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O Atlético estreia na Libertadores: futebol e carnaval no Mineirão

Gustavo Cerqueira Guimarães

 

Belo Horizonte, Quarta-Feira de Cinzas, 06 de março de 2019

 

 

[…] Matilda, Matilda
No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha
Pra poder ganhar.

“Geraldinos e Arquibaldos”, Gonzaguinha.

 

O Atlético passou sem sobressaltos pela fase preliminar da Libertadores ao eliminar os times uruguaios Defensor e Danubio nos estádios Luis Franzini, em Montevidéu, e no Independência, em casa. Agora, “El Minero” entra em definitivo na Copa ao compor o Grupo E ao lado de Cerro Porteño, do Paraguai, Zamora, da Venezuela e Nacional, do Uruguai. Se o Galo estrear com vitória hoje, encaminhará bem sua classificação, pois, teoricamente, esse grupo não é tão difícil, uma vez que o time já está com um bom ritmo de jogo, com certo padrão tático.

A propósito, para conquistar essa vaga, o Atlético venceu quatro dos últimos cinco jogos do campeonato nacional passado, contra o Paraná, Bahia, Inter e Botafogo, e vem mantendo a mesma escalação desde a volta do grandioso Levir Culpi, em outubro de 2018. Somente Réver, que retorna depois de quase cinco anos, Igor Rabello e Patric não estavam nesses jogos. Sendo assim, esses defensores reforçarão o time ao assumirem, respectivamente, as vagas do Léo Silva, que, atuando mais pelo Mineiro, vai se despedindo de uma das maiores fases da história do Atlético, do Gabriel, trocado com o Botafogo, e do Emerson, que realizou um primoroso ano e foi bem vendido para o futebol espanhol, além de ter participado relativamente bem da pífia campanha da seleção no Sul-Americano sub-20, cuja classificação não foi atingida para o mundial da categoria. Com a chegada do lateral-direito Guga do Avaí, que, ao longo da temporada, provavelmente, entrará no lugar do Patric, o sistema defensivo do Galo, criticado há anos por sofrer muitos gols, está muito melhor.  

Logo mais no início desta noite, o Galo joga contra o tradicionalíssimo Cerro Porteño, que, apesar de participar pela 40ª vez da Libertadores, nunca ganhou sequer um título, mas chegou seis vezes às semifinais, em 1973, 78, 93, 98, 99 e 2011. Curiosamente, por essa competição, os mineiros já enfrentaram os paraguaios em quatro oportunidades. Em 1972, empataram em casa, com gol de Dadá Maravilha, e perderam fora pelo placar mínimo. Em 1981, venceram lá por 1 a 0, com gol do Éder, e empataram cá por 2 a 2, com gols de Reinaldo e Vaguinho. A noite de hoje promete desempatar o confronto.

Para tanto, o palco será o Mineirão, onde o Galo mandará os jogos da Libertadores deste ano. Além de o gramado estar em melhores condições para o espetáculo, como proferiram Victor e Cazares por meio da imprensa, as vantagens de voltar a jogar na Pampulha são óbvias: renda e público maiores. Com o preço médio do ingresso no valor de cem paus, cinquenta a meia-entrada, expande muito a possibilidade de qualquer torcedor, ao menos, poder pensar em ir. Até a manhã de hoje, foram vendidos cerca de 30 mil entradas.

Michael, Victor e Cleiton, goleiros do Atlético no Mineirão. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro.

 

Carnaval e futebol

 

Olhando na quarta-feira as ruas vazias
Com os garis dando um jeito em nossa moral
Custei a compreender que fantasia
É um troço que o cara tira no carnaval
E usa nos outros dias por toda a vida
Dizendo: “Olá! Como vai?” e coisas assim […].

“Fantasia”, João Bosco e Aldir Blanc.

 

Quem sabe alguns turistas foliões, remanescentes do gigantesco carnaval de Belo Horizonte, engrossam o coro para acompanhar a Charanga do Galo ao lado de seus torcedores, muitos deles ainda retornando à cidade, como o Miro que chegou, de ressaca, de São Paulo, onde foi assistir aos desfiles das escolas de samba nas arquibancadas do Anhembi e viu a Mancha Verde, escola derivada da torcida palmeirense homônima, ser campeã pela primeira vez.

