05.7

O fim dos erros de arbitragem no futebol?

Maurício Rodrigues Pinto

Os clássicos entre São Paulo e Palmeiras no atual Campeonato Paulista renderam muitas discussões. Deixando de lado os gases de pimenta, dentro das quatro linhas a polêmica maior ficou em torno de lances que teriam passado despercebidos pelos olhos dos juízes e assistentes.

Dois lances, em especial, foram amplamente reprisados e discutidos em mesas-redondas e programas esportivos. O primeiro lance foi a cotovelada do atacante palmeirense Kleber no zagueiro são-paulino André Dias no jogo disputado ainda na primeira fase do campeonato. O segundo, o gol de mão feito pelo atacante tricolor Adriano, no primeiro jogo das semifinais do Paulistão.

Em ambos os lances – cuja conclusão só foi possível após a exibição de replays que mostravam as jogadas em diferentes ângulos – os árbitros foram execrados e reacendeu-se na imprensa a discussão sobre o uso das imagens para solucionar lances duvidosos e punir agressões não vistas pelos árbitros no transcorrer dos jogos.

Sempre que o assunto é colocado em debate, duas frentes principais se formam: uma, vista como mais tradicional, que se posiciona radicalmente contra o emprego de tal tecnologia interferindo nas decisões de dentro de campo. Para essa parte da crônica esportiva, o uso de imagens tiraria a graça do jogo, acabaria com a polêmica que rende a discussão do dia seguinte à rodada e, também, porque o uso de imagens iria contra o princípio do futebol ser um esporte praticado da mesma forma e sob as mesmas regras em todo o mundo, seja na poderosa e globalizada Premier League inglesa, seja no campeonato disputado no Afeganistão. Tal princípio conferiria ao futebol um caráter mais “democrático”, distinguindo-o da grande maioria dos esportes e explicando parte de sua enorme popularidade em todo o mundo.

A outra corrente é a que defende o uso de imagens e a introdução de novas tecnologias visando reduzir o erro de arbitragem no futebol. Os seus defensores argumentam pela redução das injustiças causadas por decisões equivocadas de árbitros. Alegam, também, que tal medida conferiria maior transparência ao jogo e diminuiria a enorme pressão sobre um indivíduo que só dispõe de sua própria visão para acompanhar a dinâmica do jogo, e é contraposto a dezenas de câmeras posicionadas em diferentes partes do campo. Usam exemplos de esportes que adotam esse recurso, como, por exemplo, o tênis e o futebol americano, que permitem a jogadores e treinadores “desafiar” a decisão do(s) juíz(es). Caso a imagem comprove que houve erro do juiz, a decisão anterior será revertida em benefício daquele que fez o desafio.

É preciso que se esclareça que tal mentalidade está inserida a um processo crescente de mercantilização do esporte. O futebol, hoje, além de esporte é um negócio que movimenta astronômicas somas de dinheiro. Em uma lógica em que se valoriza a maior competência – que está, muitas vezes, proporcionalmente relacionada ao aporte de investimentos – as derrotas, muito mais do que causadoras de frustração a torcedores, representam prejuízos financeiros a clubes e até mesmo a atletas.

Por isso, é compreensível que ganhe força o discurso que defende o uso de imagens e outros recursos eletrônicos como forma de se controlar o julgamento do árbitro que é baseado em uma impressão de momento.

“As novas tecnologias anulam a confiança na verificação pessoal dos factos. Não é a visão directa do jogo de futebol que dá a ilusão de verdade, mas a sua re-visão na televisão ao retardador. A técnica de representação produz objectos que são mais reais do que o real, mais verdade do que a verdade. Mudam deste modo as conotações de certeza” (Omar Calabrese, citado in Marques, 2003: 135)

Em suma, a subjetividade própria do julgamento do árbitro seria superada pela objetividade das imagens captadas pelas câmeras. Da crença de uma objetividade supostamente isenta de influências externas, residem alguns problemas. Muitas vezes, conforme ilustra Victor Andrade de Melo, o resultado pode ser o contrário do que se almejava:

