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O fim do Ministério do Esporte: boa ou má notícia?

Cleber Dias

A eleição de Bolsonaro alarmou setores ligados aos esportes. O motivo das preocupações, porém, não estava nas suas filosofias políticas ou nas suas declarações polêmicas. Eram bem mais mundanas as razões do sobressalto.

Ainda durante o segundo turno das eleições, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro manifestou preocupações quanto ao futuro dos investimentos governamentais para o setor, que beneficiam grandemente instituições como o próprio Comitê Olímpico Brasileiro[1].

Confirmada a eleição de Bolsonaro, Leandro Cruz, atual Ministro do Esporte, queixou-se do fato de sua equipe não ter sido procurada pelo grupo responsável pela transição de governos. Segundo ele, a falta de interesse prenunciava a pouca importância política que o novo governo pretendia atribuir aos esportes[2].

Como reação, Leandro Cruz tentou justificar a importância de um ministério exclusivamente dedicado aos esportes em artigo na Folha de S. Paulo. Segundo dizia esse artigo, mais que bons resultados em competições internacionais, ações governamentais para o setor esportivo justificam-se pelas suas supostas capacidades de promover “inclusão social”. Nas palavras do ministro: “Somos um ministério que mostra resultados sociais. Todos sabemos dos benefícios do esporte na saúde, para geração de empregos e na prevenção à violência”[3].

Mas, afinal, faz sentido reivindicar a existência de um Ministério do Esporte? O Ministério do Esporte, de fato, tem “resultados sociais” para mostrar? Porque seria benéfico ou vantajoso para o país uma estrutura institucional desse tipo? Seria correto que os esportes podem prevenir a criminalidade, melhorar os índices de educação, gerar empregos e promover a “inclusão social”? Há algum fundamento objetivo para essas crenças? O que nos dizem as evidências disponíveis?

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Primeiro, esportes não oferecem oportunidades amplas e efetivas de emprego ou ascensão social. Em 2015, mais de 80% dos jogadores de futebol do Brasil – que é a modalidade com maiores oportunidades profissionais de trabalho e renda – ganhavam apenas até R$ 1.000 por mês, conforme dados oficiais da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Comparados com dados do Ministério do Trabalho, é um salário médio inferior ao de categorias profissionais como as de “garçom”, “ascensorista”, “ajudante de pedreiro”, “tratador de porcos” e “catador de material reciclável”. Além disso, a maioria dos contratos de trabalho no futebol é temporário, restrita ao primeiro semestre do ano, quando se realizam os campeonatos estaduais. Depois disso, cerca de 60% desses jogadores têm os contratos de trabalho rescindidos e estão oficialmente desempregados[4].

Um estudo da Fundação João Pinheiro, considerando um amplo universo de ocupações possíveis no setor esportivo, indicou rendimentos médios mensais ainda menores, entre R$ 487 e R$ 560 (em 2010). Segundo este estudo, cerca de 70% dos atletas auferem rendimentos abaixo do salário mínimo e necessitam de uma segunda ocupação. Além disso, conforme indica o estudo, as oportunidades de trabalho nessa área são limitadas, respondendo por menos de 0,5% das vagas de emprego formal no Brasil (a maioria em atividades de condicionamento físico, que em certa medida se diferenciam de esportes propriamente ditos). Não bastasse, entre 2007 e 2012, o desempenho do setor foi inferior ao da média dos demais setores econômicos do país[5].

Se emprego e salário parecerem boas estratégias para a “inclusão social”, os interessados nesse assunto talvez devam buscar outras alternativas que não os esportes. Por mais tocantes que sejam casos de atletas que obtiveram prosperidade por meio dos esportes, tratam-se de exceções que apenas confirmam a regra.

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Afora limitações na capacidade do setor esportivo oferecer empregos e assim oportunidades de ascensão social, boa parte dos investimentos governamentais nessa área não se destinam a propósitos de promoção da saúde, estímulo a participação esportiva ou mesmo a tal “inclusão social” – apesar desses tópicos serem frequentemente citados pelos que saem em defesa do envolvimento governamental com esportes, como fez o atual ministro Leandro Cruz e como fazem vários outros que se engajam nessa causa.

