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O Fair Play de Rodrigo Caio merecia aplausos. E não o contrário

Caio Possati

No domingo retrasado (16), no Morumbi, em partida válida pelo jogo de ida da semifinal entre São Paulo e Corinthians, o zagueiro Rodrigo Caio protagonizou um lance que repercutiu ao longo da semana passada. Até mais que a própria vitória corintiana.

Ao proteger uma bola lançada para Jô enquanto o jogo ainda estava 1 a 0 para os visitantes, o defensor são paulino, na disputa de espaço dentro da área com o atacante, acertou um chute sem intenção no goleiro do São Paulo, Renan Ribeiro, que se agachava para pegar a bola.

Ao ver Renan se contorcendo de dor, o juiz prontamente sacou o cartão amarelo do bolso e puniu Jô, alegando, em uma decisão equivocada, que o atacante fora o autor da falta. Segundos depois, Rodrigo Caio se dirigiu ao juiz e assumiu que o toque em Renan Ribeiro tinha sido dado por ele mesmo. Um alívio para o Corinthians e para Jô que, com o cartão, ficaria de fora do segundo jogo da semifinal por suspensão. Rapidamente, o juiz voltou atrás de sua decisão.

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Lance em que Rodrigo Caio pisa no goleiro. Foto: Daniel Augusto/Ag. Corinthians.

A atitude de Rodrigo Caio foi diferente do que se costuma ver no futebol. Rara o bastante para ganhar a devida repercussão e ser elogiada por muitas pessoas, incluindo comentaristas, ex-treinadores, jornalistas, o técnico da Seleção Brasileira Tite, o presidente do São Paulo, Leco – que estava em semana de eleições – e, obviamente, os jogadores do Corinthians.

Porém, o Fair Play* do zagueiro não agradou a todos. Pior. Uma das origens da insatisfação com a sua honestidade partiu de dentro do próprio São Paulo. De pessoas próximas e que convivem diariamente com o atleta. O capitão Maicon, por exemplo, não escondeu a irritação com o lance em entrevista coletiva no dia seguinte. Dias depois, descobriu-se ao longo da semana que até o técnico Rogério Ceni, reconhecido por ser intelectualmente avançado em relação aos seus pares (e ex-pares), reprimiu a atitude do seu jogador.

A resposta de Maicon foi:

Eu acho que é melhor a mãe deles (corintianos) chorando do que a minha. Prefiro a mãe dos meus adversários chorando do que a minha.

– Maicon, zagueiro e capitão do São Paulo

 

E a situação só piorou na quarta-feira (19), quando o zagueiro cometeu a falta que originou o gol do Cruzeiro, no Mineirão, em jogo que acabou com a precoce eliminação tricolor da Copa do Brasil – o São Paulo, apesar de tudo, fez uma ótima partida em terreno mineiro. A raiva de alguns torcedores tricolores com Rodrigo Caio, presente desde o primeiro jogo da semifinal, só acumulou após a falha de quarta-feira.

E como desgraça pouca é bobagem, foi dos pés de Jô o gol que sacramentou a classificação corintiana para a final, após o empate do último domingo (23), em 1 a 1, válido pelo segundo jogo das semi do paulista.

Embora a discussão já estivesse mais diluída de um domingo para o outro, o gol ainda cutucou a polêmica. Jô, réu inocentado no primeiro jogo, marcou um gol em posição duvidosa. Não foram poucos os que se perguntaram a respeito de uma possível atitude honesta do atacante em corrigir o árbitro sobre a própria posição de impedimento, já que tanto elogiou a postura de Rodrigo Caio, em entrevista concedida ainda no gramado do Morumbi. Para sorte de Jô – e azar de Rodrigo Caio e dos são paulinos – o gol foi legal, uma vez que a bola resvala em Lucas Pratto no meio do caminho, dando início a uma nova jogada.

Em um misto de respeito com gozação – mais para o segundo – Rodrigo Caio ainda precisou ouvir da torcida adversária, em pleno Itaquerão lotado, que ele também era corintiano, tal como rege a música para o ‘doutor, eu não me engano…’

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Rodrigo Caio. Lucas Figueiredo/MowaPress.

O caso, apesar de seus irônicos desdobramentos, é bastante emblemático. Embora muitos tenham aplaudido o zagueiro e levantado a bandeira pela multiplicação de gestos como o de Rodrigo Caio, é de se lamentar que pessoas do mesmo elenco – e até jornalistas, como o apresentador Bejamin Back da Fox Esportes – rechacem a atitude adotada pelo atleta do São Paulo. Por mais que, quantitativamente, seja minoria, é relevante saber que o Fair Play é questionável – e rejeitado – entre jogadores e profissionais da imprensa.

O que aconteceu é uma prova que o futebol (brasileiro) – e não somente o futebol – é um campo pouquíssimo acolhedor para ações corretas e ainda menos fértil para a reprodução das mesmas. Ou que o Fair Play, pelo menos, só serve quando a ação não prejudique o próprio time; como se a valorização fosse um teatro que deixa de ser interpretado à medida que a honestidade esbarra na possibilidade de perder uma partida.

Como se não bastasse o orgulho de ludibriar arbitragens, sacanear adversários e simular situações que permitam os times se aproximaram das vitórias, espanta-se o nível de rejeição àquilo que propôs o zagueiro são-paulino. E rejeições vindas de atletas que, amanhã, contestarão quando um adversário cometer um ato desleal que o beneficie ou questionarão a idoneidade de algum juiz que deixou de marcar um pênalti a favor da sua equipe. Aquele que luta para impedir o choro da mãe a qualquer custo, não poderá cobrar de ninguém que pretende ver a mãe feliz.

A insatisfação do elenco e de torcedores do São Paulo não somente isolou Rodrigo Caio, mas também reforçou e contribuiu para a longevidade dos já comuns atos desleais que preenchem o nosso futebol.  A reação de algumas pessoas diante do gesto do zagueiro fará os jogadores pensarem duas vezes antes de serem justos em determinadas situações de jogo. Afinal, porque ser honesto onde se cultiva e vangloria a malandragem? Ou ainda pior: porque ser honesto em um espaço que pune aqueles que não se sujeitam a fazer este tipo jogo?

Episódios como estes reacendem a máxima de que o futebol é um reflexo da sociedade. Não sei se exatamente um reflexo, mas talvez concorde em tratar-se de um campo onde os modos de enxergar, interpretar e construir determinados valores se adapte aos códigos que o futebol propõe.

Por estarmos falando de uma sociedade que constantemente se apresenta contrária aos movimentos das minorias; banaliza a luta de feministas; pratica a intolerância contra grupos específicos; satiriza o sofrimento alheio; distorce realidades sociais e limita a rejeição política para determinados personagens e partidos, então não me surpreende ver no futebol o que foi visto nesta semana: a incapacidade de aceitar um ato honesto, leal e construtivo.

Pode ser utópico acreditar que um dia as boas ações reinarão na sociedade, no esporte e no futebol. Mas ao analisar os últimos dois meses, chega a ser irônico e contraditório. Nos calamos quando a CBF adotou uma medida que centralizou o poder nas mãos da entidade; aplaudimos e tiramos fotos com um goleiro que cometeu um crime brutal e foi rapidamente contratado, e demos as costas àquele que, honestamente e espontaneamente, propôs o jogo limpo. As coisas se inverteram.

Ninguém quer fazer a mãe chorar, obviamente. Mas nenhuma ficaria orgulhosa de ver um filho carregando uma vitória manchada pelas cores da desonestidade.

* Fair Play significa, em inglês, “Jogo justo”.