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O clube que a Alemanha odeia

Tiago Carrasco

Assim que a bola começa a rolar no Audi Sportpark, o estádio do Ingolstadt, a claque da casa exibe uma tarja de ódio contra os visitantes de Leipzig: “Aqui bebe-se cerveja, não mijo de boi”. Seguem-se outras, em que os adversários são chamados de “porcos”, “batoteiros” e “assassinos do futebol”. E sempre que o rival cria uma oportunidade de gol, as bancadas insurgem-se em uníssono: “Nein Red Bull, nein Red Bull” (“Não à Red Bull”). Os atletas do RB Leipzig não parecem perturbados. Afinal, já passaram por pior: no ano passado, a claque do Dynamo Dresden atirou-lhes uma cabeça de touro para o relvado. Isso não os impediu de subirem quatro vezes de divisão nos últimos sete anos e de estarem ali, naquela pequena cidade da Baviera, a defender a invencibilidade e a liderança na Bundesliga (1ª liga alemã) contra o penúltimo classificado.

Não é preciso saber-se a história toda para perceber o alvo de  tamanha hostilidade, basta olhar para as camisas do Leipzig e para as garrafinhas pousadas junto ao banco de suplentes – todas elas têm em abundância dois touros vermelhos às marradas, o símbolo da Red Bull. Mas é preciso contar a história toda para perceber a razão pela qual a Alemanha detesta a presença da bebida energética no futebol. Em 2009, a empresa austríaca, que vende mais de 5 mil milhões de latas de Red Bull por ano, decidiu que para aparecer na Liga dos Campeões não podia continuar a apostar no Red Bull Salzburg, do modesto campeonato austríaco, e investiu na compra do SSV Markranstädt, um emblema das cercanias de Leipzig que andava aos trambolhões na 5ª divisão alemã.

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Torcida do Red Bull Leipzig lota o estádio do clube. Foto: PercyGermany (CC BY-NC-ND).

A escolha não foi aleatória: Leipzig, bem como toda a região outrora chamada de Alemanha de Leste, estava orfã de uma equipe no principal escalão do futebol nacional (a última foi o Energie Cottbus, despromovido em 2009) e tinha um novíssimo estádio com 44 mil lugares a definhar desde o Mundial’2006. Os grandes jogadores nascidos na Alemanha oriental, como Matthias Sammer, Michael Ballack ou Toni Kroos tinham sido obrigados a saltar para emblemas da parte ocidental, como se o muro de Berlim ainda resistisse no futebol. A Red Bull injetou 300 milhões de euros, em sete anos meteu a sua equipe na primeira divisão, ficou com o estádio, cativou os adeptos locais e concentrou os talentos da vizinhança na sua academia. “Acho que ninguém pode negar a alegria que este clube trouxe a esta região, que há anos não podia ver a Bundesliga ao vivo”, diz à SÁBADO Ralph Hasenhüttl, treinador do RB Leipzig. “Podem destacar os que nos criticam, mas eu prefiro falar dos 40 mil adeptos que nos enchem o estádio nos jogos em casa”.

