121.32

O EURO 2016 em Bordeaux (França): cidadania e legado em debate

Gilmar Mascarenhas

O Brasil sediou em 2014 a Copa do Mundo de Futebol Masculino (FIFA) e dois anos depois a França abrigou a Eurocopa de Futebol (UEFA), vulgo EURO 2016, o que implicou não apenas a remodelação ou construção de estádios no exigido padrão “world class”, mas também a promoção de grandes intervenções urbanas que pudessem integrar o propalado “legado” geral do evento. Interessante observar as diferenças entre os dois países num período tão curto de tempo, isto é, ambos inseridos no mesmo contexto global de afirmação das arenas e da imposição de megaeventos caros e vultosos.

Vinte e duas cidades-sede foram envolvidas nestes dois eventos, (doze no Brasil e dez na França). Tomamos como premissa que estiveram ambos os países submetidos ao mesmo implacável vetor global representado por FIFA e UEFA, bem como a outras dinâmicas inerentes à produção capitalista do espaço urbano: a busca incessante pela acumulação do capital e os mecanismos de valorização do espaço. E que as eventuais diferenças na materialização e legado desses dois eventos são resultado de distintas dinâmicas sociopolíticas verificadas em cada país no que tange, sobretudo, às conquistas cidadãs.

No Rio de Janeiro, sabemos que a onerosa reforma do estádio Maracanã gerou elitização do equipamento e sensível redução do tradicional protagonismo coletivo em seu recinto, num processo que qualificamos de pacificação e gentrificação (MASCARENHAS, 2014; 2013) e tão minuciosamente estudado por Ferreira (2017). Ao mesmo tempo, condizente com o objetivo expresso de privatização, todo um conjunto de intervenções no entorno visou adequar o espaço ao lucro privado, em detrimento dos usos compartilhados e direitos socialmente adquiridos, gerando fortes tensões e resistências, analisadas por Castro (2016). Vamos aqui verificar como se deu a participação da cidade de Bordeaux na Eurocopa de 2016, avaliando aspectos diretamente relacionados ao exercício da cidadania e ao legado do evento.

A França já havia sido a sede da primeira Eurocopa (então denominada Campeonato Europeu de Nações), realizada em 1960. Todavia, naquela ocasião as seleções participantes, dezessete no total, se confrontavam em suas respectivas pátrias ou na pátria adversária. Somente quando restavam quatro equipes classificadas, estas se dirigiram ao país anfitrião, que por isso acolheu as poucas partidas restantes em somente dois estádios: ParcdesPrinces (Paris) e Velodrome (Marselha), os dois principais centros futebolísticos nacionais de então, nas duas maiores cidades francesas, e sem demandar reformas. Portanto, com custo muito reduzido para o governo e para a sociedade.

O país promoveu nova edição do evento em 1984, já no atual formato espacialmente concentrador, destinando sete estádios para acolher as dezesseis seleções presentes. Nesta ocasião, um novo estádio foi erguido, em Nantes (Stade de Beaujoire) e outros cinco foram reformados no sentido da ampliação de sua capacidade de público em Marselha, Lyon, Saint-Etienne, Lens e Strasbourg. Apenas o Parc dês Princes manteve-se praticamente intocado. Tais reformas, cumpre frisar, partiram em grande medida das próprias necessidades locais, uma vez que o futebol vivia um momento de plena expansão no gosto do público francês, avançando sobre o tradicional rugby. Neste sentido, não há registro de produção de “elefantes brancos”, e sim um redimensionamento dos equipamentos existentes, adequando-os a uma nova realidade de apreciação e consumo do espetáculo futebolístico. A registrar que a ausência neste evento de Bordeaux e Toulouse (quarta maior aglomeração urbana francesa) se explica em parte pela persistente supremacia do rugby no sudoeste francês.

Interessante frisar que este modelo concentrador e de alto impacto nos países-sede parece estar em xeque. Além da Copa do Mundo de 2026 ser disputada em três países, a próxima Eurocopa se dispersará por doze países, modelo descentralizado que pode representar a redução do risco potencial de produção de “elefantes brancos” ou ao menos de excesso de gastos em um único país. No entanto, consta neste evento a presença de um novo estádio em Baku, no longínquo Azerbaijão, com poucas perspectivas futuras. Como contribuição a este artigo, Fernando Ferreira observa que o Euro 2020 permitirá não apenas ganhos políticos para a UEFA como também a extensão do padrão FIFA a novos países, situados na periferia global do futebol. Reformas ou construção de novos estádios que não seriam realizadas, caso tais países não fossem convidados a participar do famoso certame.

