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O Estádio da Paz – Bouaké, Costa do Marfim

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Há estádios, como o de Heysel Park, que remetem para a tragédia. Há outros, como o de Cabul, que se conotam à guerra. O de Nova Orleães ficará para sempre ligado a uma catástrofe natural. Há ainda a os que nos acendem a luz ou se transformam num teatro de sonhos. Todos os estádios têm a sua história e a sua própria identidade. Mas poucos estão associados à paz. O de Bouaké é um monumento ao pacifismo.

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Foto: Tiago Carrasco.

Em Março de 2007, a Costa do Marfim estava a ferro e fogo. As tropas rebeldes do norte continuavam a combater o exército do sul, leal ao governo. Mas havia uma coisa que unia a população – a selecção nacional. E acima de todos, Didier Drogba, a maior estrela da equipa. Estava em vigor um frágil cessar-fogo entre os dois oponentes, quando o jogador do Chelsea exigiu que a partida de qualificação para a Taça das Nações Africanas contra Madagáscar se jogasse em Bouaké, epicentro da guerra civil e quartel-general das forças rebeldes. Muita gente considerou a proposta utópica. Mas em Março, Drogba e os “elefantes” passearam-se em Bouaké num tanque conduzido pelos rebeldes, encorajados por um mar de gente que desaguava no estádio. Cinco anos depois do ínicio da guerra, governo e revoltosos cantavam o hino juntos. Irmãos do norte e do sul davam as mãos em prol do mesmo fim, gritavam os mesmos golos.  A Costa do Marfim ganhou por 5-0 e Drogba conseguiu reconciliar, na mesma tribuna de Bouaké, o presidente Gbagbo e o chefe dos rebeldes Guillaume Soro. A selecção marfinense deixou o estádio em ombros, ovacionados por uma multidão emocionada. As manchetes dos jornais do dia seguinte noticiavam: “Cinco golos para acabar com cinco anos de guerra”. “Drogba e os Elefantes acabaram com a guerra naquele dia”, diz Guy Dénis Koné, rebelde das forças da oposição, que assistiu ao jogo no estádio. “Eles fizeram em 90 minutos o que os políticos não conseguiram durante anos – unir a Costa do Marfim”. Em Julho de 2007, governo e oposição celebraram no mesmo estádio os acordos de cessar-fogo, numa cerimónia que ficou conhecida como a “chama da paz”. A partir dessa mesma altura, o estádio, que durante os anos de guerra funcionou como sala de tortura e de fuzilamento para as Forces Nouvelles, passou a chamar-se Estádio Da Paz.

Três anos depois, estamos em frente ao palco que mudou a história recente da Costa do Marfim. Ironicamente, um militar fardado e munido de uma AK-47 guarda o recinto. Obriga-nos a pagar uma propina de 1000CFA (1,50 euros) para entrar e proíbe-nos de tirar fotografias, pelo que temos de o fazer às escondidas, de dentro do carro. As suas bancadas cinzentas e laranjas estão desgastadas pelo abandono e a relva cresce anarquicamente. Não há linhas nem bandeiras de canto. Apenas um árbitro e dois fiscais-de-linha a treinar junto a uma das balizas. “Ninguém joga aqui há muito tempo”, diz-nos Koné. “Bouaké tem duas equipas na segunda divisão mas devido aos problemas que se mantêm no país, todas as equipas, do norte ao sul, jogam em Abidjan”. Esqueceram-se da paz.

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Foto: Tiago Carrasco.

Mas abordar a guerra também não é fácil. Enquanto fotografava a antiga sede do Estado-Maior das Forças Armadas, atingida durante a guerra por uma bomba aérea largada por um avião de mercenários bielorussos recrutados pelo presidente Gbagbo, um jipe das forças rebeldes parou ao meu lado. Do seu interior, saiu um militar alto e magro. “O que está a fazer? Tem autorização para fotografar isto?”, perguntou-me. “Não, mas é só uma casa destruída….”. Não me deixou acabar a frase. Agarrou a câmara e confiscou-a, levando-a para dentro do jipe. “Sigam-me”, disse-nos. Fiquei nervoso pois não sabia  o desfecho do episódio – ficar em máquina fotográfica seria o pior dos pesadelos. A câmara era do João Henriques e o cartão de memória tinha todo o trabalho dos dias anteriores. “Não te preocupes”, acalmava-me Koné. “Eles pensam que és francês e que estás a fazer um trabalho contra as Forces Nouvelles. Quando perceber que estão cá por causa do desporto, vão devolver-vos a máquina”. Dito e feito. Tivemos sorte porque o militar, que viemos a saber ser o chefe de segurança da cidade, se dirigir para a nova sede do Estado Maior, onde tínhamos estado minutos antes a pedir uma entrevista com Chérif Ousmane, o Comandante do exército de rebelião em Bouaké. Então, o seu adjunto já nos conhecia. Não foi por isso que deixou de criticar Guy Dénis, o rebelde que nos acompanhava na nossa visita pela cidade. “A culpa é tua. Devias ter-lhes dito quem manda aqui e que para fotografar edifícios públicos precisam de autorização”. O ambiente, que estava tenso, acalmou-se quando começámos a falar do Mundial e do jogo Portugal-Costa do Marfim. “Podem ter a certeza que vos vamos ganhar”, disse o adjunto de Ousmane.

