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O cavaleiro, o rei e o divino

Danilo Sant'Ana

“O futebol é a coisa mais importante das menos importantes”, essa frase já foi atribuída a Nelson Rodrigues, ao técnico italiano Arrigo Sachi e até mesmo a Milton Neves; mas com respeito aos demais, acredito que Nelson Rodrigues, talvez nosso maior cronista, seja o primeiro que soube trazer esse espírito, principalmente na realidade do brasileiro.

Esse drama, essa paixão, a qual Nelson e seu irmão Mário Filho, que nada menos batiza o estádio do Maracanã, souberam traduzir com maestria em suas crônicas, tragédias e exageros, sim, exageros, metafísicas e hipérboles.

Essa hipérbole, essa forma muito particular de enxergar o futebol do brasileiro, que se transforma em paixão, ódio, reverbera, transforma e capta nossas emoções mais genuínas, tem um início, geralmente na infância, na escolha do time do coração. Muitas vezes essa escolha já vem de berço, mas, no meu caso específico, passou por três figuras: o Cavaleiro, o Rei e o Divino.

O cavaleiro Dom Quixote, por Honoré Daumier, cerca de 1868. Foto: Wikipedia.

Quando criança, na minha escola teve dessas gincanas, que misturavam jogos com conhecimentos e havia ali uma Olimpíada de Geografia. Consistia numa maratona de perguntas sobre conhecimentos das regiões e capitais dos estados brasileiros. A prova era destinada apenas para alunos da 4ª série, mas a minha Professora, Fareneide, insistiu que fosse aberta uma exceção para que um aluno da 1ª série pudesse disputar. Acredito que os demais competidores não enxergaram uma ameaça e permitiram que eu disputasse. A soberba precedeu a queda. Havia me preparado como nunca, passado a noite anterior inteira com um mapa do Brasil, até meu pai havia me ajudado numa música para memorizar as capitais. A zebra da competição venceu. O prêmio? Uma versão do famoso livro “Dom Quixote”.

Depois da minha luta de Davi contra Golias, aquele livro me era um prêmio inestimável. O levava para cima e para baixo e, por mais que não entendesse muita coisa do que ali estava, fazia questão de ler cada detalhe das aventuras do “Cavaleiro andante”. Gargalhava com as trapalhadas e desventuras. Talvez não tivesse a maturidade para entender o clássico de Cervantes em toda sua complexidade, mas entendia que alguém que realmente gostasse de alguma coisa, era capaz de transformar moinhos em gigantes.

Mas voltemos ao futebol. Por vezes, essa paixão do brasileiro pelo futebol perpassa por uma questão hereditária. Todo pai quer ver seu filho torcendo pelo mesmo time. Meu pai, um santista fanático, bem que se esforçou. Aliás, foi até muito bem sucedido, todos os meus outros irmãos torcem pelo time dele, com exceção de mim. Sua estratégia de convencimento era muito simples. Bastava enaltecer a figura de Pelé ou, como ele dizia, o “ Rei do futebol”. Meu pai fazia questão de lembrar que Pelé foi o maior jogador de todos os tempos, que era rápido, habilidoso e fazia muitos gols. Era um método simples, mas eficaz. Era impossível ver lances passados de Pelé e não se maravilhar com a facilidade do drible vertical e como ele arrebatava seus adversários um a um diante de sua capacidade física e técnica.

O rei Pelé veste coroa e cetro em sua despedida da seleção brasileira em 1971. Foto: Reprodução/Twitter/SantosFC.

Porém, meu pai não contava com uma competição velada nos bastidores. Às vezes ficava na casa de um vizinho, quando minha mãe tinha de sair. Na casa desse vizinho, havia ali um senhor apaixonado por futebol. Eu não conhecia muita coisa, como criança, falava o que ouvia do meu pai. Falava sempre sobre Pelé, o Rei do Futebol, o maior de todos os tempos. Esse senhor não discordava, aliás, concordava sobre a genialidade de Pelé. Entretanto, acrescentava alguns pontos na história. Que o Santos de Pelé havia sido uma equipe excepcional era inegável, isso ele fazia questão de mencionar, mas havia uma outra equipe que era a única que conseguia fazer frente a essa equipe fenomenal, uma tal Academia.

Nessa Academia de Futebol, como fazia questão de retratar, havia também um protagonista, talvez não tão rápido e nem com tantos gols quanto o Rei, mas em igual genialidade. Um tal de “Divino”.

