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Nordin Amrabat: Ele tocou o terror

Paulo Junior

Série do Puntero Izquierdo conta a história de personagens que um dia serão lembrados pelo que fizeram na Copa do Mundo de 2018; começamos pelo marroquino que xingou o VAR, pisou no protocolo médico, virou Chuck Norris, irritou a FIFA, brigou com Sérgio Ramos e jogou muito na Rússia

ilustração: gustavo berocan

Quando forem contar a história da primeira Copa do Mundo em que a arbitragem fez uso de imagens de vídeo, uma cena poderá ilustrar a chegada da tecnologia enquanto auxílio para lances de pênalti, impedimento ou expulsões nos jogos do maior torneio de todos. Entre as jogadas controversas e a repercussão de técnicos e atletas haverá uma rápida entrada de um marroquino de 31 anos, naqueles frames após o apito final com a câmera passeando pelo campo atrás de choros e abraços:

– VAR é uma merda.

Nordin Amrabat não só se expressou de forma direta, olhos firmes à lente, como ainda fez o gesto característico do uso do Video Assistant Referee, um retângulo imaginário desenhado com os dedos indicadores. Um ato mímico que deveria ser exclusivo aos homens do apito, sob risco de cartão aos imitadores de ocasião, mas que ainda escapa aqui e ali, feito um jeito moderno de se gritar foi falta, juizão!

E essa foi apenas a última das brigas que o camisa 16 comprou na rápida passagem de só três jogos na Rússia. Ou melhor, quase três jogos.

Na estreia, contra o Irã, a seleção marroquina perdeu uma série de chances e seguia num empate sem gols que não interessava a nenhum dos times, azarões num grupo com Espanha e Portugal. Faltando uns 15 minutos, Amrabat, uma boa opção ofensiva do técnico Hervé Renard aberto do lado direito, bateu a cabeça no chão depois de uma dividida e acabou substituído pelo irmão mais novo, Sofyan Amrabat, jovem jogador do Feyenoord. Seriam os únicos minutos em que Nordin ficaria de fora, e o Marrocos levaria 1 a 0 no fim.

Tonto, foi levado a um hospital em São Petesburgo e passou a noite internado. A seleção de Marrocos chegou a dizer que ele desfalcaria o time por ao menos uma semana, mas ele pintou na escalação para o jogo contra Portugal só cinco dias depois. Começou a partida com uma proteção na cabeça, mas ainda no primeiro tempo, depois de cometer uma falta, arrancou o capacete. Deu um bote no rival e jogou o troço longe.

A Fifa reclamou oficialmente da Real Federação Marroquina. O protocolo de concussão fala em seis dias de repouso, e Amrabat deveria voltar, então, só para a terceira rodada. Médicos de toda as seleções participaram de um encontro antes da Copa onde se comprometeram com os procedimentos adequados. Depois do jogo, o técnico se voltou para o campo. “É um guerreiro, queria jogar. Ele jogou uma partida incrível, não posso falar mais nada, não é a minha função”.

Herói ou irresponsável, fez uma partidaça. Rafael Oliveira, jornalista da ESPN, se impressionou no relato pós-jogo. “Jogou como estrela mundial, lembrando seus melhores momentos de ponta no Galatasaray ou grandes jogos no Málaga até como falso 9”.

Não bastasse ir a campo contra a recomendação clínica do torneio, Amrabat ainda saiu revoltado da derrota contra os portugueses que valeu a eliminação precoce dos africanos. Na zona mista, disse aos jornalistas que o árbitro Mark Geiger, dos Estados Unidos, conversou com o zagueiro Pepe para lhe pedir a camisa de presente. A Fifa, olha ela de novo, redigiu uma nota onde diz que orienta a arbitragem contra esse tipo de comportamento e que Geiger não pediu o presente do zagueiro português.

Por passar por cima da pancada na cabeça e se livrar do capacete de proteção em minutos, o Twitter logo passou a reproduzir os #AmrabatFacts. Para além da preocupação com a condição médica, fãs do futebol passaram a tratá-lo como na velha piada sobre a força e a imortalidade de Chuck Norris. “Amrabatar é um verbo que será introduzido no dicionário, significando fazer algo com o coração”, escreveu uma torcedora marroquina.

No terceiro jogo, para além da declaração sobre o VAR, Amrabat comprou uma briga com Sérgio Ramos logo no início; depois, levou amarelo numa falta em Iniesta, quando a equipe, já eliminada, mostrava que não estava ali por um amistoso. Podia ter sido expulso, inclusive. Com a bola, seguiu perigoso, criando chances, ganhando as brigas com os marcadores e sendo o protagonista de uma seleção que deixou a Copa com um ponto ganho que por pouco não foram três — graças exatamente à posição legal conferida pelo vídeo que garantiu o empate da Espanha perto do fim. No seu melhor lance, o marroquino arriscou de longe e acertou a trave de De Gea.