Antes que a FIFA impusesse o novo padrão de rigorosas exigências para sediar uma Copa do Mundo, a França organizou seu mundial de futebol em 1998. Na ocasião, foi erigido um único estádio novo, o Stade de France, em Paris. Na edição anterior, a de 1994 nos EUA, o país simplesmente adequou os estádios de futebol americano preexistentes, com gasto bastante reduzido. Mas este tradicional e salutar comedimento orçamentário para as Copas do Mundo estava em crescente desacordo com os princípios da “máquina urbana de crescimento” (LOGAN; MOLOCH, 1990) e da espetacularização das cidades (HARVEY, 2011). Neste sentido, no momento em que a França se propôs a sediar em 2016 o grande evento da UEFA, os requisitos impostos eram bastante distintos (vide Portugal no Euro 2004, sobrecarregado até hoje com “elefantes brancos”), levando o país a investir vultosos recursos na construção ou reforma de seu parque de estádios.

O novo formato do torneio, agora reunindo vinte e quatro seleções, aumentou o custo geral e propiciou a ampliação do número de estádios: dez cidades participaram do certame, agora incluindo o outrora cabreiro sudoeste francês: Paris, Saint-Denis, Lille, Lens, Lyon, Marseille, Bordeaux, Toulouse, Saint-Etienne e Nice. Ao contrário do caso brasileiro, no qual a participação estatal no custeio das reformas foi amplamente majoritária, na França estima-se que, dos 1,7 bilhão de euros investidos na renovação do conjunto de estádios, menos de dez por cento deste montante tenham sido arcados pelos cofres públicos. Neste sentido, clubes, federações locais e agentes privados contribuíram com a principal fatia dos encargos financeiros. Trata-se de uma informação importante, reveladora das prioridades estabelecidas e pactuadas entre instâncias estatais e a sociedade civil. No Brasil, os exorbitantes gastos públicos tornam-se ainda mais preocupantes quando se consideram nossas imensas lacunas nos campos da educação, saúde e saneamento.

Em Bordeaux, o novo estádio Matmut Atlantique (designação referente a uma grande empresa francesa de seguros) custou muito menos que a reforma do Maracanã: 183 milhões de euros em 2015 contra 1,3 bilhão de reais em 2013 (na época, equivalentes a um pouco mais de 500 milhões de euros). Foi construído em zona considerada decadente, o Quartier do Lac, no âmbito de uma vigorosa política urbana de “revitalização” que inclui construção de cassino, parque de exposições e todo o receituário clássico da valorização fundiária. No plano discursivo, anunciou-se maior projeção e atratividade para uma aglomeração metropolitana em cenário econômico estagnado (AUGUSTIN; NICOLLE, 2016).

Vista interna do Estádio Matmut-Atlantique. Foto: Fantafluflu/Wikipédia. (CC BY-SA 4.0)

Além do estádio dotado de audacioso projeto arquitetônico, o bairro recebeu efetivas melhorias no quesito acessibilidade, pois agora conectado diretamente ao anel viário metropolitano e servido pela linha C do tramway. Neste aspecto, notar que não houve investimento desta natureza para o bairro Maracanã: nem melhoria dos serviços preexistentes, nem acréscimo de modalidades ecologicamente referenciadas e cidadãs, como o ciclismo. Muito pelo contrário, conforme nos lembra Fernando da Costa Ferreira (2017), o projeto de reforma previa a demolição do Estádio de Atletismo Celio de Barros – que continua abandonado –, do Parque Aquático Julio Delamare (que hoje funciona precariamente), que atendiam em larga escala a população fluminense, e da Escola Municipal Friedenreich.

A linha C do Tramway tendo ao fundo o novo estádio. Foto: Gilmar Mascarenhas (maio de 2016).

Enquanto vivenciamos a desertificação e extrema redução de possibilidades para práticas socioesportivas no entorno do Maracanã, o estádio de Bordeaux se insere em zona de várias instalações esportivas, compondo assim um conjunto articulado. Enquanto parceria público-privada, o estádio abriga diversos serviços comerciais, mas o estacionamento para automóveis é reduzido e distanciado, garantindo um entorno “verde” e plenamente pedestrianizado. No plano da regulação urbanística, ressalte-se o princípio de “mixité” (a mistura programada de classes e grupos sociais) no espaço revitalizado, que acaba de acolher um “écoquartier”, o Ginko, que destinou um terço das unidades residenciais para “uso social” e 20% delas para idosos.

