09.5

No rastro de Kanouté – Bamako, Mali

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Bamako é uma daquelas cidades africanas que explodiu após a independência e cujos estilhaços dessa explosão continuam a rebentar ao longo das duas margens do Rio Níger, fazendo aumentar diariamente a sua população e a sua extensão. Há cinquenta anos, quando o Mali obteve a independência do colonialismo francês, viviam aqui perto de 100 mil pessoas. Bamako é hoje habitada por perto de dois milhões de cidadãos. Os motivos desse crescimento não diferem muito dos de Nouakchoutt – o avanço para sul do deserto do Sahara levou os habitantes do norte deste gigantesco país a fugir do deserto para a capital. O resultado é que actualmente 90% dos malianos vivem na região sul, dominada pela savana do Sahel, deixando o inóspito deserto do norte para os mais resistentes e para as tribos nómadas como os touareg. Com tanta gente a circular nas ruas, é natural que a atmosfera de Bamako esteja contaminada com um cocktail de pó e fumo que praticamente nos impossibilita a respiração, já de si difícultada pelo calor que nesta altura do ano ronda os 40º.

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Foto: João Henriques.

É nesta cidade imensa que procuramos o rasto de Frédéric Kanouté, avançado do Sevilha, clube espanhol, e considerado o melhor futebolista maliano da actualidade. Não nos espera uma tarefa fácil. Uma das muitas particularidades da carreira de Kanouté é que nunca viveu no país que representa nos relvados. O ponta-de-lança nasceu há 32 anos em Lyon, França, resultado de uma relação entre uma professora francesa e um construtor civil maliano emigrado na Europa. Com 12 anos, Kanouté ingressou nas escolas do Olympique de Lyon e mostrou-se um jogador de enorme potencial. Por isso, foi com naturalidade que representou as selecções jovens francesas e tudo indicava que Frédéric iria jogar ao lado de Zidade e Henry nos bleus. No entanto, em 2004, Kanouté recebeu um convite do Ministro dos Desportos do Mali para seguir a sua orientação paternal e vestir a camisola da selecção africana. Este momento viria a alterar o rumo da vida do atleta. Se tivesse escolhido a nacionalidade francesa e renunciado às suas origens malianas, Kanouté seria hoje, muito provavelmente, um futebolista igual a tantos outros, desligados dos problemas mundiais e interessado apenas em passear-se nas melhores lojas dos centros comerciais parisienses. Porém, o avançado tornou-se num dos mais reivindicativos desportistas da actualidade. É um activista pela Palestina e pelo islamismo, criou uma Fundação com o seu nome para ajudar as crianças órfãs no Mali e organiza anualmente um jogo de caridade para obter fundos para o desenvolvimento de África, continente em que nunca viveu.

Começamos o dia decididos em pegar no trabalho humanitário de Kanouté como tema de reportagem. Contudo, rapidamente percebemos que tal tarefa é impossível. A Village des Enfants (cidade das crianças), o mega-centro de acolhimento para órfãos que o atleta do Sevilha está a construir na cidade, tinha arranque previsto para o final de 2009 mas continua em construção. As obras foram prejudicadas pelo atraso na decisão da concessão das estradas envolventes e foram contaminadas pelo vírus que está alastrado por África – o atraso em relação às datas estipuladas. Assim sendo, Abdullaye Simpara, o simpático jornalista que conhecemos ontem à chegada a Bamako, leva-nos até ao Ministério dos Desportos. São 15 horas e o calor é tanto que torna lento e angustiante qualquer passo dado na rua. O secretário técnico Allaye Samassekon diz-nos que Sara Kanouté, pai de Frédéric, está naquele preciso momento no Museu Nacional do Mali e que devemos dirigirmo-nos para lá para o encontrar.

