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O Atlético na pré-Libertadores: tempos de registrar minúcias

Gustavo Cerqueira Guimarães

 

A cura está no tempo, dizem, / mas, ela pensa, por que não / no espaço? / ou antes não há cura.

a vontade de partir antecede sempre / a casa.

Ana Martins Marques.

 

Montevidéu, domingo, 3 de fevereiro de 2019

 

Miro já nem tenta mais explicar os motivos pelos quais é impulsionado a ir aos jogos do Atlético Mineiro pela Copa Libertadores da América. Ele vai aonde o time for. “Minhas motivações são múltiplas e cambiantes, sou muito disperso”, escreve em seu caderno de viagem. Afinal, confessou ao amigo, “pelo menos enquanto houver um jogador daquele time campeão de 2013, eu acompanharei o Galo. Restam até então o Victor, o Léo Silva, o Luan e o Réver. Sou movido por uma espécie de gratidão, sabe…?”. Hoje, a dois dias do jogo contra o Danubio, esse personagem que aparece em minhas narrativas igualmente chegou a Montevidéu. Desta vez, vindo de Vitória, com baldeação no Rio de Janeiro.

Miro também escreve, embora, como ele próprio costuma dizer, não tenha intenção alguma de publicar seus “textos espatifados”, que transitam pela crônica, carta, pesquisa, cena, reportagem, narrativa, poesia, canção e pelo diário de viagem, além de incorporar imagens, sons e vídeos. A seu modo, toda forma é passivelmente poética.

Ontem, um pouco antes de dormir, naquele exato instante de devaneio provocado por certos tipo de leitura, quando o livro cai das mãos, a voz do Miro irrompeu logo nos primeiros segundos a me chamar pelo nome, que pode não ser o do autor, e disse claramente:

– Ei, eu preciso de você!

– Cara, aonde você quer chegar com essa história…? Vamos parar com isso. Não quero mais publicar sobre o Atlético. Escrever sobre o quê, cara?

– Eu também não sei exatamente o que escrever. Se soubesse, eu não estaria te pedindo pra retomar nossas histórias.

– Mas, Miro, não é melhor ficar quietinho? Quase ninguém quer saber mais de literatura. Com esse negócio a gente está deslizando pra obsolescência. A gente é anacrônico, cara.

– Eu sei, eles não suportam poesia. Mas isso nós só saberemos se você continuar a escrever, se você se entregar de novo, como naquele curta-metragem que você realizou, colocando mais um milagre na conta do São Victor [risos].

– Poxa, mas agora você está falando com o Gustavo, não mais comigo!

– Sempre falo com quem eu quiser, você já sabe disso… É você quem deve destinar minha voz. Na medida do possível, procuro ser livre e fico testando os meus limites com você.

– Então, agora, vou pressupor, novamente, que você falou com ele…

– Como preferir, não passo mesmo de um papel.

– Onde estamos mesmo?

Passado o sobressalto, logo me recobri e retornei ao livro de poemas, do ponto onde havia me distanciado: E tudo afinal talvez se resuma ao fato de morar numa língua / que distingue ser e estar, morar no intervalo entre / essas duas palavras, ser ali onde se está, / ou estar assim como se é / toda lei é / da língua? Reli esses versos e fiquei pensando… Apaguei a luz e fiquei pensando se… Acariciei o gato, com plena intenção de me comunicar, acamei a cabeça e dormi profundamente.

Miro me apareceu mais uma vez. Nessa ocasião, estávamos sentados frente a frente à mesa do Bar do Salomão, tradicional reduto atleticano, para assistir ao jogo do Atlético contra o Danubio. No momento em que desceram uns pasteizinhos de angu, estendi o braço para alcançar um deles com a mão, mas houve um desentendimento estranho entre mim e o Miro, que começou a gritar que não podia pegar o pastel com a mão, pois não se pega nunca pastéis com a mão. “Mas eu pego o pastel com a mão, eu pego como eu quiser”.

