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O artilheiro da dignidade

Roberto Jardim

O gol mais importante da carreira de Carlos Caszely não foi marcado em um estádio. Teve como palco um salão nobre do edifício Diego Portales, sede da Junta Militar, em Santiago do Chile.

Não estufou as redes de um rival tradicional do Colo-Colo, seu time até então, ou de La Roja, a seleção de seu país. Teve por adversário, um dos mais sangrentos ditadores que a América do Sul já teve o desprazer de conhecer.

Não teve registros em foto. Muito menos vídeo. Nem teve a torcida por testemunha. Foi visto apenas por seus companheiros de seleção, comissão técnica, generais, engravatados em geral e jornalistas presentes.
Não foi comemorado por nenhum torcedor nem por ele mesmo. Muito pelo contrário. Ganhou como recompensa a prisão e tortura de sua mãe, então com 55 anos.

Mesmo assim, talvez seja o maior gol da história do futebol chileno. Um gol da dignidade. Aquele que mostra que, mesmo diante da força e da repressão, o indivíduo sempre deve tentar enrijecer a espinha ante os poderosos de plantão. Aquele que faz valer sua presença neste timaço de craques da bola e de fora dos gramados.

E foi por esse gol que Carlos Caszely ganhou a camisa 7 do Democracia Fútbol Club.

Ao lado do povo

Antes de contarmos esse golaço, é preciso voltar alguns meses e anos no tempo, para entender o que aconteceu naquele dia, véspera do embarque do Chile para a Copa do Mundo de 1974, disputada na Alemanha.

Nascido Carlos Humberto Caszely Garrido, em 5 de julho de 1950, no bairro operário de San Eugenio, em Santiago. El Rey del Metro Cuadrado, como é conhecido, é um típico homem do local onde nasceu. Uma pessoa simples, do povo. Acostumado a ver os pais, parentes e amigos lutando por dias melhores. Assim, o fruto não caiu longe do pé da árvore.

Dessa forma, aos 20 anos, há dois entre os titulares do popular Colo-Colo, Caszely apoiou abertamente e fez campanha para o médico socialista Salvador Allende. Eleito em 1970, como é sabido, Allende implantou uma série de reformas que desagradaram à elite chilena, bem como aos EUA, então em Guerra Fria com a antiga União Soviética.

Resultado: endinheirados e militares do país, apoiados pela Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA, na sigla em inglês), preparam um golpe de Estado, desferido em 11 de setembro de 1973 – uma das datas mais infames do calendário mundial. Liderada pelo, até então integrante do governo general Augusto José Ramón Pinochet Ugarte, a Junta Militar não só derrubou Allende como bombardeou a sede do governo, o belo Palácio de La Moneda.

Apoiador de Allende, esclarecido e destemido, Caszely foi opositor do golpe desde o primeiro momento.

Quase campeão

Aqui vale um parêntese, para voltarmos alguns meses antes do 11 de setembro. Há quem acredite que Cazsely, em campo, quase impediu o golpe. Gestada na caserna desde o começo daquele ano, a derrubada do primeiro presidente socialista eleito na América do Sul estava programada para ocorrer entre maio e junho.

O futebol, porém, falou mais alto e, por pouco, não acabou com os planos golpistas. O Colo-Colo comandado por El Chino, outro apelido do goleador, havia garantido vaga na final da Taça Libertadores da América daquele ano. Pela primeira vez uma equipe chilena ia tão longe na competição continental.

Alguns elucubram que, não fosse um gol de Caszely mal anulado, talvez a história tivesse sido outra. Não só no futebol.

Afinal, um clube popular campeão em um país em transformação poderia ter elevado a autoestima do povo e a confiança em Allende. Mas o certo é que o Cacique, como a equipe é conhecida, encarou o Rey de Copas, o Independiente de Avellaneda – àquela altura, tricampeão da Libertadores.

O primeiro jogo foi em 22 de maio – empate em 1 a 1, em Avellaneda. Na volta, no dia 29, em Santiago, outra igualdade, 0 a 0 – aqui ocorreu o gol que o árbitro brasileiro Romualdo Arppi Filho não concedeu. Uma semana depois, em 6 de junho, na terceira partida, em campo neutro, no Centenário, em Montevidéu, deu Independiente, 2 a 1.

Sem o Colo-Colo campeão, o espaço estava aberto para os milicos tocarem seus planos. Passados dois meses daquela decisão, o golpe começou a ganhar forma mais intensa.

