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Nossa grama continua verde

Marco Sirangelo

Em outubro de 2015, a Federação Paulista de Futebol apresentou seu “Plano de Modernização”, formado por uma série de medidas institucionais voltadas, principalmente, para que a reputação da entidade, abalada devido aos escândalos de corrupção envolvendo seus principais executivos, fosse reestabelecida. Dentre as mudanças, destacaram-se a alteração do logo da entidade e também a preocupação em tornar seu principal produto, o Campeonato Paulista, mais atraente ao público e ao mercado.

De acordo com o publicitário responsável pela ação, o futebol europeu seria a grande inspiração para essas mudanças, que incluiria, assim como na Liga dos Campeões, um hino personalizado para o Paulistão. Passado algum tempo, ainda é possível afirmar que a FPF não goza de grande credibilidade administrativa, apesar de ter firmado alguns bons contratos de publicidade. Mesmo sendo considerado o campeonato estadual mais disputado do país, o Paulistão não foge à regra e possui baixo nível técnico, além de um regulamento confuso, equação fundamental para um torneio regional no Brasil.

Festa de torcedores do Corinthians no Estádio Morumbi, na segunda final do Campeonato Paulista de 1977. Foto: Divulgação/Corinthians.

A inevitável discussão sobre a continuidade desses campeonatos segue sendo empurrada com a barriga por todas as esferas que comandam o futebol, enquanto os torcedores sofrem tendo de acompanhar jogos que pouco valem durante quase um terço do ano. A abstinência por futebol no início do ano é um fator que explica a baixa, mas em alguns casos ainda relevante, presença de público nos estádios. Não somente, os torcedores estão indiretamente expostos a medidas comerciais de baixíssimo impacto, tais como o já citado hino do Paulistão, que não contente em ser extremamente pegajoso, tem pouquíssima criatividade, como podemos ver pelo refrão apresentado abaixo:

Essa é a minha alegria
Essa é minha torcida
Esse é o meu time
Essa é minha vida
Esse é meu jogo
FUTEBOL!

Exemplos como este não faltam. Ideias como os concursos de cheerleaders realizados durante anos nos intervalos das partidas são comuns às Federações e à CBF. São pensadas de maneira a engajarem e atraírem mais o público que frequenta os estádios. Porém, muitas dessas ações possuem inspiração em outros países ou outras modalidades que não necessariamente o futebol e dificilmente caem no gosto do torcedor.

Tais medidas podem funcionar mundo afora, mas foram pensadas e adaptadas para um determinado público específico. Ainda pegando as cheerleaders como exemplo, é uma atividade tradicional extremamente ligada aos EUA, surgida primeiramente no ambiente dos esportes universitários e passada adiante para outras modalidades. Simplesmente importar esse tipo de ideia é o comportamento padrão dos cartolas, que demonstram pouca preocupação em valorizar as muitas peculiaridades inerentes ao futebol brasileiro.

Enquanto isso, o extenso processo de profissionalização do futebol europeu, com fortes avanços principalmente após a promulgação da Lei Bosman e dos cada vez mais vantajosos acordos de televisão, ocasionou um aumento considerável nas receitas de bilheteria dos clubes. Os ingressos se tornaram mais caros, os estádios estão mais modernos, mais cheios, porém muito mais silenciosos do que eram a poucas décadas atrás. A Bundesliga é uma exceção, mas grande parte se deve ao esforço da liga em manter os preços dos bilhetes acessíveis aos torcedores mais participativos. Os clubes alemães entendem que este torcedor participativo, sensível a mudanças bruscas de preço, são mais valiosos do que aqueles que podem pagar mais. É uma lógica não econômica, mas característica histórica fundamental do futebol.

Após a final da última Copa Libertadores, realizada em Madrid, foi comum a alguns veículos de imprensa como o Marca, a Gazzetta dello Sport e a BBC, realizarem discussões sobre como a atmosfera nesse jogo foi mais interessante em relação ao que os europeus estão acostumados. Esse é um debate pertinente e cada vez mais presente nas ligas mais ricas do mundo, como a inglesa e a espanhola, que aos poucos começam a colocar em prática algumas das reivindicações de torcedores mais participativos que buscam deixar os estádios mais animados, assim como ocorre na Alemanha e, principalmente, na América do Sul.

Por incrível que pareça, o clássico argentino em Madrid, síntese maior da incapacidade sul-americana em organizar uma grande final, valorizou o futebol que se pratica por aqui, pelo menos aos olhos dos europeus. E os responsáveis por essa valorização são os mesmos causadores de problema — os torcedores. Temos aqui um ponto de partida. Em um momento em que não é possível competir com as ligas europeias em termos de qualidade de jogo, o grande trunfo comercial do futebol sul americano está na atmosfera de seus estádios.

Uma vez que tanto a Conmebol, quanto às Confederações e Federações parecem realizar mais esforços buscando maiores retornos financeiros e comerciais do que em realmente melhorar a qualidade do futebol, há no momento uma oportunidade interessante. Além da imagem positiva que a final em Madrid gerou, recentemente a Rússia demonstrou grande interesse em sediar a Recopa Sul-americana, assim como os EUA vêm tentando seduzir a Conmebol oferecendo altas quantias de premiação para que a Copa América não fique restrita apenas a América do Sul. Esse raro momento de alta no mercado internacional pode ser melhor explicado pelo crescente interesse estrangeiro no engajamento dos torcedores do que na qualidade dos jogos em si.

Festa de torcedores do Palmeiras, ao redor do Allianz Parque, na comemoração do centenário do clube, em 2014. Foto: Futebol de Campo.

Porém, é evidente que a violência configura um problema a ser combatido. Uma atmosfera de estádio mais quente representa um risco mais alto e deve ser melhor controlado pelas autoridades. Porém, no Brasil, a política de combate à violência no futebol é ultrapassada e ineficiente, pune mais os clubes do que seus torcedores violentos. Em São Paulo, as soluções encontradas, e que persistem há quase 30 anos, são sempre relacionadas com restrição de atmosfera. Proibição a bandeiras, instrumentos musicais e pirotecnia são regra, assim como políticas de torcida única e cercos arbitrários, como o visto nos arredores do Allianz Parque. Assim como defende o sociólogo Maurício Murad, somente através de políticas públicas semelhantes ao realizado na Inglaterra com o Taylor Report é que o problema da violência pode ser combatido, caso contrário estamos “enxugando gelo”.

No século XXI, o grande diferencial do futebol brasileiro e sul-americano em relação ao europeu está fora do gramado e precisa ser estimulado. Ao invés de importarem ações de marketing sem qualquer critério e bom gosto, tais como hinos que remetem à Champions League, os dirigentes deveriam focar em valorizar as características intrínsecas que historicamente moldaram nosso futebol, como o comportamento festivo dos torcedores. Uma atmosfera de estádio mais alegre não somente agrada aos torcedores, como representa um ativo comercial de enorme potencial. Diminuir as restrições arbitrárias e combater a violência fazendo uso de políticas que efetivamente funcionam são o caminho para que nosso futebol não se torne cada vez mais subdesenvolvido.