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Notas exclusivas sobre NC5 CONTRA A LEI DO IMPEDIMENTO

Lucio Branco

Em certa medida, não é errado dizer que NC5 contra a lei do impedimento é uma espécie de extensão em curta-metragem de Barba, Cabelo & Bigode. Sem o longa de origem não haveria o curta de 24 minutos (23m59, para ser mais preciso) tal como é. A começar pela pesquisa do material iconográfico e de arquivo filmado, principalmente. Sobraram coisas relevantes que não foram aproveitadas no longa, assim como parte do que foi captado especificamente para ele. Filmei eu mesmo o material novo. Mas a ideia, desde sempre, era a de reaproveitar o que já tinha sido utilizado no Barba. Só que, agora, a partir de uma outra abordagem.

Sobre o que o filme trata creio que a sinopse dele esclarece: “NC5 contra a lei do impedimento é um solilóquio em curta-metragem que traz o craque Nei Conceição enfileirando aforismos nos quais abundam o trocadilho certeiro, a sacação ímpar e a nítida clarividência, a comprovar que seu Gênio transcende as quatro linhas. Sob o mote da resistência ao offside, símbolo oposto à sua concepção de futebol e de vida, Nei conclui com o único truísmo possível: ‘O segredo é meter bronca!’”.

Em princípio, a ideia era fazer, em parte, uma apropriação paródica, altamente irônica, de um filão de propaganda batido, que é a mais pura falcatrua. Me refiro àquela estética de comercial onde o craque celebridade, quase sempre num close em P&B, levanta o rosto suado, com uma expressão grave, e encara a câmera em slow motion para discorrer, em off, sobre esforço, superação, meritocracia, “ninguém sabe pelo que eu passei para chegar aqui” etc. Queria sacanear esse clichê artificialmente estilizado para valorizar justamente a contramão discursiva a esses valores, a partir de uma referência de autenticidade tão característica como é o Nei Conceição. À certa altura do NC5, ele afirma: “Desconfio que tem mais mérito em vencer na porrinha do que em ‘vencer na vida’”. E, também: “Mediocridade dá medalha”. Ouvir falas assim enquanto se vê o close do rosto maquiado, suado e sério do Nei — me pareceu –, teria um efeito realmente cômico. Admito que ri sozinho algumas vezes, visualizando a cena. Acabei abrindo mão da ideia pela dificuldade de se ter uma produção tecnicamente capaz de reproduzir o clichê (cenário, luz, fotografia etc.). Mas, principalmente, porque o que o Nei tem de espontâneo é muito maior (e, eventualmente, até mais engraçado) do que aquilo que eu previamente poderia elaborar no roteiro, nesse sentido humorístico — por melhor que ficasse, no papel e, posteriormente, na execução.

Não demorei a concluir que não deveria prescindir da coisa real, e pus de lado a paródia explícita. Optei por uma sugestão crítica mais mordaz contra essa retórica enganosa de “acredite nos seus sonhos” e outras falácias do gênero. Bastou gravar em separado a voz do Nei falando frases que são a antítese dessa empulhação do senso comum liberal aplicado ao futebol. E, depois, filmar ele andando por Paquetá também serviu como um registro cru muito mais eloquente.

Outra coisa: ainda nesse campo da apropriação irônica, não é difícil perceber que “NC5” do título faz menção a marcas como “CR7” ou “R9”.

Na era da pós-verdade, é mais que necessário ficar com a verdade bruta, sem maquiagem, do Nei Conceição. A rigor, isso deveria valer para qualquer época.

A narrativa em primeira pessoa é auxiliada pela presença de uma iconografia do rosto dele encarando a lente (tanto nas fotos antigas como nas imagens filmadas atuais), sempre com ele refletindo sobre a existência, a efemeridade da vida, a natureza, o tempo, a morte, o divino, a moral, o dinheiro, a hierarquia social, a solidariedade, e mais outros tópicos…

O Nei ter calçado chuteiras foi apenas uma alternativa dentre tantas no universo da expressão artística. E ele domina várias porque é, sobretudo, um pensador na acepção plena do termo. Só não demonstra muito isso porque, em oposição à tendência dominante de hoje, sempre fugiu da exposição. Nunca tirou uma selfie, nem celular tem. E é sabiamente reservado, porque conhece os efeitos nocivos da cultura de celebridade sobre o atleta profissional. O NC5 vai possibilitar um contato mais direto com essa faceta dele como pensador da bola e da vida. Coisas que ele nunca disse em entrevistas, por exemplo, estão no filme. O que não surpreende, porque, até hoje, o Nei nunca fala mais do que julga o suficiente aos repórteres. Sobre a imprensa, ele conclui, numa das falas do filme: “Tem repórter esportivo que não é nada esportivo. O cara fica na beira do campo querendo te empurrar pra beira do abismo”. Acho que isso diz tudo sobre o tema.

