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O clássico do silêncio

Danilo Barcelos

Um clássico de futebol é, antes de tudo, a soma de narrativas e paixões. Existe, em torno do espetáculo, uma soma de tradições construídas, de histórias vividas e eternizadas – seja pelos torcedores, sejam do espetáculo. Tais narrativas e paixões que constroem um clássico recriam, vez ou outra, elementos dos mais tradicionais, que encontramos e estudamos há muito no campo dos Estudos Literários, em especial o poder de imortalização da narrativa e a paixão trágica. Para entendermos esses processos, é bom retomarmos elementos próprios da tradição narrativa ocidental e também da construção das relações passionais que criamos com certos narrares.

Lembremos então da função das narrativas iniciais, das mais antigas narrativas ocidentais, que encontramos nas Epopeias. Para um homem grego da Antiguidade, a imortalidade não era uma condição de seu espírito. Morrer não era garantia de alcançar a vida eterna. A vida eterna consistia em permanecer na memória coletiva de seu povo. Imortal era aquele que sempre figuraria nas histórias, nas narrativas, e alcançaria isso por meio de seus feitos heroicos. Ser lembrado por todos era alcançar a Glória. A Glória era a forma grega de imortalidade.

Ulisses

Ulisses na gruta de Polifemo, por Jacob Jordaens, século XVI. Museu Pushkin. Fonte: Wikipédia

Era o aedo quem dava às pessoas de determinada comunidade o lugar na Glória. Um poder enorme de imortalizar pessoas comuns. O aedo, pela voz da musa, cantava quem deveria ser glorificado, quem tinha os melhores feitos, quem e o que não deveria ser esquecido. A Glória era permanecer na memória, sempre.  Nesse sentido, os feitos militares de Aquiles na Ilíada, a viagem de Ulisses na Odisseia imortalizaram esses gregos, que permanecem até hoje na memória coletiva ocidental. Alcançaram a Glória, esse atributo só possível de ser dado pela narrativa.

Em seguida, quando no teatro grego a tragédia surgiu, outra forma de contato com essa memória coletiva foi experimentada. Reviver, ali, no momento da atuação, uma história já há muito sabida de todos, tencionada pela força do sofrimento do herói, capaz de suportar uma dor superior a dos mortais. A dor de Édipo ao descobrir que havia matado seu pai e estava já há um tempo casado com sua própria mãe. A dor da qual não podemos nos afastar caso queiramos superá-la, em especial a dor profunda de aceitar seu destino, independente do que ele nos reserva. A essa dor os gregos chamavam pathos, palavra que deu origem a nossa moderna palavra “paixão”.

Paixão, então, inicialmente significava sofrimento. Sofrer algo insuportável, algo que só os mais fortes são capazes de superar. Uma dor sobre-humana e lancinante. A dor de Édipo que, para se punir por tudo que viveu, se cega – e não se mata – para viver por toda a vida a dor na escuridão. Uma dor que desconcerta e que nos faz ter para com aquele que sofre uma relação de partilha, dividindo com ele esse sofrer: a compaixão. Por isso, a dor da paixão devia ser coletiva no mundo grego da tragédia. Só por meio da catarse, dessa compaixão que nos leva ao pranto convulso e ao sentimento de dor do outro, era possível aprender de forma significativa as tensões morais coletivas que organizaram a sociedade grega daquele período.

Édipo e a Esfinge

Édipo e a Esfinge, por Gustave Moreau, Museu Metropolitano de Arte. Fonte: Wikipédia

Assim, o mundo clássico grego, nos seus aspectos do que hoje chamamos de literários, são formados, em uma parte substancial, por narrativas gloriosas e heroicas, por um lado, mantendo na memória os imortais e, por outro, formando a moralidade por meio do compartilhar e sentir a dor da paixão trágica, capaz de ressignificar a vida coletiva.

A partir disso, pensaremos o termo “clássico” usado para definir um confronto de dois grandes rivais do futebol. Sei que ele tem um sentido um tanto vago, que busca dar ao confronto ares de destaque. Como comumente usamos, no mundo da cultura, quando queremos dizer que aquele contato é, ao mesmo tempo, a experimentação de algo solidificado na tradição – a leitura dos Clássicos da Literatura, o contato com a dita Música Clássica, etc – ou como algo que precisamos assistir de forma especial, deslocado das atividades corriqueiras de determinada prática. No nosso tempo, quando dizemos “isso é um Clássico”, voltamo-nos para o objeto com uma postura cerimoniosa, esperando daquilo fruir uma experiência ao mesmo tempo consagrada e única, especial em muitos níveis. Mas, para além disso, há nessas experiências no futebol, em latência, algo de efetivamente clássico: a construção de uma narrativa que irá, invariavelmente, levar à Glória, a um tipo de imortalidade, e a força avassaladora da paixão.

O futebol está recheado desses exemplos. Desde a saga do menino de pernas tortas que ganhou o mundo ao silêncio ensurdecedor de um Maracanã numa final de Copa do Mundo. Passa invariavelmente pelo menino negro e pobre do interior que foi recebido no mundo como um monarca porque fazia com a bola nos pés jogadas impensadas. Numa constelação de glorificados pelas narrativas, podemos atravessar continentes, imortalizar pessoas, levá-las à vivenciar algo parecido com a Glória Clássica da imortalidade.

Na outra face dessa mesma moeda, o que orienta essa relação gloriosa é um profundo contato com a dor. Um sofrer do qual nenhuma partida está desvencilhado. A paixão pelo clube, da qual a arquibancada compartilha, a geral agonizava. O público que, sintonizado à paixão, é apaixonado por seu clube – e portanto, sofre por ele. Mesmo porque, a palavra paixão cria outras: a antipatia ao adversário, a simpatia por outros clubes, a empatia ao espetáculo. Em cada um desses termos, pathos é o radical grego que os orienta no termo patia. Por isso, um jogo de futebol é um espetáculo de paixões, mesmo quando apático.

