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O favoritismo do Brasil na Copa do Mundo

Guilherme Eler

A eliminação para a Alemanha na semifinal da Copa de 2014 deu início a um dos períodos mais nebulosos da história recente do futebol brasileiro. Não bastasse o peso da derrota por 7 a 1 em casa, a maior goleada já sofrida por um país anfitrião em Copas precedeu uma eliminação nas quartas-de-final da Copa América de 2015 e um desempenho fraco na Copa América Centenário em 2016, que resultou na queda na fase de grupos.

Até a sexta rodada das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo da Rússia, o Brasil somava duas vitórias, três empates e uma derrota. A campanha, que deixava o país na sexta colocação e sem chances de disputar o torneio da Fifa pela 21ª vez, custou o cargo do técnico Dunga, demitido em 14 de junho de 2016.

Exatamente dois anos após a troca de treinador, a seleção brasileira, de desacreditada e momentaneamente fora da Copa, é considerada uma das favoritas ao título mundial, ao lado de nomes como Espanha e Alemanha. Alguns fatores ajudam a explicar a previsão.

1 A sequência de Tite

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Seleção brasileira na estreia da Copa do Mundo de 2018. Foto:A ndré Mourão/Mowa Press.

No domingo (17), em sua estreia na Copa, o Brasil ficou no empate com a Suíça. Mas, ainda assim, se saiu melhor que outros favoritos: a Alemanha perdeu por 1×0 para o México, e a Argentina ficou no 1×1 contra a Islândia, seleção considerada mais fraca do que a Suíça.

Sob o comando de Adenor Bacchi, o Tite, a seleção fez, até antes da estreia na Copa do Mundo, 21 jogos. São 17 vitórias, três empates e apenas uma derrota contra a Argentina, em amistoso disputado em junho de 2017. O aproveitamento é de 85,7%.

Sem contar a Rússia, classificada automaticamente por ser o país-sede, o Brasil foi o primeiro país a garantir vaga no mundial de 2018, assegurada por uma campanha impecável nas eliminatórias, sobretudo a partir do segundo semestre de 2016: dez vitórias e apenas dois empates. Esse desempenho fez o Brasil terminar a fase preliminar com 41 pontos, dez à frente do Uruguai, segundo colocado.

Entre os amistosos de preparação para a Copa do Mundo, destacam-se vitórias sobre Alemanha, Rússia, Colômbia, Japão, Austrália e Croácia, países que estão na lista dos 32 que disputarão o mundial de 2018.

Além da melhora do relacionamento com a imprensa, uma das críticas principais a Dunga, Tite tem como características principais a capacidade de gestão do grupo. Ao mesmo tempo que deu confiança a atletas em baixa, o técnico ganhou fama por sua transparência e por privilegiar o momento dos jogadores a partir de seu comprometimento com a seleção.

“O Brasil é favorito a vencer a Copa do Mundo. Pelo futebol apresentado, pela campanha [de eliminatórias] que foi feita, pelo nível, desempenho somado aos resultados… somos uma das equipes, sim”, chegou a afirmar o próprio técnico, em entrevista, em junho de 2018.

2 Bom momento de atletas-chave

durante a partida da Copa do Mundo 2018 entre Brasil x Suica na arena Rostov na Russia

durante a partida da Copa do Mundo 2018 entre Brasil x Suica na arena Rostov na Russia

Na vitória por 3 a 0 sobre o Equador pelas Eliminatórias, que marcou a estreia de Tite à frente da seleção, o Brasil contou com uma novidade no comando de ataque. Gabriel Jesus, que jogava sua primeira partida com a camisa verde-amarela e tinha, à época, 19 anos, fez dois gols.

Desde então, o jovem do Manchester City se mantém como titular – ainda que Firmino, reserva imediato da posição, também tenha ganhado maior destaque. Acumulando participações decisivas, Jesus se tornou o artilheiro da “era Tite”, com 10 gols em 17 partidas.

Marcelo e Thiago Silva, defensores que jogaram a Copa de 2014 e ficaram fora das primeiras listas de Dunga, retornaram à equipe por preferência do técnico. Tricampeão da Champions League com o Real Madrid, Marcelo é apontado atualmente como o melhor lateral esquerdo do mundo, destacando-se por sua técnica e eficiência de apoio no ataque. Aos 33 anos, o experiente Thiago Silva retomou a confiança na seleção de Tite, e, após atuações seguras, conquistou a condição de titular da zaga, ao lado de Miranda.

