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O átomo futebolístico

Enrico Spaggiari

No final de fevereiro, o Museu do Futebol, sediado no Estádio do Pacaembu, promoveu o Encontro “Futebóis: pluralidade e representatividade” com o objetivo de reunir contribuições para refletir e fomentar o processo de renovação da exposição de longa duração inaugurada com a criação do Museu, em 2008. O evento contou com a participação de clubes, coletivos, movimentos e representantes de diversos futebóis praticados em diferentes regiões do Brasil.

Além de pensar o futebol no plural, com um olhar cuidadoso para as diferentes matrizes desta expressão cultural, o encontro evidenciou a intensa e contínua mobilização de grupos com vínculos diversos – pessoas que praticam, organizam, torcem e pensam – em busca de maior representatividade para suas respectivas práticas: futebol varzeano, futebol de mulheres, futebol LGBT, futebol trans, futsal masculino. Dentre tantas outras derivações do football association nos espaços das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras, cabe destacar o futebol indígena, com a presença de representantes da Comunidade Tiririca dos Crioulos, no Sertão de Pernambuco, situada na cidade de Carnaubeira da Penha, distante quinhentos quilômetros do Recife, que apresentaram o Museu do Futebol dos Bandeirantes, movimento de resgate e memória dentro da comunidade que fica próximo ao campinho de futebol da Tiririca.

O debate ao longo da manhã e da tarde me fez lembrar a segunda visita que fiz ao Museu do Futebol, em 2009. Nos meses anteriores, enquanto realizava o trabalho de campo em uma escolinha de futebol do bairro, já em fase de finalização da minha pesquisa de mestrado, alguns garotos, na faixa dos 12 anos, pediam, de forma insistente, que os acompanhasse ao Museu. Se, para mim, até hoje, a ala do futebol de mesa (ou pebolim, ou totó, ou pacau, ou Fla-Flu) que evidencia as variações táticas ao longo história é a mais envolvente, outras salas despertaram o interesse dos garotos. Se as atrações mais práticas, como o acesso às arquibancadas ou o chute ao gol, provocaram engajamentos momentâneos ao longo da visita, outras salas, principalmente aquelas relacionadas à história, curiosidades e às regras do futebol, provocaram reflexões e conversas posteriores durante o lanche em uma das escadarias laterais do estádio, quando todos ainda estavam repercutindo as impressões positivas das experiências vivenciadas no Museu.

Aproveitei aquele breve momento de euforia, que logo iria se dissipar, para estimular algumas reflexões para além da própria visita realizada naquela tarde. Interação inspirada por um texto de Roberto DaMatta sobre a construção da etnografia e a questão da alteridade, no qual o antropólogo afirma:

Realmente, quando se trata de nossa própria cultura e sociedade, fica notavelmente difícil o “afastamento etnográfico” descritivo e “realista” […] quem falaria de um jogo de futebol ou de um carnaval como se fosse um marciano? (DAMATTA, 1992, p. 62-63).

Faz-se necessário problematizar a afirmação anterior de Roberto DaMatta, contextualizando-a, de forma pontual, com o debate em torno dos conceitos de familiaridade e estranhamento. Roberto DaMatta (1978) analisou, no contexto do estudo da população Apinayé, a questão do método antropológico e a objetividade científica, em particular a trajetória antropológica de transformar o “exótico em familiar e o familiar em exótico”. A dificuldade de uma desfamiliarização consiste na exigência, segundo DaMatta, de um deslocamento narrativo, pois interpretar aquilo que é familiar tem implicações que não existem na abordagem daquilo que é colocado enquanto exótico e exterior. Gilberto Velho (1978), porém, aponta que não é possível uma simples transposição da formulação de DaMatta para o estudo das sociedades contemporâneas, pois não seria correto, ou nem mesmo existiria, o pressuposto normalmente aceito de que o familiar é necessariamente conhecido e o exótico desconhecido. Apesar de considerá-la relevante, penso que a discussão entre distanciamento e proximidade, exótico e familiar, travada por diversos autores, pode ser colocada em outros termos, como aponta Strathern (1987), para quem a existência de uma autoantropologia (ou antropologia at home) não está atrelada às condições e lugares de origem dos antropólogos, mas sim à continuidade entre o conhecimento que é produzido na pesquisa e as representações engendradas pelas pessoas da sociedade estudada sobre elas mesmas.

