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Notas sobre o clubismo

Gustavo Andrada Bandeira

Este texto nasce da forma que eu mais gosto: juntando diálogos com queridos/as colegas que se tornaram amigos/as ao longo de nosso engajamento político e acadêmico que se somou a experiência de torcedor de futebol. A querida Marina de Mattos Dantas me convidou para escrevermos um pequeno texto sobre a participação dos torcedores de futebol nas manifestações pró-democracia. A primeira parte do texto abordará alguns dos elementos que consigo pensar ou problematizar na construção do que estamos chamando de torcedores antifascistas. Generosamente, meu amigo Marcelo Carvalho me ofereceu, novamente, espaço em seu relatório anual da discriminação produzido pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Ali, optei por escrever sobre privilégio. Na segunda parte do texto lanço algumas indagações para pensar como transitamos por lugares de privilégio no ambiente futebolístico.

Simoni Lahud Guedes. Foto: Ivana Curi.

Aparentemente distantes, essas duas interlocuções me fazem voltar para um conceito absolutamente caro nos estudos sobre torcedores e torcidas de futebol: o clubismo. Em live realizada no último dia 17 de julho pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) que homenageava nossa fundadora dos estudos de futebol – de todos nós – Simoni Lahud Guedes, Luiz Henrique de Toledo afirmou, em palavras melhores do que essas, que no trabalho de Simoni as emoções ocupavam um lugar teórico e metodológico. Novamente, me parece que o clubismo é central para essas emoções. As nossas, quase todos torcedores de futebol: eu, gremista, Marina, do Galo, Leda, vascaína, Simoni, flamenguista… e a dos nossos interlocutores.

O clubismo é definido por Arlei Damo como: “um sistema de representação estruturado, de forma que o indivíduo, ao tornar-se torcedor, é capturado por códigos que orientam seu comportamento e moldam a sensibilidade” (2014b, p. 39). É possível inferir que as percepções ética, estética e moral são atravessadas por essa comunidade de sentimento. Christian Bromberger (2001) nos lembra que durante a realização de uma partida de futebol sentimos as emoções de uma vida inteira: felicidade, sofrimento, ódio, angústia, admiração e sentimento de injustiça. Mas para isso acontecer temos que tomar parte, temos que pertencer a um clube ou time ou torcida. Deslocar o eles para o nós. Esse pertencimento clubístico “articula um sistema que movimenta as emoções a partir da relação pendular entre identidades (nós) e alteridades (eles/outros)” (DAMO, 2014a, p. 50). Nessa associação ao clubismo o sujeito individual não some, mas ele se desloca. Esse pertencimento “é uma espécie de máscara e implica uma transição de uma personagem a outra. Particularmente, implica a identificação de um indivíduo a dada coletividade e, portanto, uma transubstancialização de indivíduo a persona” (Ibidem, p. 17).

Volto agora para o diálogo que realizei com minha amiga Marina. Ali questionamos um pouco o que seria essa lógica, dentre outras, das torcidas antifascistas, nesse movimento de certo antifascismo identitário tentando mostrar algumas de suas produtividades e, também, alguns de seus limites. Em Belo Horizonte, Marina me contou que as torcidas do Galo, do América e do Cruzeiro se juntaram nas manifestações. Essa é uma relação interessante, os coletivos, inicialmente, não se descrevem como torcedores antifascistas, mas seus nomes geralmente se associam a uma marca identitária clubística e o antifascismo complementa essa vinculação ao clube. Pensar quem é substantivo e quem é adjetivo nessa definição poderia nos dar algumas pistas. Me parece que se o substantivo for antifascista, os diferentes clubes são pequenas variações que em momentos de enfrentamentos políticos facilmente seriam diminuídos. Mas antifascista também pode ser o adjetivo.

