02.1

Nós, os torcedores

Julyane Stanzioni

Final de Campeonato Paulista. Duas horas da tarde. Logo quando cheguei ao estádio do Morumbi, duas emoções distintas: minha primeira final como jornalista e, mesmo não sendo torcedora nem do Santos nem do São Caetano, ver toda aquela movimentação me emocionou.

Quando se fala em uma partida de futebol, logo vêm à mente uma figura que não podemos dissociar do espetáculo, capaz de ir do amor ao ódio em fração de segundos, de se afogar em lágrimas ou não se agüentar num sorriso, que se incorpora de uma tal maneira ao jogo que merecem destaque. Essa figura, que às vezes chega a ser folclórica, somos nós, torcedores. Digo nós, por que, ser jornalista não excluí a magia de torcer por um clube.

No livro Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano, em uma de suas primeiras crônicas do livro, um espaço em homenagem ao torcedor. Diz o autor:

(…) a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela da sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada. Aqui o torcedor agita o lenço, engole saliva, engole veneno, come o boné, sussurra preces e maldições, e de repente arrebenta a garganta numa ovação e salta feito pulga abraçando o desconhecido que grita gol ao seu lado (…)

E este trecho da crônica de Galeano, me faz relembrar o primeiro gol do Santos na final do Paulista. A bola no fundo do gol, a menos de 100 metros de onde eu e os outros jornalistas estávamos. Atrás de mim, uma arquibancada repleta de torcedores santistas. Aquele coro de milhares de pessoas gritando gol me arrepiou. Olhei para trás, alguns se abraçavam, outros começavam a chorar, outros estavam em êxtase. Fiquei ali, por alguns minutos, inebriada pelo “festar” daquelas pessoas.

E este é meu objeto de análise1 neste texto: a festa como processo de construção social, uma expressão da ‘cultura da bola’ e manifestação da sociedade. Esta afirmação pode ser confirmada em uma passagem do livro de Célio Nori, pesquisador do tema quando diz:

Na visão integradora do esporte na comunidade, é preciso assinalar o seu aspecto de ‘festa’, que implica a participação de outros atores nessa representação dramática que é o jogo esportivo (…) A presença dos jogos e competições nas festas rituais locais é, de fato, o que marca os esportes na sociedade.

Se pensarmos assim, a festa torna-se um agente de integração social e de auto-conhecimento, pois ela carrega em si uma enorme força associativa e em conseqüência, uma enorme força de produção de idéias sobe o mundo, sobe o país, sobre o outro, sobre si mesmo. É a manifestação do lúdico [cultura] que age e modifica um determinado meio. Essa inter-relação com a vida cotidiana acaba demonstrando que as diversas facetas da vida humana não estão separadas do conceito de jogo uma vez que a vida ‘real’ enriquece a vida ‘imaginária’2 e vice e versa.

Por esses aspectos, muitos autores acreditam que é por meio da representação que o indivíduo (torcedor) se projeta no outro (aqui no nosso caso, no jogador de futebol). Havendo, então, uma influência na formação do imaginário social. Janete Lever, historiadora, já em 1983 escreve: Times e jogadores, como pontos focais de interesse das pessoas pelo esporte, constituem uma fonte importante de símbolos comuns. Os atletas são atores no palco que outros existem e discutem.

Os “outros” a quem Lever se refere são os torcedores que, por se projetarem no ‘outro’, no jogador, tornam-se novos personagens do acontecimento, (re) significando, tornando-se co-protagonistas do jogo de futebol. É neste momento que a festa possui características peculiares, como um local e um tempo. Nesse momento de alegria e descontração, outras regas estão em jogo, são estabelecidas que não se rompe com as cotidianas.

Explico-me. Durante o ‘festar’ se estabelecem outras regras, sem quebra dos valores anteriores. A festa e o cotidiano são ‘momentos contínuos’, porém com características específicas. É uma zona de encontro e mediação, pois entre a rotina e a festa, tocamos o reino da liberdade e do essencialmente humano, assim, o ‘festejar’ pode ser considerado continuidade e descontinuidade do cotidiano.

Como confirma Edgar Morin as festas rompem com a repetição, a rotina, mas não rompe com o cotidiano, traduzindo-o:

“É importante revelar que na vida diária não é só dor, obrigação e restrição. O prazer e a ludicidade também estão presentes (…) Talvez a festa, ainda relacionada ao mundo cotidiano, seja um momento propício para que essa percepção seja acentuada e se propiciem comportamentos essenciais às relações humanas”.

Em contrapartida, há questões acerca da influência desse espaço/tempo no espectador. Mesmo com regras peculiares, será que as emoções proporcionadas por estas atividades miméticas são sempre controladas dentro do descontrole socialmente permitido? A esta indagação, Maria Cristina Rosa, pesquisadora desta relação festa/cultura nos responde fazendo referência à questão da excitação em que os espectadores se encontram durante um jogo.

“Na excitação séria, não mimética, as pessoas podem perder o autocontrole e tornar-se uma ameaça, tanto para si próprias como para os outros. A excitação mimética3, na perspectiva social e individual, desprovido de perigo, pode ter um efeito catártico. Mas a última forma pode transformar-se na primeira. Exemplo disso são as multidões excitadas do futebol (…) que se tornam impossíveis de dominar”.

O presente texto não pretende analisar os aspectos violentos da festa, mas, como na vida corrente, é importante mostrar a dualidade de sentimentos como razão e emoção, pois eles também estão presentes no ‘festejar’, podendo gerar conseqüências – a violência – impossíveis de se pré-determinar, num ato que serviria apenas como um congraçamento entre as pessoas4.

Todos esses conceitos com relação à questão do imaginário e da festa estão propriamente relacionados às manifestações culturais que aqui podemos nomeá-las como ‘cultura da bola’, na qual ela só existe através de seus inúmeros significados, e se constrói fazendo história. E Célio Nori tem uma excelente definição para o termo:

“Cultura não se restringe, todavia, a um conjunto de práticas, quaisquer que sejam elas, destituídas de sentido, propósito e direção. Para um pensador do porte de Michel Certau, só ocorre verdadeiramente cultura quando o agente cultural assume consciência das razões de sua ação e de sua criação.Esse agente cultural – mergulhando nos mais rotineiros da existência cotidiana – ascende ao nível de criador no exato momento em que age e, simultaneamente, evoca integralmente o sentido de agir”.

A paixão pelo futebol promove no espectador o estabelecimento de vínculos afetivos e simbólicos com outras pessoas com as quais há um compartilhar de experiências. No meu caso, um gol, uma comemoração, me fez pensar e ver o torcedor como algo poético.

[1] Aqui, de um modo sintetizado, já que o tema é amplo e capaz de ser tema de pesquisa para Mestrado e Doutorado.
[2] Entenda-se aqui que, vida real é a do dia-a-dia e vida imaginária os 90 minutos do jogo.
[3] Para Elias e Dunning, o termo mimético significa ‘os sentimentos dinamizados numa situação imaginária de uma atividade humana de lazer (e que) têm afinidades com os que são desencadeados em situações reais da vida.
[4] Para outros autores, essa dinâmica pode ser compreendida como se houvesse uma autorização para agir com um menos controle. É o que Featherstone (1995) chama de ‘desordem ordenada’.