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O direito ao estádio

Gilmar Mascarenhas

“Portanto, é claro que é triste: as torcidas de futebol talvez ainda sejam capazes de criar um novo ambiente que seja eletrizante, mas jamais poderão recriar o antigo, que exigia vastos números e um contexto no qual esses números pudessem se unir num único e imenso corpo reagente. (…) Os grandes clubes parecem ter se cansado de suas torcidas, e sob certo aspecto, quem pode culpá-los? (…) as famílias de classe média — o novo público alvo — não só irão se comportar bem, como pagar muito mais para fazê-lo.” (Hornby, 1992, p.75–76)

A cidade capitalista é um espaço de confrontos. Os trabalhadores, ao longo da história, formataram diversas estratégias de organização e embates diante do processo de formação da cidade burguesa. Tais estratégias incluem, para muitos num plano secundário, a apropriação cotidiana dos espaços para satisfazer necessidades diversas, da sobrevivência material imediata ao lazer e à sociabilidade.

Foi assim que o futebol, prática social inicialmente formatada no âmbito das instituições de controle (estabelecimentos de ensino na Inglaterra) e difundida como indústria do espetáculo (portanto, inserida no circuito da acumulação), conquistou o anonimato das periferias urbanas. Fecundou toda uma nascente cultura operária, à qual serviu como eficiente “pedagogia da fábrica”: trabalho em equipe, obediência às regras, especialização nas tarefas, submissão ao cronômetro etc. Para além das Ilhas Britânicas e a serviço destas, milhares de homens singravam os oceanos, disputando “peladas” pelos portos do mundo. Enquanto alimentavam com suor e sofrimento os circuitos imperialistas, semeavam com suor e prazer a vigorosa semente do futebol.

Na “várzea”, no chão de terra, nos interstícios da urbanização avassaladora, esta forma de lazer comunitário se propagou febrilmente, roubando corpos destinados à apropriação capitalista do tempo instrumental e da ordem racional, para realizar no plano do vivido uma faceta do direito à cidade, agindo nas brechas do sistema. Direito de livre organização popular, de usufruto das possibilidades concretas da cidade, que reúne tantas pessoas e informações para fins de lucro. Mas estas pessoas também se interagem fora do tempo e do espaço da razão instrumental: elas reelaboram as informações (como o futebol), aproveitam a disponibilidade (ainda que escassa) de seus corpos, de tempos e espaços, e elaboram desejos e formas de prazer e de solidariedade para além das normas dominantes e do tempo cronometrado e abstrato da expropriação da mais-valia (LEFEBVRE, 1998 e 2008; SEABRA, 1996 e 1997).

Tomando a produção do espaço social urbano como resultado sempre inacabado do confronto dialético entre a lógica da propriedade e as táticas populares de apropriação, é que propomos refletir sobre o estádio de futebol como microcosmo da reprodução social da cidade. Neste específico espaço-tempo da vida coletiva, temos observado um processo avassalador de transformações impostas por uma nova ordem vertical que expressa uma tendência global, associada ao que alguns estudiosos já denominaram de “nova economia do futebol”. No Brasil, este processo foi acelerado pela organização da Copa do Mundo em 2014. Seus impactos nas contas públicas são conhecidos e estarrecedores. Seus efeitos sobre a “cultura do torcedor” são profundos, mas também polêmicos, sobretudo por estarmos vivenciando justamente um momento de conflito e negociação das condições e normas de acesso e de uso nestes novos equipamentos.

O que propomos neste artigo é apresentar este processo de mudança, dimensionando-o à luz do reconhecimento da espessura sociocultural do futebol no Brasil e de toda uma “cultura de torcedor”, construída ao longo de décadas, sobretudo pelas camadas populares. Queremos oferecer elementos para uma reflexão sobre esta nova geografia social, indagando sobre o acirramento de processos de exclusão, tanto de segmentos economicamente desfavorecidos quanto de práticas socioculturais que garantiam nos estádios uma atmosfera de festa e de expressão de anseios coletivos. O novo modelo de estádio que se quer implantar representa uma faceta do assalto neoliberal sobre a cidade, incidindo diretamente sobre a cultura do futebol.

Foto: Bia Oliveira.

