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O elástico de Rivellino em Augusto Pinochet

Roberto Jardim

Santiago do Chile, outubro de 1973. Do lado de fora do portão, cinco chilenos perseguidos pela ditadura militar. Do lado de dentro, o caminho para a liberdade. Entre eles, um soldado chileno fã de futebol, um exilado político brasileiro e uma camiseta do Corinthians.

Esses são os ingredientes de um enredo desenrolado no Chile das semanas que se seguiram ao golpe militar que derrubou Salvador Allende. Mas que começou a ser escrito dez anos antes. A história foi contada por um dos protagonistas na edição 505 da revista Placar, de 28 de dezembro de 1979, mas ficou até certo ponto esquecida no tempo. Tanto que um dos personagens indiretamente envolvidos sequer a conhecia.

– Para mim, essa história é inédita. Nunca ouvi nem comentário. Fico até sem palavras. O que falar? É um negócio que mexe com a gente — revela por telefone Zé Maria, ex-lateral do Corinthians e da seleção brasileira, perguntado se conhecia o destino do uniforme usado por ele em um clássico contra o Palmeiras em novembro de 1972.

Mesmo que Zé Maria não soubesse, a camisa 2 que vestiu naquela partida teve um valor inestimável para um punhado de pessoas na primavera fria e turbulenta de 1973. Isso porque foi usada como moeda de troca para salvar a vida de cinco chilenos ligados a organizações de esquerda. O manto corintiano foi o passaporte para a liberdade, representado naquele momento pelo pátio da embaixada de Honduras, localizada na luxuosa localidade de Las Condes, em Santiago.

Quem recebeu a 2 de Zé Maria foi um carabinero de cerca de 20 anos, fã do futebol brasileiro, principalmente de Roberto Rivellino, craque do Timão e da seleção. O militar fazia vigilância em frente às embaixadas estrangeiras para evitar que oposicionistas do governo de Augusto Pinochet escapassem. O brasileiro proponente da troca foi o jornalista Humberto Kinjô, então com 30 anos, corintiano exilado no Chile desde 1970, que havia recebido o presente do irmão Celso, colega de profissão, pelo correio. Mais de quatro décadas depois, eles recordam o episódio.

História foi relatada pelo próprio Humberto Kinjô na edição da Placar dedicada ao título do Internacional no Brasileiro de 1979.

O exílio no Chile

Janeiro de 1963. Formado em jornalismo dois anos antes, o paulistano Humberto foi convidado pelo então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Aldo Arantes, a trabalhar na Editora Universitária, ligada à organização estudantil. Lá, participou do lançamento do jornal Movimento, veículo de comunicação da UNE. O jornalista foi o editor do periódico que, por dificuldades financeiras, era editado apenas regionalmente.

– Estávamos nessa situação, de buscar ajuda financeira para ampliar a circulação, quando fomos surpreendidos pelo golpe de 1964 — comenta Humberto, hoje com 72 anos, por telefone.

Após abril daquele ano, o jornal fechou e ele ficou temporariamente sem emprego. Depois de passar pela Folha de S. Paulo, como copy desk e editor, o jornalista assumiu a edição do jornal Última Hora, de São Paulo, já em 1967. Nesse mesmo ano, porém, acabou preso pela ditadura sob a acusação de editar um periódico clandestino. Ficou preso de 24 de agosto a 7 de novembro de 1967. Prestou inúmeros depoimentos, sem ser torturado. Após conseguir um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, voltou à liberdade.

Janeiro de 1969. Depois de ter vários advogados desconstituídos pelo juiz auditor Nelson Guimarães — que conhecia Humberto de quando os dois militavam, em movimentos diferentes, na juventude católica –, o jornalista foi condenado em julgamento à revelia. Seu último defensor lhe deu uma notícia nada boa: o juiz Guimarães só garantia que Humberto não seria morto na prisão. Tortura, não haveria como evitar.

– Diante de tal quadro, já sem nenhum advogado constituído, decidi deixar o país. E meu destino foi o Chile — conta o paulistano, que chegou a Santiago em janeiro de 1970 e só voltou ao Brasil em 1981, com o processo de abertura política.