Esse lance foi muito rápido. Não teve mais qualquer discussão, embora estivéssemos absurdamente afetados pela cena, e eu levantei aos berros: “se não pode pegar com a mão, então, vai se foder!” Saí da mesa em direção ao banheiro no fundo do bar, onde estavam três caras mal encarados à porta. Um deles engatilhou sua arma e, ao invés de eu recuar devagar, optei por sair correndo, desafiando-o a disparar aquele revólver, apesar de ao mesmo tempo sentir que eu poderia me salvar – não sei se se tratava bem de salvação.

Lembro-me de que virei as costas depois de fixar os olhos nos olhos do cara. Eu armei toda a cena, seduzido pelo poder de escolher a hora da morte. Eu estava com uma camisa do Atlético, uma camisa do Dadá Maravilha, com o número 9 brilhante, meio fosco, atrás, o que provavelmente favoreceu a mira para o estampido: TTTUUUuuufff!

O assassino e seus comparsas fugiram. Alguns amigos que ali estavam se aproximaram de mim, enquanto Miro vociferava para que registrassem tudo, todas as minúcias. “Registrem tudo, todas as minúcias”. Eu ainda consegui captar essas palavras pelo ar, sem, contudo, compreendê-las. Em seguida, ele tocou no meu peito, mas já sem a vida que o animava.

Acordei assustadíssimo, já eram quatro da madrugada, e eu embarcaria cedo para o Uruguai. Não mais dormi, mesmo durante a viagem, porque sobrevoei me lembrando do sonho e transcrevendo-o. Talvez seja mesmo tempo de registrar as minúcias, o que está próximo. De aprender com o Miro a registrar o tempo presente, fotografar caminhadas, grafar pensamentos, gravar as sessões de análise… Ele é o tipo do cara que pensa muito nas palavras, está sempre fabulando. Ele pesa as palavras com muita retidão. Elas são sua arma e seu devir. Em tempos vis como estes, o melhor é tentar usá-las para se reconstruir. Quem sabe criar laços fortes para futuros combates?

Nesta viagem, Miro está muito sensível aos sons ao redor. Os barulhos mínimos são amplificados por meio de sua escrita. É tempo de estar atento a quaisquer pulsações do corpo e a todos os orifícios (e o que deles vazam). Auscultar os pulmões, o pulso e o coração. Observar o inconsciente, igualmente refletido na superfície da pele. Não há mais tempo para as metáforas. É tempo de desligar um pouco os aparelhos e retomar os caligramas, escrever à mão. Tatuar a pele. Habituar-se a apontar os alimentos ingeridos no dia. Coçar o corpo, ranger os dentes e estalar os ossos, a tosse, convulsa de preferência, os gemidos, os passos em volta, a mastigação, o ressonar, o bocejo, o arroto, o choro, o espirro, o peido e o riso têm a mesma dignidade de tinta. Tudo é matéria de poesia. É tempo de anotar as vozes que retumbam de suas leituras pelos cantos da casa ou as que bradam para saírem dos livros. É tempo de ficar atento a qualquer ruído, mas sempre de olho nas embarcações. Explorar outras geografias é quase sempre uma boa alternativa.

Hoje, domingo, descansando num hotel no centro de Montevidéu, estou me esforçando para ler a novela Nunca te duermas escuchando relatos de amor, de Fernando Villalba, mas estou tonto de tanto sono, parecendo febril.

 

Fotografia: João Castilho. Série Metamorfose.

 

Segunda-feira, 4 de fevereiro

 

Desci para o café da manhã faltando dez minutos para fecharem as portas. Cheguei ao bufê juntamente com duas mulheres, brasileiras, mineiras, que falavam bastante sobre a logística do dia. Eu não estava prestando bem a atenção na conversa até elas falarem que iam comprar os ingressos para o jogo de amanhã. Rapidamente, já estávamos sentados juntos a combinar de ir à bilheteria. E comecei a lhes contar que eu estava aéreo, que levantei meio zonzo, com uma baita dor de cabeça, talvez por causa do cansaço da viagem e dos travesseiros diferentes. Mas, no entanto, ao entrar no banho, percebi muitas manchas avermelhadas espalhadas em meu torso, na virilha e um pouco nos braços, “olha aqui, ó!” Uma delas se levantou e disse: “olha, tem aqui em seu pescoço também… Vixe, sua nuca está toda manchada! Será que é algum tipo de intoxicação ou alergia?”