Segundo Bernardo Buarque de Hollanda, em sua coluna “Territórios do Torcer”, publicada hoje no Ludopédio, “Para quem assistiu ao desfile da madruga de sábado, dia 04 de março, impressionou o espetáculo feito pelos torcedores na arquibancada do Anhembi, lotada ao raiar do dia. Bandeirões desfraldados com a insígnia da torcida, milhares de micro-bandeiras tremeluzentes, balões alçando os ares e sinalizadores enxameando de fumaça o céu foram registrados pela cobertura da Rede Globo de Televisão e presenciados pelos resistentes espectadores, após a noite em claro”.

Ontem à noite, durante o trajeto de uma hora do aeroporto de Confins para sua casa, Miro escreveu em seu caderno de viagem: “Apesar da Mancha Verde trazer uma deusa ficcional interessantíssima, por meio do enredo Oxalá, salve a princesa: a saga de uma guerreira negra, concebido pelo carnavalesco Jorge Freitas, e do samba de enredo ter sido o mais contagiante dos três dias do carnaval paulistano, não compreendo mais o negro estar insistentemente vinculado à escravidão. Quando as escolas desfilarão sem os brancos amarrarem e/ou chicotearem os pretos com expressões de dor na avenida? Precisamos de manifestações estético-políticas mais afirmativas”.

Das 22 escolas do Grupo Especial e do Grupo de Acesso, um terço delas trouxe para o sambódromo a África como núcleo central de sua narrativa, o que seria muito positivo se não fossem os inúmeros clichês descarrilhados, explorando pouco as complexidades do continente, sobretudo em seu matiz lusitano. Que não soe ingênuo, mas já não estaria na hora de a cultura popular protagonizar mais uma vez a sua história, não se passando apenas por um fantoche reprodutor de interesses que se voltam contra ela mesma? Por outro lado, no Rio de Janeiro, a Mangueira demonstrou que isso é possível, pois assumiu o enredo História pra ninar gente grande, de Leandro Vieira, que contou a história do Brasil da perspectiva de heróis negros e índios. A verde-rosa venceu, surpreendentemente, o prêmio do jornal O Globo de melhor escola do Grupo Especial.

Miro chegou ressacado do Anhembi e dormiu até às 3h30 de hoje, pois não deixaria de comparecer ao Bloco do Manjericão, cujo lema é proteger as plantas. Neste ano, o cortejo percorrerá as ruas do bairro Planalto em direção ao Parque Lagoa do Nado.  A concentração foi marcada para começar às 4h20, ocasião sagrada em que a erva é cultuada ao som da marchinha: “Não vou comprar manjericão / eu vou plantar no meu jardim / se todo mundo plantar um / manjericão não vai faltar pra mim”.

De lá, em clima de entorpecimento e ressaca de carnaval, Miro planeja ainda fumar mais, beber mais, foder, comer e descansar na casa de um amigo no Jaraguá. Depois, ele segue a pé para o jogo que começa às 19h15 e se insere no meio da massa, deixando de ser ele, tão só. Agora, ele está na rua fantasiado de Cavalo Paraguaio, com um pequeno adereço ornado de plantas. Afinal, o Miro está a todo tempo fantasiado, sempre assumindo suas fantasias, não faz o jogo dos hipócritas.

E, quem sabe, amanhã, ele acorda bem mais feliz e rouco de tanto cantar “Vou festejar”, da Beth Carvalho, juntamente com os 40 mil torcedores-foliões que estarão incentivando o Galo contra o Cerro Porteño. Arrebenta, Galo Doido! Arrebenta, hoje, Menino Maluquinho! Apronte uma daquelas jogadas inesperadas, Patric… Cazares, a orientação hoje é pirar, botar pra foder! Enlouqueça-nos, Levir! Que sejamos invadidos pelo espírito dionisíaco. Afinal, o Mineirão é nosso, e o caldeirão vai ferver!

– Ah-ah-uh-uh! O Mineirão é nosso! Ah-ah-uh-uh! O Mineirão é nosso!!!

Técnico Levir Culpi. Foto: Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro. Intervenção: PeDRa LeTRa.