Futebol e política: o advento do “estádio das massas”

Notoriamente, o futebol aporta na América do Sul enquanto novidade inglesa “civilizadora” e cultuada por nossas elites ávidas por novos elementos que reforçassem a distinção social. Paulatinamente, os segmentos populares foram se apropriando desta prática esportiva e elaborando novos códigos culturais, bem como instaurando na cidade toda uma nova espacialidade.

Um marco importante no processo de popularização do futebol no Brasil é o estádio do Pacaembu, em São Paulo, inaugurado em 1940. Como maior estádio do país, superou São Januário, grande estádio carioca de propriedade do Vasco da Gama, erigido em 1927. Consoante com o espírito de revolução de 1932 e com todo o discurso bandeirante ufanista que se proclama “locomotiva do Brasil”, a municipalidade paulistana erigia o primeiro estádio de futebol estatal do Brasil. Tratava-se de um monumento cívico, que como tal, exigia uma localização “condizente” com sua importância e centralidade na vida social e cultural da cidade. E não havia apenas o campo de futebol, mas instalações para outras modalidades esportivas, já que o objetivo divulgado era a promoção de uma juventude mais saudável, vibrante e, por isso, presumivelmente patriota. Nas palavras de Vargas, imbuído de ânimos fascistas, por ocasião do discurso de inauguração do estádio, se projetava uma mocidade com “elevado índice eugênico” (NEGREIROS, 1998:87).

No bojo da rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo, no ano seguinte o governo federal lançou concurso para escolha do melhor projeto para o futuro Estádio Nacional no Rio de Janeiro: o Maracanã. A iniciativa, entretanto, naufragou diante das disputas políticas entre esferas de governo, sendo mais tarde encampada pela municipalidade e incorporada ao projeto de realização da Copa do Mundo de 1950.

O Pacaembu inaugurou uma longa tradição de estádios estatais em nosso país, peculiaridade marcante de uma estratégia de regulação social e de controle das massas.

Mais tarde, o regime militar pós-1964 decretou a criação de um certame nacional regular de futebol, e com ele incentivou a proliferação de grandes arenas pelas capitais do vasto território nacional. Subsidiando o preço dos ingressos nos setores populares para garantir grande afluência de público aos estádios, e mesmo oferecendo suporte financeiro para longos deslocamentos de clubes do “centro-sul” para as demais regiões do País, o governo federal garantiu o êxito do Campeonato Nacional. A criação da Loteria Esportiva completa o rol de medidas governamentais no sentido de consolidar o futebol como centralidade cultural e associar diretamente sua força e dinâmica de sucesso ao regime.

Em 1965 inaugura-se outro estádio colossal, e agora inteiramente público, o Estádio Governador Magalhães Pinto, ou “Mineirão”, em Belo Horizonte (MG). Quatro anos depois se inaugura o “gigante” da Beira-Rio, em Porto Alegre. Estando os quatro principais centros futebolísticos dotados de grandes arenas, iniciamos no ano de 1970 outro período, marcado pela construção de grandes estádios nas demais capitais. O futebol tomado como meio de alienação, a desviar a atenção dos principais problemas sociais.

Ainda em 1972, no contexto da formidável onda de construção de grandes estádios nordestinos, Natal (RN) apresenta o “Castelão”, dotado para 53 mil assistentes, quando a população urbana não alcançava 300 mil habitantes, e que depois alterou o nome para João Cláudio de Vasconcelos Machado, ou “Machadão”. No ano seguinte, foi a vez de Fortaleza concluir o ciclo das grandes capitais nordestinas, com o Estádio Governador Plácido Aderaldo Castelo, ou Castelão, que chegou a receber 118 mil pagantes. Em suma, em apenas dois anos, de 1971 a 1973, o Nordeste inaugurou três imensos estádios nas suas três principais metrópoles regionais. Localizamos o auge do ciclo construtivo, sem dúvida, entre 1970 e 1978. Portanto, situado entre o auge e o início do declínio do regime militar no Brasil, que apostou nos grandes estádios como estratégia política de controle das massas urbanas. Todavia, foi nesses espaços que a dialética propriedade x apropriação se manifestou de forma intensa, produzindo uma cultura do torcedor caracterizada pelo protagonismo ruidoso das massas, não raro através de contestação do regime ou de elementos da ordem hegemônica.

