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O dia em que conheci Stella Walsh

Wagner Xavier de Camargo

Era uma tarde quente de agosto de 2014. Andando pelos corredores da Universidade de Cleveland, conheci Stella Walsh. Não exatamente a pessoa, mas a trajetória de uma atleta. Stanislawa Walasiewicz (‘Valasievich’) nasceu em 1911, bem no interior da Polônia e emigrou ainda criança com a família para a América do Norte. Lá se estabeleceram na cidade de Cleveland, estado do Ohio, Estados Unidos. Foi exatamente onde conheci Rob Lucas, jornalista e produtor do curta “Stella Walsh – a documentary”, que partiu de seu assassinato em 1980 e da importância que tinha para a população de Cleveland a fim de recontar sua trajetória.

A pequena Stasia – como era chamada carinhosamente pelo pai – se envolveu com o atletismo no colégio e já em 1927, com apenas 16 anos, obteve destaque na equipe nacional norte-americana, numa competição promovida na cidade. De Stanislawa para Stella o caminho não foi fácil, muito menos tranquilo. A tardia cidadania americana fê-la buscar representação junto a seu país natal, e em 1932, nos X Jogos Olímpicos de Los Angeles, competindo nos 100 metros rasos, Stanislawa não apenas ganhou ouro, como igualou o recorde de 11s9 vigente até então. No entanto, uma polêmica instaurada sobre seu sexo deixou a suspeita no ar de que aquele corpo com traços masculinos e poucas formas femininas poderia, talvez, não ser uma mulher de fato.

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Stanisława Walasiewicz, campeã olímpica polonesa.

A conquista, no entanto, trouxe o estrelato. Na Polônia foi reconhecida como heroína nacional e o título olímpico lhe rendeu uma bolsa de estudos para o Instituto de Educação Física de Varsóvia. Nos Estados Unidos, a Amateur Athletic Union (AAU) a considerava um potencial em ascensão para representar o país em competições de grande porte e nos próximos Jogos Olímpicos de Verão. As disputas políticas em torno dessa questão referente à sua “identidade nacional” deixavam-na aborrecida, o que a fez recusar inúmeras vezes a cidadania americana – apesar de grande parte dos familiares moraram em Cleveland.

No documentário, sua própria voz comenta sobre os títulos poloneses conquistados, as medalhas olímpicas, os recordes estabelecidos e outras premiações em diversos países. Stanislawa conviveu com grandes atletas de seu tempo (principalmente poloneses, a exemplo do fundista Janusz Kusocinski) e angariou muitas medalhas ao longo dos anos. Chegou, portanto, aos Jogos Olímpicos de Berlim-1936 como a grande favorita para o posto de mulher mais rápida do planeta. Sua principal opositora era a norte-americana Helen Stephens.

Stanislawa terminou em segundo lugar na prova dos 100 metros e protestou contra o resultado, dizendo que “somente um homem poderia ganhar dela”. Ironia do destino ou não, Stephens teve sua feminilidade contestada por vários atletas e técnicos presentes, e a organização dos Jogos a forçou a se submeter a uma inspeção genital para comprovar se era, realmente, mulher. Helen não hesitou e se deixou inspecionar. A suspeita foi dissipada e a medalha mantida; porém, após a competição, Stephens anuncia sua aposentadoria do atletismo.

Com a situação política instável na Europa e na Polônia no final dos anos 1930 e a eclosão da II Guerra Mundial logo em seguida, Stanislawa decide, então, em 1947, aceitar a cidadania americana e casa-se com o lutador de boxe Neil Olson – do qual se separa alguns anos mais tarde. Stella Walsh, como ficou conhecida nos EUA, engaja-se na carreira de técnica e ajuda, inclusive, jovens imigrantes poloneses a praticarem atletismo. Segundo uma senhora, que chorava silenciosa e constantemente durante a projeção do documentário, ex-atleta de Stella (e que, de maneira simpática conversou comigo após a projeção), ela era muito ativa e, além de planejar torneios e copas para incentivar a competição entre jovens em idade escolar, igualmente convidava as pessoas a contribuírem monetariamente para tais eventos.

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Stella Walsh. Foto: Reprodução.

