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O Bahia de 1959 e o Bahia de 1988

Lucas Ivoglo Castro

Até o final dos anos 1950, apenas torneios estaduais e regionais eram disputados no Brasil. Mesmo assim, o país era considerado uma referência no futebol e a seleção já havia vencido torneios importantes como a Copa América (antigamente chamada de Campeonato Sul-Americano) nas edições de 1919, 1922 e 1949. Sem contar, é claro, o vice-campeonato mundial em 1950.

No começo da década de 1950, no entanto, a Hungria que já gozava de um certo prestígio pelo vice na Copa de 1938, resolveu inovar no futebol. É certo que o inventor e revolucionário do esquema “WM” no futebol foi o inglês Herbert Charpman, famoso treinador do Arsenal dos anos 1920. Porém, a seleção húngara, sob o comando de Gusztáv Sebes, resolveu adotar o sistema de jogo e inovou no mundo da bola. Em um período curto de tempo, a Hungria chegou ao ouro olímpico, em 1952, e novamente ao vice mundial, em 1954.

Nesse período, mesmo a Hungria estando em evidência e sendo uma das maiores referências no futebol, o treinador brasileiro, Vicente Feola, apostou em uma nova metodologia ofensiva para combater o WM. Foi então que, inspirado em uma adaptação de Martim Francisco, um dos pioneiros na utilização do 4–2–4 no futebol brasileiro e técnico do Villa Nova-MG na época, Feola introduziu o sistema de jogo na seleção. Com essa inovação, o Brasil venceu sua primeira Copa do Mundo em 1958. No ano seguinte, em 1959, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) criou a Taça Brasil, primeiro torneio nacional da história. A caracterização se deu em função da Conmebol instituir que em 1960 iniciaria a competição continental de clubes, a Libertadores da América.

Antes disso, apenas em 1948 houve um único torneio sul-americano entre clubes e o Vasco sagrou-se campeão. A participação das agremiações na Libertadores envolveria o campeão nacional de cada país, por isso houve a mobilização da CBD em criar o primeiro “campeonato brasileiro”. E a participação das equipes na Taça Brasil nada mais era que um torneio com os campeões estaduais disputando partidas de mata-mata, parecido com a atual Copa do Brasil. No auge das revoluções e evoluções táticas no esporte bretão, os clubes brasileiros se espelhavam na seleção na forma de jogar. E foi dessa forma que o Bahia surpreendeu a todos conquistou o primeiro título nacional da história.

Comandando por Ephigênio de Freitas Bahiense, mais conhecido como Geninho, o tricolor baiano contava com jogadores técnicos e versáteis, com um poder ofensivo apurado sem deixar de obedecer taticamente a proposta do treinador. O sistema de jogo que Geninho adotou foi justamente 4–2–4 que vingou em 1958, com a Seleção Brasileira de Feola. No entanto, aquele esquadrão brasileiro contava com monstros sagrados como Pelé, Garrincha, Zito, Didi, Vavá, Nilton Santos entre outros não menos importantes. Já o Bahia, possuía um plantel com bons jogadores mas os comparar a esses mestres da bola, seria de uma injustiça tremenda. Com isso, a tática utilizada pelo treinador do tricolor determinava duas vertentes: com a bola e sem a bola. Com posse de bola o time agredia compulsivamente no sistema 4–2–4. Sem a bola, Alencar, o armador, antigo ponta de lança, recompunha o meio de campo formando um 4–3–3.

