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O Atlético Mineiro nas quartas de final da Libertadores

Gustavo Cerqueira Guimarães

Antes de abordar o primeiro jogo do Atlético Mineiro contra o São Paulo, pelas quartas de final da Libertadores, na última quarta-feira no Morumbi, registrarei como se deu a sua classificação para essa fase, ao eliminar o Racing da Argentina, na semana anterior, no dia 04 de maio, após segurar a duras penas um empate, dramático, sem gols, no El Cilindro, em Avellaneda. Nessa partida, o principal destaque foi a zona defensiva da equipe, que contou com o lateral Marcos Rocha figurando na seleção da rodada, segundo as estatísticas do site especializado http://www.footstats.net/. Esse jogo nos mostrou que a volta não seria tarefa fácil para a equipe mineira, sobretudo pela falta de um jogador de criação, um jogador de articulação entre a defesa e o ataque.

O presidente Daniel Nepomuceno anunciou que o jogo seria no Independência, onde cabem somente 20.000 espectadores, seguindo a lógica de que jogar no Horto é melhor para o Atlético pelo simples motivo, dentre outros, inclusive político-econômicos, de vir construindo a identidade do time ali desde 2012, obtendo grandes êxitos. De certo, o local também facilita a chegada do público de maior poder aquisitivo que frequenta o estádio atualmente, porque é muito mais próximo da região centro-sul da cidade do que da zona norte, onde fica o Mineirão, cujo estádio comporta o triplo de pessoas. Por outro lado, é uma pena que a “verdadeira” Massa não possa assistir aos espetáculos da Libertadores, menos pelo recinto e mais pelos preços abusivos dos ingressos. Afinal, somente sócios-torcedores que pagam R$ 35,00 por mês conseguem comprar ingressos ao preço médio de R$ 100,00 para ir ao estádio. Sinceramente, ainda tenho muitas dúvidas acerca dessa política nova empregada pelos clubes brasileiros nos últimos anos. Mas essa é uma outra história que carece de uma reflexão mais detida em outro momento. Menos mal que a finalíssima do Campeonato Mineiro foi no estádio da Pampulha, no Dia das Mães, a preços populares, quando o Atlético perdeu o título para o América, merecidamente, ao empatar o jogo com gols de Clayton para o Galo e do surpreendente Danilo, que já havia marcado os dois no domingo anterior na casa do Coelhão, placar final: 2 a 1.

Voltemos ao jogo contra o Racing… a noite estava fria em Belo Horizonte, o time viria com uma modificação em relação ao jogo de empate na Argentina, Dátolo, que esteve bem na partida até se contundir, daria lugar ao articulador Juan Cazares ou ao alegórico Patric. Mas o equatoriano não estava nem no banco, rumores (fofoca de certa mídia sensacionalista) davam certo algum desentendimento entre o jogador e a comissão técnica. E o Patric?!, ó, o Patric…!, o melhor mesmo é deixá-lo na suplência, está sem ritmo de jogo. Mas o Aguirre fintou a imprensa e a torcida ao escalar o menino Carlos, autor do golaço no início dessa partida. E por falta de um jogador de criação, o Pratto se justapôs em campo: articulador-homem-de-referência, saindo da área pra buscar o jogo, exercendo duas funções. O Robinho havia entrado novamente pelo meio e pouco contribuiu, jogou muito, mas muito mal.

Tal qual nas outras três partidas do Galo em casa, o que fez com que a torcida ficasse mais tranquila, a equipe abriu o placar rapidamente, desta vez aos dezesseis minutos. Pratto abiscoitou uma bola “perdida” dentro da grande área na saída adversária. La pelota espirrou para a lateral, o nosso centroavante venceu o oponente na corrida, ajeitou a bola, driblou, cruzou baixo e Carlos deu apenas um toque em direção à meta. Ninguém que estava no estádio entendeu até agora a trajetória da bola. O camisa 13 do Galo só podia bater daquele jeito, chutando naquele lugar: no alto, rente à trave esquerda do goleiro, sem qualquer chance. Que precisão do menino!, e do Aguirre por colocá-lo em campo.

BELO HORIZONTE/ MINAS GERAIS / BRASIL 04.05.2016 Atlético x Racing - Copa Libertadores 2016 - foto: Bruno Cantini/Atlético MG

Douglas Santos comemora com Aguirre. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

A torcida comemorou muito e aquele tom de soberba que vem se manifestando entre os torcedores do Atlético também imperou rapidamente. No entanto, em pouquíssimo tempo, o Racing igualou o placar, resultado que o classificaria. Donizete fez pênalti em Lisandro López, esse mesmo atacante cobrou no alto do gol de São Victor. Foi terrível!, um banho de água gelada, pois a torcida ainda comemorava o gol de Carlos. O Galo novamente estava sendo desclassificado nas oitavas, como nos dois últimos anos para o Atlético Nacional, da Colômbia, e Internacional, de Porto Alegre.