Todomundo, documentário de Thomaz Farkas sobre as torcidas brasileiras dos anos 70.
Entre o funcional e o simbólico: a apropriação popular dos estádios

A “geração” estatal de grandes estádios brasileiros produziu espaços que propiciavam uma nova dinâmica comportamental coletiva, marcada pela articulação das vozes em uníssono. O antigo estádio, de pequeno porte e dotado maior proximidade entre o campo e a assistência, permitia ao indivíduo espectador, isoladamente, se fazer ouvir. Seus comentários, acusações e mesmo sugestões quanto à organização do time em campo poderiam ser ouvidas pela comissão técnica, pelos jogadores e pela arbitragem. O novo estádio, por seu porte e pelo distanciamento do campo em relação ao público assistente (geralmente através de fossos de segurança), impeliu o torcedor a buscar uma nova forma de expor seus desejos, opiniões, críticas e reivindicações. Somente através de cantos e palavras de ordem emitidas pela multidão em coro seria possível se fazer ouvir.

Não apenas os clubes e federações eram alvo de contestação das multidões organizadas (ainda que questionemos a natureza fugaz ou precária desta organização). Já em 1972, o regime de exceção, em seu momento mais agudo, sofreu fortes momentos de pressão no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. Conforme o historiador Cesar Guazzelli (1999), 110 mil pessoas presentes queimaram bandeiras nacionais e vaiaram a execução do hino nacional, sufocando-o completamente. O motivo primeiro do descontentamento se limitava ao âmbito futebolístico (a não convocação de jogadores gaúchos para o selecionado nacional) e se imbuia de forte espírito regionalista, mas é notável a revelação do estádio das massas como potencial espaço de contestação política e de afronta ao regime. No plano internacional, é notório o uso do estádio CampNou, em Barcelona, durante o regime franquista, como espaço de críticas ao governo centralista e sobretudo de afirmação da identidade catalã, cuja língua era proibida na vida pública e encontrava no estádio seu momento pleno de exteriorização.

É complexa a história das torcidas no Brasil e há muito ainda por estudar. São muitas as tipologias e periodizações possíveis, conforme sinalizam renomados estudos de Toledo (1996) e Hollanda (2009), dentre outros. Neste sentido, não convém estabelecer precisamente o advento do que chamamos aqui de “estádio das massas” como marco na transformação do comportamento do torcedor, ou do nascedouro de uma determinada “cultura de torcedor” de cunho mais festivo, ativo e até agressivo. Mas o fato é que as décadas de 1960 e 1970 assistiram a um evidente processo de estruturação e multiplicação das “torcidas organizadas”. Como é fato também que o mesmo período consolida, em escala nacional, o pleno acesso das camadas populares urbanas aos estádios. Este período viu nascer e se expandir todo um ritual de “carnavalização” dos estádios, com coreografias coletivas e multiplicação de cânticos e adereços, propiciando um espetáculo muito particular nas arquibancadas.

Para além da popularização do acesso ao estádio e do formidável aumento de volume de público que favorece tais processos mutantes, acreditamos que um dos fatores a ser considerado é a própria arquitetura destes equipamentos. Criados, ao menos em parte, para as camadas menos favorecidas, estes estádios apresentavam estruturas de cimento e concreto rústicas e bastante simplificadas. A ausência de conforto é uma tônica geral e as vastas superfícies sem distinção de setores propiciavam uma mobilidade espacial quase infinita às multidões, que assim puderam desenhar livremente suas dinâmicas comportamentais. Rusticidade e descaso que foram apropriados pelas massas como oportunidade de “fazer o estádio a seu modo”, produzir aquele espaço social com certa autonomia.

