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O épico final do campeonato que não deveria ter acabado

Gustavo Dal'Bó Pelegrini

A melhor coisa de se escrever pra uma coluna como a Camisa 012 é que, antes de qualquer coisa, já avisamos que temos posição. Todos nós que escrevemos aqui temos uma equipe do coração, e não apenas não a deixamos de lado quando escrevemos, mas fazemos questão de ressalta-la em nossos textos.

Aqui será apresentado um escrito totalmente alviverde, que tenta juntar a razão e a paixão de uma partida que, nos momentos finais e de uma só vez, deu todo o drama e a emoção que faltaram durante os dois jogos da decisão. Um texto que – já aviso – não pode ser feito com poucas palavras, pois precisamos olhar o histórico palmeirense para compreendermos o tamanho desse título. Antes de falar da partida em si, porém, é preciso que lembremos sempre o momento que atravessamos como país, para que não nos esqueçamos de que o futebol devia ser a última de nossas preocupações atuais.

O Brasil vive um dos mais tristes capítulos de toda sua história. Desde março desse ano, aprendemos a conviver cada vez mais com as mortes e com as indiferenças. Vimos que a saúde vale muito menos que a economia. Normalizamos mil vidas perdidas a cada dia, dentro de um discurso em que temos sempre que seguir em frente. Que a vida não para. Com essa desculpa, o país segue como se nada acontecesse.

São Paulo, epicentro da doença desde o início da pandemia, também já normaliza e ignora a própria vida. Justificado pela suposta estabilidade da doença e sem nenhuma demonstração de queda dos índices, o estado que contabiliza mais de 200 mortes diárias há meses vai retomando todas as suas as atividades, essenciais ou não. O futebol, é claro, não ficou de fora. Após o Campeonato Paulista ser retomado no dia 22 de julho, Palmeiras e Corinthians se enfrentaram na final exatamente no dia em que as marcas de 100 mil mortes e 3 milhões de casos confirmados foram batidas no país.

O Palmeiras mostrou uma postura bastante acertada durante a paralisação: além de liderar o movimento de pausa do campeonato ainda em março, renegociou salários com jogadores, comissão técnica e dirigentes, não demitiu funcionários e mostrou-se sempre em acordo com as decisões das instâncias de saúde quanto ao retorno ou não. Na semana dos Derbys decisivos, porém, mostrou que não seguia totalmente o protocolo de retomada da Federação Paulista de Futebol por liberar seus jogadores depois dos jogos, ao invés de mantê-los concentrados. Bola fora que precisa ser lembrada.

Lance da primeira partida da final do Campeonato Paulista de 2020. Foto: Cesar Greco/Palmeiras.

A semana foi conturbada, com declarações do dirigente Edu Dracena pressionando a arbitragem ainda no domingo, após a vitória na semifinal contra a Ponte Preta. Dias depois, o presidente corintiano Andrés Sanches declara que seu clube não fará os exames prévios do primeiro jogo da decisão por razão de seus jogadores já estarem concentrados. O embate entre palmeirenses e corintianos na questão do protocolo, no qual não parece haver ninguém totalmente correto, serviu para mostrar que naquele momento a saúde não era o mais importante.

O Palmeiras chegou na decisão com bem mais dúvidas do que certezas. O clube decidiu mudar sua postura no fim de 2019, contratando menos e buscando dar chances aos jovens de sua vitoriosa categoria de base. A grande aposta era o ponta Gabriel Verón, melhor jogador da Copa do Mundo sub17 em 2019, mas os principais destaques foram os volantes Patrick de Paula e Gabriel Menino.

Além da mudança na política de contratações, a alteração mais significativa foi em relação ao comando técnico. Depois do futebol conservador/pragmático de Felipão e Mano Meneses em 2019, o clube decidiu trazer o velho conhecido Luxemburgo para o cargo de treinador. Baseado no sucesso pelo clube nos anos 1990 e em 2008, ano de nosso último título paulista, a contratação teve muito mais cara de escudo do que de certeza no trabalho do comandante. Como Maurício Galiotte não tinha força política para buscar alguém de novas ideias depois da recusa de Sampaoli, preferiu um nome conhecido em que pudesse se escorar. O desempenho inconstante não deixa dúvidas de que essa foi a aposta.

