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O “Fenômeno” Emily Lima

Suellen dos Santos Ramos

O dia primeiro de outubro de 2016 ficará marcado para sempre na memória das mulheres que sonham em trabalhar com futebol. Foi anunciada, pela primeira vez na história, uma mulher no comando da Seleção Brasileira de futebol feminino. A escolhida foi Emily Alves da Cunha Lima, ou somente, Emily Lima, como é conhecida no meio do futebol. Sem perceber, a treinadora encheu de esperança mulheres que a anos investem e desenvolvem a modalidade no país. Ser a primeira a ocupar o cargo mais pretendido quando o assunto é futebol, faz de Emily uma referência dentro de um espaço predominantemente dominado pelos homens.

Natural de São Paulo, nascida dia 29 de setembro de 1980, Emily iniciou jogando futebol com seu irmão na rua com 6 anos de idade. Aos 13 anos, incentivada pelo pai, começava sua carreira como atleta na equipe adulta do Saad – SP, um dos clubes pioneiros no futebol feminino nacional. Por obra do destino, sua primeira treinadora foi uma mulher, Ivete Gallas, uma gaúcha que coordenava as categorias de base do clube. Desde então a paulista não se distanciou mais da modalidade somando 23 anos dedicados ao futebol. Passou ainda pelas equipes de São Paulo F.C (São Paulo), Palestra de São Bernardo (SP), Barra de Teresópolis F.C. (Rio de Janeiro), Santos F.C. (São Paulo) e Veranópolis E.C. (Rio Grande do Sul). Sua primeira passagem pela Seleção Brasileira foi servindo a categoria sub-17 em 1997, primeiro ano da categoria. Como adulta participou do período preparatório para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, mas não seguiu com o grupo para o evento.

Recebeu um convite para atuar na Espanha no ano de 2001 e por lá ficou durante sete anos atuando nas equipes: Estudiantes de Huelva, Puebla de la Calzada, Prainsa de Zaragoza e L’Estartit na Costa Brava. No período que permaneceu na Espanha naturalizou-se portuguesa e atuou como volante na Seleção Portuguesa de Futebol de 2007 à 2009. Ainda na Europa atuou na equipe do Napoli da Itália, onde encerrou sua carreira como jogadora de futebol aos 29 anos de idade, após contínuas lesões nos joelhos. Emily vivenciou na Europa uma valorização profissional como jogadora, o que a fez almejar permanecer no futebol além das quatro linhas do gramado. Fez alguns cursos no continente europeu que a credenciaram como treinadora de futebol. Ao retornar para o Brasil após finalizar seu contrato com o Napoli, desejava trabalhar com futebol feminino, mas não como técnica e sim como gestora. Tinha em mente que poderia fazer a diferença na vida das jogadoras que atuavam em seus clubes, intervindo de forma correta na modalidade. Entregou na época um projeto para a Portuguesa Paulista, que tinha como técnico Prisco Palumbo, e tornou-se auxiliar técnica e supervisora do departamento no clube. No mesmo ano, em 2011, por intermédio do irmão que sempre apoiou sua carreira, foi convidada a assumir a equipe de futebol feminino do Juventus de São Paulo, onde permaneceu até início de 2013.

Nesse ano, Emily teve sua primeira passagem pela Confederação Brasileira de Futebol como treinadora das seleções de base sub-15 e sub-17, sendo a primeira técnica mulher a trabalhar na CBF. Sob seu comando, a categoria sub-15 teve um caráter inédito dentro da Confederação com sua primeira convocação no ano que Emily assumiu. Emily e sua comissão técnica coordenavam as duas equipes e seguiram até 2015 quando a técnica recebeu convite para atuar à frente do São José Esporte Clube, uma das potências do futebol feminino nacional. Antes da chegada de Emily o clube já havia conquistado um título da Copa do Mundo de Futebol Feminino, foi três vezes campeão da Copa Libertadores da América, três vezes campeão da Copa do Brasil e duas vezes campeão do Campeonato Paulista. Sendo assim, um clube de expressão no cenário nacional. A chegada da treinadora trouxe algumas mudanças no planejamento e na organização da equipe. No comando das “Águias” Emily conquistou o Campeonato Paulista no ano de 2015 e foi vice-campeã da Copa do Brasil de 2016.