Percorremos os corredores do museu em passada rápida, olhando por cima das vitrinas da exposição para tentar encontrar um homem parecido com Kanouté, mas trinta anos mais velho. Enquanto procuramos Sara pelo edifício, não podemos deixar de reparar nas máscaras, lanças e potes exibidos nas salas. O Mali possui alguns dos mais antigos vestígios de civilização pré-histórica em África e abundam também no museu peças do tempo do grandioso Império do Mali, próspero em ouro, cujos domínios no século XIII se alastravam até às águas do Oceano Atlântico com o total desconhecimento das civilizações ocidentais. Estávamos nós imbuídos nestas reflexões históricas quando, à passagem pelo bar do museu, Simpara nos aponta um homem alto e robusto sentado numa das mesas. “Aquele é o pai do Kanouté”, diz-nos. Sara está a beber café com o Ministro dos Desportos. À primeira vista, poderia ele próprio ter sido uma estrela do futebol mundial – tem 1,90 e uma postura firme e saudável, usa óculos e uma camisola multicolor . “Eu não fui responsável pela escolha do meu filho”, explica-nos. “Ele pediu-me a opinião quando teve de escolher entre a selecção francesa e a maliana mas eu disse-lhe para fazer o que o coração lhe mandasse”. Com 26 anos, Kanouté, que apenas tinha estado no Mali duas ou três vezes, respondeu positivamente ao apelo do Ministro dos Desportos do país natal do seu pai. Também nesta altura, rompeu com a educação católica recebida da sua mãe e converteu-se ao islamismo.

Nesta altura, Kanouté viajou para o Mali para assimilar a cultura do país. Em 2001, exilou-se durante um mês no centro de treinos da selecção a poucos quilómetros de Bamako com Mamadou Sedo, cozinheiro da equipa e um dos melhores amigos do seu pai. “Estivemos a semana toda sozinhos a preparar o Kanouté para a selecção. Rezámos, falámos do futebol nacional e cozinhei pratos típicos para ele se habituar à comida local”, viria a contar-nos Sedo, que também é chefe da equipa de cozinha do albergue da juventude onde pernoitamos em Bamako. Kanouté tornou-se num homem de convicções fortes. “Mais fortes do que as do pai”, diz Sara. Em 2006, recusou-se a jogar pelo Sevilha quando o clube estampou nas camisolas a publicidade a uma casa de apostas desportivas. O jogo a dinheiro é proibido pela vontade de Alá. Em 2009, no decorrer de uma invasão israelita em Gaza, exibiu uma t-shirt com a palavra Palestina escrita em diversos idiomas na comemoração de um golo contra o Desp. Corunha para a Copa do Rei. Foi punido pela federação espanhola. Desde 2008 que organiza com a UNICEF um jogo que opõe alguns dos melhores jogadores africanos a uma selecção da liga espanhola. O último jogo decorreu em Dezembro passado, em Madrid. Finalmente, sensibilizou-se com a miséria que continua a existir no Mali, segundo dados do FMI, um dos cinco países mais pobres do Mundo. Daí, criou a Fundação que deverá começar a receber as primeiras das 150 crianças que passarão a ter um tecto em Bamako no final deste ano. Kanouté, que até já abdicou da presença na selecção nacional, é um ídolo no país. Agradeço os cinco minutos de conversa com Sara e entrego-lhe dez questões por e-mail para ele reencaminhar para Frédéric. “Espero que ele possa responder”, diz o pai do atleta. A conversa é interrompida pelo Ministro: “Agora é preciso pagar o cachet do Sr. Sara. São 100 mil euros, por favor”, pede, antes de soltar uma gargalhada contagiante.

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Foto: João Henriques.

Ficamos no museu para assistir ao concerto dos Fakuli, uma banda tradicional que actua no jardim do espaço cultural. São duas cantoras e cinco músicos equipados com instrumentos típicos do Mali: na percussão, os jambés, o xilofone balafon e a Kalabass, uma espécie de abóbora seca virada ao contrário, de cordas, o goni, uma belíssima guitarra griot. Em Bamako, nem o sol infernal detém os saltos e os passos exuberantes na dança. O jardim enche-se de bou-bous resplandecentes que vibram logo com os primeiros acordes. Esta é o nosso primeiro contacto com a música no Mali, uma estirpe pandémica alastrada por toda a cidade, que nos persegue e contagia durante a nossa estadia. E como a música é alegre e divertida, os malianos sorriem. Não admira que Kanouté tenha optado por Bamako.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup* Foi mantida a grafia original, em português de Portugal