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O dia em que conheci uma estátua viva

Gabriel Canuto Nogueira da Gama

Alguns anos depois, diante de tempos brasileiros de insurreições, intolerâncias, revoltas, discursos evasivos, protestos e protestos contra protestos, um jovem repórter havia de recordar aquela tarde remota em que uma missão o levou para conhecer uma estátua viva.

Pode até parecer coisa de realismo fantástico, mas, acredite, é como essas histórias verídicas com um certo requinte de capricho que a gente costuma ouvir por aí. Essas que costumam enfeitar com umas extravagâncias para chamar mais a atenção. É normal. Espertezas de contador.

Pois bem, na coluna desse mês, vou lhe contar o caso de um diligente jornalista de então 22 anos, que ficou estupefato ao deparar-se com um autêntico inimigo da seleção brasileira em plena Copa do Mundo. Ele ficou tão surpreso quanto o Coronel Aureliano Buendía ao ser levado pelo pai para conhecer o gelo na aldeia de Macondo.

Esse jovem era eu e a aldeia que se passou a minha curiosa história não tinha nada de pacata, inóspita e cheia de acontecimentos sobrenaturais. Aliás, ela está longe de ser um povoado fictício. É bem real e está mais perto de nós do que imaginamos. Silenciosamente sob nossos olhares contemporâneos cegos. Uma aldeia que grita à luz do dia e chora quando a cidade se apaga.

Esse é o caso do albergue municipal Tia Branca, no bairro Floresta, localizado na região central de Belo Horizonte, que abrigou, em média, 60 moradores de rua por dia durante o período da Copa do Mundo de 2014. Nos jogos da seleção brasileira, durante a competição internacional, a “aldeia real” dispôs uma sala ao fundo da sede para que os alberguistas, de crianças a idosos, pudessem acompanhar Neymar e companhia em um telão com transmissão ao vivo.

Na 'aldeia real', o que se via eram os semblantes concentrados dos moradores de rua em frente ao telão (Filipe Araújo/Estadão)'

Na ‘aldeia real’, o que se via eram os semblantes concentrados dos moradores de rua em frente ao telão. Foto: Filipe Araújo / Estadão.

Na época, trabalhava para o jornal Estado de S. Paulo como jornalista correspondente entrevistando estrangeiros e produzindo reportagens que envolviam tudo relacionado ao evento fora das quatro linhas e da zona de controle da FIFA, pois apenas os editores e alguns repórteres possuíam credenciais de imprensa. No dia 28 de junho de 2014, propus a pauta de cobrir as oitavas de final, entre Brasil e Chile, em um dos albergues de acolhimento espalhados no centro de Belo Horizonte.

O objetivo era verificar se o futebol conseguia fazer com que moradores de rua esquecessem a situação de carência. Eles se sensibilizavam com a seleção? Eles também entoavam o hino, vestiam a camisa e bradavam o nome de Neymar nas partidas? Eles emanavam a mesma paixão que aquele sujeito que pagou 3 mil reais para ir ao jogo? Era preciso mostrar o outro lado da moeda.

Naquele sábado à tarde, estava lá, à procura de uma grande história. Ansiava em dar à luz a um vivido velado. Dar voz à um silêncio reprimido. Jornalista tem dessas coisas. Uma vontade inexorável de narrar.

Às vésperas do início do jogo, rondava nos grupos que iam se formando pelos cantos da sala, no chão gelado de cimento, nos encostos das paredes ou nas poucas e disputadas cadeiras plásticas. A grande maioria era tímida, desconfiada e preferia economizar nas respostas. Buscava, ao menos, ganhar a confiança de alguns, entretanto, nenhum demonstrava qualquer abertura para diálogo, o que era natural de se compreender. Esperar que, subitamente, alguém fosse expor suas questões mais existenciais para um completo desconhecido advindo de uma outra realidade social era, no mínimo, improvável.

Desanimado com a impossibilidade de garimpar uma grande história, já elaborava um plano “B” na mente para a reportagem quando, de rompante, em uma breve troca de olhares, eu o avisto. Escondido entre as dezenas de torcedores espalhados pela sala, destacava-se um notório senhor de cabelos grisalhos e mechas loiras de pouco mais de 60 anos.

