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O fim de um ciclo

Leonardo Megeto Montelatto

Dia 11 de dezembro de 2012. Poucos dias após sacramentar seu segundo rebaixamento na história do Campeonato Brasileiro, o Palmeiras anunciava a contratação de Fernando Prass, então goleiro do Vasco da Gama, vindo de boas temporadas no clube cruzmaltino.

O ano havia sido extremamente conturbado, indo da conquista da Copa do Brasil em julho para a pífia campanha no Campeonato Brasileiro. O time não se encontrava em campo, com vários jogadores sendo testados e reprovados derrota após derrota. Com os goleiros não foi diferente. Bruno, Deola e Raphael Alemão receberam oportunidades, mas a cada bola que ia em direção à meta alviverde a respiração do palmeirense se prendia. A tarefa, convenhamos, estava longe de ser das mais simples. Apesar de serem formados e criados no Palmeiras, os três carregavam o peso de substituir o maior ídolo recente do clube, São Marcos. Com uma equipe fraca, instável e exposta a frente deles, tal tarefa era ainda mais árdua.

Foi então que apareceu Fernando Prass, com seus 34 anos e grande experiência no futebol português. Seus dois primeiros anos no clube também não foram nada fáceis. Encarando o calvário da Série B de 2013, teve papel muito importante juntamente com o zagueiro Henrique e o meia Valdívia para liderar um elenco jovem durante o ano. Já em 2014, viu a sua frente um dos piores times da história do Palmeiras, talvez pior que o rebaixado de 2012, e teve de superar uma lesão que o afastou de boa parte do Campeonato Brasileiro. Com a instabilidade de seus substitutos Fábio e Deola, antecipou seu retorno para ajudar a salvar o clube de seu terceiro rebaixamento.

Dia 11 de Janeiro de 2015. O Palmeiras surpreendia a todos e anunciava a contratação de Eduardo Pereira Rodrigues, o Dudu. Alvo de uma intensa disputa entre os rivais Corinthians e São Paulo, ele era na época o nome mais disputado no mercado após uma boa temporada no Grêmio. Atacante de lado de campo, veloz e driblador, possuía as características que os clubes mais desejavam à época, em que todos os treinadores pediam jogadores que “quebrassem linhas de marcação”.

Foi então que o Palmeiras, durante um processo de reconstrução total promovida pelo presidente Paulo Nobre, com o aporte financeiro do próprio e da recém chegada patrocinadora Crefisa, e na figura do diretor de futebol Alexandre Mattos, atual bicampeão nacional pelo Cruzeiro, aplicou o famoso “chapéu” nos rivais e fechou com Dudu. Muito mais do que o simples reforço para o time, a contratação se deu para mostrar ao mercado e aos rivais que o Palmeiras havia mudado sua postura e que seria, a partir dali, muito mais agressivo e contundente.

Com os dois e os mais de 20 reforços no elenco, o clube voltou a ser competitivo e a disputar os títulos. Me lembro muito bem de assistir aos jogos de 2015 e ter a clara impressão de que o Palmeiras competiria de igual para igual em qualquer jogo e contra qualquer adversário brasileiro, algo que há muito tempo não sentia.

Palmeiras campeão da Copa do Brasil 2015. Foto: Rafael Ribeiro/ CBF / Fotos Públicas

Então vieram os títulos. Copa do Brasil 2015, Campeonato Brasileiro 2016 e 2018 foram conquistados, com os dois tendo papel fundamental tanto no campo (Dudu foi destaque em todas as conquistas, com dois gols na final em 2015, sendo capitão da equipe em 2016 e melhor jogador do campeonato em 2018) como fora dele (Prass se lesionou em 2016, onde Jailson brilhou e era reserva de Weverton em 2018).

Apesar de outros jogadores terem tido destaque e grande importância durante esse período (Zé Roberto, Gabriel Jesus, Mina, Moisés, Jailson, Bruno Henrique, Weverton, Felipe Melo, Gustavo Gomez são alguns exemplos), Fernando Prass e Dudu eram os jogadores mais identificados com o torcedor e símbolos desse novo momento do clube.

Chegamos a 2020. Depois de uma temporada conturbada em 2019, sem conquistas, com eliminações traumáticas em Copa do Brasil e Copa Libertadores e troca de treinador no meio do ano, o presidente Mauricio Galiotte anuncia a mudança no comando da direção de futebol (algo já discutido nessa coluna no início do ano). Saía de cena Alexandre Mattos e seu perfil agressivo para a chegada de Anderson Barros, mais conhecido por ser discreto no mercado.

A diminuição de receitas no ano anterior, aliada aos gastos que não estavam inicialmente previstos e a mudança exigida pela Receita Federal na questão da contratação de diversos jogadores bancados pela Crefisa, a partir de então configurada como empréstimo e que do dia pra noite gerou uma dívida de mais de 150 milhões ao clube, resultou numa postura de diminuição de gastos.

