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O dia em que conheci meu ídolo

Gabriel Canuto Nogueira da Gama

Na última quinta-feira, mais precisamente no dia 10 de novembro de 2016, tive o inexprimível prazer de realizar um dos meus maiores sonhos futebolísticos: ver Lionel Messi performando em campo, ao vivo, a cores, a algumas dezenas de metros de mim. Não digo que esse foi o primeiro dia que fiquei mais próximo do meu ídolo do futebol – sim, ele é hermano e não é o Ronaldinho.

durante Jogo da Selecao Brasileira contra a Argentina pela decima primeira rodada das eliminatorias sul-americanas para a Copa da Russia de 2018 no Mineirao em Belo Horizonte.

Messi não acredita no que vê durante a derrota por 3 a 0 para o Brasil no estádio do Mineirão. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Na Copa do Mundo de 2014, fui repórter-correspondente do jornal Estadão, em Belo Horizonte, e fiquei responsável por toda a cobertura esportiva, de maio a agosto, da inesquecível edição do torneio. Apesar da indelével experiência profissional, o posto não me garantia acessos especiais, credenciamento da Fifa, ingressos gratuitos para os jogos ou qualquer outro tipo de privilégio. A minha missão era fazer uma cobertura no meio da massa, entrevistando grupos de torcedores do mundo inteiro que se reuniam nas ruas, praças, bares, festas e, claro, no entorno do Mineirão, nas agitadas horas que antecediam aos jogos.

Um deles foi Argentina e Irã, no dia 21 de junho. Como era de praxe, me dirigi ao estádio cerca de três horas antes do duelo a fim de reservar tempo hábil para cobrir o clima que antecedia à partida. A diferença é que aquela minha terceira ida ao Mineirão durante a Copa foi da maneira mais incomum possível: com um grupo de quatro torcedores argentinos no meu carro.

Soa assaz peculiar, é verdade. Afinal, que razões teria, como um autêntico amante do futebol canarinho, estar entoando cânticos em um limitado pseudo-espanhol janela afora em pleno âmago da avenida com a maior concentração demográfica de torcedores brasileiros naquele exato momento? Também não faço ideia, até porque simplesmente não havia explicação plausível para tal. Era a paixão pelo futebol movendo moinhos.

Quando estava me preparando para sair de casa, avistei um trailer estacionado em uma das ruas adjacentes ao meu prédio, e, ao lado daquele distinto veículo, havia um cômico grupo de torcedores hermanos com cervejas em punho, abraçados em bandeiras albicelestes e na companhia de um colchão. Sim, de um colchão! Aquela cena inusitada não podia passar em branco e, como num súbito e rompante impulso de jornalista, tive que ir atrás daqueles sujeitos. Aquela cena era digna de uma matéria. Afinal, não é todo dia que se vê um grupo de argentinos ligeiramente alterados, morando em um trailer, na companhia de um imponente colchão, a poucos metros de sua casa. Com uma caneta em uma das mãos, um bloco de notas na outra, fui atrás daquela história. Ao me aproximar, fiz a pergunta mais improvável possível naquele momento:

– Hola! Soy un periodista daqui de Belo Horizonte e estoy trabajando na Copa del Mundo. Mi nombre es Gabriel Gama e moro aqui del lado de ustedes. Gostaria de saber por que raios tem um colchón azul ao lado de ustedes?

Acho que eles não entenderam muito bem quando disse “colchão” em meu excelente espanhol (deveriam estar desatentos na hora), mas nada como o auxílio da linguagem mais rudimentar e antiga da humanidade: o gesto. Segundos depois do meu dedo apontado em direção àquele inusitado e inanimado companheiro, eles captaram a mensagem e, em descontraído tom, contaram as suas histórias.

Mariano Pasano, Leandro Consigli e os irmãos Gonçalo Sartori e Santiago Sartori viajaram durante quatro dias dentro de um trailer, passando por Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro para chegar a Belo Horizonte e ver o ídolo Messi em ação na Copa do Mundo. Os quatro jovens de 25 a 27 anos resolveram economizar dinheiro de passagens áreas, alugando o carro e revezando-se na direção, já que toda a economia havia ido para o espaço com o preço dos ingressos.