Para o ano de 2020, foram contratados apenas o lateral esquerdo uruguaio Matías Viña e o atacante Rony. Deyverson, Borja, Thiago Santos entre outros nomes foram negociados e deixaram a equipe. Mesmo sem grandes contratações, a soma do elenco remanescente com os reforços pontuais e os garotos da base se mostrava mais do que suficiente para esperarmos um bom futebol. Antes da pandemia, porém, foram levantadas muito mais desconfianças do que convicções.

A campanha foi tranquila, sem sustos, com uma boa pontuação e classificação encaminhada para a segunda fase. Entretanto, o desempenho contra os clubes da série A do Campeonato Brasileiro deixou muitas dúvidas para o torcedor palmeirense. Empates em 0 a 0 contra São Paulo e Santos e derrota por 2 a 1 contra o Red Bull Bragantino ligaram o sinal de alerta. Nem mesmo as vitórias na Taça Libertadores animaram muito o torcedor. O time continuava mostrando uma total dependência do atacante Dudu, principal jogador da equipe desde 2015, sofrendo na criação de forma coletiva. Se a defesa, com Felipe Melo na nova função de zagueiro, não sofria, tampouco a tentativa de colocar Dudu, Rony, Willian e Luiz Adriano em campo juntos rendia frutos. A equipe entrou na pandemia com a sensação de que não se encaixava, de que algo precisava mudar.

Involuntariamente, a equipe mudou. Dudu se envolveu em mais uma acusação de agressão contra a ex-mulher e, como num passe de mágica, apareceu uma proposta irrecusável do Catar pelo jogador. Justificando inclusive que aqui no Brasil não teria cabeça para o futebol, apesar de alegar inocência, o ex-camisa 7 palmeirense rumou – ou fugiu? – para o país do Oriente Médio. Uma perda técnica irreparável para o time de Vanderlei, mas um dinheiro realmente necessário para os cofres do clube. O treinador teria que mudar o plano dos quatro atacantes que vinha ensaiando anteriormente.

A volta da paralisação teve o Derby logo de cara. O Corinthians fazia um péssimo campeonato, com mais chances de rebaixamento do que de classificação nas últimas duas rodadas. Antes da bola rolar, ainda na madrugada do jogo, um torcedor palmeirense invadiu a Arena Corinthians fazendo provocações direcionadas ao clube e ao goleiro Cássio. Mas como num roteiro irônico o qual os palmeirenses já não aguentavam mais ver, o Corinthians vence o jogo depois de uma falha do goleiro Weverton, com o arqueiro adversário fechando o gol.

A pressão no clube aumentava ainda mais. Parecia uma sina palmeirense perder para o rival nos jogos decisivos. Como num milagre, o Corinthians se classifica para as quartas de final na última rodada. Vem uma sensação de filme repetido, onde não se sabe o como nem o porquê, mas se sabe que o Corinthians venceria o tetracampeonato. Apesar do menor nível técnico, dos problemas extra campo, de todas as baixas expectativas. Um filme onde o Palmeiras sempre falhava na hora H.

As quartas de final fazem suas vítimas, e São Paulo e Santos caem de maneira surpreendente. Palmeiras e Corinthians avançam para as semifinais apesar de certo sofrimento. Na fase seguinte, também com certa dificuldade, vitórias sobre Ponte Preta e Mirassol classificam os rivais para as finais. O roteiro estava pronto. O Derby decidiria a competição. Se o Palmeiras, por um lado, tinha a melhor campanha da competição até aquele momento, além de uma equipe reconhecidamente mais qualificada, o Corinthians despontava como favorito por ter todo o histórico recente e momento a seu favor.