Há poucos meses, quando o governo de Michel Temer anunciou a criação de um Fundo Nacional para Segurança Pública, que seria em parte constituído por recursos antes destinados aos esportes, uma ampla coalização se mobilizou a fim de tentar reverter a decisão. Durante audiência na Comissão de Esporte da Câmara, o velejador Lars Grael, superintendente de relações institucionais do Comitê Brasileiro de Clubes, classificou a medida como um “equívoco histórico” e um “crime lesa pátria”[6]. O judoca Tiago Camilo, presidente da comissão de atletas do Comitê Olímpico Brasileiro, sugeriu que a diminuição de gastos no esporte comprometeria medidas de combate à violência[7]. Por meio de um vídeo na internet, o tenista Gustavo Kuerten também se manifestou, classificando a medida como “totalmente insensata”; um “ato de desespero e covardia”, ele disse[8]. O ex-jogador de futebol Raí, a ex-jogadora de basquete Magic Paula e Louise Bezerra, ligados à organização Atletas pelo Esporte, também criticaram a medida. Segundo argumentaram, a expectativa de diminuição de recursos do Ministério do Esporte era “um gol contra para as áreas que têm impacto na prevenção da criminalidade”. Segundo eles, “esporte e educação são parte da estratégia utilizada com êxito em diversos países para diminuir os índices de criminalidade”.[9] Até o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, associação científica que reúne estudiosos brasileiros dos esportes, publicou uma manifestação contra a medida, onde se destacava o esporte e o lazer como “direitos sociais inalienáveis”[10].

O então prefeito de São Paulo, João Doria, entregou cheque correspondente ao valor do seu salário líquido à Fundação Gol de Letra, representada pelo ex-jogador Raí. Foto: Heloísa Ballarini/SECOM-PMSP.

Nenhuma dessas declarações, contudo, parece ter levado suficientemente em conta a dureza terra-a-terra das políticas de esportes no Brasil, onde cerca de 70% dos recursos públicos gastos nessa área destinam-se ao alto rendimento[11]. Conforme disseram Felipe Sigollo e Pedro Trengrouse, respectivamente, atual secretário executivo adjunto do Ministério do Esporte e professor da Fundação Getúlio Vargas, “sob a ótica do alto rendimento, o Brasil, sem dúvida, está entre os países com maior investimento esportivo nos últimos anos. Foram R$ 8,3 bilhões nos estádios da Copa, R$ 7,2 bilhões nas arenas dos Jogos Olímpicos e, desde 2001, quase R$ 10 bilhões das loterias destinados ao Ministério do Esporte, Comitê Olímpico do Brasil, clubes de futebol, Comitê Paralímpico Brasileiro, Comitê Brasileiro de Clubes e Federação Nacional de Clubes / A soma corrigida de incentivos fiscais, Jogos Pan-Americanos, Mundiais Militares, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e Paralímpicos — com os valores destinados anualmente ao esporte olímpico pelas loterias e empresas estatais — passa de R$ 100 bilhões.”[12].

Por princípio, esportes de alto rendimento oferecem poucas oportunidades de participação, além de terem consequências nulas ou até negativas para a maioria da população. Não esqueçamos as violações de direitos humanos e as escassas evidências de legados positivos dos megaeventos recentemente realizados no Brasil[13]. A linguagem abstrata dos direitos sociais inalienáveis pode ser comovente, mas pode também ser enganosa e vazia de conteúdo político. Em palavras de ordem desse tipo, genéricas e pré-fabricadas, não há diagnósticos implícitos ou explícitos, nem tampouco o direcionamento para reivindicações ou propostas concretas. Tudo se resume a um palavrório velho e desgastado.

Não é um golpe do azar, portanto, que quase 59% de escolas de ensino fundamental do país não tenham quadras esportivas, conforme dados oficiais do Censo Escolar de 2017 (número que pode chegar a 71%, se considerarmos apenas escolas municipais, que reúnem 64% dos estabelecimentos de ensino fundamental do país)[14]. Como se vê, 15 anos de existência de um Ministério do Esporte fizeram muito pouco pela “inclusão social” de crianças e jovens das escolas públicas do país.

Em 2005, um relatório do Tribunal de Contas da União sobre o Programa Segundo Tempo, iniciativa do Ministério do Esporte que oferece oportunidades de práticas esportivas para crianças e jovens depois do turno escolar, já apontava para uma falta de representatividade desta ação, que atendia, na época, apenas 1% do total da população entre 7 e 17 anos[15].

Não foi falta de recursos, no entanto, o que impôs essa estreiteza de horizontes e essa tibieza de resultados. Foi falta de prioridade política pura e simplesmente. Ou melhor, foi o predomínio de outras prioridades políticas.