Retomar o “Bigode”, agora num curta-metragem, significa, antes de tudo, dar continuidade a um caminho certo, e no qual ele é o único guia. Do ponto de vista da reflexão a fundo a partir do futebol, o Nei é definitivamente um dos poucos jogadores do Brasil a ter algo relevante a dizer. De certa forma, até me dói dizer isso. Mas é um fato. Outros já morreram: Zizinho, Nilton Santos, Didi, Sócrates… E, além do Afonsinho, do Paulo Cézar Caju, do Wladimir, temos poucos outros mais atuantes no campo da opinião livre.

Fazer mais um filme com o Nei exigiu um outro formato, com outra abordagem. A sinopse não deixa dúvida: trata-se de um monólogo interior em curta-metragem, conduzido pela presença de material de arquivo raro. O Nei divaga sobre uma série de questões de dentro e de fora do futebol enquanto as associações são feitas com as imagens de craques sobrenaturais em ação: Garrincha, Ademir da Guia, Didi… E, claro, do próprio protagonista/narrador, pelo Botafogo.

Faço questão de ressaltar a evidente associação entre o longa de 2016 e o curta de agora através do trabalho do mesmo montador: Claudio Tammela. Ele já era familiarizado com o Nei e lembrava de alguns dos materiais de arquivo que usamos no longa. Isso não foi pouco para chegarmos onde chegamos. O Claudio foi o meu principal colaborador criativo no longa e no curta.

Há uma injustiça na desmemória que cerca o nome do Nei Conceição. Ele é um personagem pouco lembrado na historiografia do futebol brasileiro. Abordei isso num perfil que está na versão em livro do Barba, Cabelo & Bigode, publicado originalmente no Museu da Pelada, intitulado “O craque que não estava lá”. Trato também, ali, da indiferença do próprio “NC5” com o fato de não ser assim tão lembrado, oficialmente falando… É um ostracismo que costuma prejudicar a avaliação correta sobre o seu talento. Algo muito comum ao processo de estigmatização da imagem social de certos jogadores cuja conduta é mais vigiada que a do restante da classe.

É um fenômeno infelizmente longe de perder força, um reflexo de uma sociedade como a nossa, cada vez mais disciplinarizada, que fabrica o seu contingente de “marginais” para se manter funcionando do modo como funciona. Dada a sua imensa visibilidade midiática, o campo de futebol e o seu entorno são uma arena privilegiada de “confirmação” calculada dessa cultura discriminatória. Os jogadores têm sua imagem exposta todos os dias do ano, estão sempre no centro da opinião pública. Imagina isso sob uma ditadura militar que tinha, então, um projeto específico de controle político e comportamental para a modalidade… O atleta era cobrado por segmentos da torcida e da imprensa a, pelo menos, cultivar a reputação de bom moço. Um padrão evidentemente não seguido por nenhum torcedor ou jornalista, diga-se.

O Nei Conceição nunca correspondeu a essa cobrança hipócrita. Já não se dispunha a isso desde antes de ingressar no juvenil do Botafogo. Há uma típica punição contra jogadores estigmatizados no Brasil: quando não são lembrados apenas pelos seus “desvios”, são calculadamente esquecidos. É uma tradição. O próprio Nei não cultiva ressentimento algum com isso. O que dá uma boa medida de quem ele é, do que é feita a sua personalidade. Quem o viu jogar sabe que ele seria um atleta dos mais bem cotados no atual mercado globalizado da bola. Só que, muito provavelmente, nem se esforçaria tanto para “estar à altura” dessa condição. Corresponder a expectativas que, a rigor, são cobranças, não é a praia dele. Definitivamente, o Nei não se importa com o que dizem dele, para o bem ou para o mal — dele próprio, inclusive. Ele encara isso sem medo.

O que o Nei quer é viver.

Além do citado Museu da Pelada, há mais cinco produtores associados do NC5 contra a lei do impedimento: Banda Filmes, Caverna Mamô Estúdio, Cavídeo, Mau Humor e Sinai Sganzerla. Calculo que essa será uma tendência mais frequente na atual etapa da produção do audiovisual no Brasil. Pelo visto, a solução deverá passar, também, por recorrer a parcerias também de fora dele para viabilizar projetos de baixo orçamento como este. No caso do NC5, a produção associada foi imprescindível para que se pudesse viabilizar a própria existência do filme. Se fosse depender exclusivamente de mim, ele não sairia.

