137.36

O drama de Justin Fashanu

Pedro Henrique Brandão

Pioneiro entre jogadores profissionais ao assumir publicamente sua homossexualidade, o inglês filho de imigrantes sofreu com o racismo e com a homofobia desde os primeiros lances da carreira como atacante do Norwich até sucumbir a toda injustiça sofrida por toda a vida e cometer suicídio aos 37 anos.

Justin Fashanu com a camisa do Norwich City. Foto: Reprodução.

Justinus Soni Fashanu nasceu em 19 de fevereiro de 1961 num dos bairros mais pobres e violentos de Londres. Filho de imigrantes, mãe guianense e pai nigeriano, Fashanu foi abandonado após o divórcio dos pais. Acolhido por um orfanato, o garoto não tinha as melhores expectativas de um futuro promissor, porém, aos 5 anos, Fashanu foi adotado junto com seu irmão mais novo por uma família de classe média alta.

No novo lar, passou a se destacar nos esportes da escola que frequentava. Tudo indicava que o boxe seria o caminho, mas um olheiro do Norwich City convenceu o jovem a seguir no futebol. Pelo clube, o sucesso foi quase imediato. Em suas primeiras temporadas, Fashanu alcançou a marca de 35 gols em 90 jogos, números incríveis considerando a média de gols do futebol inglês na época e o fato de defender um clube mediano.

Dentre tantos gols, um chamou a atenção e alçou seu nome de vez ao estrelato. Numa partida contra o Liverpool, o Norwich perdia por 3 a 2 até que aos 29 minutos do segundo tempo, Fashanu acertou um voleio de perna esquerda de fora da área e empatou o jogo. Esse gol seria eleito pela BBC como o “gol do ano”.

Com apenas 18 anos e marcando muitos gols, Justin logo despertou o interesse de grandes clubes ingleses por seu futebol. O Nottingham Forest, a pedido de seu treinador Brian Clough, desembolsou 1 milhão de libras e fez de Fashanu o primeiro jogador negro vendido por essa cifra.

Racismo, 1 milão de libras e o fracasso no Forest

O que parecia ser a grande virada na história do jovem que contrariava a trajetória difícil, porém, se transformou no início do fim. O racismo, que fazia parte de sua vida desde o nascimento e principalmente quando fora adotado por uma família branca, foi o primeiro obstáculo. Era comum quando Fashanu dominava a bola que torcedores de seu próprio clube imitassem o som de macacos. Tanto a torcida adversária quanto a do Nottingham agrediam o jogador com ofensas raciais como, por exemplo, atirar bananas no gramado.

Certa vez, Justin Fashanu recolheu uma dessas bananas e comeu em protesto contra seus agressores. Daniel Alves repetiu o gesto mais de 20 anos depois ao sofrer agressão semelhante e tão repugnante quanto.

Num misto de falta de adaptação ao novo clube pelo evidente clima racista que encontrou e má fase técnica, o desempenho em campo diminuiu consideravelmente. Na primeira temporada no Nottingham, Fashanu anotou apenas três gols em 32 partidas e passou a não ter mais oportunidades.

Nesse mesmo período, os rumores sobre sua sexualidade começaram a tomar conta dos bastidores. Acontece que Fashanu frequentava as boates gays de Nottingham, que era uma cidade relativamente pequena à época.

O lendário treinador Brian Clough sempre dirigiu seus times com rigidez e não gostava dos comentários sobre o jogador. Certa vez chegou a descrever o atleta como “uma bichinha”. Desde o primeiro momento em Nottingham, a relação entre Fashanu e Clough foi conflituosa. O treinador que havia pedido a contratação do atacante se voltou contra o jogador de uma maneira irreversível e totalmente covarde.

O conservadorismo de Clough chegou a tal ponto que numa conversa pediu que o atleta deixasse de frequentar as boates gays da cidade. Não foi atendido e, por puro preconceito, barrou Fashanu do time.

Clough afastou Fashanu das atividades do grupo, o atleta não podia treinar junto com seus companheiros. Num treinamento, o técnico acionou a polícia para proibir o jogador de se aproximar do campo onde aconteciam as atividades. Sem oportunidades, Fashanu foi emprestado e peregrinou por vários clubes.

A primeira parada foi o empréstimo ao Southamptom, mas sem que conseguisse repetir as exibições dos tempos de Norwich. Ao fim do contrato retornou ao Nottingham e foi vendido ao Notts Couty por apenas um décimo do valor que havia sido comprado.

Na capa do The Sun, o começo do fim 

Logo em sua primeira temporada no Notts, sofreu uma grave lesão no joelho e precisou parar por um longo período para se recuperar. Na tentativa de receber o melhor tratamento, foi aos Estados Unidos fazer sua recuperação em Los Angeles. Quando retornou ao Reino Unido percebeu que não teria mais espaço na elite do futebol inglês. Passou por clubes menores da Inglaterra, dos Estados Unidos e do Canadá. Em todos não conseguiu boas atuações e era negociado quando os curtos contratos terminavam.

Em 1989, uma proposta do Manchester City poderia ser a retomada, mas o negócio acabou não se concretizando e fechou com o West Ham para novamente não conseguir mostrar bom futebol.