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Na mesma época em que ações do Ministério do Esporte voltadas ao esporte educacional atendiam um número reduzidíssimo de crianças e jovens, o Brasil se preparava para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007, que apenas iniciaram a abertura dos cofres públicos para a família olímpica. Pouco depois viriam ainda os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo. Nenhum desses esforços, porém, que demandaram altos investimentos, como se sabe, não parecem ter melhorado ou ampliado as condições de prática esportiva das escolas brasileiras, como o provam as atuais situações da maioria desses estabelecimentos de ensino.

Alunos aprendendo jiu-jítsu no Centro de Ensino Fundamental 15, Gama, Distrito Federal. Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília.

Dentre as poucas e pobres ações governamentais voltadas aos esportes educacionais, as evidências capazes de sustentar que tais investimentos são benéficos ou eficientes são também bastante controversas. Crianças que praticam esportes têm vantagens educacionais decorrentes deste envolvimento? Projetos com esportes podem, de fato, prevenir a criminalidade?

A literatura especializada nesses assuntos é extensa e inconclusa. Pesquisas sobre os efeitos de esportes sobre a educação, de maneira geral, realizadas em diferentes lugares e a partir de diversos métodos, frequentemente indicam resultados conflitantes[16]. Em meio a achados tão controvertidos, nenhum estudioso sério se precipitaria em afirmar categoricamente que projetos esportivos podem cumprir promessas de desenvolvimento, prevenção ao crime, combate a delinquência juvenil ou “inclusão social”, independente das circunstâncias gerais que os envolvem. Ao contrário, existem mesmo sérias objeções acadêmicas à ideia de que o esporte ou políticas públicas nesse setor podem afetar condições gerais de vida e cidadania.

Na verdade, vários pesquisadores que estudam o assunto se referem à suposição de que os esportes podem agenciar transformações sociais como algo “problemático”, “sem muito efeito” ou tão somente como “ideologias carentes de evidências”. Andrew Guest, por exemplo, professor da Universidade de Portland, nos Estados Unidos, ao realizar uma pesquisa de campo em meio a um projeto de esportes para residentes de um campo de refugiados na África, concluiu que a iniciativa simplesmente não era capaz de promover os objetivos que prometia. Conforme suas duras palavras, “suspeito que o esporte não pode ser uma parte útil do desenvolvimento […] Esportes não desenvolvem diretamente ninguém ou qualquer comunidade”[17].

Alguns outros vão além, afirmando não apenas que os esportes, na maioria das vezes, de fato, não são capazes de promover a tão almejada “inclusão social”, como dizem ainda que políticas públicas concentradas em oferecer esportes para comunidades pobres podem até mesmo atrapalhar o desenvolvimento social. Conforme famosas palavras de Jay Coakley, professor da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, ao direcionar recursos públicos geralmente escassos para tais projetos, essas iniciativas, apesar de bem-intencionadas, podem às vezes camuflar e até fazer esquecer os verdadeiros problemas que afligem essas comunidades[18]. Nesse sentido, tais projetos desviam a atenção dos problemas fundamentais e acabam por dificultar a orquestração de esforços com maior potencial de realmente mitigar a pobreza e promover o desenvolvimento.

Frequentemente, projetos de esportes voltados para residentes de bairros pobres limitam-se a oferecer escusas para políticos dissimularem que estão fazendo algo de útil e importante em favor desses grupos, quando na verdade estão fazendo muito pouco ou quase nada; ou então para que gestores de organizações não governamentais garantam recursos financeiros para suas próprias instituições, quando não para os seus próprios bolsos. Em todos os casos, é a indústria do problema social em plena ação.

O principal problema dos pobres é sempre a pobreza, e não a falta de oportunidades de praticar esportes. Quando o ministro do esporte afirma que “todos sabemos dos benefícios do esporte”, ele talvez precise então especificar melhor o sujeito da oração. Todos, quem?

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Fred Coalter, professor da Escola de Esportes da Universidade de Stirling, na Escócia, e uma das principais autoridades internacionais em estudos sobre políticas de esporte, dono de uma volumosa e reputada obra sobre o assunto, há anos vem chamando atenção para a sistemática falta de evidências que marca o pensamento e a prática política da atuação governamental com relação aos esportes. Segundo suas conclusões, não é a participação em esportes o que contribui para a “inclusão social”, mas sim a “inclusão social” o que permite a participação em esportes[19].

