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O dia em que o Brasil perdeu por não saber perder

Lúcia Oliveira

Elenco brasileiro da Copa do Mundo de 1954. Foto: Reprodução/Wikipédia

O ano era 1954 e lá estava a Seleção Brasileira em território suíço, prestes a conhecer seu adversário da segunda fase da Copa do Mundo daquele ano, o qual foi definido a partir de um sorteio que aconteceu na cidade de Berna.

No caminho para chegar até àquela fase, o elenco brasileiro bateu o México, por 5 a 0, e empatou com a Iugoslávia em 1 a 1, enquanto observava outra equipe se sobressair na competição. A temida Hungria, seleção que vinha se destacando na competição, além de prometer muito futebol, era vista como favorita ao título, principalmente porque era a campeã olímpica de 1952, considerada melhor representante do futebol europeu no início dos anos 50, além de ter superado o English Team, clube da terra da rainha considerado imbatível na época, por 6 a 3, durante a preparação para aquela edição do Mundial.

E foi justamente a Hungria que o tal sorteio definiu como adversário do Brasil.

O elenco húngaro, comandado por Gusztáv Sebes, já era encarado como a sensação da Copa de 54. Com nomes como Czibor, Kocsis, Toth e Hidegkuti, a equipe era temida por todos. Na fase de grupos, bateu a Coreia do Sul com um sonoro placar de 9 a 0, além de um 8 a 2 contra a Alemanha Ocidental.

Naquela Copa, o Brasil dava aula de qualidade técnica quando entrava em campo. O time do técnico Zezé Moreira era composto por Nilton Santos, Castilho, Julinho Botelho, Didi, além de outros craques.

No que comumente se chama de pré-jogo atualmente, a Hungria já se sagrava vitoriosa diante da seleção verde e amarela. Alguns jornais da época apontaram que o técnico dos Magiares agia com arrogância e um otimismo exacerbado, situação que foi amplamente comparada ao episódio do Maracanazzo, quando os brasileiros mergulharam na autoconfiança e momentos depois afogaram-se.

O comportamento confiante dos húngaros também pôde ser lido, de acordo com a imprensa brasileira da época, como reflexo de medo. O técnico brasileiro foi caracterizado como calmo e sereno, o elenco foi exaltado por seus bons resultados durante os treinos e a classificação não deixou de ser lembrada. Tudo foi veiculado para fazer com que a torcida alimentasse o nacionalismo.

A preparação para o jogo seguiu bem, até que naquele 27 de julho de 1954, o temor adentrou a concentração dos atletas no vestiário brasileiro junto às palavras de José Lyra Filho, dirigente desportivo da época. Enlouquecido, o homem exigiu que os jogadores beijassem a bandeira da Força Expedicionária Brasileira, usada na Segunda Guerra Mundial, além de impor que deveriam também vingar os mortos de Pistóia, cemitério onde foram enterrados os praças do Brasil que morreram na Segunda Guerra Mundial. Ninguém, contudo, lembrou-se de informar a Lyra que nunca houve confronto entre húngaros e brasileiros naquela situação.

Titulares da Batalha de Berna. Da esquerda para a direita: Índio, Didi, Humberto Tozzi, Maurinho, Djalma Santos, Brandãozinho, Nilton Santos, Pinheiro, Julinho, Castilho, Bauer e Mário Américo. Foto: Reprodução/CBF

De acordo com Nilton Santos, os defensores do Brasil já entraram em campo com o psicológico abalado, depois do episódio ufanista no vestiário. Porém, há muito tempo esse aspecto estava fragilizado, mais precisamente desde 1950, quando a Seleção não conseguiu corresponder às expectativas de seu povo e sofreu o Maracanazzo.

Quando, aproximadamente, mais de 40 mil pessoas se acomodaram nas arquibancadas do estádio Wankdorf, em Berna, numa tarde chuvosa, não sabiam que naquele gramado, algo a mais que futebol estaria em jogo.

Escalado com Castilho, Djalma Santos, Pinheiro e Nilton Santos; Brandãozinho e Bauer; Julinho, Didi, Índio, Humberto e Maurinho, o Brasil foi a campo com as palavras do técnico Zezé Moreira na cabeça: o objetivo era segurar a Hungria nos primeiros 10 minutos de jogo. A seleção de Puskás – que assistiu àquele jogo da arquibancada, pois estava machucado desde a partida anterior – foi com Grosics, Buzánsky, Lantos e Zakariás; Bozsik e Lóránt; Mihály Tóth, Kocsis, Hidegkuti, Czibor e József Toth.

Entretanto, como se soubessem que estragariam os planos da amarelinha, mal o árbitro inglês Arthur Ellis havia sinalizado o início da partida e os Magiares já buscaram jogo. Com menos de sete minutos, o placar favorecia aos húngaros em 2 a 0, fazendo jus à fama de sensação daquele Mundial.

A tensão era visível no lado brasileiro. O gramado molhado apenas servia para que o Brasil não conseguisse jogar, principalmente porque as chuteiras dos jogadores contavam com apenas seis travas, o que desfavorecia a aderência no chão encharcado, enquanto a Hungria se mantinha firme, com calçados adaptados de 10 travas. Entretanto, a Seleção Canarinho não se deixou abalar.