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Emily tira selfie com a torcida. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Eis que em outubro de 2016 o sonho distante tornou-se realidade. Após desligamento de Vadão do comando das meninas da Seleção Brasileira, Emily foi convidada a assumir o posto que tanto almejava como profissional. Natural para alguns, surpresa para outros pois é um fato inédito no futebol feminino brasileiro, a paulista tornou-se a primeira mulher a comandar a Seleção Brasileira de Futebol Feminino. Como comandante de uma seleção nacional junta-se à Jill Elis (Estados Unidos), Silvia Neid (Alemanha) e Pia Sundhage (Suécia), treinadoras de renome internacional que já conquistaram as mais importantes competições mundiais. A FIFA, órgão superior do futebol, vem promovendo ações no que diz respeito às mulheres dentro da modalidade. Na 2ª Conferência sobre “Futebol Feminino e Liderança”, que ocorreu na sede da FIFA em Zurique no ano passado, o atual presidente Gianni Infantino, assegurou que o futebol feminino e a mulher dentro do futebol são prioridade. Tais ações já estão refletindo em solo brasileiro. Na mesma tarde em que Emily Lima foi anunciada como a nova treinadora da Seleção, a CBF divulgou melhorias no Campeonato Brasileiro com a implementação de uma série B na competição além de um investimento maior no ano de 2017. A chegada de Emily à Seleção impulsionou o aparecimento de outras mulheres que insistem por um espaço no comando das equipes. O Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino trouxe uma grata surpresa as suas espectadoras nesta temporada. Das dezesseis equipes participantes, três são comandadas por uma mulher, são elas: Michele Aline Kanitz – Ferroviária (SP), Ana Lucia Gonçalves – Ponte Preta (SP) e Patrícia Regina Gusmão – Grêmio (RS).  Michele trabalhou com análise de desempenho em uma equipe do Campeonato Gaúcho A2 (masculino) e fez estágio no Atlético Paranaense (PR). Patrícia é ex-jogadora, iniciou jogando no S.C. Internacional (RS) e teve passagem por equipes de São Paulo e Coréia do Sul, como técnica atuou nas equipes femininas do G.E. Onze Unidos e do Canoas F.C., ambos no Rio Grande do Sul. Já Ana Lúcia é ex-jogadora da Ponte Preta.

Os cubes de camisa estão abrindo as portas para o futebol feminino, por conta de uma obrigatoriedade ou não, começa a evoluir e a tomar um espaço que luta durante décadas para conquistar. A modalidade que por anos sofreu com a descontinuidade tem agora a esperança de crescimento e continuidade que tanto esperou. Outro exemplo desse crescimento e do empoderamento das mulheres dentro do futebol é do Sport Club Internacional (RS), que iniciou seus trabalhos no início desse ano com a abertura do Departamento de Futebol Feminino e a implementação das categorias sub-15, sub-17 e adulto no clube, todas coordenadas por uma mulher, Eduarda Luizelli, a Duda, que tem como treinadora das equipes Tatiele Silveira, que foi auxiliar técnica da seleção brasileira sub-17 no ano de 2016. Não podendo deixar de lado meu espírito bairrista, a disputa em solo gaúcho no ano de 2017 promete. Nem nos meus sonhos mais distantes imaginei um Grenal comandando por duas mulheres na área técnica.

Ouso chamar esse momento do futebol feminino brasileiro de “Fenômeno” Emily Lima. A paulista que seguiu os passos de sua primeira treinadora batalhou e acreditou que poderia assumir o cargo de mais alto escalão do futebol brasileiro. Impulsiona atualmente um movimento de muitas outras mulheres que a exemplo dela qualificam-se e desejam o mesmo para suas carreiras. Isso só engrandece e valoriza a modalidade que clama por profissionalismo e visibilidade. Emily, obrigada pela persistência.

REFERÊNCIA:

LIMA, Emily Alves da Cunha. Depoimento de Emily Alves da Cunha Lima: Projeto Garimpando Memórias, Visibilidade para o futebol feminino. Porto Alegre: Centro de Memória do Esporte – ESEFID/UFRGS, 2015.