Quatro amigos argentinos vieram de trailer para BH: Marco Baldo (à esquerda), amigo da turma, resolveu vir de avião (Gabriel Gama/Seleção Universitária)

Quatro amigos argentinos vieram de trailer para BH: Marco Baldo (à esquerda), amigo da turma, resolveu vir de avião. Foto: Gabriel Gama/Seleção Universitária.

O trecho de avião da cidade de Córdoba, norte da Argentina, até a capital mineira, custaria cerca de R$ 700 por pessoa, somente a ida, e levaria quatro horas – uma hora até a capital Buenos Aires e mais três para BH. Se o trajeto fosse feito de trailer, o tempo gasto chegaria a ser 24 vezes maior, mas o custo, segundo eles, diminuiria pela metade para cada um.

Depois de ouvir a saga, minha sensibilidade se justapôs à razão e, por um súbito impulso de jornalista, ofereci carona para o estádio (eles não tinham a mínima ideia em que direção ficava a Pampulha). Após muitas provocações amigáveis durante o trajeto e uníssonos cânticos em homenagem ao nosso ídolo comum, uma hora depois, chegamos ao Mineirão. Eles desembarcaram do carro, agradeceram profundamente a gentileza, deram às costas e eu nunca mais os vi.

Passei o restante das horas que antecediam ao jogo fazendo normalmente o meu trabalho de cobertura no entorno do estádio, ainda no êxtase propiciado pela história boleira daqueles amigos, mas, no fundo, me martirizando por não ter feito esforço parecido para ver meu ídolo em campo. Aquele fatídico jogo foi o único da fase de grupos que não consegui comprar. Até tentei, em vão, adquirir com alguém que estivesse vendendo minutos antes do jogo, entretanto, tive que me contentar em ver o golaço de Messi nos minutos finais em um posto de gasolina a algumas centenas de metros.

Depois daquele dia, encasquetei na cabeça de que veria, nem que fosse uma vez na vida, o meu ídolo em ação e que, da próxima vez, não mediria esforços para tal. Vinte e oito meses depois, eis que estava finalmente lá, no mesmo palco de Argentina x Irã, no mesmo palco do golaço, no mesmo palco do 7 a 1, para, enfim, ver a “La Pulga”. Minha saga não chegou a ser tão quixotesca, cinematográfica ou digna de uma manchete de jornal. Não cheguei a precisar alugar um trailer e esperar quatro dias para tomar um banho, mas, apenas reservar cinco horas do meu dia para comprar um ingresso online e mais duas horas dentro de um carro em um trânsito descomunal. Foi uma experiência indescritível. Quando aquele alienígena da bola pisou nos gramados para o costumeiro aquecimento antes do apito inicial, me emocionei até mais de quando eu vi com meus próprios olhos aquele golaço de placa do Éverton Ribeiro, contra o Flamengo, em 2013.

Durante todo o jogo, torci, claro, por uma vitória de nosso escrete, mas não podia deixar de vibrar a cada domínio, controle, investida, arrancada, passe, finalização que o mestre da pelota fazia. Esperei pelo gol, mas a bem da verdade é que o argentino não conseguiu ser brilhante, ofuscado pela juventude e atrevimento do futebol moleque do menino Neymar e de seus companheiros da trupe do Tite. Saí do estádio orgulhoso pela atuação da seleção naquele clássico, chegando até a lembrar dos velhos tempos de Bebeto e Romário, mas, fiquei triste por Messi e a sua difícil sina de carregar uma geração argentina com tantos talentos, porém, com sérios problemas táticos.

Moisaco montado pela torcida foi levantado momentos antes do início do clássico (Crédito: Gabriel Gama)

Moisaco montado pela torcida foi levantado momentos antes do início do clássico. Foto: Gabriel Gama.