Golpe na vida

Em agosto, a Marinha e a Força Aérea forçaram a derrubada do então Comandante-Chefe das Forças Armadas, o general do Exército Carlos Prats. No seu lugar, entrou o general Augusto Pinochet. Até então, ele parecia ser leal à Constituição e a Allende.

Pinochet, porém, acabaria não apenas se unindo às armas rebeldes, no dia 7 de setembro, como comandando a estocada final, quatro dias depois. Como havia prometido, o presidente socialista resistiu o quanto pôde e só saiu do La Moneda morto. A necropsia indicou suicídio. Há quem duvide, porém. De personalidade forte, que lhe rendeu a faixa de capitão de La Roja aos 21 anos, Caszely não se calou. Demonstrou insatisfação com os caminhos que seu País tomava.

– Na época, além de jogar futebol, dava aulas de Educação Física na Universidade do Chile. Após o golpe, alguns colegas meus, professores, foram presos e torturados. Por conta daquilo, não poderia jamais aceitar a ditadura de Pinochet – lembra.

Principalmente porque, além de derrubar um governo legitimamente eleito, o general de óculos escuros e cara sempre amarrada e seus asseclas passaram a perseguir todo e qualquer opositor ao regime. Daquele setembro até 1990 foram 40 mil mortos – 3.225 deles jamais tiveram seus corpos sepultados pelos familiares.

– Penso que todo homem e toda a mulher tem o direito de pensar e ser respeitado pelo que pensa – resume seu posicionamento político.

A maior farsa do futebol

Em meio à efervescência daqueles dias, o Chile disputava as Eliminatórias da Copa da Alemanha. O grupo tinha Peru e Venezuela, que desistiu da competição. Após dois jogos de resultado iguais – 2 a 0 para o Peru, em Lima, e 2 a 0 para o Chile, em Santiago –, no terceiro jogo, em 5 de agosto, a seleção chilena ganhou por 2 a 1 e conquistou o direito de disputar a repescagem.

O adversário não poderia ser mais simbólico, a comunista URSS. O primeiro jogo foi em 26 de setembro – 15 dias após a derrubada de Allende –, em Moscou. O 0 a 0 deixou a decisão para 25 de novembro, em Santiago.
Na data marcada, os soviéticos se recusaram a ir ao Chile e a jogar no Estádio Nacional, que vinha sendo usado como prisão e centro de tortura pela ditadura recém-instalada. Caszely relembra aquele dia.

– Foi uma das coisas mais absurdas que já fizeram no futebol – resume:

– A Fifa determinou que o time entrasse em campo e marcasse um gol. Caso contrário, não teríamos a vaga garantida. Foi patético. Nem numa pelada de rua se faz isso.

Os jogadores obedeceram o roteiro. Mesmo com apenas 11 em campo, após o apito inicial do árbitro, alguns boleiros trocaram passes até a goleira que seria defendida pelo adversário e chutaram para a rede.
Com a classificação garantida, como qualquer governo despótico, a ditadura comandada por Pinochet queria aproveitar-se dos feitos do futebol. E nada melhor do que uma participação em Copa do Mundo para angariar alguma simpatia. Ou pelo menos tentar.

Assim, voltamos à data do maior gol de Caszely.

O cumprimento negado

A Copa de 1974 começou em 13 de junho. Semanas antes, na véspera do embarque para a Alemanha, La Roja fez uma visita à sede do governo do país. Com La Moneda destruída em setembro passado, a Junta Militar, que comandava com mãos de ferro o dia a dia chileno, quis se aproveitar do momento em uma cerimônia armada no edifício Diego Portales.

Jogadores e comissão técnica foram chamados para uma audiência de despedida. Com direito a boquirroto discurso do ditador Pinochet:

– Vocês precisam saber dos problemas que vão ter na Europa. A calúnia e a mentira estão mudando a mentalidade de muitos europeus que não conhecem nem sabem o que está acontecendo no Chile.

Após a fala, o comandante saiu pela sala cumprimentando um a um os atletas. Quem conta como foi é Caszely, a voz tensa só de recordar:

– Ouvia os passos, o barulho dos saltos no piso de madeira. Foi assustador. Nunca suei tanto fora dos gramados. Ele era uma figura pavorosa. Vestia uma capa, o quepe e os óculos escuros de sempre. Nunca esqueço da sua cara amarga. Dura. Suja.