O uniforme de Zé Maria

1º de novembro de 1972. O Brasil vivia seu oitavo ano de ditadura militar e o Campeonato Brasileiro era disputado pela segunda vez. Naquela noite de quarta-feira, os clubes entravam em campo pela 16ª rodada. Corinthians e Palmeiras disputavam o clássico no Pacaembu, com um tabu em jogo: os corintianos não venciam os rivais havia oito confrontos.

Atuando com Ado; Zé Maria, Vágner, Luiz Carlos e Pedrinho; Tião, Rivellino e Sicupira (depois, Dirceu Alves); Lance, Mirandinha e Marco Antônio Visgo, o time do técnico Duque acabou com o jejum, vencendo por 1 a 0. O Palmeiras, que viria a ser campeão, jogou melhor. Pressionou o primeiro tempo todo. Teve duas bolas na trave. Na volta do intervalo, porém, num lance isolado, o alvinegro abriu o placar. Rivellino cobrou falta e Visgo escorou para o gol. Depois, o Corinthians atuou na base da catimba até o apito final do árbitro Oscar Scolfaro.

Celso Kinjô, então com 27 anos, estava no Pacaembu. Colega de profissão do irmão, trabalhava à época na revista Manchete, em São Paulo. Mas não estava no estádio como repórter. Era um entre os quase 60 mil torcedores presentes. Fanático pelo Corinthians, assim como o irmão mais velho e toda a família Kinjô, não perdia um jogo na capital paulista. E assistia a todos do mesmo local, o alambrado.

Página do Estadão de 2 de novembro de 1972 sobre a vitória do Corinthians, “na sorte e na catimba”.

Antes da partida, encontrou o fotógrafo Wilson Chumbo, colega de redação, que fazia a cobertura do clássico. Após a vitória, Wilson localizou Celso junto à cerca e se aproximou. Segundo lembra o irmão mais novo de Humberto, o fotógrafo jogou um pano branco por cima do arame:

– Era uma camisa do Corinthians. Toda suada e suja. Quando vi, era a 2, do Zé Maria, um dos maiores ídolos da torcida na época. O Zé representava toda a raça do time daquele período sem título — recorda Celso.

– Não lembro muito bem o que fazia com as camisas após a maioria dos jogos — comenta Zé.

Com o irmão mais velho morando no Chile, Celso se comunicava com ele apenas por cartas. Com frequência, enviava camisas do Timão — que eram dadas de presentes a exilados, fossem eles corintianos ou não — para Santiago. Foi assim que aquela foi parar na bagagem de Humberto:

– Como naquela época era difícil falar por telefone, nos correspondíamos muito. Cerca de um ano depois, recebi uma carta dele relatando o que havia feito com aquela camisa. Fiquei feliz pelo destino que ela tomou — lembra Celso, que contou ter sabido dos detalhes da história no final de 1974, quando encontrou pessoalmente seu irmão em Bogotá.

No dia seguinte à partida, a página 24 do jornal Estado de São Paulo noticiava o resultado do clássico: “Corinthians 1 a 0, vitória da sorte e da catimba”. A crônica do jogo lembrava que o Palmeiras havia perdido seu terceiro confronto seguido no Brasileirão.

– O Palmeiras daquela época era conhecido como a Academia. Era um time muito bom. A vitória foi complicada, num lance único — recorda Celso.

Folha de São Paulo de 2 de novembro de 1972.

 

No Chile, um golpe rápido e violento

Normalmente sem notícias sobre os jogos no dia seguinte, em função do fechamento da edição, a Folha de S. Paulo daquele 2 de novembro não publicou nada sobre a vitória do Corinthians. Na página 2, porém, uma notícia internacional prenunciava a conexão futura entre a política chilena e o derby paulista: “Exército do Chile reitera sua lealdade”.

Segundo o texto, o comandante do Exército chileno, general Carlos Prats, afirmava que as Forças Armadas mantinham inalterada sua posição apolítica e profissional, permanecendo leais ao governo de Salvador Allende. A situação não seguiria assim por muito tempo.