Portanto, durante o regime militar as classes trabalhadoras tiveram direitos cerceados de organização partidária e sindical, mas encontraram nos grandes estádios, destino orientado pelo próprio discurso hegemônico para uso do tempo livre, um espaço alternativo de expressão e sociabilidade. Se quisermos refletir a partir do debate em torno do conceito de território proposto por Haesbaert (2004), podemos afirmar que a estratégia oficial era de criar um território funcional, afeito à instrumentalidade da cidade capitalista. No caso, um espaço e tempo de reprodução social do urbano visando simultaneamente acumulação de capital e controle das massas. Mas paulatinamente, sobre este pretenso território da funcionalidade foi se ajustando o território cultural-simbólico resultante das negociações tácitas com a cultura popular do futebol, que ali produziu novas manifestações.

Festa na rua Turiassu antes da reinauguração do estádio do Palmeiras. Foto: Paulo Junior.

O estádio de futebol enquanto fenômeno socioespacial não se restringe ao recinto arquitetônico do equipamento em si. Sua espacialidade transcende sua materialidade, e se expande pelas vias de acesso e por todo o anel periférico que comporta a ação dos diversos atores que se movem,
sobretudo em dias de grandes jogos.

As torcidas organizadas definem e ritualizam seus trajetos e seus pontos de encontro ao redor do estádio, em demarcações territoriais disputadas. Também disputam o espaço os agentes do comércio informal, e estes particularmente compõem o espaço vivido, alimentando a experiência de ir ao estádio de cores, sabores, cheiros e sons.

Toda a riqueza desta territorialização, dentro e fora do espaço do estádio, momento e lugar da reprodução social, estava repleta de conteúdos criativos, imaginativos, expressão do desejo de festa coletiva. O estádio popular como uma forma de fazer cidade, de ter direito à festa, ao encontro, à inventividade coletiva. O que vamos abordar no próximo segmento é o quanto todo este patrimônio vem sofrendo ataques por parte de agentes dominantes, interessados numa completa reconfiguração física, funcional e simbólica do estádio de futebol.

Foto: Lucas Uebel/Grêmio.

O projeto de “higienização” do estádio e os embates em curso

“Requalificação”, “modernização”, “renovação”, “gentrificação”, “elitização”, “reconversão”, “higienização”, “adequação”: diversa é a terminologia aplicada ao processo de reforma profunda dos estádios. A radicalidade do processo afeta o próprio campo lexical do futebol: passam a se chamar “arenas”.

A Copa do Mundo de 2014 certamente atuou como fenômeno acelerador de tendências neoliberais já em curso no futebol brasileiro. Particularmente, enquanto evento que inscreveu em nosso território uma nova paisagem futebolística, através das novas “arenas”. Tais objetos não são absoluta novidade em nosso país, já que desde o final dos anos 90 iniciamos nossa onda de “modernização” dos estádios, seguindo os ditames da FIFA e as novas tendências de converter o público ruidoso, móvel e imprevisível em massa comportada, fixada em seus assentos.

O processo de reforma dos estádios almeja trocar a figura do “torcedor” (emocional, intenso, excitado, agressivo, viril) pelo “consumidor”, geralmente de média ou alta renda, mais sereno, que aporta nos estádios em família, disposto a assistir passiva e confortavelmente um “espetáculo” repleto de “astros” midiáticos. O torcedor, ao contrário, sofre, grita, reclama, reivindica, ameaça e se articula coletivamente com estranhos. Ele quer ser protagonista do evento, ao qual contribuiu com sofrido dinheiro e paixão fiel ao seu clube. O consumidor, solitário ou imerso em seu pequeno e “fechado” grupo, contempla, aplaude, filma e fotografa o cenário. Uma experiência sem riscos, sem incertezas, adequada e altamente lucrativa para os donos do espetáculo.

Estes novos objetos geográficos trazem não apenas uma arquitetura pujante e monumental, alvo de ufanismo e novo cartão postal para o citymarketing em nossas metrópoles. Trazem em si novos conteúdos da urbanização, ao propor e impor suas novas formas de experimentar a vida pública. Num trabalho genuinamente antisséptico, busca-se afastar dos estádios indícios de uma “cultura do futebol” fermentada no Brasil ao longo de pelo menos quatro décadas.

Esta forma de torcer, produtora de gestos considerados agressivos e imprevisíveis, não interessa à moderna indústria do espetáculo esportivo.

