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O desmonte do “Gigante do ar”: quando futebol e política se encontram

Leonardo Turchi Pacheco

A rádio Inconfidência – “O Gigante do ar” – na frequência 880 AM será fechada até o final deste mês de abril de 2019. A sanha de privatização do governo ultraliberal do Estado de Minas Gerais não respeita a tradição e a história de uma rádio pública com 83 anos de existência que se destaca pela divulgação da cultura e do esporte na região. Veja bem, estamos falando de uma emissora que transmitiu a Copa de 1938 na França e que continua transmitindo o Campeonato Mineiro, o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil, a Sul-Americana e a Copa Libertadores da América sempre que times do Estado estejam participando.

Com um discurso de contenção de despesas e de alteração tecnológica – imposição federal para encerrar com a frequência AM em todo o território nacional –, o governo do Estado, de maneira inconsequente, coloca em prática seu modelo de gestão: um projeto de desmonte de todas as instituições públicas sejam elas de cultura, saúde e educação.

Os funcionários concursados da Radio Inconfidência 88 AM serão exonerados para limitar déficit de 800 mil reais – “dinheiro de pinga” da arrecadação do Estado, como se diz na expressão popular para enfatizar que os gastos não impactam no orçamento. A emissora de televisão Rede Minas teve 35% dos funcionários entre comissionados e concursados exonerados sem avaliação prévia, sem consultas ou diálogo. O mesmo acontece na área da educação: pergunte aos professores da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) ou da Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMOTES) como eles foram surpreendidos com um processo unilateral e autoritário de procedimentos para a avaliação da produtividade. Sem diálogo ou consultas, eles tiveram reduzidos na base da canetada seus rendimentos, entre eles o auxílio alimentação e a retribuição por titulação.

Logo da Rádio Inconfidência. Foto: Facebook/Reprodução.

Pois bem, a rádio Inconfidência como emissora que transmite eventos de futebol não é somente importante pela história e tradição, mas também pelo investimento e pioneirismo dos profissionais de sua equipe esportiva ao contratar jovens estudantes de jornalismo como seus estagiários e suas estagiárias. Ademais, sua importância é refletida no trabalho inovador do coordenador de esportes que estimula as estagiárias a ocuparem posições de destaque nas transmissões de programas esportivos e partidas de futebol.

A emissora é a porta de entrada para aspirantes a jornalistas esportivos, pois recrutam estagiários e estagiárias de diversas Universidades e Centros Universitários que possuem o curso de jornalismo e os inserem no campo dos esportes, muitas vezes como setoristas e repórteres de fundo de campo. O América Mineiro é o clube em que essas primeiras experiências são vividas. É no Centro de Treinamento Lanna Drummond que o aprendizado das técnicas que permitem disciplinar o olhar para reconhecer os jogadores à distância, construir uma pauta, coletar informações relevantes sobre o treinamento, realizar entrevistas e divulgar este conjunto de conhecimentos no programa “Primeiras Esportivas” são desenvolvidas.

No dia 1º de setembro de 2017, escrevi no meu diário de campo como esse processo de aprendizagem se dá na prática: “Vamos assistir ao treino; a setorista e eu. Sentamos em um banco de pedra e ela me explica o que faz. Vem em alguns dias da semana, assiste ao treino e anota coisas importantes e depois grava o programa. Ela observa se tem algum jogador que não está treinando, se alguém está lesionado e o coletivo para saber o time que vai atuar. Pergunto como ela consegue identificar os jogadores da distância em que nós estamos posicionados. Ela me diz que no início trazia uma folha com o retrato dos jogadores, mas agora conhece todos e me dá a dica para perceber as características físicas ou particularidades de cada um. Ela diz que vai ter que fazer uma “externa” gravada para o noticiário da rádio às 11 horas. Às vezes entra ao vivo. Quando entra ao vivo escreve as informações em tópicos para lembrar. Hoje como é gravada ela escreve um texto do caderno e lê”.

Centro de Treinamento Lanna Drummond, do América-MG, um dos locais de aprendizado dos estagiários da Rádio Inconfidência. Foto: José Arlem/Facebook.

Durante todo o ano de 2017, realizei pesquisa com mulheres que atuavam ou atuaram no jornalismo esportivo em Belo Horizonte. Muitas que estão inseridas no campo mencionaram que iniciaram a trajetória profissional na rádio Inconfidência. Outras tantas que não seguiram na área esportiva também apontaram a emissora como local de grande importância para a formação profissional. Todas elas enfatizaram o acolhimento e as oportunidades recebidas pela equipe de esportes e o desafio de adentrar esse campo de maioria masculina.

Sabe-se que a voz das rádios esportivas, em Belo Horizonte em particular, mas creio que se pode generalizar para toda a América Latina, é masculina. Das cinco principais rádios da capital mineira que possuem programas esportivos diários e realizam transmissões de jogos, é possível escutar a voz de quatro mulheres. Atualmente, metade dessas mulheres se encontra na rádio Inconfidência. Uma delas, Thaís Santos, apresenta o programa “Primeiras Esportivas” e a outra, Eduarda Gonçalves, cobre o América no Centro de Treinamento e em dias de jogos.

Nunca é demais lembrar que foi a equipe esportiva da rádio Inconfidência a primeira e única, até o momento, a romper a barreira misógina que marca a locução esportiva. Foi nessa emissora que a primeira mulher de Minas Gerais narrou uma partida de futebol. E não foi uma experiência pontual, pois que até o final do ano de 2018 era possível ouvir a voz de Isabelly Moraes narrando jogos do Atlético, Cruzeiro e América.

Isabelly Morais, primeira mulher a narrar um jogo no Brasil. Foto: Divulgação.

Ora, essa é uma contribuição de dimensão política que evidencia a contribuição da emissora com o compromisso de inclusão de gênero em uma área profissional marcada por desigualdades quantitativas entre homens e mulheres e por inúmeros tetos de vidro que dificultam e limitam a presença destas em espaços de prestígio, como as cabines de transmissão, e espaços de decisão, como as diretorias e coordenações da pasta de esportes.

Em suma, o encerramento das atividades da 880 AM causa prejuízos na área do jornalismo esportivo, não somente porque deixa de ser um espaço de acolhimento para o aprendizado do ofício para muitos estudantes de jornalismo, mas também porque é uma das raras emissoras que acredita e incentiva a prática de narração, comentário, apresentação e informação do futebol pela voz feminina. Portanto, se configura como um local de inclusão e de plurivocalidade. Algo que parece cortar na carne e na alma a agenda ultraliberal de velhos políticos, com viés de extrema-direita, que mesmo disfarçados de novos gestores não são capazes de se comprometer com a coisa pública a não ser para propor seu sucateamento, degradação e desmonte.

Pois é, e tem muito jornalista, torcedor e atleta que insiste em afirmar que os campos da política e do futebol não se conjugam… Não é isso que se vê nas Geraes.