“O time não tem tanta tarimba, então contar com um jogador que passou por ligas de vários países vale bastante. E o ponta vinha bem nos últimos meses, o que certamente ajudou nessa crescente. A Copa era o grande momento e ele não se escondeu, especialmente pela maneira como encarou e entortou quem viesse pela frente”, resume o jornalista da Trivela, Leandro Stein, diante do impacto das atuações do forte jogador.

Na região de origem de sua família, o Nordeste de Marrocos, muita gente se mobilizou para que Nordin Amrabat vire nome de rua. As autoridades locais já informaram que o assunto será pauta da próxima reunião do Conselho Municipal em Nador, dado o número de mensagens solicitando a homenagem. O local já até foi definido pelos fãs: a Avenida 80, rota importante próxima ao aeroporto de Nador, em Al Matar.

Naarden, Holanda

Nordin Amrabat nasceu em Naarden, na Holanda, e tentou a sorte nas escolinhas do Ajax, quando foi dispensado aos 13 anos por sofrer de um problema de desenvolvimento físico, a síndrome de Osgood-Schlatter. Desiludido, o pai sugeriu que o filho seguisse no futebol amador e se dedicasse aos estudos, e então o jovem batia sua bola no SB Huizen, trabalhava em restaurantes ou limpando a escola antes das aulas, e já pensava numa faculdade.

Mas na maioridade, começou a jogar bem pelo pequeno Omniworld e foi levado pelo VVV, novidade na primeira divisão do Campeonato Holandês. Na temporada 2006–07 foi bem e marcou 10 gols em 33 jogos. Foi contratado pelo PSV em tempos que vinha sendo chamado para atuar na seleção sub-21 da Holanda.

Foi jogar no Kayserispor, da Turquia, e em 2011 precisou definir uma seleção para seguir nas competições adultas: escolheu Marrocos, e foi um dos jogadores acima dos 23 anos a disputar a Olimpíada de Londres, em 2012. Titular com a camisa 9, jogou o empate contra Honduras, a derrota para o Japão e outra igualdade diante da Espanha, quando enfrentou De Gea, Azpilicueta, Alba, Isco e Koke, rivais na Copa seis anos depois. Teve uma partida de destaque frente aos europeus e passou a ser chamado de “O Tanque” pela imprensa de seu país.

Jogou também a Copa Africana de Nações de 2013, já como jogador do Galatasaray. Depois foi para o Málaga, e em 2015 chegou ao Watford, da Inglaterra. Numa partida da Premier League contra o Tottenham, em janeiro de 2017, sofreu uma lesão que o tirou da Copa Africana daquele ano. Depois, nas eliminatórias para o Mundial, foi peça importante do time que garantiu a vaga em novembro do ano passado ao vencer a Costa do Marfim por 2 a 0, fora de casa.

Watford, Inglaterra

Amrabat passou a última temporada emprestado ao Leganés, da Espanha, depois de dois anos no futebol inglês. E ao fim da primeira fase da Copa o Watford Observer publicou a opinião do jornalista local Harry Gray cujo título mostra a comoção sobre o marroquino após os dias de Rússia: “Manter Nordin Amrabat tem de ser a prioridade depois de uma Copa impressionante com Marrocos”.

O artigo elogia o desempenho tanto como ala quanto como ponta-direita e destaca a importância de Amrabat na liga espanhola, com 34 partidas e três gols. O time da região metropolitana de Madrid terminou no limite da zona de rebaixamento, mas com uma pontuação bem acima de La Coruña, Las Palmas e Málaga, os relegados à segunda divisão.

O artigo ainda destaca que os tempos mais artilheiros do marroquino foram no Málaga, que na época era dirigido por Javi Gracia, exatamente o atual treinador do Watford. O jornalista Leonardo Bertozzi, da ESPN, concorda que o destaque da trajetória do marroquino em clubes fica por conta da época no time do litoral espanhol. “É uma carreira que nunca decolou, embora prometesse. As duas primeiras temporadas no PSV foram boas, teve alguns lampejos na Turquia, mas entendo que os melhores momentos foram no Málaga. Ali passou a ser o ‘cara do time’, peça-chave, e mostrou essa característica de líder de grupo, principalmente na temporada 2014–15. Em geral, é uma carreira inconstante”.

A ver se o Chuck Norris da Copa da Rússia retoma o caminho na Inglaterra, segue a vida na Espanha ou acaba disputado como um importante guerreiro no mercado de verão. Aos 31 anos, parece ainda ter muito gás para comprar as brigas e listar bons lances naquele lado direito de campo que ele buscou para si em três jogos do Mundial, desfrutados como quem faz algo com o coração.


Puntero menorPublicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2018. O Puntero em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.

 

 


Como citar

PAULO JUNIOR, . Nordin Amrabat: Ele tocou o terror. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 38, 2020.