Esta prefere um consumidor sóbrio. Ademais, um consumidor de maior poder aquisitivo, de forma que nossos novos estádios tendem a expulsar o pobre e o torcedor apaixonado, categorias que muitas vezes se confundem no mesmo indivíduo, já que o “pertencimento clubístico” (DAMO, 1998) está enraizado na cultura popular urbana.

Os novos estádios impõem, por assim dizer, uma nova territorialidade, caracterizada basicamente por:

Limitação de acesso ao recinto, seja pela sensível redução da capacidade dos estádios, seja pelo encarecimento extremo dos ingressos, ou ainda pelas restrições de portabilidade de inúmeros objetos e adereços, incluindo faixas e cartazes com conteúdo “político”. Em outras palavras, o cidadão está impedido de protestar nos estádios, seja contra a Federação, seja contra a CBF, ou qualquer outra entidade a partir da qual ele se sinta lesado.
Limitações severas de comportamento dentro do estádio, pela imposição de normas e vigilância onipresente através de câmeras filmadoras. Processo agudo de disciplinarização e constrangimento que estudamos anteriormente (GAFFNEY e MASCARENHAS, 2005).
 

Trailer de Geraldinos, documentário de Pedro Asbeg e Renato Martins sobre os últimos jogos da geral do Maracanã.

A importação deste modelo world class já está em curso no Brasil há mais de uma década, num evidente processo de elitização de nossos estádios. A remoção definitiva da lendária Geral do Maracanã em 2005 e da Coreia do Beira-Rio (em Porto Alegre), fazem parte de todo um movimento de reelitização de nossos estádios.

Não vamos aqui debater a complexa questão da violência nos estádios, com suas inúmeras acepções. No Brasil e em diversos países, acidentes graves colocaram em xeque este modelo de estádio “de massas” que entre nós vigorou por quatro ou cinco décadas a partir de 1950. Acreditamos que o principal motor da reforma dos estádios parece não ter sido propriamente o tão anunciado risco de vida em espaços de multidão presumidamente “difícil de ser controlada”. O próprio abandono das estruturas físicas do estádio contribuiu para a insegurança e acidentes.

No plano jurídico, o Estatuto do Torcedor, implementado em 2003, prevê punição severa para transgressores: estes podem ser banidos dos estádios por longa temporada. Este processo de aumento do controle e punição sobre os frequentadores de estádios adquire, com a Copa do Mundo, um recrudescimento inédito, anulando a criatividade coletiva e reduzindo ao mínimo possível e possibilidade de expressão individual. Em suma, emerge mundialmente um novo conceito de estádio, endeusado pelos grandes meios de comunicação e inteiramente adequado aos interesses do grande capital.

Este novo estádio agrada a segmentos sociais economicamente capazes de consumi-lo, ou que não sustentem críticas ao modelo disciplinar e à supressão de práticas populares. Muitos se sentem plenamente satisfeitos com a segurança, previsibilidade e serenidade do novo ambiente, e não escondem a satisfação de este ser frequentado por indivíduos de melhor estrato socioeconômico, como ocorre em shopping centers, clubes e resortes. Podemos incluí-los no rol dos espaços insulares, como enclaves que evitam a presença dos indesejáveis segmentos excluídos (BIDOU-ZACHARIASEN, C e GIGLIA, 2012), redutos da passividade e do consumo.

A imposição de assentos individuais sobre as antigas arquibancadas de cimento (os “all-seater stadiums”) privou o torcedor da liberdade de movimentação corporal coletiva, que propiciava ruidosa carnavalização no ambiente colorido dos estádios. Vivo, Michel Foucault talvez dissesse se tratar da aplicação, aos estádios, de dispositivos de controle dos corpos, verificados em outros âmbitos da vida social e suas instituições. As câmeras por toda parte, vigilantes panópticos, também chamariam a atenção do filósofo: vigiar e punir.

As resistências a este modelo são notáveis. Vitórias como as dos comerciantes informais do entorno do Mineirão são dignas de registro: removidos em 2010, os “barraqueiros”, através de sua associação, obtiveram em junho de 2014 o direito a retornar ao local. Os torcedores, ainda que em geral fascinados pela beleza, ordem e assepsia do novo estádio, se queixavam da ausência dos serviços e bens oferecidos pelo comércio informal, com destaque para o tradicional “feijão tropeiro”. A presença destes trabalhadores, além garantir uma via de geração de renda, propicia um cenário de muito maior riqueza sociocultural, compondo a experiência vivida de quem vai ao estádio.