Em agosto de 1973, Marinha e Força Aérea planejaram o golpe final contra o primeiro presidente socialista eleito na América do Sul, que enfrentava uma grave crise econômica e uma forte oposição impulsionada pelos Estados Unidos. Lideradas pelo vice-almirante José Toribio Merino e pelo general Gustavo Leigh, as duas armas forçaram a renúncia de Prats. Em seu lugar, no dia 23, assumiu outro general, até então tido como leal à Constituição. Augusto Pinochet se uniu aos golpistas no dia 7 de setembro. Quatro dias depois, na madrugada de 11 de setembro, começava o último ato da derrocada de Allende.

O golpe foi rápido e violento. Entre o começo das manobras na madrugada até a invasão do palácio La Moneda, às 14h, foram cerca de dez horas. No mesmo dia, às 18h, seis horas após o começo dos bombardeios contra a sede presidencial que culminariam com a morte de Allende por suicídio, a Junta Militar decretava “estado de guerra”, o que incluía o estado de sítio — instrumento que suspende os direitos e garantias dos cidadãos, além de fechar os poderes legislativo e judiciário.

A perseguição aos opositores, porém, já havia iniciado. Com detenções arbitrárias, chegou a faltar lugar aos presos e soldados para efetuar as prisões. Locais que possibilitavam grandes concentrações de pessoas — como o Estádio Nacional de Santiago — foram usados como cadeia provisória. No estádio, os presos eram identificados e amontoados por corredores, vestiários, arquibancadas e no campo. Ali prestavam depoimentos, muitas vezes sob tortura. Muitos só saíram mortos.

Fugindo na clandestinidade

Imediatamente após o golpe, religiosos passaram a funcionar como um elo entre procurados ou detidos pela Junta Militar, seus familiares e a liberdade. Igrejas, sinagogas e templos viraram local de encontro para quem buscava refúgio ou informações sobre parentes e amigos desaparecidos. Logo, os padres jesuítas Patrício Cariola e Fernando Salas foram designados para representar a Igreja Católica no Comité Pro Paz, entidade ecumênica criada no começo de outubro de 1973. Com ligações junto às camadas mais populares e às organizações de esquerda, os dois atuaram no auxílio aos perseguidos políticos.

Ao mesmo tempo, Humberto se viu na condição de procurado pelas forças da ditadura chilena.

– Uma agenda minha, com contatos de pessoas ligadas a organizações de esquerda de vários países da América do Sul, foi apreendida na casa de um amigo. Imediatamente passei a ser procurado — conta Humberto, relatando que os nomes na caderneta eram fontes que usava nas reportagens freelancers que fazia.

Ao saber que passou a ser caçado pelos militares, Humberto e sua namorada, a colombiana Marina Escobar, foram aconselhados a buscar asilo em alguma embaixada. Com a dificuldade de sair às ruas, por conta do toque de recolher, o casal buscou ajuda junto ao padre Fernando:

– Fernando foi a pessoa que se destacou na busca de asilo. Fazia o mesmo para quem o procurasse. Ajudou em tantas ocasiões, sempre em missões humanitárias.

Marina e Humberto no Pacaembu, em agosto de 2015. Foto: Leonardo Lepri Ferro.

O jesuíta encaminhou Humberto e Marina a um convento de monjas, na região central da capital chilena, com a promessa de conseguir um refúgio mais seguro depois. Os dois chegaram ali 11 dias após o golpe, em um sábado, 22 de setembro. No mosteiro, sob a bênção das religiosas, os namorados se tornariam marido e mulher.

Treze dias depois, na manhã de 3 de outubro, Humberto e Marina deixaram o convento rumo a uma garantia de liberdade. Na bagagem, Humberto levava poucas peças de roupa, além de uma camisa do Corinthians, número 2 às costas, usada no clássico contra o Palmeiras quase um ano antes. O uniforme enviado pelo irmão Celso.