O Brasil ensaiou uma reação e decidiu atacar. Aos 18 minutos, depois de uma bola alçada na área, o atacante Índio foi derrubado por Lóránt e o juiz assinalou o pênalti que Djalma Santos converteu. Apesar da melhora e de certo equilíbrio que a Seleção Brasileira apresentou, o jogo foi ao intervalo sem mais alterações no placar.

No segundo tempo, ambas as equipes conseguiram criar boas jogadas, mas sem dar muito trabalho aos goleiros. Até que aos 15 minutos, Pinheiro e Czibor disputaram a bola e Ellis marcou pênalti para a Hungria, Lantos cobrou e marcou. O Brasil não deixou barato e Julinho Botelho balançou as redes aos 20 minutos.

O jogo era agônico com 25 minutos ainda por jogar e parcial vitória húngara por 3 a 2. O clima do jogo, apesar de banhado pela chuva, já vinha quente, devido a muitas faltas que Ellis apitava. Tudo piorou aos 26 minutos, quando Nilton Santos e Boszik se esmurraram e o árbitro sinalizou cartão vermelho para ambos. O Brasil ainda teve chances de empatar e até virar a partida, quando Julinho perdeu uma oportunidade e Humberto Tozzi carimbou a trave. Pareceria que não era o dia da Seleção Canarinho e, realmente, não foi. Começou ali, a derrocada da identidade nacional brasileira.

Depois das chances perdidas, com os ânimos já exaltados, Tozzi deixou a bola de lado e resolveu chutar Buzánsky e, em seguida, foi expulso. A partida já estava próxima do fim e o Brasil tinha a desvantagem numérica. No minuto 42, para selar a conquista da vaga na semifinal da Copa, Kocsis marcou o último gol húngaro daquele dia, que decretou a vitória dos Magiares por 4 a 2.

A chuva torrencial, que não deu trégua, mais parecia reflexo do estado psicológico dos jogadores. Derrotados, encharcados e furiosos, os brasileiros estavam irreconhecíveis.

A batalha de Berna. Foto: Reprodução/CBF

Quando Arthur Ellis decretou o fim do jogo, o som de seu apito soou como um grito de “avante!”, então, a batalha começou. O caminho do campo até a entrada do túnel que dava para os vestiários se tornou um campo de guerra.

Segundo depoimentos da época, Ferenc Puskás foi em direção ao gramado e provocou o zagueiro Pinheiro, que revidou e levou todos os outros jogadores a protagonizarem uma confusão generalizada. Em seguida, o que se viu foi pura violência.

O antes sereno técnico Zezé Moreira arremessou uma chuteira – a qual Didi havia trocado com algum jogador ao fim da partida – em direção a um homem de terno que passou correndo em direção à confusão, mais tarde, descobriu-se que aquele homem era o ministro húngaro Guzstav Sebes. Um policial que tentou intervir nas brigas acabou levando uma rasteira do radialista brasileiro Paulo Planet Buarque, que havia invadido o campo e, em seguida, viu a polícia revidar. Marinho ainda chegou a cuspir em Lantos.

Toda a pancadaria acontecia lá embaixo, enquanto Mário Vianna, árbitro brasileiro que chegou a apitar uma partida daquela Copa, gritou em algum microfone que o juiz da partida, Arthur Ellis, era integrante de um complô comunista que pretendeu classificar a Hungria.

Um estilo “à brasileira” acabava de ser estigmatizado para todo o mundo.

Um dos muitos momentos da confusão. Foto: Reprodução/CBF

No Brasil, a defesa dos talentos naturais, da singularidade de cada jogador, entre outros aspectos, sempre foram fatores que evidenciaram a peculiaridade da seleção. Em Copas, o mundo sempre expôs que a coletividade dentro da Seleção Canarinho era substituída pelo improviso e pelo “sangue-quente”, principalmente porque para os europeus, os sul-americanos sempre foram estereotipados como um povo primitivo, volátil e indisciplinado.

O que a própria imprensa apelidou de “Jogo do Século” apenas reforçou tudo isso. As manchetes dos jornais exibiam que o Brasil havia perdido por culpa de erros de arbitragem e, além disso, que a qualidade da seleção, durante todo o jogo, foi superior ao futebol húngaro. Não houve reconhecimento do mérito adversário, apenas a reafirmação de que a técnica brasileira sempre fora insuperável.

A imprensa apontou um culpado para a derrota que tinha nome e sobrenome: Arthur Ellis. Os veículos de comunicação acusaram o árbitro de não ter agido com moral e imparcialidade durante a partida, fatores que haviam favorecido, em boa parte do jogo, a seleção da Hungria. A cobertura do episódio em Berna fora tão munida de irresponsabilidade que ao ouvir os relatos da transmissão radiofônica, revoltados pela evidente “injustiça”, no Rio de Janeiro, torcedores buscaram a sede da embaixada húngara no Brasil para depredá-la, porém, como não a acharam, os prejuízos ficaram para a embaixada sueca.

A batalha da identidade nacional em Berna foi um marco histórico do comportamento antidesportivo dentro do futebol, mas além disso, revelou muito sobre como os estereótipos são encarados diante de valores relacionados às sociedades modernas e individualistas. Quando, em 1950, o futebol do Brasil caiu por terra, a derrota não foi só para o time, mas também para a nação, que viveu em 54, uma situação mais vexatória que o Maracanazzo.