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No campo e dentro das redes: com diferentes uniformes o racismo continua no jogo

Fidel Machado

Reminiscências do último domingo (13) ainda ecoam. O episódio ocorrido no mundo futebolístico protagonizado por Neymar Jr. e Álvaro González durante a partida de futebol entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marselha, pelo Campeonato Francês, gerou pauta, júri e polêmica. Nos minutos finais da disputa, após algumas animosidades que resultaram na expulsão de Neymar, o atacante do clube francês acusou o zagueiro espanhol de cometer injúria racial.

Feito esse preâmbulo, adianto que o objetivo do presente jogo de palavras não é antecipar o papel da justiça desportiva, analisar veredictos, julgar a conduta de ambos os atletas ou realizar exercícios futuristas e abstratos. O intento aqui aventado é pensar sobre as múltiplas artimanhas do racismo, as suas várias jogadas e seus diversos uniformes. Os efeitos e desdobramentos causados por esse fato “isolado” são muito sintomáticos e versam bastante sobre como lidamos com o preconceito racial. Independente do desfecho legal e judicial desse caso, a questão racial infelizmente seguirá presente nos campos, nas quadras, nos ginásios, nas arenas esportivas, nas arquibancadas e, como fartamente vimos nesse episódio, nas redes sociais. O respeito e a educação não compareceram e perderam, mais uma vez, de W.O.

Racismo recreativo, racismo estrutural, colorismo, racismo institucional, totemismo negro, a pseudo justificativa de ser um caso isolado e a excepcionalidade negra são algumas das questões desencadeadas pelo caso. O racismo é um time coeso, com uma defesa organizada, um ataque matador e infelizmente ainda possui uma torcida com numerosos adeptos.

No jogo do racismo é importantíssimo analisar o caso particular, mas não podemos perder de vista o todo e desconsiderar a estrutura operacionalizada por essa racionalidade que, entre outros atributos, possui na cor da pele um dispositivo de controle e poder eficiente e antigo. A figura do Neymar não deve ser o centro e nem tampouco uma ilha de restrição e limitação da discussão, mas um catalisador e sobretudo uma ferramenta potente para percebermos a lógica inescrupulosa e soberba pela qual o racismo opera. O racista não se acanha com o verniz social, com a condição financeira e performática. Impiedosamente ele age com o simples intuito de reduzir, desumanizar, inferiorizar e deslegitimar a respeitabilidade mínima entre humanos.

Caso não seja constatado o crime de injúria racial em campo, nas redes sociais tivemos uma avalanche de insultos racistas. Como desdobramento das análises imagéticas, foi constatado que o atacante do clube francês proferiu uma ofensa homofóbica ao zagueiro. Tal fato também merece crítica e apuração. Todavia, no jogo da desumanização por gênero, raça, classe ou outros marcadores sociais não há vencedor. Não há uma olimpíada da opressão que vise descobrir quem mais sofre no cenário contemporâneo. Sabemos que há especificidades na discussão de tais pautas, mas é preciso uma coesão mínima. Caso contrário, não sobra sequer o bagaço da laranja.

No futebol há uma lacuna quando o assunto é a criação de uma agenda sistemática, estruturada e construída coletivamente com a presença massiva de negros. Poucas são as ações de combate e enfrentamento ao racismo e abundam acontecimentos e episódios dessa natureza. Leônidas da Silva, Reinaldo, Pelé, Márcio Chagas, Tinga, Daniel Alves e Aranha são alguns dos jogadores brasileiros que compõem o elenco do time que já sofreu racismo em campo. O observatório de discriminação racial no futebol, no seu relatório de 2019, contabilizou 67 denúncias de racismo no futebol brasileiro. É importante ressaltar que somente os casos noticiados pela mídia são computados.

Foto: Reprodução / Twitter

Muitas campanhas se esgotam em soluções cosméticas que pouco comprometem a estrutura posta. No cenário nacional ainda há um número diminuto de treinadores, dirigentes, conselheiros. A representatividade negra na justiça desportiva é parca. Invariavelmente, há uma reverberação direta na maneira com a qual o racismo é combatido. Ademais, no cenário nacional, um silêncio ensurdecedor e uma inércia imperam quanto as ações da FIFA e da CBF.

