139.46

Nos guardando para quando 2021 chegar – sobre calendários e mortes

Verônica Toledo Ferreira de Carvalho, Renato Saldanha

Um pesadelo comum, diversas vezes já utilizado em histórias de terror, é o de estar preso no tempo, vivendo um mesmo dia ou período repetidamente. O sujeito vai dormir, depois de um dia cansativo e estressante e, ao acordar, descobre que voltou para a manhã anterior, e precisa passar por tudo aquilo outra vez, em um looping interminável. Podemos interpretar esse roteiro como uma crítica à falta de sentido, ao automatismo e alienação que marcam o cotidiano da maioria da população, trabalhadores e trabalhadoras em uma sociedade capitalista. Mas também serve para pensarmos sobre a importância do calendário, e de formas sociais de celebração da passagem do tempo.

Pois, em última instância, os dias são, de fato, todos iguais. Ainda mais se você morar, como a autora e autor desse texto, próximo à Linha do Equador, onde não é fácil perceber as consequências do movimento de translação da terra, e o verão é a única estação do ano. O que realmente muda com o decorrer do tempo somos nós. A cada dia que passa, nos aproximamos um pouco mais de nossa morte. A consciência desse destino incontornável provavelmente foi um dos motivos que levou a humanidade a se dedicar a contar o tempo. Se o fim de nossa jornada já é conhecido, medir o tempo em que estamos por aqui é uma forma de ter algum controle sobre o caminho. Sem isso, viveríamos petrificados, presos na urgência de um eterno presente, constantemente assombrados pela morte iminente. Ao estabelecer um calendário regular, com ciclos e períodos constantes e previsíveis, nos apropriamos desse tempo, e construímos uma brecha de liberdade, onde se torna possível projetar, planejar ou mesmo recordar. Como o Sísifo feliz de Camus, encontramos assim coragem para viver a vida, mesmo já conhecendo o seu fim.

O futebol também tem o seu calendário. Estabelecido por cartolas e marcado por interesses bem mais mesquinhos que aqueles que nortearam o trabalho dos antigos matemáticos sumérios, egípcios ou maias, como, aliás, ficou claro no retorno dos campeonatos estaduais, no primeiro semestre de 2020. Assim como Nick Hornby, no clássico livro Febre de Bola”, muitos torcedores e torcedoras certamente também se valem desse calendário para se guiar no tempo. Contam semanas por rodadas, e anos por temporadas. Um título ou uma grande frustração servem de referência para localizar acontecimentos pessoais na memória. Da mesma forma, uma vitória épica ou uma derrota dolorosa no domingo afeta mais nossa semana que o horóscopo ou a previsão do tempo.

Nos últimos 20 e poucos anos, nos acostumamos no Brasil com certa regularidade desse calendário. Campeonatos estaduais nos primeiros meses do ano, e Campeonato Brasileiro de maio a primeira semana de dezembro. Isso permitia que nas festas de fim de ano os comentários e gozações fossem feitos com algum distanciamento, evitando que as rusgas clubísticas azedassem a ceia em família. Já em janeiro era tempo de renovar as esperanças. Acompanhávamos a movimentação do mercado de transferências projetando glórias para o clube amado. De quebra, para aplacar a abstinência de futebol, nos agarrávamos à copinha como fumantes inveterados, que buscam bitucas perdidas para o último trago. E logo tudo recomeçava. De modo morno no início, pra só engrenar mesmo depois do carnaval, como em vários outros âmbitos de nossa vida.

Mas esse ano está diferente. A pandemia do novo coronavírus (que já não é tão “novo”, mas segue sendo letal) modificou profundamente o cotidiano da maioria das pessoas. Rostos cobertos, saudações com os cotovelos, distanciamento e enclausuramento, tempo prolongado e indiferenciado… Quantos aniversários ou datas importantes não puderam ser celebradas a contento? Quantas viagens foram canceladas? Quantos reencontros e planos foram adiados? No futebol, salvo pontuais exceções, o que temos é arquibancadas vazias, vitórias e títulos comemorados no sofá de casa, e jogos de 2020 se estendendo até o fim de fevereiro de 2021, atropelando até mesmo o carnaval (que, aliás, também já foi cancelado).

A consequência é um misto de tédio e esgotamento. Ninguém aguenta mais! Sem as celebrações, rituais e festas de fim de ano (a não ser para os convidados de Neymar e festas afins…) a impressão é que ainda estamos presos em 2020. O ciclo anterior não se fechou, e o novo não consegue se abrir. Até as tradicionais promessas e resoluções de fim de ano foram inevitavelmente precedidas de “se a pandemia deixar”, ou “quando tudo isso passar…”. No futebol, quem está na frente da tabela, ou disputando as finais que restam, quer que o campeonato acabe logo, com a confirmação do almejado título. Outros poucos ainda se agarram na calculadora, projetando recuperações e arrancadas milagrosas. A maioria, porém, já não espera mais muita coisa, e apenas aguarda o fim da temporada. Definitivamente, 2020 precisa acabar!

Internacional vence o Grêmio no Beira-Rio – Brasileirão/32ª rodada – e se isola na liderança. Foto: Ricardo Duarte/Internacional.

Morte a 2020!

Pode parecer estranho desejar a morte em um contexto onde já estamos cercados e saturados dela. Mas, talvez, a imortalidade seja a pior das maldições. Uma célula, que por algum motivo, deixa de morrer e passa a se reproduzir indefinidamente é um câncer. Na natureza, é a morte que nos livra da reprodução ilimitada do mesmo, permitindo a diversidade da vida. É, portanto, fundamental para a evolução, a ponto de o filósofo francês Jean Braudillard afirmar que “é preciso lutar contra a possibilidade de não morrermos”.

Obviamente, a morte desejada aqui não é a anunciada todas as noites pelos noticiários, aos milhares, exibida em gráficos e medidas em médias móveis. Essa morte reduzida a um número é produto direto da banalização da vida. A morte sem funeral, da vala comum da estatística, sem nome e nem rosto, é o par inseparável de nossos dias indiferenciados, em que mal lembramos se é terça-feira, domingo ou feriado. A marcação do tempo é uma necessidade social. Se estamos isolados, o calendário deixa de fazer sentido, e nos sentimos à deriva.

Foto: Reprodução

No nosso atual calendário, o primeiro mês do ano faz referência ao antigo deus romano Jano (ou Janus, em latim). Jano tem um rosto voltado para frente e outro para trás, o que lhe permite olhar ao mesmo tempo para o futuro e para o passado. Na mitologia romana, ele é o protetor das entradas e saídas, responsável por mudanças e transições. Esse ano, o que esperamos de Jano é o anúncio de um outro calendário, capaz de nos tirar dessa situação: O aguardado calendário de vacinação. Que ele possa vir o quanto antes para decretar a morte de 2020, e que possamos todas e todos ter um bom 2021. Seja lá quando ele, de fato, começar.


Como citar

CARVALHO, Verônica Toledo Ferreira de; SALDANHA, Renato. Nos guardando para quando 2021 chegar – sobre calendários e mortes. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 46, 2021.