Graças ao suporte dado por Casemiro, em ótima fase, e à boa série de jogos de Paulinho, que compõe a dupla de volantes mais utilizada por Tite, a defesa do Brasil levou apenas cinco gols até agora. Alisson, goleiro que fez excelente temporada na Roma e é pretendido por equipes importantes da Europa como Real Madrid e Liverpool, demonstra segurança frente à meta do Brasil.

Philippe Coutinho, após uma temporada de adaptação no Barcelona, e William, que se destacou pelo Chelsea, se elegem bons companheiros ofensivos de Neymar. Douglas Costa e Firmino podem proporcionar boas alternativas individuais no decorrer das partidas, sem comprometer o esquema mais comumente adotado por Tite.

O ataque tem referência em Neymar. Recuperando-se de uma fratura no pé desde o final de fevereiro de 2018, o atacante do PSG (Paris Saint-Germain) foi decisivo nos dois jogos da fase final da preparação do Brasil para a Copa, marcando contra Croácia e Áustria. O embate contra os croatas foi seu primeiro jogo em mais de três meses.

47 É o número de gols feitos pelo Brasil

sob o comando de Tite

Atuações de destaque ou o título da Copa podem contribuir para a afirmação de Neymar. A necessidade de protagonismo, que fez o brasileiro se tornar o jogador mais caro da história ao trocar o Barcelona pelo PSG, pode alcançar novos patamares com um bom desempenho no mundial.

Vencer uma Copa do Mundo como liderança técnica de sua seleção é um dos pontos altos de carreiras de lendas do esporte como Pelé, Maradona ou Franz Beckenbauer, algo que sempre é apontado como faltante nas trajetórias de craques inquestionáveis como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

Os fantasmas de 2014 e o massacre de 7 a 1 para a Alemanha foram exorcizados por algumas performances excepcionais, incluindo uma vitória recente sobre os atuais campeões mundiais em Berlim, por 1 a 0. Gabriel Jesus, autor do gol da partida, Alisson e Coutinho ganharam destaque desde a última Copa do Mundo, e compõem, ao lado de outros jogadores fora de série, uma seleção forte, unida e bem balanceada.
Trecho de comunicado da Fifa, disponível em seu site

3 A tradição do Brasil em Copas

O Brasil é o maior campeão do torneio, com cinco títulos, e o único país a participar das 21 edições de Copa do Mundo organizadas pela Fifa. Em todas as edições do evento, apenas oito países ergueram a taça. O retrospecto brasileiro na competição, além da boa fase, pode pesar contra times menos tradicionais.

A ausência de seleções como Holanda (três vezes finalista) e Itália (tetracampeã mundial), além da recente troca de técnico da seleção espanhola e irregularidade dos elencos de Argentina e Alemanha, outras candidatas ao título, contribuem, também, para que a preparação sólida do Brasil se destaque frente às outras equipes.

4 O que pode frustrar os planos do Hexa

durante a partida da Copa do Mundo 2018 entre Brasil x Suica na arena Rostov na Russia

Neymar durante a partida da Copa do Mundo 2018 entre Brasil x Suíça na arena Rostov na Rússia. Foto: André Mourão/Mowa Press.

Maior esperança de gols do Brasil, Neymar ainda não está 100% recuperado de lesão. Apesar do retorno acima das expectativas, Tite já afirmou que o atleta iria oscilar seu desempenho. A dependência por um desempenho acima da média do jogador, por conta disso, pode ser prejudicial à trajetória rumo ao sexto título.

Além da baixa de Daniel Alves, lateral-direito titular cortado da Copa por uma contusão no joelho, Renato Augusto e Fred também se lesionaram durante a preparação do Brasil. Opções para o meio-campo, ainda não estão totalmente recuperados, e alertam para uma potencial ausência de peças de reposição no elenco em algumas posições.

Convocações polêmicas, como as do lateral Fagner e do atacante Taison, que não tiveram grande exibições pela seleção até então, ainda são incógnitas para o torcedor e precisarão se confirmar como opções plausíveis caso forem requisitados durante a Copa.

Outro problema diz respeito à dificuldade do Brasil em encontrar espaços jogando contra seleções que adotam esquemas mais defensivos. Nas duas oportunidades em que encontrou o cauteloso 5-3-2 da Inglaterra (no amistoso de novembro de 2017), e Bolívia (durante as eliminatórias), por exemplo, a seleção empatou por 0 a 0.

Um esquema mais ofensivo, que centraliza Philippe Coutinho e coloca William ao lado de Neymar como ponta, com Casemiro e Paulinho mais recuados, parece a alternativa mais interessante para confrontos do tipo. Tite testou a formação pela primeira vez no último amistoso antes da Copa, contra a Áustria, vencido pelo Brasil por 3 a 0.

nexo_jornal_logo-600x152-minEste texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.