Nesse cenário, diversos jogadores foram negociados ou liberados pelo clube. E um deles era Fernando Prass. Depois de 7 temporadas no Palmeiras, o clube decidiu pela não renovação de contrato do goleiro, então reserva de Weverton ao lado de Jailson. As justificativas eram a de que seria preciso liberar espaço na folha salarial, e a posição de goleiro já possuía dois outros nomes de peso, além de dar maior espaço para a base. Jailson, três anos mais novo, teve seu contrato ampliado por mais uma temporada.

Tempos depois, Alexandre Mattos, já como diretor do Atlético Mineiro, e Prass como goleiro do Ceará, deram entrevistas e versões contrastantes sobre a saída do ídolo, com Fernando afirmando que descobriu em conversa com Jailson que na renovação anterior já havia sido acordada a ampliação por mais um ano de contrato de seu colega.

Em entrevistas, Fernando Prass sempre declarou que não via a questão da idade e do salário como algo relevante para a decisão tomada. Afirmou que não era um dos maiores vencimentos do elenco e que seus índices físicos e técnicos estavam tão bons quantos anos atrás.

Fernando Prass na festa da premiação do Paulistão 2015. Foto: Rodrigo Corsi/ FPF / Fotos Públicas

Embora acredite que seja importante sim a renovação do elenco e um maior espaço aos jovens das categorias de base que se destacam a alguns anos em torneios nacionais e internacionais, pessoalmente fiquei bastante chateado com a forma que a saída de Prass ocorreu. Toda a trajetória desenhada por ele, suas conquistas coletivas e pessoais e principalmente a identificação que estabeleceu com os torcedores, me deixaram a impressão de que uma entrevista, com a entrega de um quadro com sua camisa e de uma placa não representam 1% do que Fernando Prass representou aos palmeirenses.

Caminhando um pouco mais no tempo chegamos à pandemia da Covid-19, a paralisação do futebol e de todas as outras atividades. Desde os primeiros dias da quarentena, o clube sempre declarou que faria todos os esforços possíveis para a manutenção do quadro de funcionários e do pagamento a todos. Entretanto, com a ampliação do período sem jogos e a consequente diminuição de receitas, foi necessário cortar uma porcentagem do salário dos atletas do grupo profissional (assim como a maioria dos demais clubes fizeram) para poder manter o pagamento aos funcionários, atletas da base e do elenco feminino do clube. Mesmo assim, o clube se viu com algumas dificuldades financeiras, e seu presidente tendo que arrumar formas de cumprir a promessa que havia feito em sua eleição, de que sairia do cargo com o clube sem dívidas.

Aliado a isso, surge a bomba de mais uma denúncia de agressão feita pela ex-esposa de Dudu, com diversas notícias sendo divulgadas pelos dois lados da história – a primeira havia sido em 2013, quando ainda eram casados. Quase que simultaneamente, num passe de mágica pra lá de suspeito, aparece uma oferta vindo do Qatar para a contratação do jogador. E após um mês de novela, com idas e vindas no negócio e durante a investigação policial da agressão, foi fechada a transferência por empréstimo de um ano ao clube catari, com a opção de compra em definitivo após esse período.

Dudu pediu para ir embora, de acordo com diversas reportagens que foram divulgadas. Segundo o jogador, a acusação de agressão não o deixaria se concentrar apenas no futebol, e a relação conturbada com sua ex-esposa, amplamente divulgada por canais de notícias desde a separação do casal em 2019, não dariam a paz que ele deseja encontrar do outro lado do Mundo. Nem uma renovação e valorização salarial, como foi feita em diversas outras ocasiões de ofertas a ele, o convenceriam a permanecer. Uma saída com certa cara de fuga.

Dudu em partida do Paulistão 20120. Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

E dessa forma o Palmeiras, mesmo ganhando um dinheiro importante neste período que estamos atravessando, perdeu seu principal jogador e referência no elenco. Dudu foi quem mais jogou, mais marcou gols e deu assistências no Allianz Parque. Destaque das conquistas recentes do clube. Passou de um jogador de pavio curto (chegou a empurrar um árbitro na final do Paulistão de 2015), emocionalmente instável e que reclamava demais dentro de campo para ídolo do palmeirense. E sua saída deixou um gosto amargo, assim como a de Prass.

Novas lideranças serão criadas. Alguns jogadores do elenco, como Weverton, Willian e até mesmo os garotos recém promovidos como Patrick de Paula, Gabriel Menino e Gabriel Veron podem ocupar o lugar de referência e destaque técnico da equipe. Isso é um processo natural. Entretanto, a saída dos dois maiores ídolos do palmeirense nos últimos anos deixaram uma sensação estranha no sentimento do torcedor, além da imagem do encerramento de um ciclo do clube.


Como citar

MONTELATTO, Leonardo Megeto. O fim de um ciclo. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 59, 2020.