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O cenário do futebol brasileiro. Estilo de jogo nacional x globalização

Alexandre Francisco Alves

O futebol brasileiro, vitorioso e respeitado mundialmente é um exemplo particular da criatividade e adaptação dos nossos jogadores ao chamado sistema de jogo, preservando as características reconhecidas nos atletas brasileiros. Da mesma forma, cada sistema também deve ter sua adaptabilidade pensada para o elenco que se possui. O esporte, ao longo do tempo, incorporou sua própria divisão do trabalho e os jogadores se especializaram nas suas funções dentro de campo, apesar da versatilidade que se espera observar nos jogadores.

O sistema de jogo, chamado de esquema tático no “futebolêz”, não se atenta somente à disposição dos jogadores dentro de campo, através da distribuição nas três zonas do campo, defesa, centro e ataque, mas à sua totalidade e complexidade tanto ofensiva quanto defensiva. Obviamente, cada sistema de jogo é utilizado de forma diferenciada por várias equipes, sendo elas seleções ou clubes. O 4-4-2, por exemplo, o sistema mais utilizado no Brasil nos últimos anos, é diferente do praticado em alguns países da Europa e da América Latina, bem como pode sofrer variações dentro dos próprios clubes nacionais.

Atualmente, com a mercadorização e o consumismo, o assunto da caracterização do estilo de jogo das seleções tem vindo à tona. Será que aquele futebol que desenhou as marcas profundas no estilo de jogo de cada nação futebolística ainda faz parte das seleções, como ainda são lembradas no passado? Como exemplo a habilidade e a desenvoltura são características da afirmação de um estilo de jogo que conferem ao futebol brasileiro uma especificidade e originalidade, símbolos de identidade forjada ao longo do tempo e a partir da constituição desse esporte como o mais popular do país.

Assistindo a partidas da Eurocopa, da Liga dos Campeões e da Copa América, e mesmo ouvindo alguns comentários, surgem alguns questionamentos acerca da qualidade do futebol que vem sendo jogado nos nossos campeonatos regionais e nacionais.

Nosso campeonato nacional está aquém dos demais? Será que a qualidade técnica de nossos jogadores está baixo?

Esses questionamentos poderiam explicar a quase inexistência de jogadores dos clubes brasileiros, presentes na seleção brasileira atual, seja disputando a Copa América, seja penando para se manter nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Essa também é uma intrigante questão que pode ser explicada por uma opção da atual comissão técnica do selecionado brasileiro, movida por pressões do órgão que administra o futebol brasileiro, a CBF. Parece que nas rodas de bate papo, nas conversas informais, cada vez se tornam mais escassas as conversas e debates sobre a nossa seleção. Não raros são os casos de torcedores que sequer sabem onde tal jogador atua, que clube defende ou se está em atividade ou não.

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Seleção brasileira que enfrentou o Peru no último jogo da primeira fase da Copa América Centenário. Foto: Lucas Figueiredo/MowaPress.

A cada jogo da Seleção, jogadores diferentes entram em campo, numa rotatividade que inevitavelmente faz transparecer grandes inconsistências e um padrão de jogo mimético. Nos últimos jogos, sob o comando do técnico Dunga, foram várias seleções que entraram em campo, com jogadores diversos e que trouxeram consigo formas de jogar diversificadas, bagagens de seus clubes nos quais treinam diariamente e obviamente reproduzem nas partidas.

Talvez a eliminação prematura do Brasil ainda na primeira fase da Copa América, disputada nos Estados Unidos, que culminou na demissão de Dunga, seja o reflexo de uma grande dificuldade de integração das várias culturas futebolísticas personificadas em cada jogador traduzindo-as em um padrão de jogo que fosse eficiente explorando as melhores características de cada atleta.

Em tempos de crise, tanto política quanto futebolística, o outro tema que vem à tona é o apelo pela modernização, tanto das organizações gestoras do esporte, quanto da forma de se jogar. Em suma, se questionam os componentes técnicos e táticos e as capacidades físicas e técnicas dos jogadores. Basta o insucesso em um evento global, como a Copa do Mundo, para que seja retomado o apelo pela modernização do futebol brasileiro, assim como em 1990, quando da desclassificação da Copa da Itália pela Seleção da Argentina os mesmos atributos foram questionados.

Se por um lado, na década de 1990 se clamava pela modernização dos processos de gestão do nosso futebol, a demanda atual, além de reforçar esse discurso, é pela melhoria da qualidade dos jogos. Esse discurso aparece em momentos muitos particulares, como o que estamos vivenciando agora e são reflexo das transformações por que passa nossa sociedade.

Em contraposição à essa ideia de modernização está a de reafirmação de um estilo próprio de jogo calcado no conceito de futebol arte, que reflete toda uma visão romântica e passional que historicamente fizeram do futebol um espaço de representatividade e pertencimento, marcas de expressão da nacionalidade de ser brasileiro.

Fazendo uma reflexão sobre essa crise vivenciada no futebol brasileiro, as transformações ocorridas nas últimas décadas, movidas pela globalização, tornaram o futebol uma mercadoria rentável, colocando-o no mercado do entretenimento mundial com grande ênfase dos meios de comunicação de massa, sobretudo o mercado televisivo.

Neymar do Brasil reage durante partida contra o Peru pelas eliminatorias da Copa 2018, na Arena Fonte Nova, em Salvador, Bahia, Brasil, Novembro, terÁa-feira, 17, 2015. Foto Andre Mourao/Mowa Press

Neymar do Brasil reage durante partida contra o Peru pelas eliminatorias da Copa 2018, na Arena Fonte Nova. Foto Andre Mourao/Mowa Press.

Se em suma, a ideia de globalização traz consigo a fragmentação das identidades, causando um grande impacto na identidade cultural, como nos comportaremos diante dessa crise em que, por um lado se exige um padrão de jogo que seja essencialmente brasileiro, e por outro se rende a um futebol que passa a ser um produto a ser consumido?

Para concluir, levanto alguns questionamentos: O futebol brasileiro não é capaz de produzir e colocar em prática um sistema de jogo eficaz, que represente um estilo nacional, constituindo uma reação ou uma forma de resistência diante do processo de globalização?

O Brasil é capaz de formar jogadores de futebol para atuar no mercado internacional, mas não há em território nacional jogadores capacitados para representar a seleção?

Estamos sendo colonizados novamente? Politicamente e futebolisticamente estamos reproduzindo modelos utilizados em outros centros, sobretudo na Europa, sem refletir sobre eles?

Diante dos aspectos modernizantes e globalizantes, a reflexão sobre a representatividade do nacionalismo futebolístico através de um apelo ao retorno de um estilo de jogo particular, nos permite pensar de forma crítica os desafios que o futebol, bem como a sociedade brasileira terão pela frente.