O conto de fadas acaba aqui. É que a Red Bull, de forma a catapultar rapidamente a sua equipe das distritais para o estrelato, contornou ardilosamente as regras do jogo, um comportamento que os alemães abominam. Primeiro, impossibilitados pelos estatutos da Federação de usarem Red Bull no nome, baptizaram o clube de RasenBallsport Leipzig (“Desporto de bola na relva”), para poderem ostentar as iniciais RB – de Red Bull, claro. Incitados a transparecer normalidade, os seus adeptos entoam nos jogos o cântico “Allez, RasenBall, allez” (allez, bola relva, allez), o que já lhes valeu o título de cântico mais ridículo do mundo pela imprensa. Mas Dietrich Mateschitz, dono da bebida que dá asas, tinha ainda que se desvencilhar da regra que podia travar o seu projecto: a 50+1. Esta lei, basilar no suposto romancismo que rege o futebol alemão, dita que os clubes profissionais, independentemente dos proprietários, sejam obrigados a manter nas mãos dos sócios a maioria dos direitos de voto, importantes em temas como a aprovação do orçamento ou a definição dos preços dos bilhetes. A excepção, diz a lei, são clubes suportados por empresas há mais de 20 anos – um grupo exclusivo de que fazem parte o Bayer Leverkusen (Bayer) e o Wolfsburg (Volkswagen), e a que se juntou recentemente o Hoffenheim (SAP). Então, a multinacional austríaca driblou a regra – colocou a quota anual a quase 1000 euros, contra os 62 euros que o Borussia de Dortmund, por exemplo, pede aos seus membros. Resultado: o Leipzig tem apenas 17 sócios oficiais, todos quadros da Red Bull, cingindo as decisões à estrutura da empresa. “A Red Bull está a matar o futebol”, diz Thomas Herfurt, fundador do site Nein zu RB (Não ao Red Bull), que organiza protestos e promove boicotes às partidas do Leipzig. “Nós gostamos de futebol porque sentimos ligação a um bairro, a uma cidade ou a um símbolo. O RB Leipzig não tem essas ligações. É só um instrumento para promover a bebida”.

Na luxuosa academia do clube, separada do estádio por um rio, o capitão Dominik Kaiser, de 28 anos, já não quer saber das críticas. Há cinco épocas, trocou o Hoffenheim, da 1ª liga, pelo emblema de Leipzig que jogava no 4ª escalão. “Quando aqui cheguei, os balneários eram dentro de contentores, tínhamos 4 mil adeptos naquele estádio enorme, parecia vazio, e só umas centenas iam ver os jogos fora”, diz. “Hoje estamos entre os grandes, temos uma academia de sonho, estádio cheio e adeptos dedicados. O que há para criticar? Mostrámos que a filosofia do clube é perfeita”. Também Bernardo Júnior, de 21 anos, lateral brasileiro, se rotinou aos ataques. “Somos xingados em todos os jogos mas a gente tenta não ligar”, diz. Ele é o primeiro futebolista do mundo a representar três equipas da mesma empresa: veio do Red Bull Brasil para o Red Bull Salzburg e daí, por 5 milhões, para o RB Leipzig. Para fazer o pleno, só lhe faltam os consórcios da bebida em Nova Iorque e no Gana. “Para o Gana não, mas acabar a carreira em Nova Iorque não era mau”, comenta. “O ambiente na Áustria era pior. Como o Salzburgo venceu oito campeonatos seguidos, os rivais detestavam-nos. Aqui também nos xingam, mas eu não entendo porquê. Há aqui muito time apoiado por empresas, então porque falam só do Leipzig? Os times de sucesso temem a nossa concorrência, só isso, como quem teme perder o emprego quando um colega novo trabalha bem”.

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Time do Red Bull Leipzig se reúne antes do início da partida. Foto: PercyGermany (CC BY-NC-ND).

Condições para trabalhar bem não faltam: a Red Bull investiu mais de 30 milhões de euros na nova academia, que tem campos exteriores com relva aquecida, salas com jacuzzi e banheiras de gelo e uma pista de atletismo apetrechada de aparelhos tecnológicos. “Aqui, o nosso lateral Lukas Klostermann até já bateu o melhor tempo de Usain Bolt nos primeiros 30 metros” diz Christian Geidus, o responsável pela comunicação, que nos faz uma visita guiada.