O racismo não é um problema criado pela negritude, mas a branquitude insiste em deixar toda a discussão da pauta racial restrita a esse cativeiro. Seja na cobrança excessiva de uma ação do jogador envolvido, seja na redução e descredibilização do atleta agredido ou simplesmente na categorização como “mimimi”. O ponto crucial dessa cobrança e dessas atitudes é que elas, geralmente não se direcionam com a mesma intensidade contra os agressores. Além disso, há uma complacência e tolerância quando o assunto são os dirigentes, as marcas, as emissoras, as ligas e as instituições. Excessivos são os casos que resultam em multas brandas e notas de esclarecimentos.

Esse tipo de atitude é uma das roupagens do racismo, pois penaliza triplamente o jogador que se posiciona firmemente.  A primeira violência é a própria agressão racial sofrida, a segunda diz respeito ao risco dos possíveis boicotes e represálias. A terceira e última é quando aquele atleta, individualmente, passa a ser responsabilizado por resolver todo o problema racial. Os riscos são muitos e podem comprometer a carreira, como foi o caso do ginasta brasileiro Ângelo Assumpção.

No Brasil, não se nasce preto, se descobre a partir de uma lógica e uma racionalidade muito bem arquitetada. Esse processo é doloroso e causa freios no processo de subjetivação. Além disso, embarga desejos e ensina que a fala só é autorizada em determinadas situações. Um convite constante e cruel para negar e se afastar dos signos e elementos da cultura negra. Prova dessa atrocidade é o colorismo e o próprio mito da democracia racial. Como diria Racionais MCs: “o barato é louco e o processo é lento”. Todo esse alicerce racial calcado pela escravidão e mantido pelo desprezo, negligência e descaso social retardam e intensificam, muitas vezes, a dor do reconhecimento e da valorização das camadas de negritude.

Não tenho como garantir que o Neymar assumirá a faixa de capitão no futebol quando o assunto for a pauta racial. Não tenho sequer como afirmar que ele permanecerá se posicionando incisivamente. Qualquer ação minha nessa direção seria futurismo barato. Contudo, não posso desconsiderar o alcance inquestionável da figura do atacante. Isso certamente é bastante potente e soma na causa, na pauta e na luta.

Até o presente momento, fico na torcida para ver o atleta brasileiro compondo o time juntamente com Muhammad Ali, os velocistas Tommie Smith e John Carlos da Olimpíada da Cidade do México, em 1968, o quarterback Colin Kaepernick. Diogo Silva do taekwondo. Rafaela Silva do judô. Serena Williams e Naomi Osaka do tênis.  Lewis Hamilton, da fórmula 1 e Lebron James, do Los Angeles Lakers na NBA. Por fim, ao Neymar e aos atores envolvidos, penso que a reflexão e a crítica sejam bem-vindas. Quanto ao racismo, só cabe o combate.

P.S. 1 Historicamente o futebol possui um salvo-conduto para expressão e expurgo de todo o conteúdo latente e socialmente represado. O curioso é perceber que toda essa liberdade se restringe à verbalização de insultos para alvos específicos e corroboram para a manutenção de uma masculinidade ancorada em pressupostos ilusórios e insustentáveis, como uma agressividade primitiva, um vigor e uma virilidade sexual que, devido ao excesso, se tornam impotentes. A quem interessa essa “liberdade” nos estádios e arenas?

P.S. 2 A declaração do presidente da federação francesa de futebol é mais um dos uniformes do racismo estrutural e institucional. Atribuir o caráter de excepcionalidade e caso isolado só mostra o pouco caso e a urgência de uma representatividade negra séria em espaços de poder.

Conversas com:

@observatórioracialfutebol

Neuza Santos Souza

Racionais MCs


Como citar

MACHADO, Fidel. No campo e dentro das redes: com diferentes uniformes o racismo continua no jogo. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 64, 2020.