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O apoio ao inominável e os limites democráticos

Marcel Diego Tonini

Não é de hoje, infelizmente, que vemos futebolistas consagrados declararem apoio ao inominável candidato à presidência do Brasil neste 2018. No ano passado, vimos, entre outros, o volante Felipe Melo, o meio-campista Jadson e o mundialmente conhecido Ronaldinho Gaúcho manifestarem não apenas simpatia, mas também concordância de ideias com o político fascista. Em plena época de campanha eleitoral, novamente, e especialmente ontem (16 de setembro), futebol e política (de extrema-direita) voltaram a estreitar relações.

A começar pelo ocorrido na última segunda-feira, quando o atacante Lucas Moura não só curtiu a página do velho deputado – sim, ele está há quase três décadas na política e, portanto, não representa o “novo” como muitos pensam – como interagiu com seus seguidores no Twitter, argumentando: “Acho que precisa. Imagina um honesto no meio de milhares de corruptos, deve ser bem facinho pra aprovarem alguma idéia dele né [sic]. Pelo menos não vejo mesmice nas propostas e discursos dele.”[i]. Por aí já se vê como está mal informado. Dada sua aproximação de ideias com o líder da extrema-direita no Brasil, fontes jornalísticas asseguram que o clube em que atua, Tottenham Hotspur F.C., tentou “blindá-lo” e evitar que o assunto polêmico tivesse continuidade na mídia[ii].

A tentativa, no entanto, foi em vão. Primeiro, porque os ingleses buscaram maiores informações sobre o inominável, descobrindo seus posicionamentos racistas, misóginos, machistas, LGBTfóbicos, bem como suas visões deturpadas sobre a história do Brasil. Segundo, porque Lucas voltou a se manifestar sobre o assunto após a derrota de seu clube no último sábado:

Infelizmente eu já imaginava que teria uma repercussão exagerada, com mais atenção do que deveria por parte da mídia. Apenas quis me posicionar. Antes de ser um jogador de futebol, sou um cidadão e tenho direito de me preocupar com o que está acontecendo no meu país. […] Apenas respondi civilizadamente algumas questões que apareceram no meu Twitter, mas infelizmente algumas pessoas não sabem respeitar uma opinião diferente. Saber conviver com opiniões diferentes faz parte da democracia. […] Antes havia muitas questões no meu país e às vezes me sentia mal por sempre ficar em cima do muro ou ser omisso. Temos de respeitar quem quer e quem não quer se posicionar. Às vezes nossos fãs e torcedores querem saber a opinião dos seus ídolos. Com uma opinião diferente, podemos abrir a mente de alguém. Como pessoa pública, esse foi meu objetivo. Não tenho que só falar de futebol. Sou brasileiro e tenho familiares e amigos no Brasil e também me preocupo com o meu país[iii].

Se há um profissional cujas falas são altamente controladas por tantos atores num determinado universo, este é o atleta no futebol espetacularizado, seja por dirigentes, treinadores, membros de comissão técnica, colegas de profissão, empresários, agentes, assessores de imprensa pessoal e do clube, seja pelos próprios familiares. Ainda mais aqueles que chegam a esse nível de sucesso, em clubes tradicionais europeus e com passagens pela seleção brasileira, tal qual Lucas Moura. Daí soar no mínimo estranho, para não dizer falso ingênuo, ele alegar que a “repercussão [foi] exagerada, com mais atenção do que deveria por parte da mídia”. Ora um profissional deste sabe muito bem tanto a repercussão quanto o poder influenciador de qualquer fala sua.

Depois, Lucas valeu-se do argumento que “saber conviver com opiniões diferentes faz parte da democracia”. Sem dúvida. Se eu, um reles pesquisador das ciências humanas, que não sou de me expor nem de expressar com frequência minhas opiniões em redes sociais, tenho de lidar com aqueles que pensam diferente no mundo real e com os chamados haters no virtual, por que com ele, um ilustre jogador, com inúmeros seguidores, seria diferente?

