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No contexto da polarização, o Ba-Vi derrotado

André Uzêda

Num agudo vencido, a voz treme em súplica: “cuida bem de mim”. Na terra do Carnaval, o clássico Ba-Vi quase sempre mergulha numa vertente musical de provocações, troças e regozijo. Os acordes de 2019 não fogem a lamúrias, melô de penitência e pedido de resgate.

São 87 anos de embate completados nesta temporada. Às vésperas das bodas de álamo (álamo é uma espécie de árvore frondosa que remete aos casamentos duráveis por 90 anos), o dérbi atinge seu pior outono. Em 2019 foram apenas dois jogos – e, muito, possivelmente serão apenas estes dois mesmo. Foram dois empates, chochos, mal jogados, no mesmo campo de jogo e com apenas uma torcida presente.

Bahia, Vitória, Ministério Público, federação, torcidas, autoridades e organizadas assistem, aparvalhados, o desmantelo de um patrimônio do futebol. O Ba-Vi é uma sigla basilar da sociedade baiana; formadora de caráter e outras mumunhas existenciais. No entanto, o clássico tem sido sistematicamente desrespeitado em atos que ferem de morte sua sobrevivência.

A derrocada não é apenas técnica – antes fosse, superamos isso já – é, sobretudo, na essência.

Arena Fonte Nova inaugurada em 07 abr. 2013 com jogo entre Bahia e Vitória. Foto: Haroldo Abrantes/GovBA – Wikipedia.

Em 2018, no primeiro clássico do ano, a direção do Vitória orientou a retirada do time de campo em um atentado iniciado após um entrevero que custou a expulsão de três titulares. No retorno, mais um atleta foi expulso por jogada desleal. Um quinto, captado no zoom das câmeras, foi instruído pelo técnico Vagner Mancini a forçar a saída para desfalcar a condição mínima de atletas no confronto, obrigando o juizão, assim, a dar por encerrada a peleja.

Um dos episódios mais lamentáveis da história do Ba-Vi. E que, lamentavelmente, foi defendida por parte da torcida cega em não enxergar a desonra neste tipo de conduta.

O Bahia, por sua vez, também não tem zelado pelo equilíbrio da rivalidade. A direção do clube confunde interesses públicos com privados na condição de único sócio da Arena Fonte Nova. Mesmo o contrato vetando textualmente que o estádio se dobre a um dos clubes, o Bahia construiu loja no estacionamento, iniciou projeto de um museu sobre sua história e até foi multado por plotar seu escudo num painel público (com a marca do governo do estado) no entorno da Arena.

A sanha hegemônica tricolor se mistura a instâncias públicas e encontra defesa em torcedores com limitada compreensão de cidadania e isonomia republicana.

Soma-se a isso a posição midiática do Ministério Público da Bahia que surfa em reportagens, declarações e cliques de audiência ao recomendar torcida única para o clássico. Desde 2017, os Ba-Vis são disputados apenas na presença dos torcedores mandantes. Abre parêntese. Enquanto o Brasil já mergulhava na selvageria das arquibancadas, com morte de torcedores e guerra entre organizadas, até fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, a Bahia vinha no contrafluxo com torcida mista assistindo o Ba-Vi juntos. Pioramos muito. Fecha parêntese.

O tricolor está na primeira divisão e o rubro-negro na segunda. O Vitória foi desclassificado na primeira fase do estadual, enquanto o Esquadrão avançou pras finais. A única forma dos dois clubes se enfrentarem ainda nesta temporada é numa classificação conjunta para a fase mata-mata do Nordestão – neste momento, ambos estão fora da zona classificatória.

A última vez que houve apenas dois Ba-Vis em um único ano foi em 1943, com o Brasil mergulhado no governo ditatorial de Getúlio Vargas, com controle midiático, ataque a oposição e uso das ferramentas de comunicação para divulgação da figura do presidente populista.

Em 2019, com a sociedade pavorosa pelo simples pensar diferente, sem espaço para convivências discordantes e ameaçada nas suas convicções pacíficas, o Ba-Vi sucumbe, como vítima primeira, ao descalabro.

Ou o esforço é conjunto na guinada, ou ninguém vai ouvir essa voz.