“Eu sou o que sou”, como ele preferiu ser chamado, era bem diferente dos demais. Não pelo fato de ter vivido apenas um ano na rua, ter sido despejado de casa pela mulher ou por que trabalhava dez horas por dia como estátua viva no centro da cidade. Aquele senhor, que não quis identificar o seu nome de origem, era o único de todo o espaço que não vibrava com a seleção brasileira a cada lance.

"Eu sou o que sou" e sua indiferença perpetrada em seus olhos melancólicos (Filipe Araújo/Estadão)

“Eu sou o que sou” e sua indiferença perpetrada em seus olhos melancólicos. Foto: Filipe Araújo / Estadão.

Quando o relógio da unidade de acolhimento havia batido meio-dia, enquanto os alberguistas, que estavam sentados conversando ou dormindo na porta de entrada do local, saíram correndo para a sala em busca de um lugar privilegiado para ver o jogo, “Eu sou o que sou” permanecia imune às emoções patrióticas. Encontrou um canto isolado à direita do telão e ficou por lá mesmo. Ele pouco se importava com a movimentação frenética de seus colegas. Como ele dizia: “Isso tudo é ilusão. Sabe o que eu e estes outros vamos ganhar com a vitória do Brasil? Nada. Só vai é aumentar o imposto, o preço do arroz, do feijão, da carne, da água, da luz e nossa vida ficará cada vez mais miserável”.

A partida começou. À medida que o jogo corria, os outros 59 moradores de rua se agitavam, xingavam, roíam as unhas, esbravejavam. Gritos de “Vai, Neymar” e “Bora, Brasil” eram entoados. Já “Eu sou o que sou” seguia impassível e fazia um esforço tremendo para conter a sua torcida a favor dos chilenos. Aquela raiva o aflorava por dentro a cada minuto. “Se eu comemorar contra o Brasil aqui, vou ser é linchado. Por isso, prefiro ficar quieto e só observar a inocência de meus colegas”.

Fim de jogo, vitória sofrida brasileira nos pênaltis e “Eu sou o que sou” teve que conter a sua raiva e asco pelos filhos da CBF em meio à euforia que tomava conta da sala.

Filho de judeus de Israel, “Eu sou o que sou” nasceu em fevereiro de 1950, cinco meses antes do Maracanazo – a fatídica derrota canarinha para os uruguaios, por 2 a 1, na final da Copa do Mundo. Foi abandonado pelos pais ainda bebê em uma cidade no sudeste de Minas Gerais chamada Raul Soares, a 230 quilômetros da capital mineira, na Zona da Mata. Criado por uma dona de casa, ele passou uma infância humilde com apenas os recursos necessários para a sua sobrevivência.

Morador de BH desde a década de 1970, “Eu sou o que sou” vivia do seu trabalho artístico de estátua viva na Praça Sete, no centro da cidade, ganhando 30 a 40 reais por dia. Ele saía às 7 horas do albergue e com o sustento do que comia no café da manhã e um pouco do que conseguia no almoço, só parava de trabalhar quando o dia escurecia. Às seis da noite, ele voltava para o albergue.

A vida difícil e a realidade dura justificavam a sua visão cética e, muitas vezes, niilista. “Eu sou o que sou” acreditava que ninguém era obrigado a ajudar ninguém e que, por isso, o homem precisava correr atrás de seus objetivos e não baixar a cabeça para nada.

“O futebol é uma ilusão. Ele maquia a realidade da pessoa naquelas duas horas de jogo. Estes que estão aqui vivendo na miséria não é aquela fantasia que está na televisão. A realidade é outra e muitos moradores de rua não conseguem enfrentá-la”.

No fim das contas, saí com uma inesquecível experiência e uma bela história para a minha bagagem de contador. Desde então, nunca mais o vi. Por vezes, me pego ruminando em pensamentos… O que se sucedeu de “Eu sou o que sou” logo após o 7 a 1? Sendo bem sincero, queria muito ter visto a sua feição honestamente feliz.