Rigorosamente no mesmo sentido, Anthony Veal, professor da Universidade Tecnológica de Sydney, na Austrália, concluiu, a partir de um amplo estudo de quase 30 países europeus, que a desigualdade de renda é o fator fundamental a facilitar ou dificultar a participação em práticas esportivas. Desse modo, ele afirma, políticas públicas dedicadas especificamente aos esportes teriam pouca ou nenhuma capacidade de alterar os índices de participação esportiva, mesmo quando fossem estes os objetivos dessas políticas (o que de todo modo nunca foi o caso do Ministério do Esporte no Brasil, que sempre privilegiou os esportes de alto rendimento, como destacamos). Segundo palavras do pesquisador australiano, “se a causa fundamental dos problemas sociais é a desigualdade estrutural na sociedade, políticas focadas diretamente sobre o problema da desigualdade na participação esportiva dificilmente serão bem-sucedidas”[20].

Situações bem documentadas em que esportes parecem ter contribuído, ou de alguma forma tomado parte em iniciativas bem-sucedidas com propósitos de desenvolvimento social existem, mas não são tantas quanto os defensores mais entusiastas do envolvimento governamental com esportes fazem parecer. “Desenvolvimento”, “cidadania” ou “inclusão social”, além de conceitos cheios de ambiguidades, não contam com fórmulas pré-estabelecidas para a sua realização, de modo que alcançá-los é um empreendimento difícil e incerto.

Nesses casos, o que pesquisadores examinam não é se esportes podem ou não oferecer oportunidades nesse sentido – o que é sempre relativo e dependente de uma grande variedade de condições, às vezes inteiramente circunstanciais. O que se examina são justamente as condições que parecem facilitar ou dificultar a realização de objetivos dessa natureza. Ninguém sabe ao certo que condições são essas. Se soubessem, haveria então uma fórmula pronta para ser seguida e seríamos todos felizes para sempre.

No entanto, embora não ofereçam receitas, o acúmulo de pesquisas sobre o assunto já sugere insights e aponta caminhos. De projetos para a prática de esportes entre meninas na Índia até jogos de basquete em bairros com altos índices de criminalidade nos Estados Unidos, passando pela oferta de esportes para jovens com suas famílias na Islândia, um elemento frequentemente presente é a profunda articulação dessas iniciativas com outros projetos e instituições movidos por finalidades muito mais amplas do que a prática de esportes em si mesmo[21].

Profunda articulação com outros projetos e instituições movidos por finalidades muito mais amplas, bem entendido, não equivale a discursos bonitos, mas vazios, de que o propósito deste ou daquele projeto de esportes é o de formar cidadãos e não atletas, o que muitas vezes está limitado ao plano meramente retórico. Projetos de esportes que acontecem na escola ou que dizem ter finalidades educativas, mas que não têm relação com currículos, com professores ou com projetos pedagógicos das escolas, na prática não guardam nenhuma articulação nem com as escolas, nem tampouco com projetos educacionais de maneira mais ampla. Com efeito, é precisamente desta maneira desarticulada das escolas e de seus projetos pedagógicos que funciona o Programa Segundo Tempo – aquela iniciativa do Ministério do Esporte que oferece oportunidades para uma parcela reduzidíssima da população em idade escolar.

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Ao que tudo indica, portanto, nas situações em que há indícios empíricos de que os esportes parecem ter desempenhado algum efeito positivo e significativo sobre projetos de desenvolvimento social, o esporte aparece como uma espécie de pretexto ou “ponto de partida” para mobilizar e motivar indivíduos a se engajarem em certas ações – que podem ser de combate ao crime, de orientação sexual, de reforço escolar, de capacitação para o trabalho ou de desincentivo ao consumo de álcool entre jovens, entre várias outras possibilidades[22]. Assim, quanto mais integrado com outros projetos e instituições voltadas à “inclusão social” ou à prevenção da criminalidade, melhor; enquanto mais isolado dessa rede de ação, pior.

Nesse contexto, a ideia de subordinar políticas de esporte a políticas educacionais, vinculando o Ministério do Esporte ao Ministério da Educação, parece não apenas boa, como talvez seja a mais lógica e sensata medida a ser tomada nesse quesito. Tal decisão, de fato, pode representar uma derrota para os atletas de alto nível, para os gestores de organizações não governamentais que manejam iniciativas ligadas aos esportes ou ainda para os dirigentes de federações e confederações esportivas, que apesar de serem entidades privadas e oferecerem benefícios limitadíssimos ao conjunto da população, se é que oferecem algum, têm historicamente sido os principais beneficiários das políticas e investimentos públicos em esportes no Brasil. Como bem demonstrou certa vez João Malaia, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, desde que o Estado brasileiro se envolveu sistematicamente com o apoio e o financiamento de práticas esportivas, ainda nos meados da década de 1920, subsídios para atletas participarem em competições internacionais e para a organização de grandes eventos esportivos têm sido a tônica dessas políticas[23].