Pouco depois das 9h30min daquele dia, o jornalista brasileiro e sua esposa colombiana embarcaram num pequeno Fiat vermelho. Além do casal, os padres Patrício e Fernando viajavam em silêncio no carro que seguiu pela Avenida Providência e entrou na elegante Apoquindo, já no luxuoso bairro de Las Condes. Numa determinada rua — Humberto não lembra o nome –, padre Patrício, que dirigia o veículo, desceu do carro, olhou atentamente para os lados e deu o sinal de ok.

Fernando, Humberto e Marina desceram e caminharam pela rua até atravessarem o portão de cerca de dois metros de altura que ficava em frente à via. Do outro lado, a salvação: ali era território estrangeiro, afinal, estavam na embaixada de Honduras e não poderiam mais ser capturados. A casa, que seria uma boa residência para um casal com dois filhos, tinha um amplo pátio na frente, com um portão, grades de cerca de dois metros de altura e uma árvore da mesma altura, junto à murada.

Conforme o texto de Humberto publicado na Placar de dezembro de 1979 e confirmado por ele em conversas por telefone e e-mail, a casa tinha, no andar de cima, três quartos e um banheiro. No térreo, uma sala grande, um hall de entrada, uma cozinha espaçosa e outro banheiro. Nos fundos, mais três quartos — todos de chão de terra batida. Na primeira noite na embaixada, minutos antes das 23h, Humberto sentiu a terra tremer. Um terremoto atingia Santiago. Pelo rádio, a Junta Militar advertiu: o toque de recolher seguia em vigor. Portanto, quem saísse de casa, teria que enfrentar as consequências: prisão, interrogatórios e, quem sabe, tortura e morte.

Os dias passavam, e o contingente de asilados só crescia. Em certo momento, o local chegou a abrigar 130 refugiados.

– Para que a casa não virasse um caos, grupos foram organizados. Um grupo passou a fazer a comida, outro limpava e havia o que cuidava para que as tarefas fossem feitas — lembra Humberto.

Cada pessoa tinha direito a um banho de 15 minutos, dia sim, dia não. Os dormitórios eram a sala da embaixada, dois dos quartos de cima — o outro havia ficado para o trabalho do embaixador — e os quartos dos fundos. A partir da tarde de domingo, 7 de outubro, porém, a entrada de exilados foi interrompida. A frente da embaixada passou a ser vigiada pelos carabineros.

– A vizinhança era formada pela elite que apoiou o golpe, e, por isso, se encarregou de chamar a polícia e informar o constante movimento de chegada de pessoas na embaixada — lembra Humberto.

Uma patrulha foi designada para impedir a entrada de possíveis procurados pelo regime. Dez ou 12 soldados, segundo o relato, se postaram na frente das grades da casa e passaram a fazer rondas pelas ruas próximas.

Página interna da Placar de dezembro de 1979 em que Humberto relatou a história.

“Passaporte para a liberdade”

Nos dias seguintes, poucas informações chegavam do lado de fora. As que entravam na embaixada eram trazidas por padres como Patrício e Fernando. E eram assustadoras. Sindicalistas, artistas, jornalistas, políticos, enfim, toda e qualquer pessoa que tinha apoiado o governo de Allende ou fosse contra o golpe era procurada.

– Na embaixada, todos se perguntavam: como fazer para mais gente entrar? Os padres Patrício e Fernando pediram ajuda para salvar mais cinco militantes ligados a sindicatos e organizações de esquerda que eram procurados vivos ou mortos — recorda Humberto.

Mesmo com a frente vigiada dia e noite pelos carabineros, nas reuniões dos asilados, foi definido que a única entrada possível era por ali mesmo, pelo portão de entrada. Afinal, os fundos da casa davam para a residência de um “momio”, como eram chamados os apoiadores do golpe, conta Humberto. Era preciso saber como funcionava o esquema da guarda, conferir os horários e tudo o mais possível.

Humberto, então, passou a frequentar a frente da casa e a tentar conversar com os soldados. O contato era facilitado por conversas sobre religião e doação de apostilas bíblicas deixadas pelos jesuítas. O brasileiro, porém, não conseguia muitas informações. Até que na segunda-feira, 15 de outubro, surgiu uma luz no fim do túnel.