Por fim, o futebolista colocou-se na posição de “ídolo” e, aparentemente, sentiu-se no dever de “abrir a mente de alguém […] com uma opinião diferente”. Nem o status de sua profissão nem a condição superior em que se coloca ou que é colocado fazem de sua “opinião diferente” melhor do que a daqueles que o idolatram, ou capaz de “abrir a mente de alguém”. Cabem as perguntas: que “diferença” é esta na opinião? Diferente em relação a que ou a quem? Só se for em termos de apologia à tortura, ao fascismo e a tudo o que é antidemocrático. Que “abertura” é esta a sugestão de um nome que representa tudo que há de mais retrógrado, conservador e extremista na política brasileira atual?

O fim de semana não tinha terminado, ainda havia o domingo pela frente e ontem se revelaria um dia trágico para o futebol brasileiro. Primeiro, a atitude de um jogador cujas ações dentro de campo reproduzem seus pensamentos fora dele. Sim, estou falando de outro cidadão que também deveríamos evitar nominar, que tem a guarida por parte de um dos maiores clubes de futebol do Brasil, bem como por seus dirigentes, funcionários, colegas de profissão e por uma parcela de seus torcedores, embora venha colecionando polêmicas desde que retornou às terras tupiniquins, no ano passado. Ao término da partida entre Bahia e Palmeiras, este futebolista alviverde dedicou seu gol, que selou o empate do jogo, ao “nosso futuro presidente”, em suas palavras[iv]. Apesar do atraso, a Sociedade Esportiva Palmeiras veio a público no início da tarde de hoje para dizer o mínimo: “que o posicionamento político do atleta Felipe Melo reflete, única e exclusivamente, uma manifestação particular, e não da instituição.”[v].

notaoficial

Foto: SE Palmeiras/Reprodução.

Na mesma tarde, pelejaram Cruzeiro e Atlético Mineiro. A certa altura do jogo, um grupo numeroso de torcedores alvinegros cantou em direção aos alvicelestes: “Cruzeirense, toma cuidado, o B. vai matar veado!”[vi]. O cântico é homofóbico, mas, mais do que isso, incita diretamente o assassinato de homossexuais. A Galo Queer, movimento anti-homofobia e antissexismo no futebol dos torcedores do Atlético Mineiro, cobrou imediatamente um posicionamento por parte da diretoria do clube em virtude do fato ocorrido no clássico disputado no Mineirão[vii]. No fim da noite, o Clube Atlético Mineiro manifestou por meio de nota e de um vídeo o “repúdio a quaisquer gestos de preconceito ou de incitação à violência”, afirmando que sua “essência” sempre foi a “mistura” de “cores”, “classes”, “gêneros”, não havendo “espaço para o preconceito”. Espero sinceramente que não seja uma simples medida a fim de evitar uma possível punição por parte do Superior Tribunal de Justiça Desportiva. O repúdio institucional é importante, é claro, mas penso que poderia ir além ao identificar, excluir os eventuais sócios-torcedores e proibi-los de frequentar os estádios onde o clube vier a  atuar. Sem dúvida, essa medida teria um impacto muito maior nesta necessária causa.

Que fique claro que jogadores e torcedores de futebol têm todo o direito de expressar suas opiniões políticas, sejam elas à esquerda, sejam elas à extrema-direita. Afinal, vivemos (pelo menos, ainda) em uma (frágil) democracia. Agora se agarrar à “liberdade de expressão” para defender tais atitudes, é, para dizer o mínimo, uma óbvia incoerência. Esquecem-se de que foi graças à luta de muitos movimentos sociais e à vida de muitas pessoas que reconquistamos justamente essa liberdade. Em nome dessa liberdade, defendem uma pessoa que não só é contra manifestações contrárias às suas como também é escancaradamente a favor de um período de nossa história que privou os brasileiros dela e que fala abertamente o que fará dela se for eleito. Isso é uma atitude democrática?