Frustrando todas as expectativas possíveis – que, convenhamos, já não era das maiores no quesito qualidade de jogo – a primeira partida da decisão foi dos piores jogos que alguém já pode acompanhar. As decisões costumam mesmo ter jogos tensos, pegados, onde a qualidade técnica muitas vezes dá lugar à entrega. O que se viu na Arena Corinthians na quarta-feira, porém, foi digno de pena.

Dois times com excesso de cautela, para não dizer excesso de covardia, que entraram pra não perder e tentar deixar a decisão para o sábado. O Corinthians apostava na saída de bola pelo chão, enquanto o Palmeiras vinha sempre com a ligação direta da defesa para o ataque. Os momentos de maior perigo da equipe alviverde se davam exatamente quando conseguiam pressionar os defensores corintianos e roubar a bola com a defesa desarrumada. Ainda assim o nervosismo deixava os atletas palmeirenses sem saber o que fazer, cometendo todo tipo de erros técnicos e de tomadas de decisão. Weverton salvou uma difícil bola de Matheus Vital no primeiro tempo, sendo esse o único lance que merece ser lembrado. Tudo seria decidido na casa palmeirense.

O dia finalmente chegou. Do lado do Palestra, o jogo valia muito. Era a oportunidade de vencer uma final em casa, depois da frustração do título perdido contra o mesmo rival em 2018. Era a chance de mandar para longe a incômoda fama de “pipoqueiro” que o time vinha trazendo devido aos recentes revezes contra o Corinthians. Era a oportunidade única de vencer um rival paulista pela primeira vez no ano.

Para Luxemburgo, esse jogo também valia muito. O treinador que havia vencido os últimos quatro Campeonatos Paulistas pelo Palmeiras tinha a chance de mais uma vez fazer história. Também era a oportunidade de provar que a contestação a seu nome não tinha fundamento, e que ele podia sim fazer o time jogar bem, apesar do desempenho sem grandes destaques ao longo da competição. Era a hora de todos os fantasmas serem exorcizados.

O jogo começa de forma tensa e parecendo mais aberto do que o anterior. Willian, ainda no início do primeiro tempo, desperdiça uma chance clara dentro da pequena área chutando em cima de Cássio, já relembrando os palmeirenses da estrela do goleiro corintiano em momentos de decisão. Durante todo o resto do primeiro tempo, porém, os times não conseguem assustar de forma clara, com apenas um gol de Jô, corretamente anulado por impedimento, merecendo algum destaque. O Corinthians pecava por falta de qualidade técnica, enquanto o nervosismo e a lentidão nas transições ofensivas minavam os ataques palmeirenses, além do contínuo abuso das ligações diretas da defesa. O jogo vai para o intervalo no 0 a 0.

A partida volta e não demora nada a esquentar. Aos 3 minutos, Viña cruza para Luiz Adriano abrir o placar com um lindo cabeceio, indefensável até para Cássio. O Palmeiras toma as rédeas da partida e recua buscando uma bola para matar o jogo no contra-ataque. O Corinthians mostrava a recorrente dificuldade em criar lances de perigo e não assustava o goleiro Weverton, ao mesmo tempo em que os palmeirenses queimavam boas oportunidades de contra ataques com muitos erros técnicos e péssimas decisões.

Luxemburgo foi mudando o time e colocando seguidos meias em campo. Rafael Veiga, Gustavo Scarpa e Lucas Lima entraram no decorrer do segundo tempo, buscando oferecer fôlego novo e qualidade de passes para segurar a bola. Para isso, porém, acabou sacando Luiz Adriano e Willian, que eram os jogadores mais agudos da equipe. O Palmeiras perde profundidade, não conseguindo manter a bola no ataque, trazendo o Corinthians cada vez mais perto de sua área, mesmo que sem grandes sustos. Foi assim até os 50 minutos do segundo tempo.