Sistema de jogo do Bahia de 1959

O trio ofensivo era composto pelo centroavante Léo Briglia e pelos pontas Marito e Biriba. Enquanto Briglia era um legítimo camisa nove que além de ser um exímio cabeceador, sabia se posicionar e não “guardava” posição se movimentando também, os dois pontas eram habilidosos e ótimos finalizadores. A incumbência de Alencar era municiá-los sempre visando o último passe com o objetivo do arremate para o gol e raramente retornava para recompor o sistema defensivo. O máximo que o armador da equipe baiana fazia era voltar para buscar a bola ou iniciar a jogada. Quando não estava com a posse da mesma, recuava para recompor a linha do meio ou transitava entre as intermediárias. A harmonia entre defesa e ataque se dava em função dos meias centrais: Flávio e Mário. O primeiro era propriamente um volante, cujo principal característica era a marcação, porém tinha qualidade para sair jogando. Já o “cabeça pensante” do meio era Mário, com atribuições semelhantes as de Didi na Copa de 58 e também de Falcão, no Inter, alguns anos depois. O sistema defensivo era formado pelo goleiro Nadinho, os laterais Leone (outrora Beto) e Nenenzinho, e a dupla de zaga, Vicente e Henrique. A segurança imposta por essa linha defensiva tinha como fator primordial a força física e marcação forte. Assim os soldados treinados por Geninho estavam prontos para encarar as batalhas e todos estavam em busca do objetivo de lutar pela honra e vencer a guerra, no caso, conquistar o título que coroaria uma geração brilhante.

A campanha do Bahia, que havia sido campeão baiano no mesmo ano e conquistado o direito de disputar a Taça Brasil, foi memorável. Em confrontos de ida e volta, o time despachou o CSA, Ceará, Sport, Vasco, antes de enfrentar o Santos na final. Na decisão do título, os baianos precisavam superar um dos melhores times do mundo na oportunidade, se não o melhor. O alvinegro praiano contava com um plantel fantástico comandado pelo maior de todos os tempos dentro de campo: Pelé. E a glória baiana começou a se concretizar no jogo de ida, quando o Esquadrão de Aço venceu o Peixe por 3 a 2, de virada, em plena Vila Belmiro. Na volta, no estádio Fonte Nova, a expectativa era enorme para os torcedores baianos presenciarem seu time conquistar o primeiro título brasileiro. No entanto, o Santos estragou a festa local e venceu por 2 a 0. Como naquela época ainda não havia prorrogação ou disputa por pênaltis, uma terceira partida em campo neutro foi marcada. A finalíssima seria decidida no Maracanã. Curiosamente, alegando problemas pessoais, o treinador Geninho pediu dispensa da equipe e entregou o cargo. Seu substituto foi o argentino Carlos Volante, que comandou a equipe baiana rumo ao título. Desfalcado de Pelé por problemas nas amígdalas, o Bahia sagrou-se campeão vencendo o Peixe por 3 a 1. Além do título, o time representou o Brasil na primeira edição da Taça Libertadores, em 1960. No torneio nacional, a equipe tricolor disputou 14 jogos, venceu 9, empatou 2 e perdeu 3, marcou 25 gols e sofreu 18. O atacante Léo Briglia ainda foi artilheiro da competição, com 8 gols marcados.

Ainda sob os holofotes do título brasileiro, o Bahia viria a conquistar com essa geração o pentacampeonato baiano de forma consecutiva (1958, 1959, 1960, 1961 e 1962), entre outros títulos. Após esse período, mesmo com dois vice-campeonatos em 1961 e 1963, o time começou a oscilar nos torneios nacionais e não figurava mais entre os melhores. Foram alguns anos sem ser protagonista no país. Porém, quase três décadas depois o tricolor ressurgiu no final dos anos 80 com um novo esquadrão e uma antiga formação, que para época parecia antiquada, mas funcionou e abrilhantou o futebol brasileiro.

Após fazer um bom campeonato em 1986 e ficar na quinta colocação do nacional, o Bahia dava indícios que uma nova fase de glória iria acontecer. Em 1988, o Tricolor da Boa Terra contratou o técnico Evaristo de Macedo para comandar a equipe naquela temporada. Como jogador, Evaristo foi ídolo no Barcelona, Real Madrid e no Brasil foi um dos maiores goleadores do Flamengo no período em que atuou lá. Pela seleção brasileira, vivendo seu auge na equipe da Gávea, era convocado constantemente e foi um dos cotados para o Mundial de 1958. Acabou sendo preterido por Vicente Feola e não lembrado na lista final daquela Copa. O então atacante Evaristo de Macedo vivenciou uma grande era do futebol. Como treinador trouxe sua vivência e seus conhecimentos para a prancheta.