Foto: Reprodução

Muito se especulava, mas pouca certeza havia sobre os motivos para seu fracasso no Forest. Até que em 22 de fevereiro de 1990, Fashanu deu o passo derradeiro em direção à liberdade com que sonhava, mas, por viver numa sociedade homofóbica e ser atleta de um esporte com um tabu mal resolvido sobre a sexualidade, despencou no abismo.

Em entrevista ao The Sun, Fashanu assumiu sua homossexualidade. Carregada de sensacionalismo, a manchete do tabloide caiu como uma bomba:

“Estrela do futebol de 1 milhão de libras: eu sou gay”.

A declaração foi recebida de maneira raivosa pelos torcedores e o preconceito dobrou de intensidade contra sua figura. Era absolutamente o contrário do que Fashanu quis ao dar a entrevista, como chegou a declarar anos mais tarde:

“Eu queria fazer alguma coisa boa, então decidi dar o exemplo e sair do armário”.

Se com os boatos a vida do atleta já era difícil, com uma entrevista reveladora como aquela, sua carreira estava praticamente liquidada.

Torcidas adversárias elevaram a enésima potência as agressões contra Fashanu depois da entrevista. Além de gritos racistas, agora, o jogador era alvo de provocações homofóbicas e respondia mandando beijos para as arquibancadas, mas claro que ficava mal com tanto preconceito contra ele.

O rompimento com o irmão

Mais que ignorado por clubes, o jogador conviveu com a repulsa de ex-colegas e até do próprio irmão. John Fashanu chegou a pedir que o irmão não se pronunciasse publicamente sobre sua sexualidade. Para evitar a entrevista ao The Sun, ofereceu 100 mil libras para que Justin não revelasse ser gay.

Depois da revelação, John disse que Justin era a vergonha da família e se distanciou do irmão. Estava desfeita uma relação fraterna entre os irmãos que foram abandonados ainda bebês, com apenas um ano de diferença John era o mais novo, cresceram juntos num orfanato e iniciaram no futebol no mesmo clube.

John nunca atingiu o sucesso do irmão mais velho, mas teve uma carreira longa e sem polêmicas no futebol. O fim da carreira de Justin se aproximava na mesma velocidade em que trocava de clube, foram 11 desde quando assumiu publicamente ser gay, número superado apenas por suas aparições nos tabloides envolvido até em um suposto escândalo sexual com um parlamentar.

Alvo do ódio até de seu irmão, Justin Fashanu decidiu procurar um recomeço longe do Reino Unido. Mudou-se em 1993 para os Estados Unidos e encerrou a carreira de jogador em 1997 para se tornar treinador.

No estado de Maryland iniciou a carreira de técnico, mas sem grande destaque. Porém, os escândalos continuaram a pautar a vida de Justin Fashanu. Em fevereiro de 1998, foi acusado de estupro por um jovem de 17 anos.

A tragédia de Fashanu 

A versão que Fashanu sustentou até a morte era de que o sexo havia sido consensual e que o garoto estava tentando lhe chantagear. No entanto, ainda que se confirmasse tal versão, Fashanu teria problemas com a Justiça de Maryland, pois sexo homossexual era considerado crime naquela época no estado americano.

Acuado e amedrontado com a repercussão e possíveis consequências, Fashanu retornou ao Reino Unido para evitar a prisão nos Estados Unidos. Porém, a pressão continuou mesmo em solo britânico e, em 2 de maio de 1998, Justin Fashanu foi encontrado morto numa garagem pendurado pelo pescoço num fio elétrico.

No chão um doloroso bilhete confessava o sofrimento por qual passara o primeiro jogador profissional a se assumir gay:

“Percebi que já havia sido considerado culpado. Não quero mais ser uma vergonha para minha família e meus amigos. Ser gay e uma personalidade é muito difícil, mas não posso reclamar disso. Queria dizer que não agredi sexualmente o jovem. Ele teve sexo consensual comigo e, no dia seguinte, me pediu dinheiro. Quando eu recusei, ele falou ‘espere e você vai ver só’. Se esse é o caso, eu ouço vocês dizerem, por que eu fugi? Bom, a Justiça nem sempre é justa. Senti que não teria um julgamento justo por conta da minha homossexualidade.”

Anos depois do suicídio de Fashanu, Brian Clough admitiu ter agido errado com o jogador e até demonstrou certo arrependimento:

“Quando você descobre um cara tirando a própria vida, um cara que trabalhava com você e por quem você era responsável, você tem que olhar para trás e perguntar o que poderia ter feito melhor e não fez. Hoje eu sei que deveria ter lidado com Fashanu de um jeito diferente, talvez com mais compaixão e sensibilidade.”

Quase 40 anos se passaram desde que Justin Fashanu iniciou sua caminhada no futebol e sofreu preconceito por sua sexualidade. Mais de duas décadas depois de sua morte quase nada mudou no mundo do futebol e ainda hoje a homossexualidade é um tabu que parece intransponível. É preciso discutir a homofobia no futebol, mudar a forma como o esporte lida com o assunto para não repetir a trajetória de sofrimento de Fashanu.

Justin Fashanu com a camisa do Norwich City. Foto: Reprodução.


Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. O drama de Justin Fashanu. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 36, 2020.