Há outros indícios de reconquista de espaços e de práticas coletivas nos novos estádios: persistem as torcidas organizadas com seus tradicionais rituais, e muitos torcedores permanecem de pé boa parte do tempo, inclusive recusando “pedidos” efetuados por funcionários do estádio para se sentarem, conforme pudemos observar em três diferentes estádios: no Maracanã, em Pituaçu (Salvador-BA) e no Mineirão (Belo Horizonte-MG), no transcorrer dos meses de setembro a dezembro de 2013.

Torcedores do Botafogo em pé na arquibancada do Mineirão, em 18 de setembro de 2013, a despeito das ordens e pedidos por parte de agentes encarregados locais pela “ordem”. Foto: Gilmar Mascarenhas.

Por fim, a luta contra a privatização do Maracanã, desenvolvida sobretudo no âmbito do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, não apenas deve ser vista como mais uma (ou a mais contundente) iniciativa de reflexão crítica e combate contra a elitização de nossos estádios. Sua emergência e amplitude representam um movimento interessante, o da inclusão do futebol e de seus estádios na agenda do movimento social pelo direito à cidade. A Copa do Mundo nos deixa como legado não apenas alguns pesados “elefantes brancos” remoções de comunidades e comprometimento nas contas públicas. Tal evento, assim como foram os Jogos Pan-americanos em 2007 e as futuras olimpíadas de 2016, geram uma oportunidade para repensar a política urbana e a cidade, e a partir desta reflexão empreender novas agendas de luta.

Concluindo

Não pretendemos ser nostálgicos a ponto de estabelecer o tradicional estádio das massas como modelo ideal. Sabemos o quanto aqueles espaços excluíam segmentos sociais interessados no futebol, mas que alimentavam certa topofobia em relação aos estádios, tomados como lugares violentos e machistas. Por outro lado, não concordamos com a imposição arbitrária do novo modelo, nitidamente elitizado, engessado e voltado para o consumo passivo do espetáculo. O velho estádio abrigava amplas possibilidades de uso criativo e de apropriação coletiva, gerando assim espaços culturais e lúdicos de intensa referência popular.

Todavia, diante da presumida “falência” dos estádio das massas, não se realizou um amplo debate aberto em torno do que seria um novo estádio, menos agressivo e machista, que acolhesse idosos, crianças e mulheres com menor dificuldade, sem que fossem excluídos da festa os pobres e todo o repertório festivo que caracterizou por décadas o estádio de futebol. Setores hegemônicos já tinham um modelo pronto, importado, lucrativo e elitista, no qual o estádio reflete processos mais gerais de produção do espaço urbano no contexto neoliberal.

O futuro nos dirá como a cultura popular do futebol sobreviverá ao novo estádio, diante do desafio de buscar acolhimento de formas diversas de protagonismo e da criatividade coletiva em face de um projeto que atomiza o torcedor e que reduz a experiência do estádio ao mero consumo de mais uma atividade da indústria capitalista do entretenimento.
Inspirados na terminologia de Henri Lefebvre, diríamos que há um “estádio-obra” conflitando com o estádio-produto” emergente: um modelo importado, que define em detalhes as formas de uso, tentando se impor ao modo de uso que foi gestado coletivamente ao longo de décadas.

Pelo mundo, encontramos diversas experiências alternativas ao modelo global de estádio “higienizado”, para além da famosa “muralha amarela” alemã, situada na Tribuna Sul do estádio do Borussia Dortmund. Em Cracovia, na Polônia, tivemos oportunidade de acompanhar uma partida no Stadion Cracovii. Neste, o setor D, situado atrás de uma das balizas (o estádio possui formato clássico retangular) é destinado exclusivamente para “fanáticos”. Conforme as imagens abaixo, diversos adereços e comportamentos considerados “agressivos” para o modelo hegemônico são ali permitidos. Infelizmente, na condição de turista, não pude adentrar o setor, apenas me contentar em contemplar sua festa ruidosa.