Por fim, resumindo a história, eu fui parar numa dermatologista ainda pela manhã, enquanto as moças iriam comprar nossos ingressos. A minha entrada elas deixariam na portaria do hotel, porque estavam indo visitar um amigo em Melo, a 400 km, quase divisa com o Brasil, e só voltariam amanhã na hora da partida.

Já no Hospital Italiano de Montevideo, depois de três horas de burocracia e espera, confesso que não foi fácil dialogar com a médica que me atendeu e diagnosticou a enfermidade: “pitiriasis rosada”. E continuou: “no hay tratamiento, sólo algunos cuidados, tal vez un poco de sol por la mañana”, indicou-me vagamente. Ela comentou ainda que não se sabe ao certo a causa do aparecimento das manchas, “un stress, baja resistencia, un conflicto…” Mas que era para eu não me preocupar, pois elas desapareceriam sozinhas de quatro a oito semanas. De toda forma, seria muito bom que eu voltasse a procurar um dermatologista, talvez um psicólogo, assim que chegasse ao Brasil. Perguntei-lhe se não haveria um chá qualquer para eu tomar. “No, no, ahorita es esperar, sólo esperar. No se preocupe, no es contagioso”.

Já é quase fim de tarde, li quatro periódicos locais enquanto esperava a consulta, e o Galo treina às 18h no estádio novo do Peñarol, mas é muito longe daqui. O mais sensato é eu voltar para o hotel. Não sei se o Miro vai se animar a ir. Hoje, eu vou descansar, vou ler, cuidar bem da minha saúde. Foda-se o Galo, foda-se o Miro. Que se foda o Danubio.

 

Fotografia: João Castilho. Série Metamorfose.

 

Terça-feira, 5 de fevereiro

 

Hoje, acordei bem disposto. Logo ao abrir os olhos, lembrei-me do aniversário de uma amiga, cantora, que faz 40 anos. A vida é mesmo um grande mistério. Enviei-lhe uma mensagem desejando saúde, escrevi também que era muito bom ser seu contemporâneo. Tomara que a gente chegue aos 100 anos compartilhando o próprio fato de existir.

Desci para o café bem cedo, li as páginas esportivas dos principais periódicos locais – “Danubio se apronta para jugar ante un gigante”; “El técnico Marcelo Méndez tiene muy estudiado a Minero”; “Danubio empieza a subir el repecho de la Libertadores”; “Sudamericano Sub-20: La victoria ante Brasil, 3×2, desató la fiesta en el vestuario”. Depois, junto ao balcão, certifiquei-me de como melhor chegar ao pequeno Estádio Luis Franzini, inaugurado em 1963, com capacidade para 18 mil espectadores. Estádios desse porte são sempre bem interessantes.

Agora, subirei para o quarto, porque não quero me arriscar a tomar sol com estas manchas na pele. Vou ficar quieto. É tempo de imobilidade ou de deslocamentos absolutamente pontuais. É melhor não vacilar, registre as minúcias. São tempos de delicadezas. O Miro igualmente está sozinho num quarto de hotel no centro, transcrevendo fragmentos de um livro e fumando marijuana, que conseguiu comprar na farmácia através de un tío cualquiera. Nenhum de nós sairá para a rua antes do jogo, que começa às 18h15 no horário local, ainda dia claro, mas com temperatura amena, por volta dos 17º.

Logo após o apito final, começo a viagem de volta para a casa. Antes, espero que o time saia daqui ao menos com um empate, pois decidirá a vaga desta fase da pré-Libertadores semana que vem em Belo Horizonte. Time para isso tem de sobra. Tudo indica que o grande mestre Levir, de volta ao Galo mais uma vez, entrará com o time em campo da seguinte forma: Victor; o alegórico Patric, Réver, Igor Rabello e Fábio Santos; Adilson, Elias, Cazares, Luan e Chará; Ricardo Oliveira.

Hoje, é dia de abraço, sempre o é, e um só gol ajuda, e muito.

 

Fotografia: João Castilho. Série: Metamorfose.

 

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