O passeio

Sobre o jogo, o que vimos foi uma verdadeira aula de futebol. Aos 55 anos de idade, Tite chegou ao auge de sua carreira – sim, mais até de quando conquistou a Libertadores e o Mundial pelo Corinthians. Que maturidade tática! Sólido e paciente na defesa ao melhor estilo Simeone no Atlético de Madrid e como sempre foi nos times em que treinou, e econômico, mas não menos letal, nos contra-ataques, lembrando os tempos áureos de Klopp no Borussia Dortmund e Ranieri no Leicester. Não é para menos que o coitado do Edgardo Bauza tenha desabafado aos jornalistas, após o vareio tomado, de que foi a derrota mais dura em seus quase vinte anos de carreira.

O argentino contra Tite é mesmo um “Deus nos acuda”. Foi somente o segundo duelo dos dois e o placar agregado já está 5 a 0 para o brasileiro, isso porque o primeiro confronto de ambos terminou em 2 a 0 para Tite quando ele ainda comandava o Corinthians e Bauza o arquirrival São Paulo, no Campeonato Paulista deste ano.

Com a vitória, o Brasil ampliou a leve vantagem na história do confronto. Já são 40 vitórias canarinhas contra 37 dos hermanos e 26 empates, contando apenas jogos oficiais da Fifa. No total, foram 162 gols a favor dos brasileiros e 159, contra.

A acachapante vitória, que poderia ter sido até mais elástica, tem razões bem fáceis de serem identificadas. O momento em que a seleção brasileira atravessa é o oposto dos rivais e olha que cinco rodadas atrás nas Eliminatórias, os dois rivais viviam situação delicada na competição, com ambos sem padrão tático algum, jogadores em xeque e treinadores recém-demitidos. Entretanto, os números comprovam que o caminho que o Brasil traçou, desde então, nem se compara com os vizinhos.

Nos cinco jogos em que dirigiu o escrete, são cinco triunfos com uma incrível média de três gols por partida (15 gols no total) e apenas um tento sofrido. Mesmo estreando contra o embalado e então líder Equador, em “território inimigo”, Tite já tratou de dar às caras com uma inquestionável vitória por 3 a 0. Depois, o treinador acumulou sucessos diante da Colômbia (2 a 1), Bolívia (5 a 0), Venezuela (2 a 0) e agora a Argentina (3 a 0).

Como disse Mauro Cezar Pereira, comentarista da ESPN Brasil, no programa “Linha de Passe”, ao final da partida, o seu antigo rótulo de “treinador de placares magros” já vem sendo desmistificado por ele mesmo. No ano passado, por exemplo, foi campeão brasileiro pelo Corinthians com 71 gols marcados, o segundo melhor ataque, em números, desde 2011, perdendo apenas para o Cruzeiro de 2014 que havia feito 77 gols.

Enquanto isso, em seus cinco primeiros jogos, Bauza tem apenas uma vitória magra na estreia contra o Uruguai (1 a 0), empates decepcionantes contra Venezuela (2 a 2) e Peru (2 a 2), uma surpreendente derrota para o Paraguai (1 a 0), em casa, além do revés para os brasileiros.

Com o manto do Barça, mas, curiosamente, nem de Messi, nem de Neymar: camisa é dedicada ao número 6, maestro Xavi (Crédito: Arquivo/Gabriel Gama)

Com o manto do Barça, mas, curiosamente, nem de Messi, nem de Neymar: camisa é dedicada ao número 6, maestro Xavi. Foto: Arquivo/Gabriel Gama.

Cerca de dois meses depois das mudanças, as seleções de Brasil e Argentina se resumem da seguinte forma. De um lado, temos um time que se reinventou taticamente. Em um 4-1-4-1, Tite trouxe jogadores de sua confiança para a seleção, principalmente no meio de campo, como os casos Paulinho, Renato Augusto, reiventando o setor mais criticado da seleção, ao aceitar a ausência de um camisa 10 e superar tal carência. Encontrou uma sintonia praticamente perfeita na frente com Neymar, Philippe Coutinho e Gabriel Jesus. Um ataque ágil, móvel e habilidoso, como sempre foi a identidade canarinho. No gol, apostou na juventude do ex-colorado Alisson, mesmo ele estando na reserva do fraco polonês Szczesny na Roma, e ainda achou a posição ideal para Fernandinho, atrás dos meias centras e à frente da dupla de zaga como ele tem se destacado nas mãos de Pep Guardiola no Manchester City.

