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No reino da pornografia, o futebol é coadjuvante!

Wagner Xavier de Camargo

Pornografia não é um assunto amplamente discutido, nem socialmente, muito menos no mundo dos esportes. Em geral, quando tal pauta se apresenta numa roda de conversa, verte-se, rapidamente, em “daquilo que ninguém quer falar” para “aquilo que todo mundo quer saber”. E, infelizmente, pornografia em tela de consideração é sempre sobre corpos de mulheres. Ou melhor, diante de uma sociedade machista e sexista como a nossa, a primeira coisa que se coloca como “segredo a saber” é sobre a apresentadora de TV que traiu o marido, ou qual atriz foi vista fazendo filmes pornô, ou que cantora que, depois de assumir-se lésbica, foi encontrada fazendo um sexo grupal. Sobre os homens, silêncio. A pornografia tem sentido (único) orientado: homem (sujeito, que olha, goza e deseja) –> mulher (objeto, que é olhada, não goza e é desejada).

Nos esportes a coisa não é diferente e, no universo futebolístico, definitivamente nada distinto. Acabamos de assistir à Copa do Mundo de Futebol Feminino e quantos não foram os comentários depreciativos sobre as jogadoras, preconceituosos quanto ao seu futebol, mas elogiosos em relação às “mais belas”, às “extremamente gostosas” ou às de “coxas mais grossas”? Uso aspas nos adjetivos por considerar uma ofensa sem tamanho em relação às profissionais do esporte que estavam em campanha na França. É inadmissível que jogadoras de futebol sejam avaliadas pela estética e mesmo pelas formas de seus corpos.

No pornography. Foto: mikecogh/VisualHunt.com/CC BY-SA.

Estas ideias e opiniões que (infelizmente) nos cercam no dia a dia também inferem duas noções, que considero mal encaminhadas, acerca da pornografia e do corpo dos homens. Em primeiro lugar, por que considerar que o futebol evoca a pornografia, quando são corpos “consumíveis” (do ponto de vista sexual) que aparecem jogando em gramados? E, em segundo lugar, por que sobrevalorizar o “desejo socialmente instituído” em relação às mulheres em detrimento dos homens? Não pode a pornografia evocar o futebol ou não se é permitido imaginar que nele mesmo já há algo virtualmente pornográfico? E, sobretudo, por que não há valorização (sensual ou sexual) de homens e de suas partes corporais? O que de tão visivelmente perturbador é o elogio ao futebolista, seus fartos pelos, seu calção colado, sua bunda proeminente ou suas coxas torneadas?

Há algum tempo, o universo futebolístico (notadamente machista) zombou de Anthony Reichwaldt, um ex-jogador estadunidense que trocou os campos pela Sean Cody, uma bem-sucedida empresa de filmes pornográficos. Ações como essa não são novidade, visto que alguns outros atletas, do futebol e de outros esportes, já fizeram o mesmo: Jonathan De Falco (belga que faz filmes com o codinome Stany Falcone) e o italiano Davide Lovinella, ambos jogadores de futebol; o boxeador estadunidense Ysaf Mack, que mesmo após várias vitórias na modalidade, iniciou em 2015 uma carreira de ator pornográfico; e o lutador de wrestling, Paul Donahoe, que foi impedido de permanecer no esporte depois de identificadas suas nudes em um site voltado ao público gay.

David Beckham em campanha de cuecas na época em que era jogador. Foto: Divulgação.

Algo distinto, porém na mesma rota de considerações sobre o mundo pornográfico, ocorreu no Brasil no decorrer dos anos 1990-2000. Em que pese os jogadores brasileiros de futebol envolvidos nunca terem se assumido enquanto “homossexuais”, vários deles posaram para ensaios pornográficos em revistas que serviam tal público (G Magazine, Sui Generis e Íntima): o volante Vampeta, o atacante Dinei, o super artilheiro Túlio Maravilha, o meia Alexandre Gaúcho (o Xoxó), e mesmo os goleiros Rafael Córdova e Roger Noronha, dentre outros. De outra parte, até ídolos atuais (como Neymar Jr. e David Beckham) posaram apenas de cuecas para as lentes fotográficas – isto seria enfaticamente sensual ou deliberadamente pornográfico?

Às vésperas da Copa do Mundo de Futebol masculino de 2014 se falou no potencial destrutivo do turismo sexual no Nordeste brasileiro: cabarés e casas de prostituição apareceriam aos milhares, meninas-mulheres se prostituiriam para satisfazer torcedores estrangeiros, “sedentos de prazer” (sic), ou mesmo que os índices de gravidez na adolescência se elevariam com estupros aleatórios de tais foliões futebolísticos. Guardadas as devidas proporções de tempo e lugar, foram os mesmos argumentos arquitetados com respeito às mulheres jovens na África do Sul em 2010 e, curiosamente, acerca das garotas do Leste Europeu, que atraídas pela rica Copa da Alemanha (em 2006), se prostituiriam no bordel Ártemis, em Berlim.

Reclusively Being, 2010-2012. Foto: Chase Alias/Visualhunt/CC BY.

O fato é que muito do que se considera (ou não) pornografia precisa ser reposicionado e ampliado. Talvez numa outra chave interpretativa ou mesmo sob outras considerações analíticas. Não é o propósito aqui estabelecer distinções ou aproximações entre pornografia, erotismo e derivados, ou esgarçar seu conceito. O que fica é uma tentativa de mudar de perspectiva e refletir se o futebol não é cooptado pela pornografia, dentro de um megaempreendimento global de produção, difusão e distribuição da mesma, que funciona nos sites de internet, na sensualização/erotização de (uns e não de outros) corpos esportivos, na venda de mercadorias (como revistas ou cuecas), nas propagandas televisivas e afins. A partir daí superaríamos o paradoxo (futebol produz pornografia ou é produzido por ela) e partiríamos de outro patamar de considerações.

É realmente uma pena que nossa compreensão da pornografia seja algo tão limitado. E nossa apreensão do futebol e dos corpos nele, algo tão superficial. Nem conseguimos reconhecer que, em nosso magnânimo futebol, há jogadores gays e mesmo um trânsito de travestis e sexo não heterossexual nos bastidores. Não endereçamos as violências instituídas a uma homofobia velada, que também é lesbo-trans-bifobia. No delírio de que o futebol é tudo, nem percebemos que, de fato, ele é apenas uma engrenagem do reino da pornografia!