O jornalista descobriu entre os carabineros um fã do futebol brasileiro. Mais ainda: fã de Rivellino. Em seu relato à Placar, chamou o soldado de Raúl, preferindo, na época, preservar seu nome verdadeiro. “Um moleque de uns 20 anos, cara pequena e cínica, quepe caído de lado de um jeitinho malandro, gravata um pouco fora do centro do colarinho”, escreveu.

O soldado não só era fã de futebol como tinha algum conhecimento sobre os craques brasileiros. Pelé já estava se retirando do futebol e a sensação do momento era Rivellino, a quem quis homenagear, dando o nome a um sobrinho, em função de uma partida da Copa do Mundo no México, disputada três anos antes — homenagem negada pela cunhada, que não aceitou o nome. Raúl mencionou o desejo de ter um autógrafo de Rivellino e esta foi a deixa para que Humberto lançasse mão da camiseta do Corinthians usada por Zé Maria.

– Se Rivellino joga com a 11, como é que aqui está 2? — falou Raúl ao ver o uniforme.

O chileno conhecia mesmo Rivellino. Supreso com a reação do soldado, Humberto improvisou: Zé Maria teria se machucado na partida contra o Palmeiras e não poderia mais ser substituído. Rivellino então trocou de posição com Zé Maria e passou a jogar com a 2. Sua sorte foi que o soldado se deu por satisfeito com a história e não fez mais perguntas.

– Não sabes quanto meu sobrinho daria para ter uma dessas — disse Raúl, segundo o relato de Humberto na revista Placar.

Diálogo entre Humberto e o soldado chileno, segundo o relato escrito para Placar.

Com a reação do carabinero, o jornalista precisava pensar em um plano. Conversou com os líderes políticos que estavam na embaixada e decidiram que valia a pena tentar. No dia 18 de outubro de 1973, o brasileiro ofereceria a camiseta de Zé Maria para que o soldado fizesse vistas grossas e permitisse a entrada, na embaixada, de cinco chilenos perseguidos pela ditadura Pinochet.

Foi conversando sobre jeitinho brasileiro, ou arreglo segundo entendimento de Raúl, que Humberto chegou a um acordo. Jogou verde sobre dar a camiseta do Corinthians e percebeu que o guarda havia mordido a isca. Ele ignoraria a entrada dos cinco chilenos na embaixada e ganharia o prêmio. Combinaram que a troca aconteceria no domingo seguinte, no momento em que ocorria a troca da guarda.

– Depois do acerto, lembro que avisamos ao padre Patrício que os cinco chilenos teriam poucos minutos para descer do carro, na rua que dava na frente do portão, e entrar na embaixada — conta Humberto.

No começo da tarde de 21 de outubro de 1973, um domingo, o ônibus dos carabineros estacionou na esquina à esquerda da embaixada.

– A embaixada ficava num bairro chique, sempre com as ruas desertas. Num domingo, então. Não fossem os soldados, pareceria parte de uma cidade fantasma — recorda Humberto.

Na rua em frente, um Dodge verde escuro também parava junto ao meio-fio. Na grade, conversando com seu amigo soldado, o jornalista não conseguia ver direito a movimentação no caminho entre a embaixada e o veículo militar. Foi um lance rápido como um gol de contra-ataque. Quando percebeu, os cinco chilenos estavam cruzando o portão. Humberto lançou o uniforme usado por Zé Maria ao soldado e deu às costas para a rua. Um elástico nos carabineros.