Além disso, recuperou Thiago Silva nas convocações, após o exílio decretado pelo Dunga ao jogador e tem conseguido administrar as possíveis vaidades no grupo. Douglas Costa e Willian no banco, o próprio Thiago Silva na reserva, Neymar sem a faixa de capitão, e, mesmo assim, o time tem mostrado um ambiente e sintonia saudáveis. É claro que é cedo para apontar um prognóstico tão otimista como decretar o hexa em 2018, até porque mata-mata, tal como é a Copa do Mundo, é muito imprevisível. Se naquela noite, o time estiver mal em campo, tudo pode ruir. Mas, certamente, na atual circunstância, se a Copa do Mundo premiasse uma regularidade a longo prazo, como é um campeonato de pontos corridos, colocaria, sem pestanejar, a nossa seleção entre os favoritos.

Do outro lado, vemos um time, ou melhor, apenas um compilado de jogadores, completamente dependentes da genialidade de Messi, e isso os números comprovam. Nestas Eliminatórias, foi apenas uma vitória, dois empates e impressionantes quatro derrotas sem ele em campo. Quando o craque atuou, foram três vitórias em quatro partidas. Consideraria uma certa dose de exagero dizer que essa geração hermana é um fracasso completo, até porque foi por um detalhe que não se sagrou campeã mundial em 2014 e bicampeã da Copa América em 2015 e 2016 (perderam as três finais em um intervalo de dois anos). Entretanto, é, no mínimo, decepcionante. O curioso é que são bons jogadores, muitos deles até estrelas na Europa, mas que simplesmente não conseguem praticar um bom futebol juntos. Até mesmo as exibições feitas no Mundial do Brasil, apesar de terem chegado à final, foram bem burocráticas. Em suma, o que tem de sintonia e confiança entre os jogadores brasileiros, falta à Argentina.

No jogo da última quinta, Bauza mostrou isso na própria escalação. Cauteloso como sempre foi em toda a carreira, abdicou de apostar em seus talentos ofensivos para escalar um meia central, o Enzo Pérez, improvisado, aberto pela direita, em uma segunda linha de quatro jogadores no esquema 4-4-1-1. Preferiu deixar Messi preso entre os volantes à espera de um lance de gênio. Abriu mão do talento de Aguero para escalar o contestável Higuaín na frente e fora o fato de ainda ignorar outros bons atacantes da convocação, como os casos de Dybala, Tévez e Icardi.

Não obstante, o time se mostrou completamente desordenado em campo. Bauza até tentou consertar o erro após o primeiro gol de Coutinho, deslocando Messi para a sua posição de origem, a ponta direita, deslocando Pérez para fazer o meio com Biglia e Mascherano, mas de nada adiantou. Após o terceiro gol marcado por Paulinho, foi para o desespero. Colocou Aguero e Correa em campo, mas o domínio na posse de bola foi ineficaz. Tite recuou as suas linhas e defendeu com muita propriedade. Os contra-ataques aconteceram, mas, por preciosismo, o Brasil não ampliou o placar que poderia ser histórico.

Se a seleção brasileira chegou a exorcizar o fantasma do 7 a 1? Acho difícil… Até porque uma humilhação daquelas será impossível de ser esquecida em nossa história. Entretanto, a seleção demonstrou, naqueles 90 minutos, a hombridade e amor à camisa que tanto devia ao torcedor há anos. Se ainda não podemos cravar o título do hexa, ao menos, podemos dizer que as esperanças voltaram. Já dizia o emblemático Professor Luxa: “temos um pôjeto!”