Parece ser esse o caso das torcidas em Porto Alegre. Lembro que quando conheci a fanpage da Grêmio Antifascista me chamou atenção que naquele espaço, o clubismo parecia não ocupar o mesmo protagonismo que em outros agrupamentos torcedores. Uma ação progressista realizada por torcedores do rival Internacional era elogiada assim como ações reacionárias partindo de torcedores do Grêmio eram criticadas. As Antifas de Grêmio e Internacional, inclusive dividiram uma coluna em um jornal da região metropolitana de Porto Alegre. Na metade de 2019 em diante, porém, essas atividades com os dois coletivos pareciam mais difíceis. Apesar de ter convidado com quatro meses de antecedência e ter recebido a confirmação duas vezes, a Antifa do Internacional não quis participar do Seminário Pedagogias do Futebol e do Torcer que o Grupo de Estudos em Educação e Relações de Gênero (Geerge) realizou em julho daquele ano no Museu da UFRGS. Em novembro, no parque Gigante, ao lado do estádio Beira-Rio, foi organizado pelo movimento O Povo do Clube, de torcedores do Internacional, o ótimo I Encontro Nacional Direito do Torcer. Um ônibus vindo do Sudeste trouxe torcedores do Vasco, do Flamengo, Fluminense, Palmeiras, Corinthians, São Paulo… Do Nordeste tínhamos representantes do Vitória, do Botafogo-PB, Santa Cruz (isso sem contar aqueles que a memória me trai e não lembro enquanto escrevo essas linhas). Apesar disso, o único gremista a participar do evento fui eu e a convite do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Em junho de 2020 após os atos de rua, a Grêmio Antifascista junto com a Tribuna 77 (outra antifa de torcedores do Grêmio), Grená Antifascista e Juventude Antifascista fizeram uma nota explicativa do motivo de estarem enfrentando o atual Governo Federal. A ausência de qualquer coletivo de colorados chama a atenção. Uma última informação antes de encerrar esse parágrafo, os coletivos feministas de coloradas e gremistas conseguem dialogar com muito mais desenvoltura que os demais agrupamentos. Me parece que temos um importante problema de gênero que ficará para um outro momento.

Para encerrar essa parte do texto, gostaria de explicitar que não se trata de medir se uma torcida é ou não é antifascista ou, ainda menos, tentar passar um conjunto de medidas que deveriam ser tomados por esses coletivos. O objetivo até aqui foi mostrar de que maneira esse encontro identitário acaba sendo produzido ao menos em um contexto específico e com as informações que consigo acessar nesse momento. Ele carrega produtividades e limites. Pensar os limites serve para aumentar a possibilidade de encontros e de diálogos.

Seguindo no clubismo, mas iniciando uma nova conversa, gostaria de pensar nos lugares de privilégios dos torcedores de futebol e do clubismo. Com maior ou menor êxito, cumpro com certa desenvoltura os lugares normativos de nossa cultura. Sou homem, cisgênero, heterossexual, branco, de classe média, urbano… Minha construção masculina sempre me pareceu mais evidente que minha construção de raça/cor. A construção normativa da branquitude (ao menos a minha) foi ainda mais silenciosa que a construção normativa da masculinidade. Em diálogos com Marcelo Carvalho do Observatório da Discriminação Racial no Futebol comentei algumas vezes que ele tinha muito estômago para conversar com todos os atores que ele conversa. Enquanto faço minha militância do meu confortável lugar acadêmico (não é necessariamente menos, mas tem suas peculiaridades), Marcelo se dispõe a dialogar com atores do futebol profissional espetacularizado que me parecem pouco confiáveis e que, como eu posso, evito me relacionar com elas. O que eu chamei de “estômago” no Marcelo, aprendi em sucessivos espaços, na verdade, era o meu privilégio branco. Eu posso escolher não me relacionar com alguns atores. Por mais simpático e, mesmo, militante antirracista nesse cenário, as minhas vivências ainda são muito mais confortáveis que as dele. As minhas escolhas ainda parecem muito mais amplas. Reconhecer esse privilégio nos obriga a reforçar nosso compromisso ético e de atenção para não tomarmos esses lugares como dados e tentarmos construir alguns espaços como mais plurais e possíveis para um maior número de pessoas