 A paz aparente não esconde um certo clima de tensão. Quando nos dirigimos a casa de Dénis, situada numa rua não asfaltada onde habitam alguns dos maiores líderes das forças militares de contestação, somos mandados parar por um homem na casa dos 20 anos, que nos tenta amedrontar com a sua voz grossa e com uma mão atrás das costas, como que a esconder uma arma de fogo. Não há nada que temer, sabemos que só quer dinheiro. “Esta rua é controlada pelas Forces Nouvelles. Para circularem aqui têm de pagar”, diz. Damos-lhe cerca de 30 cêntimos e o militar, largo como uma rocha, tornou-se amigável: “Querem tirar-me uma fotografia no mato fardado de militar e com uma bazuca ao ombro?”, pergunta. Recusamos. Em África tudo se paga e o preço da sessão não seria tão económico como o da portagem falseada.

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Foto: Tiago Carrasco.

Paramos uns metros mais à frente da casa de Dénis, junto a um alpendre de vime e palha onde cerca de uma dezena de rebeldes se esforçam para passar o tempo. Uns bebem cerveja, outros jogam às cartas, outros dormem de boca aberta. No meio deles há um homem enorme, gordo, que com a kalashnikov às costas é a imagem perfeita de uma máquina de guerra. Encontramo-nos com Yve Coulibaly, 35 anos, comandante de um dos maiores sectores da cidade. Todos os ociosos estendidos debaixo do alpendre trabalham sob as suas ordens. Vestido com uma camisa justa e com sapatos negros de ponta em bico, Coulibaly mais parece um empresário nova-iorquino do que um mestre de tácticas bélicas. “Na Costa do Marfim já ninguém quer a guerra”, diz-nos. “As pessoas querem chegar a um entendimento mas continuam a sentir-se descriminadas pelos sulistas e isso revolta-as”. Coulibaly está convencido que vai ser possível integrar os rebeldes das Forces Nouvelles no exército da Costa do Marfim unida. “Nós estamos organizados com hierarquias e patentes militares. Já não somos uma milícia mas sim um autêntico exército. Por isso, com a reunificação, queremos ser integrados no exército nacional”, diz. Pôr debaixo do mesmo quartel homens que passaram anos a disparar uns contra os outros não me parece uma missão pacífica, mas Coulibaly está convencido de que a paz está para breve. “O grande problema da Costa do Marfim está na sucessão. Depois da morte de Félix Houphouet-Boigny. políticos de várias facções e clãs fizeram de tudo para chegar ao poder e conquistar as massas. a guerra foi resultado da ambição desses homens”, diz o militar. Nem ele nem os seus subordinados querem ser fotografados. Dizem que já não querem ser conotados como uma força rebelde: “O que queremos é paz, só isso”.

Mais do que a tensão política no país, o que realmente incomoda actualmente os marfinenses são os constantes cortes de corrente eléctrica. É às escuras que esperamos Guy Dénis para ver os jogos da Liga dos Campeões no ecrã gigante instalado em Bouaké. Os adeptos reúnem-se em redor da tela, enquanto bebem uma cerveja a que chamam Drogba – “por ser alta (1 litro) e forte como o nosso capitão”, diz Dénis. “Sabiam que quando a selecção joga a cerveja é vendida a 250CFA (pouco mais de 30 cêntimos)?”, pergunta-nos, de seguida. “Tudo porque o Drogba pagou à cervejeira a diferença de preço do seu próprio bolso”. Os telespectadores vibram com as jogadas de Cristiano Ronaldo mas é com o golo do Lyon, que afastou o Real Madrid da Liga dos Campeões, que o público salta de entusiasmo. Naquele momento ninguém pensa na guerra ou nos cortes de electricidade, ninguém ergue armas. Em Bouaké, os políticos querem fazer guerra mas o povo só pensa em voltar a lotar o Estádio da Paz.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup* Foi mantida a grafia original, no português de Portugal.