Reunidos em segurança no pátio da embaixada hondurenha, os cinco opositores foram cercados pelos demais asilados de acordo com as amizades, partidos e grupos políticos. Todos alegres. Um deles se aproximou de Humberto e, antes que pudesse agradecer, o brasileiro o interrompeu:

– Não, meu velho. Você tem que agradecer aos santos que temos lá no Brasil: o São Zé Maria. Ou então agradeça ao São Rivellino…

Hoje, Roberto Rivellino, ex-craque da seleção, do Corinthians e do Fluminense lembra:

– Fiquei sabendo alguns anos depois, quando vieram me contar. Não lembro quem foi. Mas o que dizer de uma coisa dessas? Fico muito satisfeito de o meu nome ter sido usado para salvar cinco pessoas. Sem dúvida, a perda de uma vida não tem volta. Então, fico feliz que a minha proposta de vida, meu nome, a camisa do Corinthians tenham sido usadas para esse objetivo.

A história de Humberto e a camiseta do Corinthians em quadrinhos, por Alexandre Oliveira.

Enfim, longe do perigo

Os dias seguiram na embaixada com os asilados providenciando, com a ajuda dos jesuítas, documentação e dinheiro para poderem ir para o exílio em Honduras. Por ser colombiana, Marina conseguiu salvo condutos para ela e Humberto voltarem ao seu país, um dos poucos lugares livres de uma ditadura na América do Sul do período. Os jesuítas seguiram trabalhando no Comité Pro Paz — Patrício e Fernando acabaram, tempos depois, presos e condenados. A acusação: ajudar os perseguidos políticos a fugirem do país.

Humberto viajou com Marina para a Colômbia, onde passou a trabalhar para o Centro Interamericano de Jornalismo Científico, órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), sem deixar de lado os freelancers para a Editora Abril — ele lembra ter feito a cobertura de uma partida do Inter, pela Libertadores de 1980, contra o Deportivo Cali. Em 1981, retornou ao Brasil. Depois de voltar a São Paulo, passou pela Editora Abril, pelo Círculo do Livro e pela Universidade de Guarulhos até se aposentar, recentemente.

Dos cinco chilenos, não soube mais nada depois de viajar para Bogotá. Nem mesmo depois que escreveu o texto publicado na edição de 28 de dezembro de 1979 da Placar. A história chegou ao conhecimento do então diretor da Placar, Juca Kfouri, por meio do irmão de Humberto, Celso, que na época trabalhava na revista da Abril.

– Corintiano como eu, o Celso passou a contar com orgulho a história da troca. Até que ela chegou aos ouvidos do Juca, quando o Celso foi trabalhar na Placar — comenta Humberto.

Juca entrou em contato com Humberto, em Bogotá:

– O Humberto trabalhava como freelancer para a Abril. Publicávamos reportagens dele com frequência. Depois que o Celso, que trabalhava na Placar, nos contou essa história, achamos que valia a pena publicar — conta Juca, que recorda que a reportagem foi finalista do Prêmio Abril de Jornalismo Esportivo.

– Embora não tenha ganho, o simples fato de ter sido lembrado para o prêmio me deixou bastante satisfeito — relata Humberto.

Dias depois de a revista circular no Brasil, em 4 de janeiro de 1980, o jornal argentino Clarín republicou o material de Humberto. Com a versão circulando em Buenos Aires, foi fácil a história chegar ao Chile e, portanto, aos chefes da ditadura local. Lá, os carabineros teriam aberto uma investigação sobre o fato ocorrido seis anos antes. Mas como o jornalista brasileiro não usou o nome verdadeiro do soldado, a apuração, como foi divulgada por agências internacionais de notícias na época, concluiu que a história era mentira.

– Claro que eles não iam admitir o drible que levaram. Orgulhosos como eram, os militares chilenos jamais aceitariam “ter perdido” cinco procurados por causa de uma camisa de futebol — comenta Juca, lembrando dos informes divulgados por agências de notícias.

Humberto em visita ao Pacaembu. Foto: Leonardo Lepri Ferro.