O restante da segunda etapa foi muito estranho, “o tempo aqui dentro está muito diferente do tempo lá fora”, arriscou a ponderar um torcedor. Havia uma tensão no ar, literalmente no ar, perceptível por pessoas sensíveis como aquele nosso professor de educação física que estava lá presente e nos empresta sua voz em algumas crônicas. Havia uma tensão nos corpos determinada pela respiração entrecortada, afoita, obtusa. Urros exasperados. Projeções identitárias louquíssimas. A atmosfera começou a ficar muito sobrecarregada, uma espécie de lapso temporal delicado de se descrever. “Hoje, os torcedores presentes aqui parecem não conviver bem com a possibilidade de derrota, são campeões em tudo… eles são mimados e estão sempre no centro das atenções. Eles mandam e desmandam, são autoritários. Eles só empregam imperativos. Não respeitam os jogadores, conhecem pouco a diferença. Esquecem-se que no fim das contas existe um outro time que do mesmo modo quer vencer. Há a alteridade. Será que a torcida aplaudiria o Atlético, como sempre o fez, caso o resultado fosse a desclassificação?, tenho muitas dúvidas”, pensou o professor.

Ao que tudo indica, o Aguirre seria enxovalhado pelo posicionamento infantil daqueles sócios-torcedores que não suportam a frustração, sequer aprenderam a lidar com ela, ou a denegam. Eles gritam. Eles xingam. Eles enrubescem – são brancos. Ninguém é da Silva, do povo. Eles choram, não toleram o revés, a fatalidade. Tentam criar lógicas positivistas (de causa e efeito) para explicarem o futebol procurando um culpado para projetarem suas próprias perdas, desprezam o infortúnio. Não suportam a própria vida. Como chegarão ao final juízo final?, no momento em que “ficaremos velhos / e todos cuspirão em nossas caras / e todos nos baterão / e todos roubarão nossas míseras aposentadorias / e todos nos deixarão sem comer // sujos / urinados / cagados / fedidos // (…) nem piores nem melhores // do que já vi / do que já vimos / do que já vivi / do que já vivemos”, escreveu o poeta Marcelo Dolabela. É urgente lembrarmos da morte, fundamental não a ignorar, mirando-a de dentro, de lado, a meia distância, de longe… É preciso evocar a tragédia. “A aceitação da morte é o máximo que o ser pode conseguir para efeito de se ajustar com a vida, de se entender com a natureza. Se todas as coisas são mortais, o homem não pode pretender à imortalidade. Ela me parece uma grande pretensão de sua parte”, o professor leu esse trecho de uma anotação em seu caderninho durante o intervalo, instante em que recebeu uma mensagem do amigo pelo celular:

– Foi ao campo?

– Tô aqui.

– Pra cima deles que vc volte rouco. Hoje vai ter que ser no grito. Hj o Galo precisa muito da massa inflama essa porra ae!!!!!

– A galera num tá nem aí, só cornetando.

– Esse bando de Coxinha.

– Cara nem entendo direito essa palavra sei que pessoal tá nervoso demais não como coxinha.

– A copa do mundo acabou com o futebol. Construção de arenas sem a geral, ingresso caro tirou o povao do campo mas vc pode ir na contra mão. Grita galo põe alma nisso aí. Tira a camisa pira.

– Tá frio vou tirar não kkkkkkkkkk e minha alma tá muito entorpecida.

– Enlouquece mais e mais vc pode mudar o jogo deixe sua voz aí no Indepa. O galo tá sem meio de campo.

– Falta o Luan.

– Isso! Só o Luan já dava. Mas não temos ele. Hoje temos vc… conto com vc. Pira. Enlouquece estremece. Aqui é galo. Tô aflito, queria estar aí com vc, caralho!

– Olha, só o Pratto pode mudar o jogo hj.

– Ajuda também, porra.

– Eu não posso. Eu não consigo, tô mudo, cansado, cheio de problemas.

– Aquele cara tá pisando na bola com vc, né?

– Se tivesse pisando na minha bola tava bom rssss, as coisas andam muito fora do compasso.

– Sei… Mas faça alguma coisa, porra. Não perca o ânimo. O jogo vai começar…

– Se o Galo ganhar eu volto pra casa a pé então. Eu só posso dar isso.

