112.4

O bandoleiro das multidões

José Paulo Florenzano

Ao contrário da representação idealizada a respeito do futebol arte, o couro costumava comer solto nos gramados do país. Entreveros isolados envolvendo dois atletas adversários ou sururus generalizados entre equipes rivais constituíam-se, então, em cenas corriqueiras, como nos mostra a partida entre Corinthians e Jabaquara disputada em 1960 no Parque São Jorge pelo Campeonato Paulista. Depois de abrir 2 a 0 sobre os donos da casa, a modesta, mas valente equipe de Santos não resistiu à pressão e acabou cedendo o empate. A fiel torcida aguardava para qualquer momento a virada arrebatadora.

No entanto, aos 39 minutos do segundo tempo, através de uma cobrança de falta executada com maestria, a equipe visitante restabeleceu a vantagem no marcador, frustrando as expectativas da massa alvinegra. Inconformados com o resultado, torcedores exaltados invadiram o campo, ao mesmo tempo em que se verificavam cenas de pancadaria entre os atletas, “inclusive a agressão ao próprio goleiro do Jabaquara”, Barbosinha, “por parte de Almir”[1]. Não foi a primeira nem seria a última das lutas campais protagonizadas pelo jovem atacante do Corinthians. Revelado pelo Sport, de Recife, e com passagem pelo Vasco da Gama, àquela altura ele já tinha fixado na imprensa esportiva a imagem depreciativa de jogador bandido. Com efeito, em sua prestigiada coluna no jornal A Tribuna, de Santos, o articulista De Vaney traçava os contornos de uma personagem destinada a desempenhar um papel crucial nos jogos de poder tecidos em torno do atleta profissional nas décadas posteriores:

“Costumam chamar, no Rio, ao Almir de temperamental. ‘Temperamento’, no caso de Almir, é apelido, porque o que Almir possui é sangue de bandoleiro.”[2].

O jornalista aludia ao episódio ocorrido no Maracanã em agosto de 1959, quando o então atacante do Vasco, em uma disputa de bola com o médio do América, Hélio, provocara-lhe a “ruptura total dos ligamentos” do joelho esquerdo[3]. Retirado de campo numa maca e levado em seguida para o Hospital Sousa Aguiar, o atleta adversário não obteve dos médicos uma data certa para o retorno aos gramados, dada a gravidade da contusão. Imobilizado no leito de casa, no bairro de Encantado, lançado na incerteza quanto ao futuro da carreira, Hélio recordava ao repórter do Jornal do Brasil ter ouvido no lance fatídico o “grunhido raivoso” proferido por Almir, cuja “expressão transtornada” ficara gravada em sua memória. Apesar de tudo, ele não pretendia crucificar o responsável por deixá-lo inutilizado em uma cama, sem poder exercer a profissão, incapaz doravante de prover ao sustento da esposa e dos três filhos.

A situação vivida por Hélio expunha a fragilidade da carreira do atleta profissional, os imponderáveis aos quais ela se encontrava submetida: um buraco no terreno, a ira de um adversário, o acaso de um lance. No caso específico do jogador do América, o mal-estar causado pela ação do atacante cruzmaltino exigia ao menos um gesto de solidariedade. Sob os auspícios do jornal O Globo, e acompanhado da autoridade moral de Bellini, capitão do Vasco e da Seleção Brasileira, Almir foi até o bairro do subúrbio carioca a fim de apertar a mão de Hélio, não para reconhecer o erro e pedir desculpas, mas para arrebatar uma declaração que o eximisse de culpa. Ao jogador acamado, ele assegurava que não teve a intenção de atingi-lo: “Foi uma fatalidade, justamente você que sempre tem sido adversário dos mais leais.”[4].