Tudo tem limites. Jogadores usarem a instituição em que trabalham para reproduzir discursos intolerantes e influenciar a opinião pública não deveria ser permitido. Que o façam em suas vidas privadas. Caso contrário, parece ser uma posição institucional, por mais que os clubes emitam notas públicas tentando se descolar de tais imagens. Se quiserem apoiar este ou aquele candidato, não há problema. Mas sejam transparentes. Outro ponto digno de nota é o apoio ao inominável por parte de atletas negros, sejam eles do futebol, sejam do vôlei[viii]. Sobretudo levando-se em consideração que eles já sofreram discriminação racial em seus respectivos esportes. Por mais que venha pesquisando racismo no Brasil e compreenda o impacto da ideologia da democracia racial neste país, ainda me espanto com isso. Como negros podem apoiar exatamente um candidato de extrema-direita que vocifera contra eles, contra ações afirmativas, mantém discursos de ódio e tem visões deturpadas sobre tais grupos étnicos e sobre a escravidão? Suponho que uma explicação possível seja uma confluência de fatores: ignorância, falta de consciência racial e reprodução de um discurso elitista, uma vez que hoje fazem parte de uma minoria privilegiada.

Qualquer democracia tem limites, os quais são estipulados por leis. A partir do momento em que há transgressão, finda-se a tal “liberdade de expressão”. Por mais que o futebol tenha se construído – não só em nossa cultura – como um espaço-tempo (estádio-90 minutos) em que parecem valer outras normas sociais, no qual atos discriminatórios são permitidos ou ao menos não devem ser levados tão a sério, devemos ser intolerantes com a intolerância. Não podemos mais aceitar calados manifestações como as de uma parcela da torcida atleticana de ontem. Muitos dos indivíduos que cantaram tal vexatório cântico foram filmados. Deveriam ser punidos de acordo com o que nossas leis preveem e serem afastados de nossas praças esportivas e públicas. E os clubes devem ser corresponsáveis por tais identificações, senão deveriam ser passíveis de punição também. Novas práticas são, sim, possíveis!

#elenão

#elenunca


[i] Apoio de Lucas a B. repercute até na Inglaterra e gera debate. UOL, São Paulo, 11 set. 2018. Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2018/09/11/apoio-de-lucas-a-bolsonaro-repercute-ate-na-inglaterra-e-gera-debate.htm>. Acesso em: 11 set. 2018.

[ii] Cabe ainda o registro que o clube inglês em questão tem uma torcida heterogênea, composta por grupos étnicos minoritários do Leste e Nordeste da cidade de Londres, o que faz com que combata abertamente o antissemitismo, o racismo e a LGBTfobia. Tottenham blinda Lucas Moura após declaração de apoio a Jair B. UOL, São Paulo, 13 set. 2018. Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2018/09/13/tottenham-blinda-lucas-moura-apos-declaracao-de-apoio-a-jair-bolsonaro.htm>. Acesso em: 13 set. 2018.

[iii] “Sou cidadão e não falo só de futebol”, diz Lucas sobre apoio a B. UOL, São Paulo, 15 set. 2018. Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2018/09/15/sou-cidadao-e-nao-falo-so-de-futebol-diz-lucas-sobre-apoio-a-bolsonaro.htm>. Acesso em: 15 set. 2018.

[iv] Felipe Melo diz que Palmeiras dominou 2º tempo e dedica seu gol a B. UOL, São Paulo, 16 set. 2018. Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/brasileiro/serie-a/ultimas-noticias/2018/09/16/felipe-melo-diz-que-palmeiras-dominou-2-tempo-e-dedica-gol-a-bolsonaro.htm>. Acesso em: 16 set. 2018.

[v] Em nota, Palmeiras afirma que manifestação política de Felipe Melo é “particular, e não da instituição”. Globoesporte, São Paulo, 17 set. 2018.

[vi] Torcedores do Atlético-MG têm grito homofóbico pró-B; clube critica. UOL, São Paulo, 16 set. 2018. Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/brasileiro/serie-a/ultimas-noticias/2018/09/16/torcedores-do-atletico-mg-fazem-grito-homofobico-de-apoio-a-bolsonaro.htm>. Acesso em: 16 set. 2018.

[vii] Disponível em: <https://www.facebook.com/Galo-Queer-941232029242434/>. Acesso em: 16 set. 2018.

[viii] A manifestação a favor do inominável por meio de uma foto foi postada no Instagram da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e ainda está disponível no site da Federação Internacional de Vôlei (FIVB). CANOSSA, Carolina. Após suposta manifestação pró-B., CBV proíbe expressões políticas. Folha de S.Paulo, São Paulo, 15 set. 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/09/apos-suposta-manifestacao-pro-bolsonaro-cbv-proibe-expressoes-politicas.shtml>. Acesso em: 15 set. 2018.