O período em que vivemos é mais do que duro para o cinema. É proibitivo mesmo. Quando falo proibitivo, quero dizer censório. Não fico apenas na dimensão econômica do termo, o que já é muito, já que a censura se dá através do controle econômico sobre a atividade de milhares de profissionais que já estão encarando o processo de desemprego galopante — o qual, ao que tudo indica, não vai parar tão cedo. A marcha acelerada do país rumo ao atraso já atropelou especificamente o setor. Isso era parte do projeto político que se instituiu por aqui nos últimos três anos. Agora, evidentemente, a coisa se agravou. O atual momento é da destruição das conquistas civilizatórias básicas que, bem ou mal, ainda tínhamos. (Enquanto afirmo isso, a Amazônia é consumida pelo fogo — nada poderia ser mais simbólico e real.)

O lugar reservado à cultura nesse projeto é prioritário: ela sempre foi um dos primeiros alvos. O que não surpreende, porque isso é a praxe de governos de exceção. No nosso caso, não é nada que já não viesse sendo anunciado nos últimos tempos. Confesso que, às vezes, ainda me choco com um ou outro colega que diz acreditar que essa situação seja temporária, que vá ser revertida em breve. O que está se desenhando para — ou melhor, contra — a ANCINE, por exemplo, é criminoso no sentido mais hediondo do termo. E é trágico que não se consiga deter esse retrocesso. Futuramente, a História vai registrar que medidas como essa, e tantas outras, marcaram um dos períodos mais tenebrosos do Brasil. Quem viver, lerá. Mas também deixemos de ilusão: talvez venha a se praticar o mesmo revisionismo burro e mau-caráter que se faz, hoje, em relação à ditadura militar. Por mim, sigo com filmes que batem de frente contra o horror provocado por essa canalha. Não se pode esmorecer, por pior que seja o quadro geral.

Quero muito dar prosseguimento ao A8 (nome provisório), curta protagonizado pelo Afonsinho, e similar ao NC5. Ou, se preferir, um filme “gêmeo social” do outro. (Esta é a expressão que o “A8” usa para definir a sua relação de mais de meio século com o “NC5”.) Parto do mesmo princípio narrativo de depoimento em primeira pessoa do protagonista. O roteiro já está pronto, e traz uma série de ponderações do Afonsinho sobre o mundo da bola e a vida. Já gravei o áudio desse depoimento dele. E filmei novos planos, também. Já tenho uma nova leva de fotos do acervo pessoal dele, de cuja existência eu nem desconfiava. Esse acervo não tem fim, assim como a generosidade e a confiança do dono em me franquear a consulta.

Sobre o projeto PC11 contra a lei da mordaça, com o Caju, que idealizei originalmente junto com os outros dois curtas, deixo para pensar nele mais adiante. Uma coisa de cada vez. E muita conversa, antes.

O convívio com o Nei desde a pré-produção do Barba, Cabelo & Bigode permitiu captar ao vivo, sem câmera ou equipamento de som, algo considerável da essência dele. E que, indiferente às minhas intenções cinematográficas, mantém intacta sua reserva de mistério. Não é outra a matéria-prima do curta. Muito do que o Nei fala no NC5 teve origem em mesas de bar ou em deslocamentos entre bares (numa fala do filme, ele se assume como um peripatético). Algumas vezes, banquei o taquígrafo e anotei alguns dos aforismos que ele costuma proferir. Mas nem sempre foi assim… Uma boa quantidade se perdeu porque não tinha papel à mão. E também porque, na ocasião, o meu estado etílico não colaborou no registro desse conteúdo para a eternidade. Muitas das falas do filme o Nei nem lembra. O que é natural, porque a memória trai. Ainda mais nas condições em que ele teve que fazer ela funcionar, depois desses encontros em que o desencontro costuma comparecer também.

O que importa dizer é que NC5 contra a lei do impedimento é um filme reflexivo praticamente do início ao fim. “Praticamente” porque os créditos de abertura trazem um breve diálogo do Nei com um parceiro sambista, gravado numa roda em Paquetá, onde o colóquio filosófico não era exatamente o pretexto do evento.

Quando correm os créditos finais, é revelada parte da origem do texto que compõe o roteiro do filme: uma entrevista informal que fiz com o Nei durante uma caminhada, também em Paquetá, na qual ele responde com rara sagacidade questões metafísicas sem relação — pelo menos direta — com o universo do futebol. Depois, pedi para ele repetir as frases, numa gravação de áudio com melhores condições técnicas e ambientes. E, se fosse possível, até com outra dicção. Para maior rendimento e funcionalidade do roteiro, tive que reescrever uma palavra ou outra, mas sem comprometer o significado central do discurso. Enfim, eu e o Nei Conceição assinamos juntos o argumento do curta.

Sem dúvida, foi essa circunstância inicial de conversa espontânea que forneceu a base para estruturar a narrativa em primeira pessoa do NC5. Tudo feito sob a inspiração de um enunciado presente no filme que mereceu transcrição na sinopse e no cartaz: “O segredo é meter bronca!”.