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O Estudiantes de Osvaldo Zubeldía: a vitória justifica os meios

Fábio Areias

Muitas histórias de futebol não acontecem dentro de campo. O que ocorre nas quatro linhas é consequência de um guardanapo assinado em um restaurante, do esforço extra em um treino chuvoso, de uma grana a mais ou a menos ou de uma reza nas arquibancadas.  

O técnico argentino Osvaldo Zubeldía só tinha uma fórmula para o sucesso: sacrifício, repetição e trabalho duro. Ninguém poderia querer mais a vitória do que seus comandados. Triunfo acima de tudo, esforço acima de todos.

(Imagem: Wikipedia)

Osvaldo Zubeldia nos tempos de treinador do Estudiantes. Foto: Wikipedia.

Nascido em 1927, Zubeldía desde criança sonhava em ser jogador de futebol. Era torcedor do River Plate, mas acabou como um esforçado meio-campista do Vélez, até então um clube sem grandes conquistas. Era um jogador de brio, mas sem muita habilidade. Chegou a ser vice-campeão com o Vélez em 1953. Passou por Boca Juniors, Atlanta e Banfield até se aposentar em 1960. Um bom jogador, nada além disso.

O livro Ángeles con caras sucias: la historia definitiva del fútbol argentino, do jornalista Jonathan Wilson, dedica um capítulo inteiro para Zubeldía e sua importância para o futebol argentino:

“Fundamentalmente, Zubeldía era um homem tímido. “Vivia em um mundo pequeno”, disse o jornalista Osvaldo Ardizzone”. Tinha costumes e hábitos modestos. Nunca teve uma explosão de ira, um grito ou palavra ofensiva. […] Zubeldía era um desses personagens que precisam da paixão para motivar as pessoas até o seu objetivo. Como não era bom na oratória, seu desejo de passar despercebido e a timidez encontraram refúgio na reflexão, no estudo e na análise. […] Foi assim que ele enfrentou o futebol, tratando de entendê-lo mais do que amá-lo. Estava mais interessado na busca de uma explicação do que um ideal de beleza.

Início como treinador

Desde cedo, Zubeldía percebeu que o Olimpo do Futebol reservava um cantinho para os paranoicos. Aqueles que estão dispostos a sacrificar cada momento de sua vida em busca dos objetivos que não estavam reservados a eles. Não era destino-manifesto, era pura e simples obsessão.

Após pendurar as chuteiras, Zubeldía assumiu o cargo de treinador do Atlanta de Villa Crespo, uma equipe pequena que disputava a parte de baixo da tabela do Campeonato Argentino ou, dependendo do ano, militava na segunda ou na terceira divisão. No Atlanta, ele começou a mostrar seu estilo com dois treinamentos diários, exaustão de jogadas ensaiadas, jogo sob pressão, estudo do adversário e linha do impedimento (à época uma inovação para o futebol argentino). Levou o limitado clube ao quarto, sétimo e quinto lugar do campeonato Argentino entre 1961 até 1963, ótimos resultados considerando o tamanho da equipe.

Frustração com a seleção argentina

Enquanto as Copas do Mundo de 1958 e 1962 foram momentos de consagração para o futebol brasileiro, o oposto ocorria com a albiceleste. A Argentina foi eliminada nas duas edições na 1ª fase, com direito a uma goleada vexatória de 6×1 aplicada pela Tchecoslováquia em gramados suecos. Enquanto a taça do mundo era nossa, os argentinos lá no estrangeiro não mostravam o futebol como é que é.

No final de 1965, Zubeldía assumiu como treinador da seleção argentina junto com Antonio Faldutti, seu auxiliar de confiança. O objetivo era fazer um bom papel na Copa de 1966 na Inglaterra após os fracassos anteriores. Zubeldía apresentou um planejamento sem precedentes para a Associação Argentina de Futebol (AFA). Entre outras coisas, os jogadores deveriam aprender a falar inglês e teriam um plano de alimentação personalizado. Porém, a AFA não aprovou o projeto e nem o cargo do Faldutti. Restou a Zubeldía renunciar após um mês no cargo. Seu profissionalismo assustou os ultrapassados dirigentes.

O sucesso com o Estudiantes

No mesmo ano em que fracassou com a seleção argentina, Zubeldía assumiu o Estudiantes de La Plata, equipe que havia terminado em antepenúltimo lugar no campeonato anterior. Chegou com o objetivo de evitar o rebaixamento.

Zubeldía (à esquerda, de roupa escura) conversa com jogadores do Estudiantes (da esquerda para a direita: Juan Ramón Verón, Carlos Pachamé, Adolfo Bielli e Enrique Cavoli, agachado), em 1965. Foto: Wikipedia.

O Estudiantes acabou em 5º lugar na primeira temporada de Zubeldía como treinador e em 7º lugar no ano seguinte. Resultados melhores que os anteriores, mas nada excepcional. Enquanto isso, Zubeldía aprimorava sua metodologia de muito esforço e vitórias a qualquer custo. Não importavam os meios.

Juan Ramón Verón (imagem Wikipedia)

Juan Ramón Verón. Foto: Wikipedia.