Grosso modo, políticas de esporte no Brasil têm sido apenas uma forma sutil e mais ou menos hipócrita de garantir acesso de grupos privilegiados às chaves que guardam os recursos dos cofres do Tesouro. Muitos dos que criticam e se mobilizam contra a extinção do Ministério do Esporte fazem-no, é certo, por boa fé; movidos que estão por uma ideologia obtusa, mas bem-intencionada, como o são quase todas as ideologias. Outros, porém, menos inocentes, fazem-no apenas por receio de que a diluição institucional das ações governamentais dessa área lhes prive do acesso direto ao balcão de negócios que a porta da sala dos Ministros de Estado pode franquear com mais facilidades.

A defesa do esporte ou de uma decidida ação do Estado nessa área, porém, não deve se confundir com a defesa dos interesses de atletas de elite. Tampouco deve se confundir com os interesses de grandes federações e confederações esportivas. Também não deve se limitar a reproduzir uma ideologia ingênua e mal informada, que atribui superpoderes de transformação social aos esportes. Tudo isso são apenas fantasias irrealistas ou lobbies corporativos (chamados também rent-seeking, isto é, tentativas de obter vantagens econômicas por meio da influência política). Talvez já tenha passado da hora das vozes críticas que pensam o esporte se erguerem contra esse estado de coisas, a fim de se empenharem mais decididamente em separar o bebê da água suja da bacia.

Conforme revelaram os dados do Diagnóstico Nacional do Esporte, a maior parte dos praticantes de esportes no Brasil (70%) não têm vínculos com instituições esportivas (clubes, ligas ou federações)[24]. O caráter informal e institucionalmente desorganizado desses esportistas amadores tende a privá-los de representação política nas instâncias decisórias do poder público. Afinal, não se veem em Brasília lobistas ou grupos de pressão organizados a defender os interesses difusos dos que praticam esporte por lazer. Em defesa desses grupos, não há manifestos, cartas públicas, vídeos no Youtube, discursos no Congresso ou artigos em jornais de grande circulação.

Em Porto Alegre, mais de 1000 ciclistas realizaram pedalada para chamar a atenção quanto à importância do uso da bicicleta.
Foto: Mônica Baldauf/Divulgação PMPA.

O fim do Ministério do Esporte como estrutura autônoma, em favor de ações integradas às políticas educacionais, afora garantir, ao menos formalmente, o cumprimento do preceito constitucional que determina privilégio do investimento estatal nesse setor ao esporte educacional, algo olimpicamente ignorado nos últimos anos, pode ser o prenúncio de uma pequena vitória para os milhões de estudantes das redes públicas de educação do Brasil, onde de fato se concentram os jovens e crianças pobres do país, quase sempre desprovidos de quaisquer apoios ou incentivos para a prática de esportes. Nada garante que será esse o caso. Oxalá, que assim seja!


[1] Marcelo Laguna. Haverá mobilização se próximo governo cortar verbas, diz presidente do COB. Folha de S. Paulo, 11 out. 2018.

[2] Diego Garcia, João Gabriel e Sérgio Rangel. Esporte não será prioridade em governo Bolsonaro, diz atual ministro. Folha de S. Paulo, 13 nov. 2018.

[3] Leandro Cruz. O esporte como prioridade. Folha de S. Paulo, 16 nov. 2018, p. A3.

[4] Rodrigo Capelo. A fábrica de ilusões do futebol. Época, 22 fev. 2016.

[5] Fundação João Pinheiro. Cadeia produtiva do esporte de alto rendimento em Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 2013.

[6] https://www.youtube.com/watch?v=PbSZ9ZtjEF8.

[7] Marcelo Laguna. Entidades do esporte se unem para evitar perda de R$ 300 milhões. Folha de S. Paulo, 12. jun. 2018.

[8] https://www.youtube.com/watch?v=vaxZG_PPXak.

[9] Raí, Magic Paula e Louise Bezerra. Um novo 7 a 1 no esporte brasileiro. Folha de S. Paulo, São Paulo, 1 jul. 2018, p. A3.