Os movimentos insurgentes locais, bem atenuados se comparados à realidade carioca, se referiam basicamente à questão ambiental e à busca do adensamento residencial, para melhor aproveitar a nova infraestrutura urbana e evitar a geração de um espaço majoritariamente destinado a eventos e negócios. Em maio de 2016, às vésperas do evento, estivemos em Bordeaux e entrevistamos o professor de geografia Damien Plaza, ex-jogador de futebol e membro da diretoria do clube de futebol amador Lége Cap Ferret, situado na comuna homônima situada nos arredores de Bordeaux. Ele não apenas reclamava dos preços dos ingressos para a Eurocopa, como da excessiva comercialização: informa que na Copa de 1998 pôde assistir gratuitamente diversos jogos, pois a Federação Francesa de Futebol (FFF) forneceu ingressos a centenas de clubes amadores em todo o país. Outros tempos…

Cumpre registrar que o evento em Bordeaux não promoveu grandes impactos aos direitos humanos, tais como as massivas remoções forçadas no Rio de Janeiro, tampouco ao patrimônio local, desfigurando uma centralidade sociocultural como o Maracanã. Ao contrário, as intervenções se dirigiram a uma área de expansão urbana, e um novo estádio foi construído (além do conjunto arquitetônico poliesportivo), colaborando decisivamente para inserir Bordeaux entre os grandes centros esportivos franceses e mesmo em nível continental.

Vista aérea do Quartier do Lac, com estádio indicado na parte inferior. Ao fundo, a zona central de Bordeaux. Foto: Google Maps.

Em Bordeaux, ao que tudo indica, o novo estádio não agride as “culturas torcedoras” locais, de que nos falam Simões (2017) e Ferreira (2017). Apenas consolida um modo preexistente de torcer, de “habitar” o estádio, bem menos eufórico, coletivo e ruidoso que o modo brasileiro. Uma cultura torcedora já plenamente vigente no contexto europeu há pelo menos duas ou três décadas, não obstante a existência de grupos excepcionais ligados ao hooliganismo. No Brasil, ao contrário, o torcedor tradicional sofre, grita, reclama, reivindica, ameaça e se articula coletivamente com estranhos. Ele quer ser protagonista do evento, ao qual contribuiu com sofrido dinheiro e paixão fiel ao seu clube. Atitude distinta do consumidor, solitário ou imerso em seu pequeno e “fechado” grupo, que apenas contempla, aplaude, filma e fotografa o cenário. Uma experiência sem riscos, sem incertezas, adequada e altamente lucrativa para os donos do espetáculo. Apostamos que a “arenização” de nossos estádios busca afastar indícios de uma “cultura torcedora” fermentada no Brasil ao longo de pelo menos quatro décadas de vigência dos “estádios das massas”, aqui produzidos entre 1950 e 1990.

Se comparados, Rio de Janeiro e Bordeaux expressam cenários um tanto distintos no urbanismo e na dinâmica cidadã, anunciando profundas diferenças no âmbito do direito à cidade. Comparando os dois países, podemos afirmar que a autoritária “Copa das empreiteiras” e do neodesenvolvimentismo brasileiro adquiriu tons excludentes e violentos na cidade já governada, desde 1993, pelo espírito neoliberal. Ao mesmo tempo, apesar de todos os reveses do Estado de Bem Estar Social francês nos últimos quinze anos, persistem um leque de direitos e toda uma cultura política que em certa medida freiam os anseios neoliberais de seus últimos governos. Neste sentido, os processos de valorização do solo urbano para apropriação privada transcorrem sem, por exemplo, recorrer necessariamente à remoção forçada e em massa de moradores pobres. E sem promover a destruição de um patrimônio histórico de profundo significado para a cultura popular, como o Maracanã.


Referências

AUGUSTIN, Jean-Pierre. NICOLLE, Vincent. Le stade de Bordeaux et la revitalisation du quartier du Lac. (mimeo 2016).

CASTRO, Demian Garcia. “O Maraca é nosso!”: elitização do futebol, neoliberalização da cidade e lutas sociais em torno do Maracanã. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2016.

FERREIRA, Fernando da Costa. O estádio de futebol como arena para a produção de diferentes territorialidades torcedoras: inclusões, exclusões, tensões e contradições presentes no novo Maracanã. 2017. 437 f. Tese (Doutorado em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017.

HARVEY, D. Le capitalisme contre Le droit à laville: néoliberalisme, urbanisation, résistances.Paris: editionsAmsterdan, 2011.

LOGAN, John; MOLOTCH, Harvey. Urban fortunes: The political Economy of Place. Berkeley: University of California Press, 1990.

SIMÕES, Irlan. Clientes x rebeldes: novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno. Rio de Janeiro: Multifoco, 2017.


NOTA: este texto contém excertos do artigo Megaeventos esportivos, política urbana e direito à cidade: França e Brasil. In: Ana Fernandes; Maurício Chagas. (Org.). O direito à cidade na França e no Brasil: uma nova agenda urbana? Questões para um debate necessário e fecundo. 1ed. Salvador: PPGAU/FAU UFBA, 2018, v. 1, p. 255-274, publicado em co-autoria com o geógrafo francês Jean-Pierre Augustin.