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O 2020 do Santos – surpresas, decepções e tragédias

Pedro Zan, Felippe Guimarães

Lá se vai 2020. Com certeza o ano mais conturbado de nossas vidas, marcado por uma pandemia que parou o mundo, trancou as pessoas em casa, gerou medo e pânico e levou milhões de vidas em todo o planeta. O ano de 2020 ficará marcado na vida de todos, inclusive para a torcida santista. Para tratar um pouco do futebol neste ano catastrófico, os dois santistas da coluna decidiram se juntar para fazer um pequeno balanço do 2020 alvinegro (temporada que irá se encerrar definitivamente apenas em fevereiro), tratando das campanhas nos campeonatos disputados e, claro, do tumultuado extra-campo do clube que não dá paz a seus torcedores.

Campeonato Paulista

Começando com o campeonato estadual, o time da Vila teve um desempenho bem abaixo do esperado. Com o início do trabalho do português Jesualdo Ferreira, o Santos abandonou a competição ainda nas quartas de final, sendo batido pela Ponte Preta por 3 a 1 em plena Vila Belmiro. Sem mostrar bom futebol durante todo o campeonato, o Alvinegro terminou a primeira fase da competição com 44% de aproveitamento (4 vitórias, 4 empates e 4 derrotas), o que serviu para ter apenas a 9ª melhor campanha, e sem vencer nenhum clássico, o que se repetiu durante todo ano de 2020. Por conta disso, a diretoria decidiu por demitir Jesualdo, mesmo com apenas 15 jogos ao comando do time e com uma parada gigantesca causada pela pandemia.

Campeonato Brasileiro

Já na principal competição nacional, Cuca foi escolhido para assumir o time e, até o momento, é o 8º colocado com 39 pontos. Um desempenho de 48,15% de aproveitamento (10 vitórias, 9 empates e 8 derrotas). É verdade também que o desempenho em campo é melhor do que na gestão de Jesualdo, porém fica uma sensação de que o Santos poderia mais. A perda de alguns jogos chave pode culminar na não classificação da equipe para a Libertadores de 2021, caso o Peixe não conquiste o título da edição de 2020. As derrotas diante de Vasco e Atlético-GO, ambas por 1 a 0, podem sim ser consideradas pontos perdidos, assim como os dois empates por 1 a 1 contra o Red Bull Bragantino. Só nessas partidas foram 10 pontos desperdiçados, o que colocaria o Glorioso na 4ª colocação no Brasileirão com 49 pontos. Ainda é possível que o Santos chegue na zona de classificação para a competição sul-americana. Entretanto, precisamos ligar um alerta para tal e não focarmos apenas na Libertadores 2020.

Cuca assumiu como treinador do Santos. Foto: Ivan Storti/Santos FC.

Copa do Brasil

Esse é o pior desempenho do clube na temporada: eliminado no primeiro confronto diante do Ceará nas oitavas de final da competição, o Peixe saiu sem marcar um gol sequer com um empate por 0 a 0 na Vila e uma derrota por 1 a 0 no Castelão – com um golaço de bicicleta marcado por Vina. O Santos jogou mal ambos os jogos e o Ceará mereceu a vaga. É verdade também que o elenco do time é reduzido e composto em grande parte por jovens garotos da base e provavelmente não aguentaria a disputa de três grandes competições simultâneas durante o ano, mas não é por isso que nós torcedores devemos tolerar desempenhos ruins como esse da Copa do Brasil.

Libertadores

Aqui a maior surpresa e felicidade do santista durante o ano de 2020: com um desempenho surpreendente, o Santos está nas semifinais da competição e enfrentará o Boca Juniors em busca da sonhada vaga na final. Terminando a primeira fase invicto e líder do modesto grupo  G, deixou pra trás Delfín (Equador), Defensa y Justicia (Argentina) e Olimpia (Paraguai) e se classificou com 88,8% de aproveitamento (5 vitórias e 1 empate). No mata-mata, desbancou a LDU e o Grêmio, ambos jogando bem e mostrando um futebol consideravelmente melhor do que nas outras competições que disputa. A goleada por 4 a 1 em cima do time gaúcho na Vila no segundo jogo das quartas de final empolgou e deu esperança à torcida de uma vitória em cima do Boca Juniors e de que dá sim para sonhar com o título na temporada. Sabemos que será difícil, tanto a semifinal quanto uma final contra Palmeiras ou River Plate, e também que o time de La Bombonera virá com raça para conquistar a Libertadores em homenagem à morte do ídolo Maradona – além do fato de que a Conmebol costuma favorecer os argentinos na competição. Mas isso é Santos, sempre foi assim, contra tudo e contra todos – e dessa vez não teria como ser diferente.

Marinho comemora gol contra o Grêmio pela Libertadores. Foto: Ivan Storti/Santos FC.