Vista do Setor D do Stadion Cracovii, em setembro de 2014. Fotos: Gilmar Mascarenhas.

O mecanismo da despossessão (HARVEY, 2011) funda a origem da moderna cidade capitalista. Processos de acumulação por despossessão seguem se repetindo nos mais diversos âmbitos da vida cotidiana, pois o capital realiza sua própria natureza de busca incessante por novos espaços e oportunidades de acumulação. No caso do futebol, percebemos um movimento claro de despossessão no grande estádio, espaço então apropriado, enquanto território usado, pelas massas urbanas. Expropriar este microcosmo para nele operar transformações radicais no sentido da valorização do espaço, o que permite novas formas de realização do valor: das inúmeras novas lojas em seu interior à exploração dos “naming rights” e à realização de eventos caros (incluindo inusitadas cerimônias matrimoniais). O espaço popular do estádio tomado não como referência cultural, mas como recurso, pois esta é a visão capitalista do território: um potencial de exploração para fins de realização de novos processos de mercantilização.

Por fim, acreditamos que esta nova ordem não se disseminará completamente. Há o torcedor contestador e as torcidas organizadas (que aliás vem propondo um diálogo franco com os poderes públicos, que tradicionalmente rejeitam este canal, conforme presenciamos no Fórum das Torcidas), com potencialidade de contraposição às estratégias de controle, gerando constantes conflitos com a nova ordem constituída. E sobretudo persistem os pequenos e/ou velhos estádios, aqueles onde o circuito milionário do futebol não circula. Estes pertencem a outro circuito, marginal, mais informal, onde a arquitetura e o ordenamento espacial são bem mais flexíveis. Ali onde a tradicional cultura do futebol pode se realizar, com sua linguagem própria, sua interlocução intensa entre o torcedor participante e os que estão em campo de jogo. São estádios que ainda expressam elementos de uma cultura local, que interagem com o lugar onde estão inseridos.

A luta popular pelo direito ao estádio vem assumindo formas diversas. São táticas por vezes desorganizadas, atomizadas, mas que expressam um desejo de vivenciar o estádio de forma menos dirigida e controlada, menos “bem comportada”. Estádio como espaço de encontro e de festa. Quiçá um capítulo não desprezível da luta coletiva pelo direito à cidade. Cidade como possibilidade.


Referências

BIDOU-ZACHARIASEN, C e GIGLIA, A. Vers la ville insulaire¿ Tendences globales, effets locaux. (editorial). Espaces et Sociétés, 150, num. 3, 2012.

CASTRO, Demian Garcia. “O Maraca é Nosso!”: o estádio enquanto símbolo e arena das resistências ao projeto de cidade neoliberal. 66 f. Exame de Qualificação (Doutorado)-Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2014.

DAMO, Arlei Sander. Para o que der e vier. O pertencimento clubístico no futebol brasileiro a partir do Gremio de Football Portoalegrense e seus torcedores. Dissertação de mestrado em Antropologia Social, UFRGS, 1998.

GAFFNEY, Christopher, MASCARENHAS, G. The soccer stadium as a disciplinary space. Revista Esporte e Sociedade 1(1), nov.2005-fev. 2006.

GUAZZELLI, Cesar A. B. 500 anos de Brasil, 100 anos de futebol gaúcho: construção da “Província de Chuteiras”. Anos 90, revista do Programa de Pós-graduação em História da UFRGS, 11, p.21–50, julho de 1999.

HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. HARVEY, D. 2011. Le capitalisme contre Le droit à la ville: néoliberalisme, urbanisation, résistances. Paris: editions Amsterdan.

HOLLANDA, Bernardo B. O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.

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______. Espaço e política. [tradução de Margarida M. de Andrade e Sergio Martins] Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

NEGREIROS, Plinio L.C. A Nação entra em Campo: Futebol nos anos 30 e 40. Tese (doutorado em História), PUC-SP, 1998.

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_______. A insurreição do uso. In: MARTINS, José de Souza (org.) Henri Lefebvre e o retorno à dialética. São Paulo: Hucitec, 1996, p.71–86.

TOLEDO, L. H. Torcidas Organizadas de Futebol. Campinas: Autores Associados/Anpocs, 1996


Publicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2015, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.