Essa relação de privilégio não se estabelece pessoalmente apenas. Muitos torcedores que se aproximam de minhas características acabam usufruindo das condições normativas do torcer. Durante minha investigação de doutorado questionava torcedores homens, cisgêneros, heterossexuais, brancos… sobre a possibilidade da existência de uma torcida homossexual, muito inspirado no reaparecimento da Coligay, naquele momento, no museu do Grêmio. O argumento para negar a possibilidade dessa experiência era novamente o clubismo, naquele contexto transformado em gremismo. Esse gremismo deveria unificar a todos e todas que estivessem no estádio. Uma das afirmações mais impactantes para pensar o privilégio era quando torcedores afirmavam que não era necessária a existência de uma torcida homossexual, os homossexuais seriam bem-vindos e poderiam torcer “conosco”. Aqui a operação nós e eles define bastante bem quem cabe e quem não cabe nesse lugar. Um sujeito que se autoriza a incorporar o clube ou a torcida em si e convida os demais a se juntarem a ele certamente andou em muitos lugares de privilégio. Somente esses lugares de privilégio permitem entender a si como o mesmo, permitindo aos demais poucos espaços além da diferença e da diversidade. O privilégio acaba sendo tão naturalizado que esses sujeitos se autorizam a “generosamente” convidar esses diversos ou diferentes a participarem desse espaço “conosco”.

Grêmio x Internacional pelo Campeonato Gaúcho 2020 (22/07/20). Foto: Ricardo Duarte/SC Internacional (Fonte: Fotos Públicas)

Termino essas notas sobre o clubismo com uma angústia absolutamente pessoal. Em pouco mais de 48 horas do momento em que estou finalizando essa escrita, o campeonato Gaúcho 2020 retornará. Um absurdo, uma barbaridade como dizemos em “gaúcho”. Com uma pessoa morta, o treinador do meu time, o sr. Fora Renato Portaluppi, sugeriu fazer greve. Com aproximadamente oitenta mil vítimas fatais enfrentaremos nosso principal rival em Caxias do Sul, cidade da Serra Gaúcha. Nem mesmo o prefeito de Porto Alegre, de quem tenho discordâncias políticas muito fortes, foi irresponsável o suficiente para autorizar a realização da partida em nossa cidade. Não temos direito a público, não temos direito aos nossos estádios, mas colocar jogadores, equipe de arbitragem e profissionais de imprensa em risco parece não ser um problema para produzirmos um programa de televisão. A Covid-19 parece ter dado o último passo para entendermos que no cenário do futebol de espetáculo contemporâneo não somos nada mais do que um programa de televisão.

Mas o que este, até então, último parágrafo faz nesse texto sobre clubismo? Mesmo sendo frontalmente contrário a volta do futebol, não apenas assistirei a partida como torcerei para o Grêmio. Não sei se é meu gremismo que me constitui e me obriga a fazê-lo ou se certa crença na minha capacidade de separar o jogo de noventa minutos dos problemas que a própria realização desse jogo de noventa minutos provoca. Essa contraditória posição, curiosamente, não me causa angústia ou dilema pessoal. Assumo a contradição, reforço que o ideal era que o jogo não acontecesse e (é um “e” e não um “mas”) espero que o Grêmio vença.

Espero que essa contradição atravesse nossas construções clubísticas como um todo. Quase sempre é nos espaços de não homogeneidade que temos possibilidade de ampliar possibilidades de pensar, de agir, de participar…

 

Referências

BROMBERGER, Christian. Significaciones de la pasión popular por los clubes de fútbol. Buenos Aires: Libros del Rojas, 2001.

DAMO, Arlei Sander. Futebol, engajamento e emoção.  In: HELAL, Ronaldo. AMARO, Fausto. Esporte e mídia: novas perspectivas. A influência da obra de Hans Ulrich Gumbrecht. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014a, p.49-94.

DAMO, Arlei Sander. O espetáculo das identidades e das alteridades – As lutas pelo reconhecimento no espectro do clubismo brasileiro. In: CAMPOS, Flavio de; ALFONSI, Daniela. (Orgs.). Futebol objeto das ciências humanas. São Paulo: Leya, 2014b, p. 23-55.