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No mundo das chuteiras rosas

Wagner Xavier de Camargo

Na semana passada o mundo “macho” do futebol masculino foi abalado com o lançamento no mercado de uma chuteira tecnologicamente avançada, com design futurista, porém “rosa”. A criação é da Adidas e ela foi nominada predator spectral mode. Porém, o advento não agradou, principalmente a torcedores/as. Bastou futebolistas conhecidos (e patrocinados pela empresa) postarem mensagens nas redes sociais, que as reações foram as piores possíveis: no Instagram do gremista Pedro Geromel, o qual sigo, apesar das quase 50 mil curtidas na foto em que ele segurava a nova chuteira, centenas de outros comentários se acumulavam (rapidamente) para torná-lo alvo de chacota ou defendê-lo. Outros jogadores como Jucilei da Silva, volante e zagueiro do São Paulo, e Mesut Özil, ponta direita do Arsenal, também agregaram opiniões preconceituosas abaixo de suas fotos com a chuteira “rosa”.

Bem, aí que vemos como paira o preconceito e a intolerância dentro das relações estabelecidas no futebol, esporte que é o epíteto da masculinidade bruta nacional. “Chuteira-barbie”, “acessório de princesa”, “chuteira-moranguinho: vai virar gay agora?” foram algumas das pérolas endereçadas a Geromel. As pessoas trazem para dentro do futebol suas questões mal resolvidas, como se a cor de um implemento esportivo fosse definir gênero, redefinir orientação sexual, ou inaugurar nova tendência de comportamento pessoal. Ninguém comentou sobre o design, o material ou a ergonomia do calçado; o foco foi, obviamente, a cor.

A Adidas fez ampla divulgação das cores da predator: são tons pasteis, que vão do azul-bebê, passando pelo verde claro e branco-acinzentado, chegando ao rosa-salmão. Mas o que fica é a insistência monocromática do taxativo rosa, associado ao universo feminino, e construído discursivamente como uma cor “pueril”, “sensível”, “frágil” e de uso específico de mulheres. E é aqui que o equívoco se estabelece: a insistência em atrelar a cor “rosa” para mulheres e a “azul” para homens. O binarismo cromatográfico (e limitado) do senso comum atrela todas as características do sexo e de gêneros a apenas duas cores! Por exclusão, quem “se confunde” entre essas cores é indefinido, digno de sofrer piadas ou ser taxado de gay, “viado”, “bichinha”, bissexual, etc.

Esse argumento participa da lógica de um sexo construído pré-discursivamente (antes da cultura) e, portanto, atrelado à biologia. Por esta linha de raciocínio, nasce-se homem ou mulher. Qualquer derivação disso está fora das considerações e será colocado no domínio das aberrações, das dissidências, das anormalidades. Como a filósofa estadunidense Judith Butler dissera: “[…] está claro que colocar a dualidade do sexo num domínio pré-discursivo é uma das maneiras pelas quais a estabilidade interna e a estrutura binária do sexo são eficazmente asseguradas.” (Problemas de Gênero, 2003, p. 25).

Ou seja, no pensamento estanque de torcedores/as preconceituosos/as, homens somente serão homens se usarem azul e mulheres, pela mesma lógica, se vestirem rosa! Mas por que mesmo homens não podem vestir rosa e mulheres, azul? O que os faz pensar que jogadores (mesmo publicamente heterossexuais), ao usarem a cor rosa nas chuteiras de futebol, terão suas sexualidades transformadas e se tornarão “homossexuais” ou “gays”? E mais: como é possível atrelar comportamentos sociais a cores? Isso abre prerrogativas perigosas, de preconceitos estabelecidos e fobias instituídas (homofobia, bifobia, transfobia, misoginia), que atingem a adultos, adolescentes, crianças, bebês.

chuteirarosaadidas

Spectral Mode Predator.

Acredito que passamos da hora, enquanto sociedade, de repensarmos as convenções estabelecidas socialmente, principalmente, no tocante ao gênero e à sexualidade. Cores não determinam gêneros ou orientações sexuais! Infelizmente, nos esportes (e, igualmente, no futebol) somos afetados por tais convenções e se faz fundamental revermos isso.

Particularmente, nessa era dos “likes”, em que a informação corre muito rápido e é acessada por milhares de pessoas, nunca questionamentos sobre o que lemos ou vemos foram tão essenciais. E, ao contrário, do que se pensa acerca do futebol ser um “mundo à parte”, devemos, sim, trazer o que nele se passa sob luz crítica, desapaixonada, sem o receio de esvaziá-lo de sentido, como afirmam algumas pessoas.

Ao mesmo tempo em que temo serem eternas essas problemáticas de gênero no futebol (que dizem respeito à sexualidade de atletas, ao desrespeito às mulheres futebolistas, ao não reconhecimento da prática esportiva de sujeitos não heterossexuais), penso num mundo em que cores não sejam restritivas de ações e que meninos, meninas ou crianças não binárias possam escolher suas cores preferidas em roupas, brinquedos, acessórios e afins sem sofrerem preconceitos instituídos; que jogadores e jogadoras possam se expressar livremente, por meio de suas ações (técnicas, táticas, mas também afetivas), dentro e fora de campo; que possamos, um dia, viver num “mundo de chuteiras rosas”, no qual essas vão ser tão somente um modelo de uma cor dentre tantas outras possíveis.