– Boa!

O jogo ficou cada vez mais intenso. E diferentemente do que muitos torcedores testemunharam, o que o professor passou a observar dentro de campo foi muito empenho por parte dos mineiros. “Ah!, raça não faltou”, o professor disse, posteriormente, ao amigo. O Atlético partiu pra cima do Racing até achar um gol numa cabeçada de Lucas Pratto, por volta dos setenta minutos. O centroavantão do Galo foi o melhor jogador da partida, sua melhor neste ano. O cara simplesmente chamou o jogo pra si, sobrou em campo. E ainda foi protagonista de um pênalti mal batido dez minutos depois de seu gol, além de uma bola no travessão e a assistência magistral para o primeiro tento e outra no finalzinho que deixou o Júnior Urso em total condições de fechar o placar. Ouçam os gols narrados por Eduardo Madeira, o Willy Cover, em homenagem ao Willy Gonser, antigo narrador da Rádio Itatiaia por trinta anos (1979-2009), considerado por muitos o “mais completo do Brasil”. Ele é o locutor que mais narrou copas do mundo, figurando no livro dos recordes com onze participações.

O gol de Pratto deixou a torcida eufórica. O Independência enlouqueceu. Foi uma festa deslumbrante. O Galo já estava entre os oito melhores da Libertadores e, provavelmente, enfrentaria o São Paulo, que venceu o primeiro jogo contra o Toluca por 4 a 0. Na saída, o professor constatou que a temperatura estava ainda mais baixa, cerca de 15º. Mas ele igualmente estava fervendo, estava agitado, trabalharia cedo no dia seguinte, precisaria estar fisicamente bem para ministrar suas aulas de alongamento. Ele hesitou a marcha pra sua casa por completo, cogitando tomar o metrô até o Centro e subir o restante a pé, desse modo encurtaria o caminho e ao mesmo tempo cumpriria o juramento.

BELO HORIZONTE/ MINAS GERAIS / BRASIL 04.05.2016 Atlético x Racing - Copa Libertadores 2016 - foto: Bruno Cantini/Atlético MG

Pratto comemora o gol da vitória do Atlético Mineiro sobre o Racing pela Copa Libertadores 2016. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

No entanto, decidiu levar a sério a brincadeira que fez com o amigo. Ele andou até sua casa, ele andou cerca de seis quilômetros. Ao sair do estádio, desceu pra Silviano Brandão e subiu a Anhanguera até a Salinas pra pegar a Hermílio Alves. Neste momento, ele teria que resistir aos muitos taxistas e até mesmo ao ônibus que o levaria direto para o seu bairro. Torceu para que nenhum amigo lhe oferecesse carona. Ele ligou o rádio e colocou os fones no ouvido. Ele ouvir as declarações do Aguirre. Ele caminhou. Ele resistiu. Ele atravessou a Contorno e pegou a Aquiles Lobo. “Já morei aqui ao lado deste Centro Espírita”. Ele lembrou-se do passado. Ele ponderou a morte. E logo já estava na Francisco Sales em direção à Alfredo Balena; curvou brevemente um quarteirão da Bernardo Monteiro e tomou ainda a Pernambuco e a Avenida Brasil. Por último, ele subiu a rua Alagoas, que, ao final, ao cruzar com a Avenida do Contorno, muda de nome e de bairro, onde é sua morada.  “Torço para que o Atlético seja vice-campeão, esses caras que estão a minha frente quebrando as cadeiras, colocando a vida do outro em risco, não merecem ser campeões”, rememorou o professor ao apagar a luz e deitar em sua cama. Ligou para um amigo com quem sempre fala após os jogos. E escreveu para o outro: “gastei 1h40 de lá aqui missão cumprida, que venha o freguês São Paulo”.

O São Paulo no Morumbi

terra da galoa

num match de futebol

o Galo recanta

O Atlético entrou em campo na última quarta-feira, 11 de maio, contra o seu maior adversário na Copa Libertadores. Ele enfrentou o melhor clube brasileiro disparado na trajetória da competição, ele já cruzou com o São Paulo oito vezes, em três edições diferentes. Eles empataram os três primeiros jogos da história do confronto, dois em 1972 e um em 1978. Depois disso, os números a favor do time mineiro foram amplamente superiores, visto que o Galo meteu treze gols, levando nove, e venceu quatro partidas, sofrendo apenas um revés: 2 a 0, no último jogo da fase de grupos, em 2013, no Morumbi, quando a equipe podia perder, pois já estava classificada em primeiro lugar na classificação geral. Após esse jogo, o Ronaldinho Gaúcho proferiu a polêmica e célebre frase: “quando tá valendo, tá valendo”.  O craque estava querendo dizer que aquele jogo não valia absolutamente nada para sua equipe e que as duas próximas pelejas pelas oitavas de final seriam diferentes, tendo em vista que o São Paulo estava avançando na derradeira colocação, posto que o colocaria de novo frente a frente com Ronaldinho, Tardelli, Bernard e Jô. O Atlético triunfaria bravamente: 2 a 1 na capital paulista e 4 a 1 em Belo Horizonte.