O craque daquele time era Juan Ramón Verón, pai de Juan Sebastián Verón, também craque de grandes times europeus e do próprio Estudiantes nos anos 1990 e 2000. Juan Ramón era conhecido como El Bruja (A Bruxa) e Juan Sebastián era La Brujita (A Bruxinha). Ambos, diferenciados.

Os demais jogadores do Estudiantes eram mais esforçados do que talentosos. Entre eles estava Carlos Bilardo, técnico da Argentina campeã da Copa de 1986. Se lhe faltava habilidade, lhe sobrava disposição. Assim como seus companheiros, jogava duro, pressionava juízes, ofendia adversários. Faziam tudo para ganhar uma vantagem psicológica. A imprensa argentina deu o nome de “antifutebol” ao jogo praticado pela equipe.

“Usavam a psicologia da pior forma possível”, disse o historiador Juan Presta. Havia um jogador do Independiente que havia matado por acidente seu amigo em uma caçada de animais, cantaram “assassino” a ele durante toda a partida. Também havia um goleiro do Racing que tinha uma relação muito próxima com sua mãe. Ela não queria que ele se casasse, mas ele acabou casando e seis meses depois sua mãe morreu. Bilardo se aproximou dele e disse: “Parabéns, você conseguiu matar a sua mãe”.

Naquela estação

La Plata fica a cerca de 57 quilômetros de Buenos Aires. De segunda a sexta, Zubeldía e quatro ou cinco jogadores do Estudiantes que moravam em Buenos Aires pegavam às oito da manhã o trem na estação Constitución rumo a La Plata.

Uma vez Zubeldía avisou aos jogadores que eles deveriam se encontrar às sete da manhã sob o relógio central da Estação. Os jogadores não entenderam a estranha ordem e lamentaram perder alguns minutos de sono, mas lá foram eles para Constitución no horário marcado.

Zubeldía conversa com seus jogadores. Foto: Reprodução/El Gráfico.

Ao chegarem no local, os jogadores acompanham aquela multidão apressada indo para mais um dia de trabalho. Ainda sem entender o motivo do encontro mais cedo do que o habitual, Bilardo questionou Zubeldía. O treinador respondeu:

“Veja, estes são os verdadeiros trabalhadores. Nasceram trabalhadores, vão morrer trabalhadores. Eles ralam o dia todo e só têm um prato para comer. Vocês, por outro lado, trabalham no que gostam. E são pagos ainda por cima. Vocês têm sorte de ser jogadores de futebol. Se não fizerem o que precisa ser feito, também acabarão assim. Mas se nos conectarmos e me ouvirem, venceremos e tudo será diferente”.

Era véspera de uma partida decisiva contra o Platense pela semifinal do Campeonato Argentino de 1967. Nada do que Zubeldía dissesse em um campo de jogo teria mais efeito aos jogadores do que aqueles minutos na estação.

Após derrotar o Platense na semifinal, o Estudiantes enfrentou o Racing na final. Ganharam por 3×0 do mesmo Racing que conquistaria a Libertadores e o Mundial daquele ano. O Estudiantes entrava para a história como o primeiro campeão nacional da era do profissionalismo (iniciada em 1931) fora dos cinco grandes (River, Boca, San Lorenzo, Independiente e Racing).

O jornalista Julio César Pasquato exaltou a conquista do clube de La Plata em sua coluna da revista esportiva El Gráfico:

“O triunfo dos Estudiantes foi o triunfo da nova mentalidade, tantas vezes proclamada da Suécia (1958) e muito raramente transformada em fatos no futebol argentino. Uma nova mentalidade realizada por uma equipe jovem, forte, disciplinada, dinâmica, vigorosa, espiritual e fisicamente íntegra. Pessoas dispostas a trabalhar para um objetivo comum. Dispostos a lutar, sacrificar, transpirar. […] Seis dias por semana e 90 minutos no domingo.”

Sem rosas

Após a conquista de 1967, o “antifutebol” dos Pincharratas chegou aos gramados internacionais. E mais uma vez a geração cascuda de Zubeldía encontrou formas de chegar às vitórias. Sagrou-se tricampeão da Libertadores em 1968, 1969 e 1970 e campeão mundial em 1968 após vencer o Manchester United de Bobby Charlton, George Best e Denis Law. Paddy Crerand, meio campista do United, definiu o adversário como “a equipe mais suja que havia enfrentado”.

Pincharrata mundial. Foto: Wikipedia.

O Estudiantes perdeu os Mundiais de 1969 e 1970 para Milan e Feyenoord, respectivamente. Nada que apague a importância desta geração para o futebol argentino e mundial. Goste ou não foi uma geração vencedora. O romantismo do esporte havia dado lugar ao pragmatismo, ao profissionalismo e ao cinismo. Zubeldía entendeu isso e explorou cada detalhe para reservar seu nome e o de seus jogadores na história. Após derrotar o United, o técnico resumiu: “A la gloria no se llega por um caminho de rosas” (“A glória não chega por um caminho de rosas”, em tradução livre). Pode ser verdade, mas passou por uma estação de trem.

Bibliografia

WILSON, JONATHAN. Ángeles con caras sucias: la historia definitiva del fútbol argentino. Córner; Edição: Translation (18 de outubro de 2018).