Nessa dupla da narrativa imortalizante e da paixão, o futebol concentra em si elementos de duas tradições clássicas: a Tragédia e a Epopeia. Está na genealogia das relações com esse esporte, sem par na modernidade. Dentro dessa dupla, um misto de processos se estabelece e se dá: desde a relação inicial com o torcer a reconhecimentos e mudanças do espaço geográfico de cidades, chegando a políticas de Estado e na relação desportiva entre nações. Em todas elas, em alguma medida, conflituam paixão e narrativa.

É por esse caminho que gosto de pensar os clássicos. Neles temos a experimentação do máximo da narrativa moderna do futebol como também do máximo da experiência moderna da paixão. Ganhar um clássico é rememorá-lo por décadas, revivê-lo pelos lances marcantes de seus heróis, imortalizar personagens que podemos ver em fotos e seguir em seu envelhecimento, marcar condições temporais (isso é de mil novecentos e Cafunga Bastos, aquilo é do tempo do Zagalo, isso é de quando Garrincha estreou, etc). Junto, é o momento em que experimentamos a paixão na dupla sensação de euforia e dor na imprevisibilidade contingente de uma partida de futebol. Tudo é possível no espetáculo. E como na tragédia, o espetáculo depende intimamente de sua relação com o público: é preciso que o público vivencie essa dor trágica.

Desde o início da pandemia, tornou-se comum assistir jogos com os estádios vazios, sem o público e sua dor presente, no espaço da cena do jogo. Tivemos finais de campeonatos, disputas das mais variadas e em todas elas, o eco entristecedor das gravações dos cantos das torcidas, um coro mecânico que ecoa do passado, como se fosse possível suprir essa falta com o som, as vozes dos apaixonados das arquibancadas. Não há a presença do público e sua paixão, e a narrativa se enfraquece, o espetáculo perde força, os heróis se animam menos.

Em função dos desdobramentos do ano passado, dos contextos específicos de um campeonato alheio a narrativas glorificadoras e edificantes, no domingo do dia 11 de abril os dois maiores clubes de Minas Gerais se enfrentaram pela primeira vez na pandemia. Um clássico, em todos os sentidos que dissemos. Foi a primeira vez que se enfrentaram sem suas torcidas num jogo que reúne muitas narrativas.

A primeira delas é a que se constrói em torno do centenário do confronto. Em 1921, no Prado Mineiro, a recém-nascida Società Sportiva Palestra Italia enfrentou – e venceu – o já campeão Clube Atlético Mineiro. A “Società” mudou de nome, mudou de cores e há quem diga que o clássico mineiro entre Atlético e Cruzeiro só começou mesmo em 1942, quando nasceu o time celeste com tais nomes e cores. Mas o passado que o próprio clube negou em 1942 hoje retornou ressignificado – não é mais o tempo da Segunda Guerra e é preciso comemorar essa primeira fase rubro verde, ressignificar a narrativa. O Clássico das Alterosas, então, convencionado pelas narrativas que o circundam, existe desde aquele jogo entre o mais importante time da época e o estreante que chegou ganhando todas, com fome de vitória.

A narrativa que se constrói no confronto entre os rubro-verdes e os alvinegros é aquela que, 21 anos depois do início do confronto, será ampliada quando a celeste se estabelece como a cor do clube do Barro Preto. A rivalidade entre a celeste do Barro Preto e o alvinegro do Lourdes ultrapassa as fronteiras dos bairros vizinhos. Ganha a cidade de Belo Horizonte,  todo o Estado de Minas na imprensa impressa e no rádio, ultrapassa as fronteiras do futebol. É o confronto que se vende nas bandeiras nas bancas de jornais, a divisão dos cadernos de esportes, a divisão das partes do Mineirão e dos caminhos que cada torcida percorre na cidade, os times dos jogos de totó/pebolim. Define faixadas de bares, está nas caixas de leite, motiva torcida em jogos de porrinha pelas esquinas do país, abre embaixadas pelo mundo.

Eu poderia contar milhares de feitos históricos que envolvem as muitas fases do Cruzeiro no ano de seu centenário. Também outras tantas inumeráveis do Atlético, em especial na história dos confrontos. Essas narrativas que ainda se costuram, porque nem concordar sobre o número real de clássicos os rivais conseguem. Uma rivalidade que, como toda rivalidade, está mais nos torcedores que nos clubes. Superou há muito o espaço específico do futebol.

Cruzeiro

Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro/Fotos Públicas

Nesse 11 de abril escreveu-se mais um capítulo dessa narrativa. No clássico do centenário o Palestra estava em campo, no escudo bordado na camisa comemorativa do Cruzeiro, no Bandeirão da arquibancada com a forma geométrica do escudo palestrino. Estavam em campo, depois de mais de meio século, mesmo que de forma sutil, o verde e o vermelho palestrino do jogo no Prado contra o já listrado em preto branco Atlético. Teve discussão entre os jogadores que, levados à emoção da partida, quase se pegaram aos tapas – como era comum nos embates que se sucederam entre o sangue italiano palestrino e a garra popular atleticana. Teve até redes pintadas de azul e branco. O Cruzeiro repetiu o feito do Palestra no primeiro jogo e saiu com a vitória e isso gerou discussão em todos os lugares onde se reuniram atleticanos e cruzeirenses, tomou os jornais da semana, o jogo foi discutido nas redes sociais, foi analisado incontáveis vezes pela imprensa mineira. Tudo que um clássico tem direito. Só não teve o principal: a torcida.

Como citar

BARCELOS, Danilo. O clássico do silêncio. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 56, 2021.