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O ano do Galo perdido

Marcos Teixeira

Na noite de 13 de setembro de 1972, a Portuguesa perdeu para o Santa Cruz por 1 a 0, no Parque Antártica, pelo Campeonato Brasileiro. Desiludido, o então presidente da Lusa, o histórico Dr. Oswaldo Teixeira Duarte, que empresta seu nome ao estádio do Canindé, reuniu a imprensa e anunciou o desligamento de seis dos principais jogadores do elenco: os ídolos Piau, Ratinho, Lorico e Marinho Peres (este, dois anos depois jogaria a Copa de 1974), Hector Silva e Samarone. O episódio ficou conhecido como a Noite do Galo Bravo.

Em 2017, o Galo de Minas Gerais mostra-se perdido. Começou o ano com Roger Machado, técnico de ideias novas, oxigenadas, tido como estudioso e um dos melhores da nova safra de treinadores. Mesmo vencendo o estadual e fazendo a melhor campanha da primeira fase da Libertadores, ele não resistiu a um início de Campeonato Brasileiro ruim e uma derrota para o Jorge Wilstermann no primeiro jogo das oitavas de final e deu lugar a Rogério Micale, que se destacou nas seleções brasileiras de base e na conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016.

Micale, como era de se esperar, durou dois meses no cargo e agora o dono do boné nos lados do Horto é o ultrapassado Oswaldo de Oliveira, campeão duas vezes neste século: com o São Paulo, no remendo que foi o Supercampeonato Paulista de 2002 e Carioca de 2013 com o Botafogo, única conquista na década, além de um bom número de troféus no futebol japonês.

Micale

Micale em sua última partida contra o Vitória. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro (CC BY-NC 2.0).

A nova troca no comando da equipe mostra como o clube perdeu o rumo depois do afastamento de Eduardo Maluf, falecido recentemente em decorrência de um câncer. Daniel Nepomuceno, presidente do clube e Secretário de Desenvolvimento de Belo Horizonte na gestão do prefeito e aliado Alexandre Kalil, chega ao sexto técnico na sua gestão, o terceiro somente em 2017. Antes de Oswaldo, passaram pelo banco Levir Culpi, Diego Aguirre, Marcelo Oliveira, Roger Machado e Rogério Micale.

E “passaram” não é força de expressão.

Nenhum conseguiu deixar uma marca, uma ideologia. Mesmo porque o próprio Atlético não a tem. Opta por nomes de ocasião, disponíveis no mercado, mesmo que os perfis sejam imiscíveis, não tenham nada a ver um com os outros, variando entre jovens com potencial e nomes quase esquecidos, como o novo contratado, que teve números de rebaixado nas duas equipes que dirigiu no Brasileirão de 2016.

O Atlético Mineiro é o retrato do futebol brasileiro: rico (se comparado com os outros mercados sul-americanos), mas sem um plano de ação a médio ou longo prazo que não seja alicerçado apenas nos resultados, o que é exatamente o contrário do que deveria ser feito: o projeto é que deveria ser o caminho para os títulos, não os títulos serem a garantia da manutenção do trabalho.

É como um carro de corrida pilotado por um chimpanzé.

A intempestiva e perdida gestão do Atlético Mineiro apenas faz a substituição dando um tiro no escuro, sem fazer a menor ideia de onde e porque acertou – ou errou, o que é o mais provável que aconteça. Diferentemente do Dr. Oswaldo Teixeira Duarte, que com a célebre Noite do Galo Bravo abriu caminho para uma brilhante geração cujo expoente era o cracaço Enéas, a única coisa que se sabe é que, caso não seja campeão, Oswaldo de Oliveira terá prazo de validade à frente da equipe.

Como citar

TEIXEIRA, Marcos. O ano do Galo perdido. Ludopédio, São Paulo, v. 99, n. 28, 2017.