Extra-campo

Esta seção merece um destaque especial. Se o ano do Santos foi irregular dentro de campo, isso tem muito a ver com a zona que foi fora dele. 2020 marcou o último ano da desastrosa gestão de José Carlos Peres. O presidente que fez coligação com Deus e o diabo em 2017 para vencer a eleição, prometendo títulos e sucesso financeiro de um clube endividado, não entregou nenhum dos dois. Além de não conseguir nenhum título, a gestão termina com um clube sem patrocinador master e com uma situação financeira até pior do que quando Peres assumiu a presidência. 2020 foi o “fechamento” desse desastre.

O ano começou com a contratação de Jesualdo Ferreira, uma aposta em um treinador de 74 anos que já estava aposentado. Depois de um início irregular, veio a pausa do futebol e, com ela, o começo da crise da gestão de Peres. No período da parada por conta da pandemia, o presidente impôs um corte de 70% dos salários de quase todo o elenco masculino profissional, sem consultar os jogadores sobre. Evidentemente isso gerou insatisfação de suas principais estrelas, como Sánchez e Marinho, mas também serviu de estopim para algo pior: os processos judiciais. Eduardo Sasha e Éverson entraram na justiça contra o clube por conta de atrasos nos salários e no pagamento dos direitos de imagem. Parecia o início de uma debandada do elenco. Para completar a crise financeira, o Santos foi punido pela FIFA por não pagar Hamburgo e Huachipato pelas contratações de Cléber Reis (ainda na gestão de Modesto Roma Júnior) e Soteldo, ficando impossibilitado de fazer contratações até que as pendências fossem resolvidas. O desastre estava desenhado.

Aliado a isso, logo após a volta dos campeonatos, Peres demitiu, de maneira covarde, um senhor português de 74 anos – que perdeu a irmã em sua terra natal no período da quarentena, mas que não foi ao velório porque era treinador no país que lidou da pior maneira possível com essa pandemia – depois de apenas três partidas do Campeonato Paulista (por que não demitiu antes?) Por conta da maneira como a demissão foi levada, William Thomas, quem de fato teve que dar a notícia a Jesualdo, se demitiu de seu cargo como diretor de futebol – posição ainda desocupada no clube. Tudo isso se juntou a uma crise política interna, que isolou cada vez mais o presidente Peres e culminou em seu impeachment por conta do uso indevido do cartão corporativo do clube e da rejeição do balanço financeiro de 2019 apresentado pela sua gestão.

Para o lugar de Peres, assumiu seu vice, Orlando Rollo, uma mistura de Juan Guaidó e Michel Temer, que cansou de ser “vice decorativo” e chegou a se autoproclamar presidente na porta da Vila Belmiro em 2018. Rollo conseguiu acordos com Hamburgo e Huachipato que levantaram as punições da FIFA, mas fez isso para logo depois contratar o inominável ex-camisa 7, condenado naquela época em primeira instância por estupro – e mesmo após a confirmação de sua condenação em segunda instância, Rollo não rompeu em definitivo o contrato, mantendo-o “suspenso”. O presidente em exercício também foi responsável por sair distribuindo homenagens, talvez para tentar “marcar”, de maneira até um pouco patética, seu nome na história do clube. Algumas justas, como colocar as imagens de Ketlen e Arzul (preparador de goleiros da equipe) no muro do CT Rei Pelé ao lado dos grandes ídolos do clube. Outras, esdrúxulas, como jogar com o símbolo da OAB na manga da camisa no jogo contra o Vasco e com o escudo da Polícia Civil no peito contra o Ceará.

Novo presidente do Santos, Orlando Rollo, conversa com jogadores. Foto: Ivan Storti/Santos FC.

Contudo, para fechar com “chave de ouro”, Rollo cedeu a Vila Belmiro, na última semana de 2020, para um jogo beneficente que contou com a presença do “presidente” Jair Bolsonaro (que com certeza não tem nada mais importante para fazer em Brasília do que jogar com alguns ex-jogadores na Baixada Santista). A partida serviu para três coisas: para Bolsonaro fazer um gol ridículo, em que finaliza sem goleiro e cai no gramado fazendo o que faz de melhor, no caso, pastar; para Orlando Rollo levar alguns jogadores, dentre eles Marinho, para um vestiário repleto de pessoas sem máscara, correndo o risco de ter sua principal estrela infectada pelo coronavírus na véspera de uma semifinal de Libertadores; e para profanar o manto sagrado vestido por um ser tão abjeto quanto Jair Messias Bolsonaro.

Foi em 2020 também que tivemos a eleição com a maior participação na história do Santos, graças à institucionalização do voto online, o que permitiu que sócios de fora de Santos e São Paulo exercessem seu direito de eleger o próximo presidente do clube. O vencedor foi Andrés Rueda, o que mais recebeu votos em toda a história, que optou, assim como Peres, em realizar uma grande coligação para montar a chapa vencedora da eleição. Esperamos que, dessa vez, a União pelo Santos não se desfaça tão rapidamente como ocorreu com a do ex-presidente. A partir de 1º de janeiro, teremos um novo ano, com um novo presidente e, esperamos, vida nova para o Santos Futebol Clube.


Como citar

ZAN, Pedro; GUIMARãES, Felippe. O 2020 do Santos – surpresas, decepções e tragédias. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 7, 2021.