Depois do fracasso do Brasil nas Copas de 1982 e 1986, cujo a seleção encantava pela maneira clássica de jogar porém não chegando a conquistar os títulos, a moda era priorizar o sistema defensivo. A tendência era de que o plástico sairia caro e o burocrático era a melhor forma de seguir. Esquemas extremamente ofensivos estavam fora de moda. Com isso, Evaristo resolveu trazer novamente à tona aquele sistema que certamente encantou e funcionou no passado. Evidentemente a tática usada pelo treinador não era um 4–2–4, na essência. Mas em determinados momentos a equipe quando estava atacando de maneira incisiva, jogava exatamente naquele sistema. Porém, se for comparar com os dias atuais, a composição tática dos jogadores se assemelha ao 4–2–3–1. Agora quando a equipe não estava com a posse de bola, chegava próximo de um 4–5–1. O ritmo do time era ditado por Bobô, o grande astro da equipe naquele campeonato. O jogador fazia o papel do meia armador e muitas vezes de atacante quando chegava à frente pra finalizar. Sua função tática era de suma importância e quando o meia-atacante não estava num bom dia a equipe sentia. Bobô era o articulador das principais jogadas, tinha uma visão de jogo apurada, um passe qualificado e uma finalização certeira quando entrava na área.

Sistema de jogo do Bahia de 1988

Mesmo Bobô sendo cérebro da equipe, outros componentes ofensivos eram tão importantes quanto o camisa 8. A linha do trio ofensivo era composta por Marquinhos, Zé Carlos e Charles mais centralizado. Marquinhos funcionava como uma espécie de segundo atacante enquanto Zé Carlos caía pelas pontas. Charles por sua vez, era o goleador do time. Os volantes Gil e Paulo Rodrigues ficavam na contenção. Rodrigues inclusive era o jogador do meio-campo mais próximo da defesa, chegando formar uma linha de quatro quando um dos laterais apoiavam o ataque. A função de Gil, além de marcar, era fazer a transição da bola do setor defensivo para o ofensivo. É certo que o jogador não tinha a mesma qualidade que Mário, em 1958, mas desempenhava sua função conforme designada. Os laterais, Paulo Robson e Tarantini, compunham o sistema defensivo mas também funcionavam como uma “válvula de escape” do meio para o ataque, deixando a equipe ainda mais ofensiva com a bola nos pés. Por isso o recuo de Paulo Rodrigues era tão importante as vezes. O zagueiro João Marcelo, cria da base do time e detentor de uma qualidade técnica diferenciada fazia dupla com Claudir, que impunha respeito dentro de sua área. Os quatro defensores e basicamente o time inteiro eram respaldados pela segurança do goleiro Ronaldo, outro jogador criado na base do Tricolor. Essa foi a fórmula de sucesso adquirida por Evaristo de Macedo para fazer do Bahia novamente campeão brasileiro com um time que tinha suas qualidades individuais e apresentava uma aplicação tática exemplar.

Na final, a missão era vencer um dos melhores times da temporada naquela oportunidade: o Internacional. O Colorado que era comandado pelo técnico Abel Braga, contava com um elenco qualificado sob a proteção do goleiro Taffarel. Na primeira partida da decisão, no estádio Fonte Nova, o Bahia enfrentou um nervosismo que não era comum nas partidas e saiu perdendo por 1 a 0. Mas ainda na primeira etapa Bobô empatou e no segundo tempo virou, deixando o Tricolor em vantagem pelo placar de 2 a 1. Bastava um empate para os baianos conquistarem o bicampeonato brasileiro. Na finalíssima, em Porto Alegre, com o Beira-Rio lotado o Bahia segurou um sofrido 0 a 0 e levou o caneco para casa. A campanha da equipe baiana contou com 29 jogos, 13 vitórias, 11 empates e 5 derrotas, além de 33 gols marcados e 23 sofridos. O título do Bahia encheu de orgulho seus torcedores, desde os mais simples aos mais ilustres, como Caetano Velloso que eternizou a conquista e homenageou o ídolo Bobô na música Reconxevo, no trecho: “Quem não amou a elegância sutil de Bobô. Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo”… E para fazer história e conquistar o Brasil por duas vezes, o Bahia precisou ousar e inovar no futebol com uma tática que durante qualquer período de “revolução” futebolística, parecia antiquada, mas derrubou qualquer opositor que se atreveu a desafiá-la.

* A escolha musical de hoje não poderia ser outra: Reconvexo na voz maravilhosa de Maria Betânia.


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