A busca pelos chilenos

Pesquisando revistas antigas, me deparei no começo de junho com o texto de Humberto publicado na mesma edição em que a Placar repercutia o tricampeonato brasileiro do Inter, em dezembro de 1979. Ao ler a história, até então inédita para mim, resolvi averiguar qual a repercussão dela na época e ver onde mais poderia ter sido publicada. Para minha surpresa, além de uma nota na edição seguinte da Placar, em janeiro de 1980, informando que o material havia sido veiculado no Clarín, e algumas publicações recentes em sites que noticiavam a participação de Humberto em eventos sobre direitos humanos, nada mais havia sido publicado. Passei a procurar os envolvidos: Humberto, seu irmão Celso Kinjô, Zé Maria, Rivellino, Juca Kfouri e, claro, os chilenos salvos, além dos padres que ajudaram na operação. Enquanto contatava os personagens brasileiros, tentava, de diversas formas, localizar os cinco chilenos.

Por intermédio do jornalista Maurício Brum, entrei em contato com a também jornalista Pascale Bonnefoy, do Chile, que sugeriu procurar entidades como a Vicaría de la Solidariedad, órgão da Igreja Católica, e o Museo de La Memoria. Nos dois locais, porém, após telefonemas e e-mails, foi impossível obter informações à distância.

Fiz contato com o padre Fernando Salas, do Comité Pro Paz, na tentativa de descobrir o nome dos chilenos salvos por São Zé Maria e São Rivellino. Por e-mail, o padre, que na época da ditadura ajudou a salvar os perseguidos políticos, inclusive Humberto e Marina, esclareceu que, por ter ajudado várias pessoas, não se lembra de nomes nem detalhes. Por questões de segurança, conta, não havia registro das ações.

– Foram centenas os que pediram e conseguiram asilo político em um bom número de embaixadas de países amigos. Não levávamos nenhum registro dos nomes destas pessoas por razões evidentes de segurança — escreveu Salas.

O outro jesuíta envolvido no socorro aos refugiados do golpe, padre Patrício Cariola, o motorista que levou Humberto e Marina do convento das monjas até a embaixada de Honduras e, também, responsável pela ação que resgatou os cinco chilenos, morreu em junho de 2001.

Pascale também orientou a procurar registros junto ao governo do Chile via lei de transparência chilena, que dá respostas muito rápidas — cerca de 20 dias. Após registrar, via site, pedidos de informações junto ao Ministério das Relações Exteriores (sobre a saída dos chilenos via embaixada de Honduras, processo AC001W-0000169) e aos carabineros (sobre a investigação aberta após a publicação do texto de Humberto no Clarín, em janeiro de 1980, processo AD009W-0029766), obtive respostas negativas. Os documentos sobre a época já haviam sido incinerados após o prazo legal para arquivamento. Um contato com a assessoria de imprensa do ministério teve o mesmo resultado.

Tentei ainda, sem sucesso, informações junto à embaixada de Honduras em Santiago e ao Ministério das Relações Exteriores do país da América Central, em Tegucigalpa. Por telefone, foi solicitado o envio de e-mail explicitando a situação. Após o envio da correspondência eletrônica, nenhuma resposta foi recebida. Também busquei informações juntos às organizações às quais pertenciam os cinco chilenos: Movimiento Izquierda Revolucionaria (MIR), Movimiento de Acción Popular Unitária (MAPU), Partido Comunista e Partido Radical, ambos do Chile. Apesar de contatos telefônicos, por e-mail e via redes sociais, nenhuma resposta foi obtida.

Hoje aposentado, Humberto, assim como a esposa Marina, também contatou amigos chilenos, pedindo ajuda para localizar os cinco militantes. Não obtiveram sucesso, mas a recuperação da história o deixou feliz. Vivendo em São Paulo, onde ainda presta consultorias na área da Comunicação e faz freelancers, o jornalista, pai de um casal de jovens e avô de três crianças (o quarto neto chega em breve), demonstra orgulho pela história que viveu e contou:

– A história da troca se encerrou na ocasião. Não voltei a ver nenhuma das pessoas que ajudei, nem o carabinero. Mas foi um dos muitos episódios de humanismo que registra o futebol. Hoje, fazendo um retrospecto da reportagem e dos rumos da mídia impressa, vejo com orgulho a história que vivi e que significou a sobrevida desses chilenos. Só por esse aspecto, valeu a pena.


 

Publicado originalmente no Puntero Izquierdo, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.