “loira” quanto a cabeleira exibida logo na estreia por seu astro maior, o “petiz” Neymar Jr. (talvez não seja desnecessário dizer que, em Portugal, “rapariga” é tão somente o feminino de “rapaz”, não possuindo o tom pejorativo que adquiriu em algumas regiões do Brasil).

durante a partida da Copa do Mundo 2018 entre Brasil x Suica na arena Rostov na Russia

Neymar e sua cabeleira na estreia do Brasil na Copa da Rússia 2018. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

O conto fala da história do amor de Macário, um jovem que trabalhava como escriturário na loja do tio Francisco em Lisboa e que se apaixona por Luísa, uma rapariga loira que “Tinha o carácter louro como o cabelo – se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo ‘pois sim’; era muito simples, quase indiferente, cheia de transigências”.

É por esta rapariga aparentemente dócil e sem vontade própria que Macário se apaixona, a ponto de cometer algumas loucuras em sua vida por conta dessa paixão avassaladora. Luísa é, de fato, uma rapariga loura e singular, que irá revelar um pequeno desvio de caráter à medida que a narrativa avança.

A cada quatro anos, os veículos de comunicação que fazem a mediação da Copa do Mundo de Futebol para o público brasileiro, especialmente as redes de televisão, esforçam-se em querer que todos nós sejamos uma espécie de Macário, e que mantenhamos uma paixão cega por nossa Luísa eterna que é a Seleção Canarinho. Com a presença de Neymar Jr. e sua cabeleira loira do jogo inicial, a lógica destas singularidades acabou se reproduzindo como se estivéssemos diante de paredes de espelhos, naquilo que os franceses tão bem chamam de “mise en abîme”.

Neymar Jr. é um jogador acima da média do futebol mundial e acima da média do elenco da Seleção Brasileira. À parte sua carreira futebolística de sucesso (incapaz entretanto de alçá-lo ao posto de melhor do mundo – pelo menos por ora), a carreira no mundo dos negócios parece muito mais exitosa: são quase duas dezenas de marcas que o astro levou para este Mundial da Rússia. Nas respectivas campanhas publicitárias, o jogador mostra-se sempre “aparentemente dócil e sem vontade própria”, algo que se repete nas modorrentas entrevistas ou participações que ele protagoniza em programas televisivos.

Dentro de campo, contudo, o jogador por vezes abandonou o caráter “aparentemente dócil” na Copa e mostrou algumas das particularidades que o fazem tão brasileiro: uma habilidade genial e única, uma capacidade de improviso singular e uma técnica ímpar, que convivem igualmente com o desrespeito às normas e às autoridades, com o desprezo perante a alteridade, com a individualidade que se sobrepõe ao sentido coletivo do jogo, com a falta de obediência à hierarquia etc.

Na partida do Brasil contra o México, pelas oitavas-de-final da Copa, nossa rapariga loira voltou a deixar a docilidade de lado: ao anotar o primeiro gol do encontro, Neymar dirigiu-se à torcida e pediu silêncio por meio daquele gesto de dedo em riste à frente do nariz, o que para alguns é demonstração de desrespeito com a plateia. Ao comemorar o gol com os colegas de time, nosso astro maior poderia inovar e mostrar consciência política e social, fazendo menção à crise por que atravessa nosso país; poderia homenagear os meninos futebolistas presos na caverna tailandesa; poderia praticar algum gesto mais edificante ou comemorar junto ao banco de suplentes, mas não: simplesmente fez menção a um game de combate, reproduzindo o gesto de atirar uma granada luminosa no solo para ofuscar a visão dos oponentes.

Neymar comemora o gol contra o México. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

O técnico Tite, ao longo do Mundial, transformou-se igualmente num Macário, ou foi ofuscado pela granada luminosa atirada por Neymar – e ficou refém do próprio jogador, sem forças para poder enquadrá-lo ou para resistir a seus encantos. Deveria tê-lo poupado em algumas oportunidades, fazendo com que entrasse no jogo após o intervalo, mas não: fê-lo atuar em todos os cinco jogos desde o início.

Não vamos adiantar aqui o final do conto “Singularidades de uma rapariga loira”, quando se definem os destinos de Luísa e de Macário e quando se revela o desvio de caráter da rapariga loira. Fica aqui o convite para que o leitor prestigie o texto de Eça de Queirós e depois se deleite ao ver a transliteração dessa obra para o cinema de Manoel de Oliveira.

O que podemos adiantar é que Neymar Jr., pelo menos por enquanto, não conseguiu reverter o destino da ficção. Nosso astro foi desmascarado nesta Copa do Mundo de 2018 e virou motivo de chacota internacional por força de suas quedas, simulações e gritos de dor, algo que o atinge de modo mais agudo do que aconteceu com a própria derrota de 7 x 1 para a Alemanha em 2014.

Quanto a nós, resta o consolo de saber que, mais cedo ou mais tarde, os Macários também têm a possibilidade de ganhar um choque de realidade e de oferecer novos destinos à sua própria sorte. Esta Copa da Rússia tem mostrado que não há narrativas preconcebidas, nem enredos imutáveis.


Uma primeira versão deste texto, com alterações, foi publicada no Jornal da USP em 02/07/18.