Futebóis. Foto: Hal Gatewood/Unsplash.

Contudo, naquela situação específica, com as crianças da Cidade Líder na escadaria do Pacaembu, a provocação de DaMatta estimulou um longo debate entre os garotos. “Como vocês explicariam o que é futebol para um marciano que acabou de chegar ao nosso planeta?”, lancei. As primeiras respostas, muito diversas, apontavam para o fato de o futebol ter sempre duas equipes que buscam fazer gols em disputa pela vitória. Um dos garotos afirmou que nem sempre precisa de duas equipes, afinal, ele joga bola sozinho em casa, batendo bola na parede. Outro confirmou e disse que fica treinando embaixadinhas sozinho em casa, então também está jogando futebol. Em seguida, alguém comentou que o futebol tem que ter bola. Um garoto discordou, pois disse que joga sem bola na sala de aula na escola, com papel amassado. Outros também disseram fazer a mesma coisa. Mas outros esportes também têm bola, lembrou um dos garotos. Alguém então apontou que futebol nem sempre precisa de bola. Foram citadas várias maneiras de jogar sem bola: meia, tampinhas de garrafa, cabeças de boneca. Em meio ao alvoroço e brincadeiras, emergiu um novo argumento: “mas futebol tem que ser jogado com os pés”. Todos concordaram. Menos um, o mais calado até então, que relatou jogar futebol com as mãos com o irmão menor, surdo. Quando um deles quer brincar só é preciso fazer o sinal de traves com a mão e então se dirigem para o chão ou para uma mesa, amassam um pequeno papel e começam a “chutar” a bolinha com os dedos indicadores. Os colegas lembraram que também já brincaram e começaram a citar outras formas de jogar futebol com as mãos, até que mencionaram o futebol de videogame, passaram a falar sobre as respectivas habilidades nos games, jogadores e times preferidos, truques e comandos no joystick, encerrando assim o profícuo debate estabelecido nas escadarias do Pacaembu.

Se, por um lado, revela-se a urgência de conferir a devida representatividade à notável pluralidade de modalidades, grupos e praticantes que flexibiliza uma discussão ainda muito centrada em um discurso hegemônico que se prende aos eventos e símbolos nacionais (a Copa do Mundo, a Seleção Brasileira, os clubes profissionais) do plano espetacularizado, por outro, faz-se fundamental seguir o exemplo dos garotos da Cidade Líder e pensar sobre a unidade básica indivisível, o átomo, que vertebra as diferentes modalidades e que permite identificá-las como práticas futebolísticas. Desafio hercúleo, por certo, mas que o Museu do Futebol, espaço privilegiado para tal reflexão, pode enfrentar em seu processo de renovação de uma exposição de longa duração que problematize e contemple as diversas partículas formadoras de uma complexa expressão cultural.


Bibliografia

DAMATTA, Roberto. “O ofício do etnólogo, ou como ter Anthropological Blues”. In: NUNES, Edson de O. (Org.). A Aventura Sociológica: objetividade, paixão, improviso e método na pesquisa social. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1978. p.23-35.

______. Relativizando o interpretativismo. In: CORREA, Mariza; LARAIA, Roque de B. (Orgs.). Roberto Cardoso de Oliveira, uma homenagem. Campinas, Unicamp/IFCH. 1992. p.49-77.

STRATHERN, Marilyn. “The limits of auto-anthropology” in Jackson, A. (Ed.). Anthropology at home. London and New York, Tavistock, 1987. p.16-37.

VELHO, Gilberto. “Observando o Familiar”. In: NUNES, Edson de O. (Org.). A Aventura Sociológica: objetividade, paixão, improviso e método na pesquisa social. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1978. p.36-46.