Nesse momento, o Palmeiras consegue um escanteio. O time que havia passado praticamente todo o segundo tempo atrás da própria intermediaria vai ao ataque e acaba ficando sem a bola. O Corinthians avança rápido, encontrando um cruzamento do lado esquerdo do ataque que passa por toda a grande área até encontrar Jô. Ele corta para dentro, finge um chute e é derrubado por Gustavo Gómez, que fazia jogo impecável até então. Pênalti para o Corinthians. O título palmeirense escorre pelos dedos nos últimos segundos. Um jogo que não ofereceu riscos, um jogo até que sem sofrimento. Jô bate com precisão e empata a partida.

O roteiro ia se repetir com requintes de crueldade. Mais uma vez seríamos derrotados de forma inacreditável pelos nossos maiores rivais. Mais uma decisão perdida. O título esteve tão perto, como poderíamos vencer uma disputa de pênaltis emocionalmente tão abalados? Parecia haver uma força maior que fazia com que o Corinthians sempre desse um jeito de vencer. A história aconteceria novamente.

É nesse momento que surge nosso primeiro herói. Weverton, o jogador que tinha falhado no Derby de retomada do campeonato. O jogador que tinha nos salvado com uma defesaça no primeiro jogo da final. O arqueiro se agiganta  diante de Michel para defender o primeiro pênalti. Confiança reestabelecida, ainda era possível. Cássio estraga o momento logo em seguida, defendendo a cobrança de Bruno Henrique. Mas ainda dava. Avelar e Veiga acertam os pênaltis em sequência, mantendo o empate. Weverton então brilha mais uma vez e defende a penalidade de Cantillo, e Scarpa coloca o Palmeiras na frente.

Weverton defende pênalti na decisão do Paulista 2020. Foto: Alexandre Battibugli/FPF.

Em sequência, Sidcley e Jô marcam para o Corinthians, enquanto Lucas Lima também faz para o Palmeiras. A bola do jogo estava nos pés de Patrick de Paula. O jovem que pouco tempo atrás estava na várzea, disputando a Taça das Favelas no Rio de Janeiro. O garoto que fez o gol da classificação para a final na vitória contra a Ponte Preta.

Com a personalidade que todo torcedor palmeirense sonha em ver, Patrick chama a responsabilidade e chuta de forma indefensável os fantasmas que nos assombravam para fora do Allianz Parque! Gol do Palmeiras! Gol do título! Gol do campeão paulista de 2020. A partir dos pés de nosso segundo herói, merecidamente levantamos a taça que há 12 anos não vinha para o clube.

O Campeonato Paulista não é o principal campeonato que disputamos no ano. Analisando de maneira fria, fomos campeões sem nenhuma vitória em seis jogos contra times da série A do Brasileirão. Luxemburgo não faz um trabalho de encher os olhos, e já na entrevista coletiva pós-jogo não perdeu a oportunidade de alfinetar a imprensa e os técnicos estrangeiros, mesmo com os grandes trabalhos realizados por Sampaoli e Jesus em 2019. Todos que assistem as nossas partidas têm a certeza absoluta de que o time poderia render mais, mas não devemos esperar nada de diferente disso do Profexô.

Comemoração no vestiário do Palmeiras após a conquista do Campeonato Paulista de 2020. Foto: Cesar Greco/Palmeiras.

Apesar de tudo, existem títulos e vitórias que lavam a alma. Essa foi uma delas. Confesso que não tenho grandes expectativas quanto ao restante da temporada, e continuo com a opinião de que nenhum jogo deveria estar acontecendo no país. Para mim, jogos sem torcida perdem sua essência, e enquanto morrem mil pessoas por dia, não faz sentido pensarmos em futebol. O jogo de sábado, porém, fez com que eu sentisse uma emoção que a tempos não sentia. Um título que me lembrou o porquê de o futebol ser tão apaixonante.

O dia 8 de agosto entra para história como um dia inesquecível da forma mais triste possível quando olhamos o descaso total do Estado brasileiro diante de sua população. Mas entra, também, como um dia histórico para o palmeirense, que voltou a chorar a alegria e emoção de um título sobre seu grande rival.

Como citar

PELEGRINI, Gustavo Dal'Bó. O épico final do campeonato que não deveria ter acabado. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 24, 2020.