De fato, conforme explicara anteriormente à reportagem do Jornal do Brasil, o médio do América acreditava que a intenção de Almir fora revidar ao zagueiro da equipe alvirrubro, Leônidas, que pouco antes o havia atingido com uma falta dura. Mas como “eu estava exatamente na posição em que Leônidas” jogava, “naquele momento, acho que o Almir me confundiu com ele”[5]. Conforme assinalava a imprensa carioca, o jovem atleta do Vasco possuía um estilo de jogo que o expunha facilmente às faltas cometidas pelas defesas adversárias. Intrépido, ele partia para cima dos zagueiros, projetava-se em direção ao gol, delimitava a grande área como o território predileto para desenvolver suas ações. Por conta desta atuação destemida, no entanto, colecionava muitos pontapés, todos, porém, devidamente retribuídos. O confronto com o América parecia repetir um script conhecido, não fosse uma dose exagerada empregada no revide, aplicado, além disso, ao adversário errado. Esta era a interpretação do consagrado cronista do Jornal dos Sports, Mário Filho, para quem o América havia perdido Hélio “numa pisada de Almir, não para quebrar a perna”, acreditava ele, mas “para pisar apenas, ou para machucar tão somente”[6]. Dessa maneira, por uma sucessão de enganos, aos 37 minutos do primeiro tempo o médio de Campos Sales, que não fazia mal a ninguém, deixava o prélio, enquanto Almir permanecia em campo, graças à cumplicidade da arbitragem, mas a um custo muito elevado, como salientava Mário Filho:

“Hélio foi retirado de campo numa maca com todo o aparato, e a torcida passou a gritar ‘é esse’ para Almir. Almir ainda tentou jogar, mas desistiu logo. Era caçado em campo e o juiz lavava as mãos a cada sarrafada que o pernambuquinho recebia.”[7].

Se, dentro das quatro linhas, o atacante do Vasco era perseguido sem trégua pelos adversários, movidos pelo desejo de vingar a violência sofrida pelo companheiro de equipe, fora de campo, ele recebia a marcação não menos implacável de determinados setores da crônica esportiva. Nesse sentido, ao contrário da interpretação condescendente de Mário Filho, De Vaney emitia o veredicto sumário da condenação do atacante da Cruz de Malta: “O seu prontuário, na Polícia do Futebol, que é o Departamento de Árbitros, é um nunca mais acabar de citações”. Esta visão policialesca, expressa de maneira tão aberta e veemente pelo influente cronista da cidade de Santos, estava longe de refletir as idiossincrasias do articulista de A Tribuna, constituindo-se, antes, no apanágio da vertente hegemônica do jornalismo esportivo, cuja existência, por sua vez, remonta à implantação da ordem punitiva no futebol brasileiro.

almir

Conforme nos mostra a análise acurada do pesquisador Jorge Miguel Acosta Soares, o Código Brasileiro de Futebol, criado em 1945, reproduzia os princípios ideológicos do Estado Novo consubstanciados no modelo do homem ordeiro e disciplinado, afigurando-se, sob muitos aspectos, um decalque do Código Penal instituído em 1940[8]. A tese de doutorado do autor revela-nos a invenção, o funcionamento e a ideologia da “máquina judiciária desportiva”, posta em movimento com o objetivo de promover a disciplinarização dos atletas oriundos das classes populares, considerados, tanto pelos intelectuais do regime varguista quanto por jornalistas da crônica esportiva, irresponsáveis e desordeiros.

Os “arquitetos intelectuais” do edifício penal do esporte ansiavam instaurar uma experiência normativa isenta dos atos reprováveis atribuídos aos atletas pobres e negros, muitos, migrantes nordestinos, a imensa maioria, com baixo nível de escolaridade. Nesse sentido, não devemos nos surpreender com a observação de Jorge Miguel Acosta Soares, segundo a qual o Código Disciplinar e o Código Penal compartilhavam os mesmos preconceitos sociais e raciais direcionados aos indivíduos das camadas populares. Da perspectiva das elites, a substituição no gramado de jogo da figura distinta do sportman pela personagem marginal do boleiro justificava plenamente a ordem punitiva no futebol, instituída não apenas para coibir as práticas violentas, como, sobretudo, para inventar a categoria conveniente para o jogo de poder do jogador bandido[9].