“Dizem que a história não ganha jogo, mas seguramente serve de motivação para os jogadores, logo exerce influência no resultado da partida. Caso contrário, o que seriam de nossas narrativas?, de que valeriam elas?”, escreveu em seu caderninho o professor de educação física instantes antes de iniciar os confrontos de 2016 entre São Paulo e Atlético valendo pelas quartas de final. O professor estava num bar, sozinho, no bairro Anchieta. Ele estava muito nervoso e tomou muito uísque.

A tevê do bar anunciava a escalação do time: Victor; Marcos Rocha, Leonardo Silva, Erazo e Douglas Santos; Rafael Carioca, Leandro Donizete, Júnior Urso e Patric (Clayton); Robinho (machucou-se aos trinta e oito minutos do primeiro tempo, dando lugar ao Hyuri) e Lucas Pratto. O Cazares, enigmaticamente, não figurava no banco de reservas. Grande parte dos torcedores e imprensa entrariam em campo com Clayton no lugar de Patric, pois o time estava formado por nove atletas com características predominantemente defensivas. “Mas se eles estiverem sob certa confluência astral, em um dia excepcional, podem até atacar bem e dar muito trabalho à defesa do São Paulo por meio dos avanços agudos dos laterais, chutes perigosos de fora da área dos meias e jogadas que mesmo erradas acabam dando certo, como algumas do Patric”, comentou um torcedor que estava sentado ao lado da mesa do professor.

No entanto, o que se viu foi o mais provável. O time começou muitíssimo pilhado em campo, propondo um jogo pegado, catimbado, uma partida feia com muitas faltas e dez cartões amarelos, sete para o lado mineiro. Parecia que ninguém faria gol. Ao menos, parecia que o Atlético levaria o 0 a 0 pra casa, repetindo o ocorrido nesta temporada contra o Colo Colo, em Santiago, e contra o Racing, na Argentina, até o momento em que Michel Bastos cabeceou uma bola para o fundo das redes do São Victor, que nada pode fazer. O professor ficou muito triste, pois percebia que a dez minutos do fim o Atlético não conseguiria sequer esboçar uma reação. Foi a pior partida do time neste ano. O professor comeu bastante no bar e teve refluxo durante a noite. Ele teve pesadelos com o Aguirre, pois dormiu pensando que o time ficará sem dois meio-campistas para o jogo de volta, foram suspensos o Carioca e o Júnior Urso. E acordou pela manhã matutando: “quem sabe por conta dessa adversidade o treinador não arma o time mais ofensivo? Será que o Dátolo volta de contusão? Será que o Hyuri começará jogando ou o recém-contratado Carlos Eduardo? Será que Clayton e/ou Cazares serão escalados ou entram os volantes Eduardo e/ou Lucas Cândido? Será que o técnico avançará o Rocha e entrará com Carlos César na lateral? Será que ainda há espaço para o treinador nos surpreender…? O que será que será? Será que… Será…”

SÃO PAULO / BRASIL 11.05.2016 Atlético x São Paulo - no estádio Morumbi em São Paulo pelas oitavas de final da Copa Libertadores 2016 - foto: Bruno Cantini/Atlético MG

Lance da partida entre São Paulo e Atlético Mineiro quando o placar já estava 1 a 0 para o São Paulo em partida realizada no estádio Morumbi em São Paulo pelas oitavas de final da Copa Libertadores 2016. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

E, já pela manhã do dia seguinte, escreveu à mesa do café ao reler as notícias dos jornais: “a guerra ainda não acabou, nós estamos vivos e prontos para a morte, mas que seja, por ora, simbólica. Ninguém em nenhum lugar merece que a proteção da arquibancada do estádio caia, expondo a sua vida em risco, como ocorreu no último jogo no Morumbi”. E mais abaixo: “dia 18 de maio o caldeirão do Horto vai ferver. Quem sabe ainda dá pra contar uma boa história de superação nesta Libertadores, quem sabe não seremos ao menos grandes vice-campeões?”

Ôôôôô!, vai pra cima deles, Galô!