El Rey del Metro Cuadrado continua:

– Quando Pinochet se aproximou, coloquei meus braços para trás e segurei a mão direita com a esquerda. Ele estendeu sua mão e eu me recusei a apertá-la. Fechei os olhos para ver se aquilo passava mais rápido. Quando abri, ele já estava à frente de outro colega.

O próprio Caszely diz que fez tudo de caso pensado. Não saberia como iria acontecer, mas tinha certeza de que não poderia apertar a mão do homem que estava torturando e matando chilenos e tirando a esperança da maioria da nação:

– Como ser humano, aquela era minha obrigação. Tinha todo um povo sofrendo lá fora.

A mão pesada da vingança

Apenas um jornalista descreveu o que havia ocorrido. Talvez querendo agradar o regime, publicou, em tom acusatório uma nota no jornal La Segunda, chamando Caszely de comunista. O mesmo ocorreu quando o atacante entrou para a história das Copas como o primeiro jogador a ser expulso em um Mundial.

As 22 minutos do segundo tempo de partida, após passar boa parte do jogo sofrendo faltas e agressões do lateral Vogts, da futura campeã Alemanha Ocidental, o chileno revidou e acabou levando o vermelho. La Roja perdeu por 1 a 0. Jornalistas foram impiedosos. Afirmaram que Caszely havia cumprido parte de um plano do comunismo internacional para favorecer a Alemanha Oriental, que ficou com uma das vagas do Grupo A.

Durante a Copa, porém, sem que ficasse sabendo, o regime perpetrou uma vingança muito mais maligna e repugnante. A mãe do camisa 7, Olga Garrido, 55 anos então, foi sequestrada e torturada.

Caszely só ficou sabendo quando voltou ao Chile, após a eliminação na primeira fase da Copa. Ao lembrar o fato, mesmo por telefone, é possível notar que a voz falha, os pensamentos embargam, a fala sai entrecortada:

– Minha mãe… foi presa por pura represália… Ela foi torturada o dia todo… Ficou com marcas de golpes,… queimaduras…, cortes…, lacerações…

Por conta do acontecido, El Chino resolveu ir jogar na Espanha, numa época em que sul-americanos ainda não migravam para a Europa. Defendeu Levante, de Valência, na segunda divisão, e Espanyol, de Barcelona, na primeira. Mesmo ganhando um bom salário, voltou ao Colo-Colo em 1978, num momento em que a equipe passava por dificuldades.

Outro golaço

O atacante deixou o futebol em 1985. Mesmo longe dos gramados, seu prestígio continuava em alta entre a população, como se veria três anos depois.

Em 1988, o Chile foi às urnas para votar em um referendo. A pergunta era simples: Pinochet deveria continuar no poder? As opções: sim ou não.

Emocionado, Caszely comenta:

– Sempre que tive oportunidade de me manifestar, manifestei-me contra a ditadura de Pinochet. Em 1980, no ano em que foi votada a Constituição, fiz campanha contra porque ela era contra a população. Em 1988, no plebiscito que definiu se os militares se manteriam no poder, fiz campanha pelo “não”.

Em uma tentativa de convencer a população, um vídeo de cerca de um minuto e meio mostrava aos chilenos uma senhora de camisa branca, sentada em uma poltrona. Ela fala sobre o que sofreu na prisão. Em seguida a câmera foca, a seu lado, Carlos Caszely, que se ajoelha ao lado da senhora e desabafa:

– Por isso, voto “não”: porque sua alegria é minha alegria; porque seus sentimentos são meus sentimentos; para que amanhã possamos ter uma democracia livre e sã; porque esta senhora é minha mãe!

O impacto da revelação – até então, só a família e amigos sabiam do ocorrido – emocionou quem estava no estúdio de gravação e aqueles que votaram pelo “não”. Mais um golaço de Caszely, um homem do povo, um dos maiores jogadores da história do futebol chileno.

Muitos creditam a esse vídeo o fim da ditadura. Impossível confirmar. Mas os atos de El Rey del Metro Cuadrado, tanto em 1973, ao negar a mão a Pinochet, e em 1988, ao fazer o depoimento ao lado da mãe, certamente emprestaram dignidade ao futebol e ao povo chileno em um dos períodos mais cinzentos de sua história.


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A série tem a colaboração de Diego Figueira, na revisão dos textos, e do craque do traço Gonza Rodriguez, nas ilustrações.

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