“… os recursos de captação de imagens foram introduzidos nas pelejas esportivas, sem que necessariamente tivessem eliminado todos os problemas, pois logo se percebeu que o ângulo de captação (os quais poderíamos denominar de planos, se quisermos utilizar a linguagem cinematográfica) podem ser mais subjetivos do que apressadamente pode-se imaginar” (Melo, 2006: 59)

Um exemplo de como a interpretação de lances por meio de imagens (sim, interpretação é a palavra mais adequada) pode ser falha, ocorreu na Copa de 1998, na França, no jogo Brasil e Noruega. O gol que decretou a vitória norueguesa saiu de uma penalidade cometida pelo estabanado zagueiro Júnior Baiano em cima do atacante gigantão Tore André Flo. As imagens fornecidas pela transmissão oficial fizeram com que jornalistas e público concluíssem que o pênalti havia sido cavado pelo norueguês. Porém, no dia seguinte, era veiculada uma imagem exclusiva de uma televisão escandinava, captada por trás do gol, que mostrava Junior Baiano segurando Flo e cometendo a falta dentro da área. Isso sem contar as inúmeras vezes em que comentaristas divergem ao analisar um mesmo lance.

Logo, é praticamente impossível fugir da subjetividade ao se adotar o recurso das câmeras, pois desde o posicionamento das câmeras até a seleção das imagens que vão ao ar, há uma série de influências e escolhas humanas.

Outra conseqüência do que se pode considerar uma dependência das imagens e do replay, está no modo em que ela tem interferido no comportamento do torcedor que acompanha o jogo e uma redução de sua função ativa no espetáculo-futebol.

“… se antes o torcedor somente dependia dele mesmo para tomar posicionamentos diante do que estava sendo assistido, a atual utilização de imagens nos espetáculos esportivos acaba por, de alguma forma, retirar um pouco de seu papel definidor, diminuir um pouco o seu papel ativo.
(…) Isto é, no decorrer do tempo uma relação que sempre foi muito erótica vai se tornando cada vez mais pornográfica pela predominância de recursos de imagem que explicitam cada centímetro e cada instante das atividades esportivas” (Andrade, 2006: 61-62)

Com a superexposição de imagens, a ação do torcedor vem sendo cada vez mais induzida pela “verdade” revelada pelo replay. E, certamente, tal indução só viria a aumentar caso a tecnologia venha a ser utilizada para solucionar lances duvidosos e polêmicos.

A discussão é longa e, certamente, há inúmeros outros aspectos a se considerar, no que se refere aos argumentos do lado que se coloca a favor do uso de imagens quanto da corrente que resiste a interferência da tecnologia. Também é preciso uma melhor avaliação sobre as conseqüências que tal mudança poderiam provocar no jogo do futebol e em tudo que o envolve.

É possível que num futuro não muito distante, em meio a uma decisão de um grande campeonato, o juiz interrompa o jogo para, junto de seus assistentes, decidir com base em imagens de vários ângulos se um gol marcado no último minuto foi legal ou não. Enquanto isso um aflito público, seja no estádio por meio de um telão ou em casa vendo o jogo pela televisão, acompanha, paralisado, o replay da jogada para, enfim, comemorar ou chorar pelo resultado final da partida. Não há como negar que seria um desfecho carregado de emoção.

Porém, prefiro concluir esse artigo, utilizando um trecho de uma crônica de Nelson Rodrigues, ferrenho opositor de uma pretensa visão objetiva e imparcial do futebol e, por extensão, das relações humanas:

“Sempre digo, nas minhas crônicas, que a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permitem, shakespeareana. O espetáculo deixa de se resolver em termos chatamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível” (Rodrigues, 2007: 71).

Bibliografia
MARQUES, José Carlos. O futebol em Nelson Rodrigues: O óbvio ululante, o Sobrenatural de Almeida e outros temas. São Paulo: Educ/Fapesp, 2003.
MELO, Victor Andrade de. Cinema & Esporte: Diálogos. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano/Faperj, 2006.
RODRIGUES, Nelson. O berro impresso das manchetes. Rio de Janeiro: Agir, 2007.