Mas enquanto o jornalista De Vaney, com o prontuário de Almir nas mãos, clamava providências à “Polícia do Futebol” contra o “bandoleiro” da Cruz de Malta, eis que irrompe no Tribunal de Justiça o dramaturgo Nelson Rodrigues. Qual um advogado de defesa, ele tomava a palavra para rebater uma a uma as acusações que recaíam sobre o jovem atleta do Vasco da Gama, colocado no banco dos réus pelos juízes da normalidade: “contam que Almir xinga os adversários”, profere os piores palavrões em campo, ofende a moral e os bons costumes do público torcedor. Rechaçando esta visão do jogo, a argumentação de Nelson Rodrigues inscrevia-se na linha filosófica da “vida como ela é”:

“O futebol jamais foi mudo, jamais exigiu do craque um silêncio de sarcófago. Direi mais, se me permitem: o futebol é o mais falado e o mais pornográfico dos esportes.”[10].

Inscrevendo o “berro pornográfico” numa longa tradição que datava dos “nautas camonianos”, o dramaturgo naturalizava a cultura da virilidade dentro da esfera esportiva, argumentando que, “apesar de todas as convenções disciplinares do profissionalismo, o futebol vai muito da bravura pessoal dos craques”. Mais ainda: vinculando a imagem da nacionalidade à concepção de uma masculinidade viril, ele advertia o público presente ao Tribunal da Norma: “O sujeito que tiver medo de careta não pode nem sonhar com a seleção patrícia”. Ora, eis o segundo ponto da defesa de Almir esgrimida por Nelson Rodrigues: “ele não foge do pau”. O atacante do Vasco possuía a “coragem” necessária para penetrar no campo inimigo e enfrentar os zagueiros adversários, sem se deixar intimidar por ninguém. Por último, mas não menos importante, Nelson Rodrigues advogava em favor do “futebol de primeira qualidade” demonstrado pelo jovem e destemido atacante pernambucano, a ponto de nomeá-lo o “Pelé branco” do nosso futebol.

De acordo com Nelson Rodrigues, Almir reunia o atributo moral da coragem, a capacidade técnica do drible, a força física que lhe assegurava uma “velocidade de bala”. Mas, contrariando as expectativas geradas pelo início de carreira, frustrando todo o potencial que o dramaturgo lhe reconhecia, o tiro do controvertido atacante sairia pela culatra. Ao invés de se consagrar como o “Pelé branco” do selecionado canarinho, ele acabaria convertido pela corrente hegemônica do jornalismo esportivo no arquétipo do jogador bandido, figura maldita de uma cultura futebolística que, longe de ser estática, passava por profundas transformações, abrigando uma nova experiência normativa do ser atleta, depurada dos traços mais inquietantes que o “bandoleiro” das multidões exibia em campo.


[1] Cf. “Sensacional vitória do Jabaquara sobre o Corinthians no Parque S. Jorge: 3 a 2”, A Tribuna, 4 de agosto de 1960.

[2] Cf. “Quem com ferro fere…” A Tribuna, 5 de fevereiro de 1960.

[3] Cf. “Hélio, muito calmo: Almir fez por querer”, Jornal do Brasil, 11 de agosto de 1959.

[4] Cf. “Almir e Hélio apertam-se as mãos”, O Globo, 12 de agosto de 1959.

[5] Cf. Cf. “Hélio, muito calmo: Almir fez por querer”, Jornal do Brasil, 11 de agosto de 1959.

[6] Cf. “Triunfo para o álbum de glórias do América” Jornal dos Sports, 10 de agosto de 1959.

[7] Cf. “Triunfo para o álbum de glórias do América” Jornal dos Sports, 10 de agosto de 1959.

[8] Soares, Jorge Miguel Acosta (2016) Justiça Desportiva: o Estado Novo entra em campo”. Tese de Doutorado, História Social, PUC-SP.

[9] Sobre a invenção do jogador bandido, ver Florenzano, José Paulo (1998).  Afonsinho e Edmundo: a rebeldia no futebol brasileiro. São Paulo, Musa Editora.

[10] Coluna: “Escreve Nelson Rodrigues”, Manchete Esportiva, nº 172. Rio de Janeiro, 7 de março de 1959. Todas as citações de Nelson Rodrigues pertencem ao referido texto.