Esse Divino, dizia ele, tinha consigo um poder desses que só as divindades possuíam, o poder de parar o tempo. “Parar o tempo?”, eu me perguntava.

O divino Ademir da Guia em campo. Foto: Reprodução/YouTube.

Enquanto ele seguia dizendo que, a partir do momento que ele tocava na bola, as leis da física se dobravam ao seu futebol; e o tempo do jogo corria em câmera lenta, o tempo que ele determinava.

Eu seguia maravilhado para minha casa depois de ouvir as histórias desse time. Como alguém poderia parar o tempo? Ia para casa e lia o meu livro, imaginava ali Dom Quixote e Sancho Pança parando o tempo e resgatando em segurança o Elmo de Mambrino das mãos do Rei malvado.

O tempo passava e as histórias dessa equipe continuavam. Tinha um tal de Luís Pereira, um zagueiro que fazia mais gols que a maioria dos atacantes. Um tal de Leivinha, que parecia ter molas nos pés ao saltar para cabecear uma bola. Mas o destaque era sempre uma dupla de meio-campo, que se entendiam de costas um para o outro, como dois lados de uma mesma moeda.  Um marcador implacável e um maestro que regia a ópera em silêncio, as duas engrenagens que faziam toda máquina girar. Pensava comigo que fosse ali Cervantes escutando aquelas histórias, a dupla Sancho e Quixote seria rebatizada para Dudu e Ademir.

Acho que o dia derradeiro da escolha do meu time, se deu num dia em que passou na televisão uma memória de um tal “Clássico da Saudade”. Assistia uma obra de arte. Santos de Pelé contra o Palmeiras de Ademir da Guia. Meu vizinho era o narrador e o comentarista principal.

Pude assistir naquele jogo dois opostos, Pelé e Ademir, um negro com um uniforme todo branco que corria muito nervoso e não via a cor da bola, enquanto um branco com uma camisa escura não precisava nem correr para ter a bola todo o tempo em seus pés.

Como Quixote descrevia Dulcinéia, meu vizinho descrevia cada jogada de Ademir da Guia, como ele ditava o ritmo de jogo, como sempre parecia calmo, independente de qualquer circunstância da partida, era sempre ele que controlava o tempo.

E a partida seguiu 1, 2, 3, 4 a 0 para o Palmeiras em cima do Santos de Pelé. E a cada vez que o time do Santos acelerava o ritmo da partida em busca do resultado, os jogadores do Palmeiras pareciam procurar o Ademir em campo, que repetidas vezes congelava o tempo e determinava o ritmo do jogo, o tempo que ele determinava.

“E não é que ele tinha o poder de parar o tempo mesmo?”, pensava comigo.

Por fim, naquele dia, veio o golpe derradeiro, meu vizinho percebeu o meu fascínio e me deu de presente uma camisa do Palmeiras, bem velhinha e surrada que ele tinha guardado no fundo do armário, daquelas de pano que se usava na época de Pelé e Ademir.

Voltei para casa com aquela camisa. Meu pai até hoje não sabe bem o que aconteceu. Ele até tentou correr atrás do prejuízo, insistiu com as histórias de Pelé, mas dali em diante não tinha ouvido que escutasse.

Até hoje, não sei dizer se o efeito hiperbólico estava na criança que escutava as histórias ou no saudosismo daquele senhor que as contava. Seria eu, como Alonso Quijano que dotava de sinal particular as cantigas de Amadis de Gaula ou o efeito quixotesco já estava nas histórias que ouvi?

A camisa surrada de pano tenho comigo até hoje e ascendeu ao grau de relíquia toda vez que é trazida à tona, acompanhada da mitologia daquela equipe fantástica que compôs a Academia de Futebol.

Aprendi mais tarde, nos poemas de João Cabral de Melo Neto, que meu vizinho não era o único fascinado pelo futebol de Ademir. “O ritmo do chumbo e o peso da câmera lenta…”, talvez fossem formas mais rebuscadas de se descrever que alguém podia “parar o tempo”.

E, assim, o futebol para o brasileiro se transforma em paixão, ódio e poesia. Essa leitura tão particular que transforma tudo o que a imaginação toca. Até mesmo uma camisa velha de pano e uma escolha de um time tomam ares de epopeia e nostalgia. E, afinal, não seria esse o sentido que a obra de Cervantes desvendou na humanidade?

Como citar

SANT'ANA, Danilo. O cavaleiro, o rei e o divino. Ludopédio, São Paulo, v. 129, n. 21, 2020.