A atmosfera é futurista. A sala de conferências de imprensa é iluminada por neons azuis e vermelhos, parece uma nave espacial, o edifício está pejado de frigoríficos cheios de latas de Red Bull com portas que projectam vídeos promocionais e de painéis que mostram os grandes feitos da marca noutras modalidades, como a F1 e o surf. Também lá está Felix Baumgartner a saltar da estratosfera. E os campos de treino rodeados por frases inspiradoras dos melhores atletas do mundo, como Michael Jordan ou Usain Bolt. “Foram seleccionadas pelo nosso director desportivo, Ralf Rangnick”, diz Geidus. Rangnick, antigo estudante de astrofísica, futebolista amador e treinador de mérito, é o mentor da filosofia do clube. Foi ele que decidiu criar áreas exclusivas para os jovens da formação, onde ninguém pode entrar, permitir a visita dos pais apenas a alguns sábados e pôr uma família de quatro pessoas, os Schiefer, a morar dentro das instalações para coordenarem a educação dos pupilos. Os detractores dizem que é um campo de trabalho forçado. O RB diz que está a construir a melhor escola do país e que até paga os estudos a ex-jogadores.

Dias antes da partida contra o Ingolstadt, a sua antiga equipe, o técnico Ralph Hasenhüttl refletia sobre a sua experiência no clube. “Sinto que tenho mais liberdade em relação aos proprietários do clube que muitos outros colegas meus noutras equipas alemãs”, diz. Ele foi contratado por Rangnick por partilharem o mesmo estilo de jogo: pressão intensa, agressividade e saída rápida e directa para a baliza adversária. Ambos alinham na política de não contratar jogadores com mais de 23 anos e Rangnick até já recusou o inglês Jamie Vardy por ter 27. “Eu também não encontro qualquer fantasia em contratar um jogador como Renato Sanches por 40 milhões de euros. Isso é comprar feito. Aqui gostamos de comprar barato e moldar os atletas”, diz Hasenhüttl. Mesmo assim, o RB Leipzig foi o quarto clube alemão que mais gastou em contratações esta época, aplicando 50 milhões de euros. Os clubes tradicionais, alérgicos ao RB, dizem que não podem competir contra este poder financeiro. “Talvez sejam os clubes tradicionais, com modelos obsoletos, que têm de desaparecer e, para muitas pessoas, isso dá medo. Para mim, a Bundesliga precisa de ambos – tradicionais e novos – para ser mais colorida e fascinante”, diz o treinador. “No final da época, eu não vou ter de vender jogadores porque o clube não precisa de dinheiro. Isso é uma grande conquista. Se eles quiserem ir para o Bayern ou jogar em Inglaterra, podem ir, mas vão olhar para trás e perceber o que perdem se nos deixarem”.

Em Ingolstadt, o brasileiro Roger detém a marcha de sequências de vitórias do touro vermelho. Um gol solitário quebra a invencibilidade de 13 jogos, que já era recorde de uma equipa recém-promovida à Bundesliga. O RB Leipzig divide agora a liderança com o Bayern de Munique, com 33 pontos. Hasenhüttl, que em entrevista nos tinha dito que no início de época teria assinado sem pestanejar uma classificação final em sexto lugar, parece sobressaltado. Após o apito final, corre para o meio-campo e reúne o plantel para uma palestra. Ele sabe o quanto a primeira derrota pode afectar a moral do grupo e empurrá-lo tabela abaixo. A claque da casa continua a insultar a Red Bull.

Mario Gross, jornalista da Sport1FM, chama-me a atenção para o ridículo da cena: “Eles estão no Audi Park, fazem parte do clube de fãs Audi, quase não se veem por detrás de tantos símbolos da Audi, têm dois carros da Audi à porta do estádio e um no meio do bar do clube. Como têm coragem de criticar os outros por serem um clube comercial?”, questiona. “Os adeptos alemães querem continuar a acreditar na ilusão de que o futebol é dos sócios, quando isso já morreu há muito tempo”. Dito isto, puxa sutilmente o colarinho para mostrar no peito uma enorme tatuagem do Kaiserslautern, a única equipa que venceu a Bundesliga no ano de promoção. “Um clube torna-se clube quando leva pessoas a fazer maluquices destas. Não importa se tem uma empresa por trás ou não. Se eles conseguirem apaixonar os adeptos, vão ser um clube. Caso contrário, vão desaparecer como uma empresa qualquer”.

Como citar

CARRASCO, Tiago. O clube que a Alemanha odeia.