[10]http://www.cbce.org.br/upload/biblioteca/Manifesta%C3%A7%C3%A3o_CBCE_MP_841.pdf

[11] Marcelo Resende Teixeira e colaboradores. Esporte, fundo público e pequena política: os reveses de um orçamento (r)emendado. Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 2, p. 593-606, abr./jun. de 2018; Fernando Mascarenhas. O orçamento do esporte: aspectos da atuação estatal de FHC à Dilma. Revista Brasileira Educação Física e Esporte, v. 30, n.4, p. 963-980, out./dez. 2016.

[12] Felipe Sigollo e Pedro Trengrouse. Investimento inteligente no esporte. Folha de S. Paulo, 26 jun. 2018, p. A3.

[13] Andrew Jennings e colaboradores. Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas? São Paulo: Boitempo, 2014; Dave Zirin. O Brasil dança com o diabo: Copa do Mundo, Olimpíadas e a luta pela democracia. São Paulo: Lazuli, 2014, especialmente cap. 7; Flávio de Campos. O lulismo em campo: aspectos da relação entre esportes e política no Brasil. In: Gilberto Maringoni e Juliano Medeiros (organizadores). Cinco mil dias: o Brasil na era do lulismo. São Paulo: Boitempo / Fundação Lauro Campos, 2017, p. 241-247. Uma visão mais panorâmica sobre o assunto encontra-se em John Horne. The Four ‘Knowns’ of Sports Mega‐Events. Leisure Studies, v. 26, n. 1, p. 81-96, 2007.

[14] Brasil. Censo Escolar 2017: notas estatísticas. Brasília / Rio de Janeiro: Ministério da Educação / Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2018, p. 6.

[15] Tribunal de Contas da União. Relatório de Avaliação do Programa Segundo Tempo. Brasília: Tribunal de Contas da União, 2006, p. 20 e 84.

[16] Dois exemplos: Richard Bailey. Physical education and Sport in Schools: a Review of Benefits and Outcomes. Journal of School Health, vol. 76, p. 397-401, 2006; H. David Hunt. The effect of extracurricular activities in the educational process: influence on academic outcomes? Sociological Spectrum, v. 25, issue 4, 2005.

[17] Andrew M. Guest. The diffusion of development-through-sport: analysing the history and practice of the Olympic Movement’s grassroots outreach to Africa. Sport in Society, v. 12, n. 10, Dec. 2009, p. 1.346 e 1.348.

[18] Jay Coakley. Using sports to control deviance and violence among youths: Let’s be critical and cautious. In: Margaret Gatz, Michael A. Messner & Sandra J. Ball-Rokeach (Editors). Paradoxes of Youth and Sport. Albany: SUNY Press, 2002, p. 13-30.

[19] Anthony J. Veal. Leisure, income inequality and the Veblen effect: cross-national analysis of leisure time and sport and cultural activity. Leisure Studies, v. 35, issue 2, 2016, p. 226.

[20] Uma síntese recente das observações deste autor sobre o assunto pode ser encontrada em Fred Colter. Sport for Development: What game are we playing? New York: Routledge, 2013.

[21] Tess Kay. Developing through sport: evidencing sport impacts on young people. Sport in Society, v. 12, issue 9, p. 1.177-1.191, 2009; Inga Dóra Sigfúsdóttir e colaboradores. Substance use prevention for adolescents: the Icelandic Model. Health Promotion International, v. 24, Issue 1, p. 16–25, 2009; Douglas Hartmann e Brooks Depro. Notes on Midnight Basketball and the Cultural Politics of Recreation, Race, and At-Risk Urban Youth. Journal of Sport and Social Issues, v. 25, n. 4, p. 339-371, 2001.

[22] Geoff Nichols e Iain Crow. Measuring the Impact of Crime Reduction Interventions Involving Sports Activities forYoung People. Howard Journal, v. 43, n. 3, p. 227-236, 2004; Douglas Hartmann. Theorizing Sport as Social Intervention: A View From the Grassroots. Quest, v. 55, n. 2, p. 118-140, 2003.

[23] João Manuel Casquinha Malaia Santos. Brazil: An Emerging Power Establishing Itself in the World of International Sports Mega-Events. The International Journal of the History of Sport, v. 31, Issue 10, p. 1312-1327, 2014.

[24] Brasil. Diesporte, caderno 2: o perfil do sujeito praticante ou não de esportes e atividades físicas da população brasileira. Brasília: Ministério do Esporte, 2016, p. 40.

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Para o artigo completo em PDF: O fim do Ministério do Esporte – boa ou má notícia [pdf].