Um latrocínio mudou definitivamente a imagem de Stella Walsh para os Estados Unidos e para o mundo, quando, em 1980 aos 69 anos, ela foi morta a tiros no estacionamento de um centro comercial de Cleveland. Como procedimento padrão, a polícia encaminhou o corpo para a autópsia e isso trouxe mais do que a causa mortis: Stella possuía uma genitália masculina atrofiada, apesar das características femininas que lhe eram visíveis. Se não bastasse o atestado biológico de um corpo com “dois sexos” (a genitália externa revelava um pênis hipoplásico sem um meato uretral externo e o escroto continha testículos subdesenvolvidos), uma investigação em nível bioquímico constatou igualmente cromossomos masculinos e femininos, representativos do fenômeno de mosaicismo (ocorrido ainda na condição de zigoto).

Desenrolou-se, a partir disso, um caso insólito no esporte, nunca antes visto. A controvérsia sobre o sexo biológico permaneceu e, aos poucos, parentes e amigos especulavam sobre sua identidade de gênero, suas relações afetivas e seu casamento. A própria cidade de Cleveland ficou em choque, uma vez que Stella era uma grande personalidade, uma heroína, um ícone local. Os documentos atestavam que Stella era mulher; o casamento legitimava o mesmo, para uma sociedade branca, heteronormativa e cristã. E, apesar de tudo isso, a autópsia classificava-a como “homem”, ou no mínimo, como uma “pessoa com gênero ambíguo”. Provavelmente hoje ela talvez fosse colocada na condição de pessoa intersexo.

No plano local, as pessoas ficaram tão ensandecidas com tal assassinato e seus desdobramentos que estipularam uma recompensa de 5 mil dólares (bem ao estilo faroeste norte-americano) para quem entregasse os responsáveis pela brutal morte de Stella Walsh. Em nível nacional, e mesmo mundial junto ao COI, Roxanne Atkins Anderson, técnica de Hilda Strike nos Jogos de Los Angeles, faz campanha pela cassação dos títulos de Stella, inclusive da medalha olímpica dos 100 m de 1932, que originou a escalada ao estrelado da polonesa-americana. Entretanto, essa campanha não frutificou e algumas instâncias representativas do atletismo em âmbito americano pediram para que marcas, recordes e medalhas fossem mantidos.

O caso de Stella Walsh e de outros/as atletas que tiveram uma exposição à opinião pública sobre seus gêneros/sexos e sexualidades nos mostra que, de um lado, há uma prerrogativa instituída no esporte sobre a obrigatoriedade de uma coerência entre corpo biológico (sexo/genitália), gênero (“papel social”) e desejo (atração sempre pelo “sexo oposto”), elementos que devem executar uma heterossexualidade compulsória. E, de outro lado, tais questões nos impele a acatar e a exigir que modelos de masculinidade e feminilidade sejam devidamente executados e respeitados. Apesar da lógica aí embutida, isso tudo não precisa ser desse jeito.

Stella Walsh – a documentaryO argumento baseado na igualdade de chances no esporte faz com que existam apenas as categorias masculina e feminina como possibilidade de encaixe de corpos. Aqueles fora do binarismo de gênero instituído são excluídos do processo. Testes de “verificação de gênero” ou de feminilidade, testes cromossômicos, inspeção física/genital foram algumas humilhações que atletas mulheres passaram ao longo da história do século XX. Atualmente os casos das velocistas Caster Semenya (sul-africana) e Dutee Chand (indiana) estão na mídia para mostrar que corpos em transitividade de gênero incomodam bastante o sistema esportivo. A partir de discursos de poder (frequentemente investidos na área médica, mas não somente), o “corpo esportivo ideal” é moldado e produzido, e as regulamentações são estabelecidas para determinar o que é ou não permitido nos espaços do esporte.

O documentário me impactou de modo sem precedentes. Ele traz toda essa discussão de uma maneira sensível, delicada, subjacente à trajetória de uma importante atleta e grande mulher que foi Stella Walsh na história do atletismo. O dia em que conheci Stella Walsh foi o dia em que relativizei mais meus pontos de vista e percebi que no esporte precisamos ter mais do que homens e mulheres correndo…

“Stella Walsh – a documentary” (USA, 2014). Direção e execução Rob Lucas.